quinta-feira, 27 de abril de 2017

UMA PALAVRA QUE SE USA POUCO






Mansamente, é meigo de dizer. Doce e pacífico. E quase inaudível: mansamente.

Ninguém no seu juízo se incomoda que nos façamos anunciar nas suas vidas mansamente.

Assim devia constar nos manuais sobre conduta. Um perigo escrever manuais de conduta.

No início, na verdadeira e irrepetível primeira vez de tudo, fazê-lo de mansinho, que pode ser dócil, ou sereno, ou puro, ou só e bastamente de mansinho.

Se for assim, depois não haverá violência.


Será sempre bom assim. E amor.



quarta-feira, 26 de abril de 2017

SORTE







Afastam o sol dos ombros, como a caspa, incomodados, presumidos, porque tudo é fácil, ao pegar da mão.

Outros rangem no frio da sombra gélida, chafurdam na existência, não se aquecem convenientemente.

São as ditaduras do acaso.

A escolha é sempre injusta para quem é triste, ainda mais se for pela tirania das casualidades.

Reclamar é um esbracejar inútil, não dá calor nas articulações.


O tempo que se leva a recuperar da casa de partida, as vezes é nunca.

Os que apanham os adiantados, chegam cansados e ficam-se aí, esbofados, mal tocam com a ponta dos dedos nas costas dos que vão à frente, estatelam as fuças no lajedo escorregadio.




segunda-feira, 24 de abril de 2017

ABRIL EXPECTATIVAS MIL





Temos Abril, um mês a que devemos tirar o chapéu, velhos e novos.

Há uma lista de obrigações a cumprir e nem todos se lembram.

Aqui vai:

Receber condignamente a Primavera. Saudar as flores, os pássaros e a as abelhas, com entusiasmo. Ter fé que as condições melhorem para se ter um grande verão.

Responso:

Sejamos honestos, não temos cuidado dos meses passados como devíamos ter feito. Se as condições estão agora incertas e tremidas, a culpa foi nossa.

No início, quando o tempo abriu, era o espanto, tudo era novo, as pessoas andavam atarantadas. Depois foi o tempo do gozo, de uma liberdade nunca antes experimentada, sem impedimentos nem prisões.

Veio depois da festança o tempo para fazer, eram muitas as obras de renovação, trabalhos a pedirem maestria, o cabo deles, mas tinham que ser feitos. Alguns quiseram continuar em festa e descuraram. Outros abrandaram, acharam que tudo correria bem, só por si. Todos facilitaram.

Depois os que tiveram estas tarefas e responsabilidades em mão, tiveram filhos e como estes nasceram em liberdade e os pais - talvez menos bem - não lhes queriam privações de nenhuma espécie, atafulharam-nos com tudo. Era só pedir, nem isso: bastava pensar que se queria, e logo aparecia.

Os meninos foram assim criados, e crescidos já nem se lembraram mais do passado dos pais, muitos menos o dos avós, histórias longínquas, sensaboronas, a meterem censuras, perseguições, solitárias, castigos vários e muita pobreza, da carne mas sobretudo do espírito.

Abril desleixou-se e como os fenómenos atmosféricos também andam confundidos, deixou de ser o anúncio da primavera, uma estação que praticamente já não existe.

Uns, cada vez menos, os nostálgicos, comemoram este mês e saem à rua para cantar e oferecer flores. A maioria anda na sua vida, aproveita as folgas, faz as suas coisas, tratando dos seus interesses e não está para comemorações de memórias afastadas, a preto e branco com odores a bafio.


Agora é assim Abril, um mês como todos os outros, nem melhor nem pior. Tem trinta dias e geralmente dois feriados que dão muito jeito, um é religioso, o outro absolutamente laico, ainda assim ainda convivem e encaixam no mesmo mês. Melhor só mesmo Junho, o campeão das festas e das pontes, um mês como deve ser: de laréu, e gaitadas. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O BEIJO








O rigor matemático que se exige num beijo para se atingir os mesmos níveis de emoção de um míssil que alcança a estratosfera enquanto o diabo esfrega um olho, obriga a capacidades diferenciadas: ser bom aluno das matemáticas dos beijos bem dados e aguentar sem falência cardíaca fulminante o impacto do amor, comparado com a projecção a uma velocidade vertiginosa de um projéctil na direcção desembestada do fim do mundo, nome que alguns damos ao infinito do espaço sideral.

Reunidas as condições, um bom beijo é quase a melhor coisa do mundo.


Um beijo para ti, outro. 

Dá-me um tu.




quarta-feira, 19 de abril de 2017

GLADIADORES







Num relampejo, estaremos babosos e sôfregos a baixar os polegares, pedindo a morte dos gladiadores, em coliseus imensos com enormes ecrãs de plasma  espalhados por todos os ângulos, para vermos a morte com detalhe e conforto.


terça-feira, 18 de abril de 2017

DA MORTE






A morte é o lado negro da vida e seja como for quando for, é horrível e não a queríamos nunca se se pudesse não querer.

Mesmo construindo desculpas torneadas e rendilhadas e filosóficas, mesmo com folegos e promessas de imortalidade e paraísos esplêndidos, mesmo que se façam finas poesias com todas as métricas certas e depuradas elegias à morte, é tudo mentira, ou equívoco, ou inútil.

A banalização constante das imagens da morte enjoa, adoece, afrouxa, desliga da realidade.

Chega o momento que se passa para insensível. Ganhou-se imunidade pela repetição do feio.

Mas quando tocar ao nosso lado, a nós, nas redondezas dos que nos cercam, não vai ser insensível, vai ser atroz.

Nesse instante fere forte e fundo e feio, e mata, e acabou-se.

A morte é o acontecimento mais desinteressante e malcheiroso da vida, não há necessidade de nos entrar pelos olhos dentro para que nos lembremos dela, lembrança que dispensamos enviando cumprimentos e saudações e que se faça esquecida pelo maior número de dias que puder ser.

E não é vendo-a até a exaustão que mais sensíveis ficamos, é cuidando das vidas vivas, porque depois, depois é tudo vago e já não se dão beijos.







domingo, 16 de abril de 2017

PÁSCOA







Os meus votos de uma santa Páscoa vão para todos os homens, que se põem constantemente em bicos de pés e levantam os braços com as mãos bem abertas para o céu, não para querem imitar os deuses, mas para ampararem a queda de todos os que são projectados pelos vendavais e remoínhos da vida, coisa difícil de levar.