quinta-feira, 21 de setembro de 2017

ONTEM – FOLHETIM FINAL, OU QUASE.






E termina o dia.

Quando as nuvens não criam véus e tapam a luz do sol que se despede das gentes deste lado, seja em que mês do ano for, é eminente a possibilidade de ao pousar os olhares no céu, se assistir a um magnífico espectáculo com os cenários que vestem a escapada temporária do astro rei para o lado oposto do mundo. A queda do pano é muitas vezes tão deslumbrante como foi a actuação em palco. É um caso raro em que um adereço se configura em protagonista principal.

Mas há meses do ano, em que as cores do ocaso são diferentes, outras, difíceis de dizer em palavras, só vendo. Setembro e Outubro. São cores que nos impregnam com brilhos de uma certa nostalgia, estranha, não propriamente desconfortável – pelo contrário – um sentimento de leve tristeza feliz. O prenúncio dos tons escuros que se aproximam, a despedida da amarelenta, forte luz do Verão, nas melhores versões das iridescências, sentidas dessa forma nesse sentimento andrógino.

Termina o dia no pátio e quem estiver atento, criança ou adulto, pode ter esse derradeiro prazer, antes da noite inevitável tomar posse da parte do mundo que fica negra.

O tempo correu abstractamente a correr. O tempo que o homem inventou para se agarrar a um fio invisível , o seu corrimão para  conseguir seguir em frente, esvaiu-se em flagrante. Num instantâneo, tantas as coisas a acontecer, impossível um relatório de todas elas, só deus o poderá fazer na sua visão de tudo.

Neste dia passado, as crianças brincaram mil e uma brincadeiras, e vão para casa felizes ou ligeiramente amuadas, o que passa rápido. Ainda não lhes chegou o tempo de se inquinar esse estado de alma abstracto mas para elas absolutamente real, que faz de uma criança o que ela é: um ser feliz. Fala-se nele e generaliza-se, nem todas as crianças são felizes, mas num mundo ideal, e o pátio é o mundo ideal, todas são.

Nesta noite nem todas as crianças vão para casa, três, os mais velhos, todos rapazes, o peso do género ainda é pesado e bacoco, vão acampar no pátio.

A primeira noite de liberdade, que quer dizer a primeira noite em que eles vão ficar entregues à sua própria protecção, à sua decisão de escolha. Responsáveis das consequências, vão ter pela primeira vez o gosto, por vezes amargo, outras açucarado, de entenderem o fluxo ininterrupto de todas as acções da mão ou do pensamento, que geram uma consequência própria , uma dinâmica, uma cadeia imparável de outras acções e consequências num nunca mais acabar eterno.

Mas isso são pensamentos que eles ainda não têm. Agora têm alguma apreensão, talvez medo, mas estão naturalmente excitados com a ideia da realização de uma aventura que tanto sonharam, tantos planos fizeram, tanta mão de obra teve, na construção da tenda e dos sacos cama onde pensam que vão dormir.

Foi muito difícil obter autorização superior para essa aventura noturna. Mas a persistência é como a água, não se dá por ela constantemente a pingar, e passados séculos, quando se repara, furou a pedra em que pingava.

Os meninos, três são eles, fazem uma fogueira para aquecer a comida. Nas janelas das cozinhas há olhos que os olham, atentos a todas as possibilidades de a fogueira correr bem ou mal. Eles ajeitam-se porque já sabem fazer fogueiras. Vem à tona uma memória recente, as festas ao santo João, uma grande noite todos os anos, no mês de Julho, onde ainda se salta sobre o fogo. Já não se faz isso, era o mais bonito dessa comemoração. Era a única noite em que os pais e os mais velhos vinham juntar-se às crianças no pátio. Punha-se uma mesa de improviso com tábua corrida, e uma linda e colorida toalha enaltecia essa improvisação. Cada um recheava a mesa de pequenas iguarias e bebidas. E convivia-se, uma das actividades mais fundamentais de todas as pessoas que todos os dias se cruzam e partilham caminhos neste mundo. O convívio é das palavras e da cabeça, mas com a presença do físico. A sua ausência é outra coisa, tem outro nome, não é convívio.

Eles aquecem, num tripé de metal construído propositadamente para o efeito e eventualmente a glória efémera de uma única utilização, a panela com arroz branco e salsichas cortadas em pedaços. Seja qual for o resultado final, vai ser um prato que ficará marcado nas suas memórias. Também aqui há um rito de iniciação: pela primeira vez eles proveem a sua subsistência, alimentando-se pelos seus meios.

A noite está agradável de temperatura e nada bule. Eles murmuram entre si, não se sabe porque o fazem assim, fazem, sentados no chão à volta do fogo, alimentando-o com os pequenos paus juntos durante dias e dias de explorações às redondezas- a mata do Monsanto termina já tímida, perto das suas casas, mas termina ainda assim. Os últimos pinheiros que dão para as traseiras dos prédios da rua de cima, oferecem inúmeros saborosos pinhões que não custam nada a não ser parti-los com uma pequena pedra que se ajeita à mão e comer de imediato. Fica agarrada a resina das pinhas nos dedos, custa a sair, cola e despega com a pele agarrada a ela. O cheiro da resina vale pela dor da pele perdida. É um cheiro difícil de encontrar, onde anda ele?

Comeu-se bem e bebeu-se água fresca dos cantis de metal forrados a feltro grosso. Os cantis dos nossos soldados em África. Os cantis comprados nos armazéns de produtos militares na feira da ladra. Não há melhores cantis que estes.

Passou o tempo que neste caso desta noite em particular neste local preciso onde três rapazes acampam pela primeira vez, foi um tempo de nada, coisíssima quase impossível de contabilizar, na imensidão de tempo que passou e passará e é e será  a nossa mais bem conseguida abstração, o nosso remédio contra os males da desorientação solitária, que nos achacam de quando em vez.

O lume enfraquece, consome-se, os rapazes dá-lhes o sono, entram na sua tenda gruta, o teepee dos índios cherokee. Acendem as luzes das lanternas fraquejantes porque as pilhas vêm dos rádios com que ouvem baixinho debaixo dos lençois o “Oceano Pacífico”, num acto corajoso de rebeldia revolucionária.


Vai começar a verdadeira noite, Agora.


terça-feira, 19 de setembro de 2017

O PASSARINHO






Vi um passarinho morto,
Num beiral de um passeio.
Estava hirto, o passarinho,
Mas era verde, e algumas asas, poucas, amarelas.
Estava morto mas era bonito.
O que não é normal dizer quando se está morto.

Encontra-se de tudo nas ruas,
E os passarinhos são vistosos voando ou não,
Dependendo do apreço que temos pelo verde, as outras cores, e os sinais de vida verdadeira,
ou de morte obrigatória.



PRAGA URBANA







Algumas árvores nas cidades estão sinalizadas.
Algumas mas mesmo assim é pouco.
Temos que desconfiar.
Primeiro está a nossa segurança e a dos nossos.
Mesmo sinalizadas, causam estragos,
Beliscam a auto-estima dos autarcas e também matam pessoas.
Estão identificadas com uma cruz, mas quem o fez não as abateu por ser tíbio.
Devemos sempre desconfiar.
E denunciar. Porque ainda há árvores na cidade não sinalizadas.
Seria muito mais seguro se não houvesse árvores,
Mas os autarcas são frouxos e as pessoas têm um carácter débil e fraquejam.
Têm pena,
Até das inúteis das árvores

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O SONHADOR





Alfredo Manuel espera que o mundo não acabe hoje porque tem um sonho, dos que estão em falta, e quer realizá-lo. Em todo o caso, a acabar, nunca acabaria para todos ao mesmo tempo, e até pode calhar ser dos últimos: a acabar com o mundo.

Ele pertence aquele grupo talvez reduzido de pessoas, que dá vida aos sonhos: é um pragmático. 

Esse seu sonho não é ideológico, não é excêntrico, nem se aproxima vagamente de uma utopia. Não é um egoísmo ou uma derivação narcisista. É uma ideia simples, tão simples que se pode perguntar porque motivo ainda não o concretizou.

Pode ser que não seja assim tão simples e ele seja uma pessoa com boas intenções o que por vezes não basta.

Alfredo Manuel quer fabricar a uma escala de linha de montagem com produção diária de centos de milhões, o comprimido da felicidade: o maior dos mais inantigíveis bens em estado de fruição permanente.

Estão identificadas as hormonas do prazer e do bem-estar, sabem-se os assuntos que arreliam os homens, descritas e em manual todas as maldades e torturas, as tramas do amor e do desamor e de como se dá a volta a esses temas, as relações do poder, o dinheiro, as ambições desmedidas, todas as designações para a loucura nas gradações que vão da totalmente inofensiva, à maior das vilanias e o que nem se pode nomear.

A ciência conhece hoje moléculas que conjugadas dão poucos ou nenhuns efeitos secundários, e mesmo assim Alfredo Manuel, o pragmático, adia todos os dias a fabricação do nirvana na terra, a preço de comparticipação barato.

Tem medo de falhar, porque só tem uma oportunidade, e se falhar  nunca mais até ao último dos seus dias, poderá explicar a si próprio e aos filhos que não vão perdoar, porque razão lhe escapou das mãos a felicidade do mundo. 

Há sonhos que nem para os pragmáticos. Apesar da boa vontade, falta-lhes sempre qualquer pormenor, de tão simples, que não se está a ver.



terça-feira, 12 de setembro de 2017

O GINASTA MÍSTICO




Homem com umas consideráveis dezenas de anos. Uma cruz de madeira, pequena, com suficiência de ser visível relativamente longe, pende-lhe do peito.

No mesmo local, o homem portador da cruz ao peito, cirandando neste jardim público onde num dia recentemente passado , uma mulher jovem com aspecto disso, na hora do seu almoço e de outros que  ali estavam pelo mesmo motivo, foi apanhada supostamente a ler um livro - tinha-o aberto pousado castamente sobre o  regaço e ela parecia embrenhada nele.  Cena pouco comum que ficou notificada em instantâneo próprio de um mirone possivelmente inquinado nas apreciações que faz sobre os transeuntes - descomplicados eles, ele não -, com que se cruza.

Não há relação estabelecida entre os dois, só o local é o mesmo, e aparentemente acontecem fenómenos fora do comum neste nó da cidade, na realidade uma quase praceta com relvado e parque infantil, ambos em plano inclinado, a inclinar para quem desce no sentido da igreja da nossa Senhora de Fátima. O que  é simpático porque chega-se mais cedo e escolhem-se melhores lugares para a missa. Para quem prefere a praceta, torna-se relativamente incómodo. As crianças utentes do parque e os que se sentam na esplanada , ficam com os cristais desequilibrados.

O munícipe não identificado que originou este relambório exercita-se em movimentos de remo numa dessas máquinas de ginástica municipal,urbana, gratuita, e olha insistentemente para o céu. Cinquenta repetições, sempre de olhos postos nas alturas e um ar tão religiosamente sério, que se fica confundido: está a exercitar o corpo, ou aquilo é uma lengalenga  para fortalecer a concentração numa prece às alturas?

Não é casual, não pode ser, ninguém no seu juízo olha assim para o céu quando faz ginástica com o sentido de aumentar a tonicidade dos músculos.

O indivíduo em apreciação dá ares de um indivíduo místico ,velho, em exercícios de tonificação corporal,  mas nunca se viu nenhum que o faça descaradamente a desafiar o céu. Como a dizer, aqui estou, neste momento de fé, martirizando o corpo para chegar melhor a Ti.

Ele intervala os exercícios com momentos de repouso em que se senta num bordo que ali existe,ao lado das máquinas , mas continua concentrado, olhando desta vez intensamente para a calçada irregular do chão.

É o fim do dia, as pessoas estão cansadas dos seus fazeres e responsabilidades, umas querem chegar rapidamente a casa, outras refrescam-se na esplanada, é possível que esta não-história seja um delírio do mirone que também está exausto e só está ali, porque escrever este não-acontecimento fazia parte do seu o plano do dia, embora não tenha sido avisado, nunca é.

Vai agora para a máquina das flexões das pernas, e não restam dúvidas: o mirone não está maluco. O velho enquanto  se flecte, abre os braços com as palmas das mãos viradas ao alto e, desta vez  de olhos fechados, balbucia palavras que não se ouvem mas que se imaginam sair da boca pela vibração nervosa dos seus lábios. É sem dúvida uma oração, o homem está em sintonia com os Senhores do universo. 

Mente sã em corpo são.


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

INTERMITÊNCIAS DE UMA VIDA







É um local bem arranjado. Não é bem um jardim, pode vir a ser no futuro. Basta um quiosque com esplanada, bancos aleatoriamente colocados, talvez um pequeno parque infantil, e ganha a identidade de um parque urbano, nome dos boletins camarários por que são conhecidos os jardins, que também já foram parques públicos.

Na realidade, é um aproveitamento inteligente de um espaço aparentemente inútil. Explicando melhor, o que existe escondido dos olhos de quem passa - terra adentro - é um reservatório de água potável, que serve os habitantes da cidade. À superfície, anos e anos que se perdeu a conta de quantos, primeiro foi um parque de estacionamento de autocarros dos transportes públicos, depois um relvado aparado para receber bolas de golfe expelidas por utentes carregados de stress e das adrenalinas diárias de negócios de risco e de especulação - que não vingou nessa missão humanitária, por a obra ter sido embargada. Depois, foi um depósito de ervas várias e daninhas, descuidadas e esquecidas de que existiam: o espaço e elas que o habitavam.

Com a invasão turística e fazendo paredes meias com um centro comercial, aquilo não podia continuar assim, e relvou-se o espaço, plantaram-se algumas plantas e abriu-se a passeio público. Decisão sensata.

Funcionária exemplar. Não faltou um único dia em mais de vinte anos de serviço. Era para estar às nove horas, às nove horas estava. Não era preciso todos os dias  lembrar o serviço. Ligar o sistema de rega, limpar os dejectos eventuais dos cães de companhia. Eficácia completa. Todos gostavam dela, pessoa que não nasceu para dar nas vistas, passou mansamente ao lado de tudo, sem incomodar.

Parece que um avô – ou seria bisavô? – fez aquilo que quase todos fizeram num passado mais ou menos passado: veio de uma província longínqua sem nome, aterrou (forma de o dizer) na cidade, vindo ávido atrás da vida, que lhe fugia das mãos desde que nascido, a ele, e aos outros de uma aldeia suja e inominada, para esta história pelo menos.

Sendo miserável e sem conhecimentos nenhuns, nem de gente nem de conhecimentos propriamente ditos - do intelecto - depositou-se em Alfama, trabalhou eventualmente no que houvesse que houve, até que se estabeleceu como marçano. Depois dessa sorte foi o que se pode imaginar de desinteressante, até chegar a ser avô ou bisavô da Julieta, uma funcionária exemplar muitos anos depois.

Julieta viveu portanto desde que se lembra dessas ligações antigas da genética familiar, no bairro de Alfama. Conhecida de todos, a dar-se em vizinhança com todos. Participou nas marchas, mas não muitas: tinha perna curta, desfeava o ângulo descaído do andor, porque havendo poucos parceiros da sua altura (todos mais altos), destoava das harmonias do conjunto. Teve que desistir por indicação pouco diplomática do chefe da marcha, um indivíduo de sexualidade mal resolvida que se julgava artista.

Mesmo assim, nunca deixou de gritar na avenida pelos seus, nem deixou quando a isso foi chamada por imperativo patriótico, de mandar com um vaso de manjerico aos cornos da cabra do bairro do lado, quando tentavam impugnar as vitórias do mais belo dos belos dos bairros de Lisboa: Alfama a labiríntica.

Aparte ser exemplar e bairrista, teve uma vida totalmente anónima e só não se pode dizer que desinteressante, por receio de ao dizê-lo, vir-se um dia a sofrer um anátema que impeça a entrada no paraíso, que seria um inultrapassável aborrecimento, quando se anda uma vida inteira à espera da compensação eterna da eternidade.

Acontece que nada em vida é eterno, só depois da morte. Então, com o falecimento da mãe, entrevadinha desde que há memória, Julieta recebe uma proposta de actualização de renda que foi um argumento irrecusável, da sua parte, para depois de uma vida com camadas de gerações em cima, ser compelida a rumar numa carrinha de mudanças alugada à hora, para a excelência ambiental de novas paragens na periferia da cidade.

Julieta nunca pôs um pé seu fora do solo nacional. Julieta foi viver para África e não o sabia, só o descobriu no dia em que despertou num ambiente estranho de sons e cheiros e dizeres. Não gostou de África. Por nada em especial, não gostou. Sendo uma pessoa como já foi referido de índole anónima, não se queixou a ninguém, tentou adaptar-se a uma vida no estrangeiro, mas fraquejou, deprimiu, ganhou uma saudade tumoral dos instantâneos que tirou e guardou na memória do seu bairro, saída à força dos empurrões dos “bóbis” com rodinhas de uns camones, que de um dia para o outro, tomaram como suas as casas acanhadas que os especuladores lhes decoraram para sacar os euros que podiam.

Continuou, enquanto os comprimidos não lhe embotaram demasiado a visão periférica e a dos contornos das coisas, a trabalhar nessa espécie de quase jardim das delícias, mas foi-lhe crescendo uma malignidade a tomar conta do corpo e da alma, uma coisa insidiosa e sem tratamento conhecido, a doença da raiva absurda.

Sim, existe. Está entre uma entidade viral e uma mutação imunitária. Sem tratamento, fatal.

Julieta, que passava aos olhos de quem a visse por uma senhora perna-curta absolutamente normal, estava a ser consumida interiormente por uma doença de desfecho tristíssimo e muito lamentável.

 No dia 10 de Junho, ano anormalmente caloroso para a altura do ano, ainda por cima de seca extrema, começaram a morrer de morte misteriosa e súbita os habitantes da cidade de Lisboa. Começou, como todas as coisas que são assim, por haver notícias de mortes esparsas em sítios diversos. Mas rapidamente se alastrou o fenómeno em número e devastação.

Os políticos, levaram uma semana a culparem-se uns aos outros , só porque sim. A população não ligou por estar habituada, os jornais equilibraram as contas do mês.
Uma semana depois, já quase a esbater-se a novidade de morrerem todos os dias centenas de pessoas, alguém ,não se sabe quem, descobriu e vendeu a notícia da verdade a um jornal tabloide. A causa foi o envenenamento das águas da cidade.

Os políticos encontraram finalmente uma culpa com sentido e deixaram de se ofenderem entre si programaticamente. O terrorismo em abstracto explica qualquer dúvida. Tinha que um dia bater à nossa porta, apesar de abençoados pela Senhora.

Morreram muitas pessoas, mais as que consumiam água canalizada. Os turistas, que são normalmente indivíduos instáveis, fugiram com todos os pés que tinham, os restaurantes da Baixa a saldarem e eles nem assim, a aderirem à ideia de que Lisboa está classificada no top das cidades mais que tudo.


Tudo,todos a fugirem daqui. O aeroporto colapsou, já se antevia. há anos que se quis construir um mais arejado mas vieram logo dizer que havia luvas. abortou.

Depois de todos estes inesperados, Julieta voltou para o seu bairro agora quase desértico, mas já estava muito débil, carcomida ela mesma interiormente pela raiva.

Ainda trabalhou uns meses no jardim do reservatório e nada se soube, estava de cabeça perdida quando o fez.

Morreu anónima, e o turismo nunca mais foi o mesmo.




segunda-feira, 4 de setembro de 2017

PAUSA






Uma semana com expectativas,
quando o verão começa a preparar a bagagem,
em que tudo fica menos extremado,
e as condições gerais do mundo suavizam.

Um calor que agora se aceita melhor,
uma luz que já não encadeia, menos amarela, purificada de partículas suspensas que sujam o ar.
As brisas sem chegarem a ventos, refrescam os finais de dia.

Neste final de verão,
as bombas ainda não caíram, nem morreram inocentes.
Há palavras, poucas mas há, que ainda podem decidir tudo.

E tudo, por exemplo mais que suficiente, pode ser,
Que amanhã seja de novo um dia assim,
na paz do cair do pano no lusco-fusco,

a pensar nas coisas da vida que não gostaríamos ter de viver.