segunda-feira, 16 de outubro de 2017

PIANISTA






O pianista que toca piano no grande, alto, branco, frio, barulhento, hall do hotel, toca piano inutilmente.

Toca e mal se ouve, não se ouve. Passa gente constantemente, com pressa para entrar, ou sair, para um lado e outro, um qualquer, não interessa, muitos, apressados e faladores. A porta é giratória pelo que gira, estonteantemente. O tráfego nos elevadores é um piscar de luzes e portas a abrirem e fecharem. Acumulam-se malas, umas melhores.

Em condições normais o pianista não precisaria de tocar piano só para si. Teria audiência.

Toca, mas o automático movimento dos seus dedos mesmo que premindo teclas inexistentes no ar, em que local seja, seria suficiente para ele ouvir música, que lhe vem de dentro.

O homem que é pianista e tem um fato decente escuro e gravata formal, tudo isto inutilmente, está ali, porque o valor do gás, da electicidade,  da água cada vez mais proibitiva, não lhe dá tréguas.

Por esses motivos fortes, invisível aos olhos dos outros, toca uma belíssima sonata de Rachmaninoff, porque deve ser mesmo assim: uma música irada, também pungente, ácida, intrincada.

Estão todos surdos, não o vão ouvir. Apesar, ele toca-a para marcar a sua posição irredutível: de músico que toca piano num hall de hotel para pagar contas à vida.

Irá para casa mais aliviado por saber que pode voltar amanha a tocar para o nada, e receber por isso.

Uma vez por outra, alguém que espera eventualmente pelo parceiro para fazerem o check-out, sentado melancolicamente com as pernas cruzadas numa atitude corporal desprendida, entretêm-se a olhar para o músico e distingue naquele brua farrapos da música que ele toca. Envergonhadamente virá a esboçar um ensaio de palmas no final da actuação.  O músico sente-se agradecido o que é suficiente para o manter ali, sonhando acordado com os olhos cerrados, que está num imenso auditório que desfruta deliciadamente a execução das peças que ele toca.

É realmente um bom músico. Muitas pessoas é que já se esqueceram da necessidade fundamental que têm de escutar uma bela melodia. Muitas mesmo, porque têm grandes áreas do coração calcificado (órgão que filtra e amolece a música em fruição e sentimento) não têm nenhuma necessidade disso. São esses que vendo, não veem o homem que toca piano inutilmente.

Uma hora, todos os dias, em ponto. Depois, inala uma boa inspiração de ar puro, quando sai, e dá um espaçado passeio a pé, sem tempo contado até a sua casa. Vai pelo caminho observando e encaminhando para a memória, o alinhamento das músicas de amanhã.


Hoje a noite está mais fresca.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

DUAS DIMENSÕES DE UM SER









São as memórias que enturvam,
Sou eu.
Cataratas.
Fotografia estereoscópica,
Uma modernidade.
Coloco esses óculos e vejo duas dimensões,
de um antes que era só uma.
Mesmo assim estão distantes.
Fotografias de fantasmas.
É a solidão:
Ter uns óculos ridículos,
não dar conta de estar ridículo,
não colar nomes aos rostos
que passam nessas imagens.
Duas, sobrepostas, estereoscópicas.
Modernidade.

Velho, estereoscopicamente abatido.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

AINDA DA MULHER QUE LÊ UM LIVRO NO JARDIM






Afinal ama um homem, a mulher que lê livros sentada no jardim.

Está como se sabe imersa na leitura e por uma razão qualquer de uma espécie de radar seu, deu conta da aproximação - para outra não poderia ser - não espera ninguém, não o espera e por isso surpreende-se
.
Receptáculos um do outro, recebem-se abraçando-se de uma forma profunda, demorada, os corpos a usufruírem de estarem assim, pegados, unos. No tempo do abraço, ela manteve o livro com a página marcada.

Eram portanto três: dois amantes e um livro.

Por este exemplo se vê o valor imaterial de um livro, que ela não abandonou no momento em que abraçou o homem que afinal ama. Fica na sua atitude, a gerar créditos, não foi um mecanismo involuntário, foi uma ordem lúcida daquele, do seu, cérebro, que tem consideração pelos livros.

Sobre a forma e o estilo como eles se encontraram no jardim pode-se dizer que foi num prolongado abraço, de olhos fechados. O que pode não querer dizer nada, mas geralmente quando é assim, não engana. Um dos rostos, o do homem - o dela estava na posição oposta e não era visível - espargia uma grande quantidade de prazer, um prazer de um nível subtil, dois seres com evolução espiritual.

O dela supõe-se que dissesse o mesmo, com uma reduzida margem de erro porque não se vê. Passada a juventude dos dois, as rugas a dizerem isso, são bonitos na sua idade do meio da idade.

Abraçaram-se e de que maneira.

Ninguém reparou. Em caso de dúvida, pode-se recorrer à videovigilância.  Ninguém o fez porque isso não é relevante. Para se perceber a desatenção, atente-se que:

Alguém conversava distraidamente enquanto comia na pressa a escassa qualidade de uma refeição contra o tempo; uma rapariga interessante porque  na juventude de o ser, também de olhos fechados, a afagar o seu cão preto, não por ser cega mas a absorver o prazer do sol de outono, e as festas ao cão; um indivíduo estacionou impropriamente uma potente moto em cima do passeio de forma estridente, a fazer-se anunciar, nem a poluição desse acto agressivo o anunciará, mas ele está convencido do oposto apesar de toda a gente olhar enfartadamente para ele; os pombos estavam, estão, continuarão, ocupados a bicarem o que eles consideram como potencial comestível. Às vezes enganam-se na apreciação, mas não estão sozinhos.

Não se relata mais ninguém ou movimento que possa interessar ou dar informação adicional sobre o cenário.

Passa pelo pensamento, por passar sem consequências de maior, que este jardim tem a estranheza de ser frequentado por desatentos. O que está errado porque não há jardins só para esses.

A mulher que lê livros e o seu amante, desenlaçam e sentam-se, agora dois, no beiral do jardim. Poderia ser que iniciassem uma conversa, acção tida como  estimulante , afinal o desejo inevitável de duas pessoas quando se encontram, ao fim de uma breve ou longa separação. Mas não. Ela flectiu o braço em tensão há algum tempo e aproximou dos olhos defendidos com lentes progressivas, o livro suspenso, que voltou a ler e fez bem.

Ele, enrolou um cigarro, acendeu-o, inalou a primeira fumaça – a melhor de todas –, uma segunda já não tão boa mas ainda boa, e desleixou-se a olhar para a amada, perfeitamente satisfeito só com isso, tanto, tudo.

O mundo não mudou.

Algumas das pessoas que comem apressadamente nos jardins continuarão escassamente saudáveis, ou viverão ate aos noventa anos sem queixas; a rapariga segue um bom caminho: a continuar assim vai longe, um bronzeado que lhe dura todo o ano; os pombos, não há quem lhes dê indicações mais precisas sobre escolhas alimentares, e não se está a ver que deixem por eles de debicar tudo o que lhes aparece à frente.
.
As pessoas que se abraçam como estes dois e leem livros e fumam, compensando o mal que lhes faz com o olhar amante que estendem sobre os amados, são pessoas a quem não se presta atenção. Mas não faz mal, eles, os amantes, passam todo o seu tempo de amantes completamente desatentos do mundo exterior, só precisam um do outro para se insuflarem de vida, alento, anima.


E não há mais nada a dizer sobre este jardim.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

TÉDIO



Sentou-se no banco do jardim a ensair o discurso de domingo e os pássaros entediaram


terça-feira, 26 de setembro de 2017

BENTA, UMA TERRORISTA ACIDENTAL







Como é de imaginar, o gabinete do chefe das secretas, o chefe mesmo, a quem chamam de Director, é o ambiente mais asséptico que existe em todos os ambientes-gabinetes públicos, todos mesmo, incluindo os blocos operatórios e os laboratórios sofisticados.
Não é dos líquidos e dos pós, que esses também não se olha a despesa, é de ser um local onde não entra nem sai uma aragem que seja, muito menos uma palavra mal balbuciada, que escape aos trambolhões e venha a causar um tsunami seco.
Há gente própria, apropriada dizendo assim, com cursos para isso, cuja carreira profissional é monitorizarem a tempo inteiro a salubridade, higiene e estanquicidade do gabinete do senhor Director das coisas secretas.
Não se sabe se são felizes e realizados, cumprem essa função, vão para suas casas, têm ou não família, e hão de vociferar uma que outra vez em frente a um jogo de futebol.
Do Director é que nada se sabe. Não é visto em lado nenhum. Ouvido ainda menos. Nada. Diz-se que é ubíquo, mas não se vê. Também de Deus se diz isso e igualmente não se vê. Pode ser que havendo dois nessa condição já seja mais fácil de acreditar na ubiquidade, só vendo-os.
A história que traz hoje a falar nesta história de vida tão desinteressante, monástica, mas vácua, é a da Maria Benta – parece de propósito, o nome, mas não é.
Esta mulher ganha sete euros à hora, sem descontos para a Segurança Social. Se um dia chegar à reforma – não vai chegar – vai bater com as fuças na porta, não fosse parva e tivesse escolhido outra profissão. Foi um encarreirar de decisões lastimosas desde pequena, tudo ao lado, mas ela é feliz. Pelo menos serena, parece.
Maria Benta, como se verá não vai ser pensionista – serviçal até ao último dos suspiros, mal suspiro já falho de alento vital - mas vai ser uma heroína, coisa que ela não preferia, por não saber que gosto de boca é esse, e por que a reforma dá mais jeito para comprar as coxas de frango no supermercado.
Voltando ao gabinete. Quando o seu locatário está ausente, por serviço ou o que seja da vida dele, ultra-secreta, o silêncio é inaudível, bem como qualquer tipo de som, havendo aqui uma incompatibilidade, discordante o suficiente para ser alvo dos maiores arrasos críticos. Só lá entram os eleitos, e esses, uma meia dúzia.
A Secretária, cega, surda e muda, salvo seja. O chefe de gabinete, fidelíssimo, como um retrevier, o coordenador do departamento dos hackers, indiscritível tatuado na ponta do nariz mas com gravata verde às pintas, e a Maria Benta.
Veio cedo, mal acabada de criança, de uma aldeia de uma dessas serras monótonas que por aí há. A aldeia já não existe, ardeu toda e o seu conteúdo. Veio a servir para casa da mãe da esposa do senhor Director, a sogra portanto. Gente credibilíssima, educada em preceito, alinhada com os ditames da orientação política da nação. Dados a uma exaltação contida da fé. Era um nó górgio, vê-los em acto de prece, fosse no inicio das refeições, no final das mesmas, nas benzeduras à entrada ou saída de qualquer das divisões da casa, aos domingos, finalmente, na apoteose dos rituais exemplarmente executados e acompanhados nas missas celebradas por um pároco que acabou em bispo de Roma, onde a família, elas de mantilha, eles de traje de gala negro, foram a beijo de mão de Papa, só para se ver a importância deste aglomerado familiar com sobrenome. 
A rapariga cresceu neste ambiente e ao mesmo tempo foi-se-lhe minguando a vontade de qualquer espécie de contacto com qualquer espécime de ser complementar do seu género. Homens. Fez futuro naquela casta residência, entregou-se abrindo-se em toda de si, aquela vida de quase clausura.
Entretanto estas coisas não perdoam e a sogra faleceu, o recheio da casa foi redistribuído e a Maria calhou em herança ao Director, foi no enxoval.
Pouca foi a mudança, nenhuma. Acabaria aqui o relato se se continuasse a descrever estas minudências sem-sabor, mas acontece que a Maria é uma mulher que sem o saber – nem antes nem depois de que está prestes a acontecer na realidade – vai mudar o mundo. Quer dizer, não é todo, só esta parte apequenada do que chamamos o nosso mundo.
Quando os filhos do Director e da esposa deste, cresceram o suficiente para serem considerados adultos, e o Director voltou para casa depois de uma carreira exemplar como espião, resolveram dispensar os serviços internos da Benta. Com sessenta anos bem medidos, era tempo de ela dar ares de viva.
 Sendo uma família irrepreensível – e nisto os espiões são-no -, puseram-na de porteira no prédio da filha mais velha: Maria da Conceição. Cubículo acanhado e meio-obscuro, com um postigo, quase a única janela da casa, a dar para as entradas e saídas do prédio. Ela continuou a prestar serviços em casa dos senhores e para realizar mais algum capital, para equilibrar as suas contas, simples de fazer, arranjaram-lhe, por ajuste directíssimo, um lugar de higienizadora do gabinete do senhor Director, na sede das secretas. Ou seria melhor dizer secreta?
De repente, de um dia banal para outro absolutamente inesperado, esta mulher passa a conviver (em solitário mas ainda assim a conviver) num dos locais mais exclusivos do país, só reservado – se já se disse, e se sim nunca é demais repetir  - a uma quase mão cheia de eleitos.
Tendo em atenção o rigor com que estas coisas funcionam, assim se imagina, Maria Benta fazia as limpezas às segundas e sextas feiras, entre as seis horas e trinta minutos e as oito horas, impreterivelmente, e de manhã. Chegava à portaria, cumprimentava o guarda de serviço, passava ao lado daquela máquina que dizem tira fotografias aos interiores das pessoas e das coisas, e sendo da casa e sendo das limpezas, para quê formalismos desses, a obrigarem a ligar a máquina de propósito as seis horas e trinta minutos das segundas e das sextas?
O guarda dava-lhe uma fita de pendurar ao pescoço e lá ia ela, elevador acima, que por alguma razão, os gabinetes dos Directores ficam sempre no último piso.
A entrada no gabinete faz-se por introdução de um código alfanumérico seguido de reconhecimento plantar e de rosto. O código levou um mês a decorar, e pelo sim pelo não, trazia-o apontado num papel devidamente dobrado, guardado entre o seu o seio cheio e o aparador sintético do mesmo, que os espanhóis dizem sujetador, uma palavra muito mais plena de significado e de entendimento imediato. A nossa língua por vezes complica.
O serviço de Maria Benta obedecia a um protocolo mil e uma vezes testado, lá fora, no estrangeiro, e replicado cá dentro: não podia mudar nada de sítio, não tomar atenção a nenhum documento que na mais remota das possibilidades tivesse ficado aberto (simples para ela que era analfabeta), não decorar imagens que estivessem a passar no ecrã do computador naquele intervalo das limpezas, e na eventualidade remota de por azar dos azares, deixar cair uma caneta que fosse, permanecer queda e hirta acenando só com a mão direita num movimento de semi-rotação da mão, para aquele olhinho minúsculo quase escondido  na esquina superior direita da moldura da fotografia do senhor Director com o Senhor Presidente anterior da República. Moldura esta estrategicamente colocada numa prateleira com livros de certeza muito sérios dado o facto de estarem revestidos a couro de qualidade superior.
Ela sabia, pelo protocolo, que dentro desse olho minúsculo, alguém a observava, e que viria, em caso de acidente fortuito, em seu auxílio.
Graças a Deus - que é nessas alturas que mais se necessita da sua bênção - nunca precisou de acenar em movimento de semi-rotação da mão direita.
Até o dia. Até os santos claudicam.
Nada de especial aconteceu na véspera desse dia, na antevéspera, nos anteriores dias a essas datas até mais para trás que se procure. As suas rotinas foram as de sempre, nenhuma notícia inesperada beliscou a passividade búdica da senhora, neste caso eterna donzela, Maria Benta, de apelido esquecido e não chamado para o caso.
Foi numa sexta feira, que explicará algum cansaço visual do licenciado ao cuidado da observação electrónica do escritório do Boss. Como o país em apreço não tem eventos de maldade humana extrema, aparte uma seixadas na cabeça e algumas, poucas, mortes por envenenamento com DDT, em casos de traição amorosa, durante o fim-de-semana as secretas descomprimem. Não se está a ver quem nos queira fazer mal em vez de visitar os Clérigos, ou a Torre de Belém e de seguida degustar uma nata ou uma francesinha ( não se leve literalmente).
Maria Benta nesse dia esqueceu-se do código, e no reconhecimento facial complicou-se: a placa estava lassa e ela deixou-a em casa, no sítio habitual: mesa-de-cabeceira, copo de água. Não sendo a primeira vez, o incidente não desculpa nada. Com ou sem dentes Maria estava mais do que treinada a cumprir na perfeição os padrões de exigência da sua função. Ultrapassadas estas contrariedades porque o identificador computacional de tanto a ver acabou por reconhecer um rosto familiar, ela fez os trabalhos que tinha que fazer.
Nesse dia o computador estava ligado. Passavam imagens de uma bela paisagem, de verdes e acobreados, num lugar seguramente de muita vegetação. Via-se quem o pudesse por autorização superior fazer, uma vedação igualmente verde onde aqui e ali saltavam alegremente por lassidão da malha – assim parecia – coelhitos jovens.
Ela não viu nada disto porque estava proibida de o fazer. Se o tivesse feito teria visto que no rigoroso ponto geodésico que marca o centro do ecrã do computador do senhor Doutor, piscava insistentemente um quadrado com dizeres, emoldurado por um filete vermelho intenso, também piscante.
Não viu e não tinha que ver.
O que acabou por acontecer foi infinitamente pior do que as consequências. Pela primeira vez na sua vida, teve uma tontura tão enublada que lhe apagou o discernimento ocular durante um período de tempo, medido por ela como do tamanho de uma eternidade (pobre espírito, tão simples e a querer falar da eternidade!).
Nessa fragilidade que se apossou de um corpo guiado por uma cegueira temporária, deu com o cotovelo esquerdo (o pior porque era com o direito que ela orientava os afazeres da vida) no teclado do computador do senhor Director dos Serviços do “não digo nada a ninguém, só eu sei.”
Ouve um apagão. Entre o licenciado bocejante dar conta e entrar de rompante e a situação normalizar aconteceu um roubo de bichas e rastilhos que não aconteceu e ninguém sabe de nada do acontecimento em si.
 Maria, coitada da Maria Benta, iniciou naquele dia uma romaria interminável pelas Consultas Externas de um certo hospital público, vindo a terminar desmemoriada e desconhecedora daqueles rostos idiotas que lhe acenavam constantemente a mão em movimento de semi-círculo e mexiam os lábios emitindo sons que ela não reconhecia.


O Senhor Director desconfia-se que não é ubíquo.



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

CAUDILHOS CANOROS







Nesta coisa do dizer,
anunciando pensamentos que com a melhor das intenções,
consideramos a primeira vez de serem ditos,
e que por isso virá uma medalha de glória dos deuses
- coisa unicamente sua,
um visto dourado, que não caduca -
podíamos espantar-nos,
se com alguma humildade,
refreássemos a vontade de anunciar ao mundo,
as afinações de bardos que julgamos ser.

Sintonias, distonias, os agudos para um lado,
os gravíssimos para outro.
Versitos tão lindos a rimarem na perfeição.
Uma confusão que soa bem, nas ofuscações da vaidade.

A honestidade límpida do silêncio.
O diamante de sabedoria,
não há nada a dizer, quando não temos nada a dizer,


e não o vemos.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

ONTEM – FOLHETIM FINAL, OU QUASE.






E termina o dia.

Quando as nuvens não criam véus e tapam a luz do sol que se despede das gentes deste lado, seja em que mês do ano for, é eminente a possibilidade de ao pousar os olhares no céu, se assistir a um magnífico espectáculo com os cenários que vestem a escapada temporária do astro rei para o lado oposto do mundo. A queda do pano é muitas vezes tão deslumbrante como foi a actuação em palco. É um caso raro em que um adereço se configura em protagonista principal.

Mas há meses do ano, em que as cores do ocaso são diferentes, outras, difíceis de dizer em palavras, só vendo. Setembro e Outubro. São cores que nos impregnam com brilhos de uma certa nostalgia, estranha, não propriamente desconfortável – pelo contrário – um sentimento de leve tristeza feliz. O prenúncio dos tons escuros que se aproximam, a despedida da amarelenta, forte luz do Verão, nas melhores versões das iridescências, sentidas dessa forma nesse sentimento andrógino.

Termina o dia no pátio e quem estiver atento, criança ou adulto, pode ter esse derradeiro prazer, antes da noite inevitável tomar posse da parte do mundo que fica negra.

O tempo correu abstractamente a correr. O tempo que o homem inventou para se agarrar a um fio invisível , o seu corrimão para  conseguir seguir em frente, esvaiu-se em flagrante. Num instantâneo, tantas as coisas a acontecer, impossível um relatório de todas elas, só deus o poderá fazer na sua visão de tudo.

Neste dia passado, as crianças brincaram mil e uma brincadeiras, e vão para casa felizes ou ligeiramente amuadas, o que passa rápido. Ainda não lhes chegou o tempo de se inquinar esse estado de alma abstracto mas para elas absolutamente real, que faz de uma criança o que ela é: um ser feliz. Fala-se nele e generaliza-se, nem todas as crianças são felizes, mas num mundo ideal, e o pátio é o mundo ideal, todas são.

Nesta noite nem todas as crianças vão para casa, três, os mais velhos, todos rapazes, o peso do género ainda é pesado e bacoco, vão acampar no pátio.

A primeira noite de liberdade, que quer dizer a primeira noite em que eles vão ficar entregues à sua própria protecção, à sua decisão de escolha. Responsáveis das consequências, vão ter pela primeira vez o gosto, por vezes amargo, outras açucarado, de entenderem o fluxo ininterrupto de todas as acções da mão ou do pensamento, que geram uma consequência própria , uma dinâmica, uma cadeia imparável de outras acções e consequências num nunca mais acabar eterno.

Mas isso são pensamentos que eles ainda não têm. Agora têm alguma apreensão, talvez medo, mas estão naturalmente excitados com a ideia da realização de uma aventura que tanto sonharam, tantos planos fizeram, tanta mão de obra teve, na construção da tenda e dos sacos cama onde pensam que vão dormir.

Foi muito difícil obter autorização superior para essa aventura noturna. Mas a persistência é como a água, não se dá por ela constantemente a pingar, e passados séculos, quando se repara, furou a pedra em que pingava.

Os meninos, três são eles, fazem uma fogueira para aquecer a comida. Nas janelas das cozinhas há olhos que os olham, atentos a todas as possibilidades de a fogueira correr bem ou mal. Eles ajeitam-se porque já sabem fazer fogueiras. Vem à tona uma memória recente, as festas ao santo João, uma grande noite todos os anos, no mês de Julho, onde ainda se salta sobre o fogo. Já não se faz isso, era o mais bonito dessa comemoração. Era a única noite em que os pais e os mais velhos vinham juntar-se às crianças no pátio. Punha-se uma mesa de improviso com tábua corrida, e uma linda e colorida toalha enaltecia essa improvisação. Cada um recheava a mesa de pequenas iguarias e bebidas. E convivia-se, uma das actividades mais fundamentais de todas as pessoas que todos os dias se cruzam e partilham caminhos neste mundo. O convívio é das palavras e da cabeça, mas com a presença do físico. A sua ausência é outra coisa, tem outro nome, não é convívio.

Eles aquecem, num tripé de metal construído propositadamente para o efeito e eventualmente a glória efémera de uma única utilização, a panela com arroz branco e salsichas cortadas em pedaços. Seja qual for o resultado final, vai ser um prato que ficará marcado nas suas memórias. Também aqui há um rito de iniciação: pela primeira vez eles proveem a sua subsistência, alimentando-se pelos seus meios.

A noite está agradável de temperatura e nada bule. Eles murmuram entre si, não se sabe porque o fazem assim, fazem, sentados no chão à volta do fogo, alimentando-o com os pequenos paus juntos durante dias e dias de explorações às redondezas- a mata do Monsanto termina já tímida, perto das suas casas, mas termina ainda assim. Os últimos pinheiros que dão para as traseiras dos prédios da rua de cima, oferecem inúmeros saborosos pinhões que não custam nada a não ser parti-los com uma pequena pedra que se ajeita à mão e comer de imediato. Fica agarrada a resina das pinhas nos dedos, custa a sair, cola e despega com a pele agarrada a ela. O cheiro da resina vale pela dor da pele perdida. É um cheiro difícil de encontrar, onde anda ele?

Comeu-se bem e bebeu-se água fresca dos cantis de metal forrados a feltro grosso. Os cantis dos nossos soldados em África. Os cantis comprados nos armazéns de produtos militares na feira da ladra. Não há melhores cantis que estes.

Passou o tempo que neste caso desta noite em particular neste local preciso onde três rapazes acampam pela primeira vez, foi um tempo de nada, coisíssima quase impossível de contabilizar, na imensidão de tempo que passou e passará e é e será  a nossa mais bem conseguida abstração, o nosso remédio contra os males da desorientação solitária, que nos achacam de quando em vez.

O lume enfraquece, consome-se, os rapazes dá-lhes o sono, entram na sua tenda gruta, o teepee dos índios cherokee. Acendem as luzes das lanternas fraquejantes porque as pilhas vêm dos rádios com que ouvem baixinho debaixo dos lençois o “Oceano Pacífico”, num acto corajoso de rebeldia revolucionária.


Vai começar a verdadeira noite, Agora.