sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A DESCOBERTA DO AMOR







O amor com a pureza de um diamante, era o que ele queria, caçador de tesouros raros. Dedicou a vida nessa busca, não parou para ganhar fôlego. Uma vida por pouco tempo que seja, é muita vida para se consumir a perseguir o amor, uma ideia de amor. Que outras escolhas são mais interessantes?

Ele, um homem teimoso como todos, procurou, destapou mistérios que deram em pouco ou nada, explorou detalhadamente algumas possibilidades estimulantes, umas avançaram mais do que outras. Umas não avançaram nada. Todas as pistas tiveram um fim, e não foi triunfal. Souberam a pouco, muito poucas souberam a quase muito, nem uma pode ser considerada como a grande descoberta, ou talvez não seja bem assim.

Frustração? Sim ou não, uma questão de perspectiva.

Cansou-se nessa vida nómada, gastou energias suas e pagou créditos a agiotas, e com o tempo a passar, concluiu ser sensato diminuir o ímpeto brusco, sanguíneo, imponderado das buscas, tomou a decisão de encurtar distâncias, ajustar a uma medida plausível as quimeras iniciais.

Afinal, o amor não está ao estender da mão. Ou está?

Desistiu de procurar e fechou-se em casa a ver fotografias e a cumprir escrupulosamente as horas das refeições e de alguns comprimidos.

Podia continuar assim se estivesse conformado com isso, mas ele pensava demasiado, persistia num tipo de rebeldia difícil de catalogar, e os comprimidos para dormir para fazerem efeito, levam anos a fazerem o efeito de branquearem os grandes pensamentos. Diga-se agora que ele nunca cumpriu escrupulosamente a toma de alguns comprimidos recomendados.

Sendo um buscador de tesouros, irredutível mas sensato, acabou por se conciliar com a ideia de que jamais encontraria esse diamante, o rei de todos os quilates. Contentar-se-ia a partir dal, com a simplicidade.

Pragmático, para dar um rumo à sua inquietação, catalogou o amor diamantino como uma abstração, coisa não coisa, e como tal, impossível encontrar. Uma inexistência prática.
Desvalorizou-o, fingidor. E foi aí que irradiou a luz, preenchendo-o e a sua aura. Livre da obsessão do inatingível, começou a amar verdadeiramente. De  repente toda a Criação se transformou em objecto de amor. Ao dar-se dessa maneira, começou a receber um eco mil vezes amplificado.
Estava à frente dos seus olhos, sempre esteve, o diamante multifacetado do puro cristalino que procurou durante todo esse tempo e que lhe consumiu uma existência.

Viciou-se e recuperou os tempos de quase desistência.  Saciou-se desse prazer, afinal perfeitamente acessível a todos.

Completo, despediu-se de todos e dele no dia que escolheu partir para o sitio da memória. Apanhou o transporte que lhe bateu à porta da vida, e lá partiu para a morada que dizem ser o sítio onde não há necessidades nem anseios.


Deixou o amor com os outros, ou para os outros, livrou-se não sem alguma pena desse tesouro tardio que afinal era uma quase banalidade quotidiana, os homens é que não sabem disso, só mais para o final.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O ESTRANHO MUNDO DA REALIDADE FICCIONADA





Ando na rua, vou para casa e escrevo. É a minha inspiração. Se isso é ficção ou realidade, não sei. Custa-me distinguir. Ainda ontem, sim, foi ontem que choveu bastante e ventanou como se mais não houvesse. Estava macambúzio e fui para a Baixa, gastar dinheiro, não tenho, mas hoje em dia não é preciso ter para se gastar. Em todo o caso fui, comprar presentes de Natal, as lojas agora fecham mais tarde e a animação dos turistas, desde que somos o melhor destino do mundo inteirinho, dura até as tantas, tarde portanto. Fui e deixei-me ficar, embalado pelo movimento das ruas, os sons dos músicos nas esquinas, o cheiro da castanha assada a preços de nova iorque, e a simpatia da gente bonita, colorida, que por cá anda, curiosa, a querer saber das nossas coisas, da cultura e assim. Acabei por petiscar e como chovia e eu gosto da chuva e é rara, decidi ir a pé apanhar o comboio ao cais do Sodré, rua augusta abaixo, na direção da praça do comércio, rua dos bacalhoeiros, e é um instante, faz-se num nada, e tudo em minúscula, agora é assim. Desinteressados dos turistas e estes deles, dormiam, supõem-se que dormiam, e eram pessoas vivas de carne e osso e não enchumaços falsos, uns quantos sem-abrigo enfileirados nas arcadas da praça. Passei por eles como se nada fosse comigo, a disfarçar que não os via, a fazer o mesmo que os outros que no momento passaram também por eles. Apanhei o comboio grafitado e moderno, que agora usa-se, e deixei-me chegar a casa, calçar as pantufas e servi-me de um generoso grogue, para reflectir esmiuçadamente sobre o assunto. E veio ao de cima esta minha teoria que enunciei no início, de ter dúvidas do que seja a ficção e a realidade, e dai confundir as duas e misturar, e até achar que tenho tardiamente alguma espécie minor de dislexia, se isso existe e pode dar-se tardiamente, na idade adulta. Se é verdade que aqueles anarquistas eram desalojados temporariamente permanentes de casas que já tiveram, e sendo o melhor destino, este, ganhador de todos os prémios que há para ganhar, parece que está a competir com aquele jogador de caricas famoso que diz que é o melhor de sempre e para sempre, apesar de se aceitar com um sorriso porque foi um rapaz necessitado e quando se é necessitado e depois se tem sucesso, fica entranhado  como tique essa ideia de se ser o maior-melhor, não se está a ver que as pessoas com responsabilidade e sérias que tratam  das coisas das cidades não tenham pensado nisso e não tenham resolvido adequadamente essa questão, para não dar uma imagem errada, aos que nos visitam e vêm à espera do melhor destino, para visitar, sem terem que tropeçar num desgraçado que por alguma e qualquer razão sua, egoísta, esteja ali naqueles preparos a dar mau aspecto e enfeiar as cidades que se querem o melhor destino por muitos e bons anos. Com isto, fiquei na dúvida, e quando se autoriza a dúvida a entrar em nós, para a desalojar é a carga de trabalhos, não vai com vomitórios, clisteres, ervas, colheres de carvão, nada. É uma peçonha para a vida. As pessoas emagrecem porque a dúvida consome as energias e as gorduras. Digo que fiquei na dúvida de estar a pensar bem ou a alucinar, sendo que esta última se adequa melhor ao meu carácter e da primeira, porque tenho a doença precisamente da dúvida, não tenho a certeza de ser possuidor, quero dizer, pensar bem.  Para não vir a ter problemas a adormecer conclui por certo ter ficcionado ou lido algures e a seguir ficcionado, que há desabrigados a dormirem nas arcadas da praça do comércio, local muito bonito de passeio para os turistas e os escassos habitantes da cidade. Problema mesmo é esta inspiração que podia dar para puxar brilho a móveis em vez de dar para escrever, que dá nisto, um redondeio sem pés nem cabeça. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

CIDADE DE DEUS, TERRA DOS HOMENS






Nas terras dos homens, os deuses servem os pretextos das guerras.

Não por eles, inofensivos, pacifistas, usados a contragosto.
Os deuses não castigam nem permeiam. Criaram a criação e continuam nas suas vidas sem pecado.

Entre si dão-se bem, visitam-se, convivem, todos primos e chegados.

São os homens, que congeminando argumentos falsificados, usam os nomes dos deuses – os nomes que eles acham serem os nomes dos deuses – para se porem uns contra os outros e fazerem a guerra.

E não há inocentes, são os culpados e não têm desculpa por serem crédulos, ou patetas, ou simplesmente desprendidos das coisas politicas do mundo.

Os homens não se podem desresponsabilizar das coisas do mundo.

São eles que aceitam vindos das suas tribos, os inquinados e de vontades venenosas, que se aproveitam da dormência dos outros para envinagrarem o caos no mundo, local que já de si tem essa tendência de personalidade.

Aproveitam-se porque têm interesses e fazem do mal a banalização do mal.

A cidade de deus foi posta a arder, para gáudio dos pirómanos que assistem ao espectáculo nas varandas amplas e bem sentados.


Está mais difícil andar na rua só para gozo de uma boa aragem, ou uma réstia de sol caloroso de fim de dia.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

POESIA




A poesia, louca admirável, diz o que se adivinhava indizível, ninguém mais o pode fazer, sem autorização cedida pela consciência, escapa-se dela, desconsidera-a .

É mal-educada com propósito e gaba-se disso.

A poesia desarma as palavras bem-comportadas que se dizem nas prosas. Numa conversa a duas, leva a melhor, com os argumentos de ser inteiramente genuína e a outra rebuscada, uma monotonia chata, dormente, que nem sequer rima.

A poesia dá piruetas no ar e isso é giro; acrobacias que assumem toda a criatividade e isso é arte.

 Os miúdos acham-lhe piada, ela dispõe os adultos. Os cães sem entenderem o que nesses momentos se está a passar, com os donos sob os efeitos alucinogénios da poesia, ladram. Querem dizer que estão contentes, por os donos também gostarem da poesia, não eles, é o que lhes falta para serem humanos.

A poesia diz coisas sérias em frases curtas, um sentido prático da maior abstração. Mas, a favor da sinceridade, a maior parte das vezes diz banalidades. Enche livros e livros de banalidades, todos os dias.

E é isso que os seus leitores querem: distração.

A prosa não, tropeça nas palavras, amolece os leitores, bocejam. É boa para isso, pouco mais, ainda que se arme em séria e credível.

Há diferenças fundamentais entre os poetas e os prosadores.
Os poetas são seres encantadores com quem não se pode viver em casa, desarrumam a cabeça dos companheiros. São completamente imprevisíveis. De um nada qualquer, sai um poema, o que altera o equilíbrio no convívio intimo das pessoas, intromete-se onde não é chamado. Mas não se podendo viver com eles, ninguém se imagina na falta deles- é um convite a ser nómada para quem foi toda a vida sedentário.

Os prosadores – a cara oposta - ajeitam os lençóis e põem as almofadas do sofá na esquadria certa. Seres ideais, mas completamente sensaborões. São copos de leite até ao fim da vida, apesar de poderem vir a escrever boas e enfadonhas prosas.

Normalmente os poetas não chegam ao fim das suas vidas a pagarem os seguros de saúde: fazem tudo para chegar rapidamente ao fim da vida.

Os outros, fazem planos poupança e reformam-se com as artroses a darem problemas inimagináveis. Tal a magnitude do incómodo, que deixam de escrever, esquecem-se que o fizeram.

Dão-se por vezes a rir - rir apazigua as dores - se alguém lhes lê um pequeno poema.


Os poetas não guardam rancores.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CONTO DE NATAL A ACABAR BEM






A rena-chefe andava apoquentadíssima com o desleixo do Pai Natal. Incompetência. Não o podendo dizer com essa palavra, porque aos chefes não se lhes pode dizer isso - só pensar, e que seja de boca fechada. O chefe mesmo sendo-o em todo o seu esplendor, nunca o é, incompetente. Os gnomos também não andavam nada bem, mas esses sempre foram assim: folgazões, apreciados pela sua chalaça constante e a alegria que imanam, mas muito preguiçosos. Esparramados mesmo.

A praticamente três semanas do grande dia em que todos os humanos, incluindo os que têm deficiências de mobilidade, doenças crónicas, doenças terminais, acidentes gravíssimos de toda a espécie e feitio, os paupérrimos, indigentes, sem-abrigo, criminosos, os bonzinhos, remediados, muito bem remediados, os ricos, os alegres, os melancólicos, todos os crentes incluindo judeus, budistas, muçulmanos, cristãos, cristãos coptas, adventistas, testemunhas de Jeová, mórmones, amish, e restantes religiões  ( não se considere desprimor não nomear o nome mas a rena não os sabe todos) e todos os agnósticos e ateus, incluídos ou não nas categorias anteriores, anelam por essa quadra de grande paz e harmonia e amor, a extravasar das taças de espumante, e as filhoses e o bacalhau e o raio das comidas que nos outros sítios do mundo as pessoas comem nesses dias, que não têm gosto nenhum e ainda bem porque se todos comessem bacalhau já não havia para nós.

Anelam e almejam, que é mais ainda do que a primeira. Nesses dias baixa o amor à terra, cometem-se muito menos arbitrariedades, as pessoas estão mais piedosas, chacina-se muito menos, e quando se chacina usam-se métodos menos dolorosos, os chacinadores ficam mais frouxos. Mesmo o roubar de bens e dinheiro, em pequena ou em larga escala, faz-se mais diplomaticamente. Os de colarinho com goma fazem-no da mesma maneira que todos os outros dias do ano - geralmente não se dá conta - e portanto não contam para ilustrar este belo conto, são sempre iguais.

O mundo fica todo dado ao amor, que chega ao ponto de se votar um voto de rejúbilo ao Natal, nos parlamentos dos países democráticos. Depois disso, os deputados vão todos almoçar e são muito amigos (durante o resto do ano também). Nos países que não são democráticos, e não são muitos, os ditadores declaram que todos os súbditos estão obrigados a amarem-se uns aos outros, e podem também ir almoçar, menos os presos políticos, a escória de qualquer sociedade (não merecem portanto almoçar).

Sendo este o ambiente colectivo à escala planetária, é normal que as pessoas também vejam realizados os seus sonhos de presentes, já que os mereceram e pediram em sonhos, ou em introspeção intima.
E o Pai Natal, este ano, ainda nem sequer dividiu as encomendas por região e muito menos por apartado. A rena está preocupadíssima porque já antevê que vai ser le bordel (como dizem alguns franceses). O ano passado já foi assim: não programaram o GPS, andaram para trás e para a frente, aos saltos pelos continentes, com o Pai Natal e os gnomos a atirarem aleatoriamente os presentes para as chaminés. Gerou-se o caos e por mera sorte abafaram-se conflitos diplomáticos e outros de natureza mais bélica.

 Foi cristãos a receberem burkas, muçulmanos a receberem presuntos, refugiados a receberem voucher de fim-de-semana na neve, o Trump a receber um computador novo encriptado e ele não queria porque é um desbocado, o da coreia a receber os planos de um míssil verdadeiro, dos que voam mesmo com autonomia ilimitada, e ele que só quer brincar ao foguetório pífio. Enfim, houve de tudo.

A continuar assim este ano, as coisas podem complicar-se para o Pai Natal, porque começa a perder a credibilidade e se a perder a níveis rasteiros, não lhe resta depois outra profissão que a de político esganiçado.

Digam lá (pergunta a rena para si própria), o que vai acontecer se as vítimas dos incêndios em Portugal – e isto só para dar um ínfimo exemplo, de um lugarejo perdido por aí -  em vez de receberem as ajudas que os seus compatriotas deram vai para meses, a acamar nos cofrezinhos dos banquinhos, lhes dão árvores sintéticas com luzinhas led? Não servem para nada e quando ardem, apesar de arderem bem e depressa, não se podem depois vender. E a economia não prospera.

A rena, que já falou com as outras, tem um plano “B”. Se até ao fim de semana, que é feriado, o Pai Natal não atinar, no dia da distribuição, vão sedá-lo com medronho, prendê-lo com correias de couro de rena às pernas da mesa que são de granito ártico, e vão substitui-lo pelo senhor doutor Marques Mendes que nunca se engana, faz uns oráculos à distância muito bons, e é maneirinho, contribuindo assim para a poupança de consumos do trenó, e por consequência directa para a melhoria das alterações climáticas, um assunto também aborrecido, mas que a culpa é dos que fumam charutos: os cigarros também são bons e produzem menos fumo.


Espera-se que este ano, tudo se componha, e que seja um bom Natal, e passe depressa.


domingo, 3 de dezembro de 2017

PODER DA MÚSICA





Rasga, ouvir uma música sacra e não ter fé.

Ela a puxar os limites e nós, apalermados mas boas pessoas, querendo ir sem poder ir, ainda que indo.

A música desarma os argumentos.

Se fosse palavra – a música palavra -, encostavam-se interesses comuns, acordos temporários para derrubar o facto de se ficar desarmado por uma música religiosa não tendo fé.

Ginásticas para se dar a volta.

A música não vai em conversas de embalar, é música, dona garantida de todas as harmonias, mesmo as dissonantes.

Rigorosa e inflexível, na maior das flexibilidades que se conhecem, vem do mundo das coisas etéreas, e não sendo daqui, tem as regras próprias. Pode ser desavergonhada e religiosa sendo um problema seu, não humano, livre de noções pecaminosas mesmo que até seja enxofrada.

A música, leva-nos para onde quer levar que é lado nenhum mas um preenchimento de todos, uma fruição, só isso, tudo isso.

Faz-nos gato-sapato, e mesmo revelando-nos ao mundo como agnósticos sem nenhuma convicção credível do que se está a dizer, que  no final o que se queria mesmo era poder dizer-se que se acredita, mas não, falta algo.

 A música religiosa fissura-nos o corpo de bela, pungente. Leva-nos sem pedir licença para as alturas, só com a sua vontade, que nós não temos asas para isso, e a gravidade a puxar-nos constantemente para a insignificância.


Que não queremos ser, queríamos ser deuses , e é por essa vontade, que relatadas  vezes – poucos é certo – mas alguns de nós, fazem magníficos voos acrobáticos rasantes, mesmo ausentes dos movimentos voluntários dos acrescentos mecânicos que nos poderiam impulsionar para o céu.


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O MIRADOURO E O MONÓCULO







Perde-se o ar de tanto, uma asfixia, a respiração suspensa, no excesso de oxigénio, o que parece contraditório.

 No cimo da serra o que está a acontecer é  espanto, deslumbramento, uma paisagem inimitável, agreste. Como é a natureza, e como as pessoas ainda se admiram, todos os dias, com as suas novidades e  truques de mágicas inesgotáveis, a embeiçar os homens. 

A serra é circunspecta, senhoril, não cede a amizades fáceis. É profundamente bela, e isso é o que faz perder o folego e perdoar um aparente mau feitio.

Estar ali, em estado admirador, com uma visão panorâmica a varrer toda aquela lonjura, e o que se imagina de mais lonjura, tapada pelos recortes das serras e da linhas das terras, a abraçar quilómetros: um privilégio.

Se deus não se tivesse reformado seria uma bênção, assim é laicamente uma alegria.

Não é um equívoco: a paisagem é bela, mas não é o que se pode estar a imaginar da descrição feita. Não há cor, não há árvores, não há arbustos, flores, variedade de animais, os domésticos, pastores. Há um cinzento de tom único. É uma paisagem de como em esforço se visualiza um cenário lunar: cinzenta, nua, nem uma réstia de poeira a ser levantada por vento. Majestático e decadente.

Um grupo reduzido de pessoas encontra-se no local, um miradouro natural – tem um monóculo aumentador , de colocar moeda, que não funciona, vandalizado. O grupo, restricto, está ali em trabalho, motivo sério. Não são pastores, ou apicultores, ou tão só caminheiros. Nenhuns destes se reúne no cimo de uma serra por motivos sérios.

É um grupo de pessoas com interesses.

Os jornalistas fizeram as perguntas pigmentadas da anemia crónica habitual. Perguntas desistidas de serem perguntas já antes de serem ridiculamente perguntadas. Os batedores, os motoristas, os assessores de segunda linha, estão ali mas não estão, não vêem a hora de tirar os sapatos e sentarem-se no sofá, a beber uma cerveja ou a rezingarem com as esposas. Os das direcções gerais, estão ali como noutro sítio qualquer, não têm sentimentos, só ideias efabuladas sobre as reformas futuras, reformados desde o primeiro dia de entrada ao serviço. Os autarcas da cor ou de outra cor, estão para debicar os restos dos banquetes. Seres cheios de apetites insaciáveis.

O ministro olha para o relógio e lembra-se na agenda do dia, que ainda tem um último compromisso importante. Um jantar de investidores  imobiliários, num restaurante dos roteiros e estilo. Uma mesa recatada para não incomodar os outros comensais, que vão pagar muito e ainda conviverem  com um ministro e assessores.  

Lembrado dessa urgência, o ministro cansado e ligeiramente indisposto por estar ali,distribui - agora apressadamente -pêsames entredentes à meia dúzia de crédulos encartados que o acompanham, sorri  para uma derradeira fotografia, e faz sinal ao motorista para o resgatar para a realidade, a sua.


Se tivessem arranjado o monóculo a tempo, teriam visto as cinzas com mais pormenor.