domingo, 13 de agosto de 2017

MARIONETAS NO VERÃO





Fios, presos por finos fios. Marionetas. Numa aldeia perto de si.
Não fosse haver um manipulador de marionetas, eram inoperantes, disfuncionais, tíbios, a pedirem para nem se lembrarem das suas actuações, que só actuam por obrigação.
O mestre, sim, um exímio manipulador de fantoches, ventríloquo e tudo.
Mas não era isso que o povo pedia nos terreiros forrados a cinzas. O povo queria ver um espectáculo vivo, bom. Depois de uma vida a assistir a teatros de marionetas, o povo pedia actores de carne e osso.
O povo sonhava – imprudência não desculpável - que um dia o teatro seria real.
Não aconteceu, ainda não foram as festas deste ano. Não há verba suficiente para o povo ter um espectáculo verdadeiro, só para pagar a actuação dos artistas pimba, os que estão sempre disponíveis.
Este junho nunca mais acaba e eles já nem vão às festas, estão na praia, com os olhos cheios de água*, os mestres das marionetas.
Quem são os fantoches afinal?


*obrigado Mónica!


LER




Não preenchendo os vazios,

porque não sabendo como dizê- lo, 


lemos,


Para distrair a tristeza.






sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A LUZ DO VERÅO






Luz parda,
Densa,
Partículas flutuam no ar.
Desfocam - não totalmente - 
Os contornos precisos,sérios
De objectos e seres.

Parece um sonho,
Uma meta-realidade.
O que são os sonhos.

Os dias que se assumem assim,
Que provocam arrebatamentos de bem-estar
São os melhores dias do verão.

Opacos, amarelados, quentes, fora do tempo,

De nós,

Somos nós.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

MAR PÚRPURA






Também é azul.

Todos sabem que o mar é bonito,
excepto a quem o mar rouba uma vida,
que também o sabe bonito mas já não o diz mais.

Nas condições exíguas que me vejo na relação com as cores,
sem ter nada a justificar, digo que é púrpura.

Não há notícia de que alguma vez o tenha sido.

Como é das cores, uma das que tenho em maior estima,
dizendo que o vejo púrpura,
exponho os meus sentimentos mais genuínos,
elogiando-o com o que melhor tenho:
a cor púrpura.

Aceitem-me que o mar seja púrpura.

A minha pequena filha pequena,
não percebendo nada de cores na perspectiva de indivíduos
embirrentos que não saem da sua
- ela ainda não é isso, só é pequena -
como tem um bom gosto indiscutível,
acha convictamente que é cor-de-rosa.

Pode bem ser.

Já dei por mim a considerar o mar como sendo abusivamente rosa.
Acima de tudo porque a amo perdidamente,
e não a quero contrariar.
Depois porque rosa é uma cor que combina bem com o mar.

Agora que penso aturadamente,
foram feitos gémeos,

eu é que nunca tinha pensado nisso.


domingo, 6 de agosto de 2017

AGARRAR O FUTURO





Ainda hesitante.
Por aqui, por ali, todos os lados, nenhum.
As vezes, um arrepio,
Medo.
Dura pouco.
Nenhum, todos.

Na insegurança das escolhas,
Não o confessando,
Está um desafio irrecusável:
O desconhecido.

Assim se faz,
Na decisão indecisa,
Disfarçando ter tudo controlado.

Avançando, sem olhar para o rasto.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A JUSTA MEDIDA





Na medida exacta, da medida justa, que só paira nas mentes ingénuas, a ajuda solidária de alguns portugueses (portugueses ingénuos) às vitimas dos incêndios de Pedrogão, chegará ao destino um destes dias.
Um dia destes.
Um dia.
Chegará.
Nenhum dia.
Podia ter chegado, quase lá.
Não chegou.
Já me esqueci desse evento.
A ajuda honestamente desembolsada, nossa, chegará após trinta requerimentos, simples de preencher, a atestar que o joaquim ficou sem galinhas, a Maria sem couves, o José sem alfaias, a Joaquina sem marido, o José sem mulher, os nossos filhos sem os nossos filhos.
Os serviços, desconfiam do correcto preenchimentos dos formulários: as pessoas estão a aproveitar-se da situação (como alguns do rendimento de inserção de não se sabe o quê).
Os políticos altamente qualificados que ocupam temporariamente os gabinetes com melhor vista das secretarias e sub-secretarias, das direcções e sub-direcções, informam os seus dirigentes para aguentarem a situação.
Não é tempo ainda para ajudar. É tempo para apurar, esmiuçar, apurar mais ainda, e depois, quando já tiver passado todo o tempo, já não é tempo para nada.
Ufa, ainda bem!
Livrámo-nos desta.
Vamos lá todos outra vez brincar ás eleições.




segunda-feira, 31 de julho de 2017

A FALTA







Faltas a fazer um teatro, naquele dia, para nós.

Não estava à espera,
E afinal não há um dia que não aconteça.

No que foram tantos sobressaltos,
Afastamentos,
Silêncios impostos dos dois lados,
Cansados um do outro.

Agora falta tudo, todos os dias.
Cheiro, voz, gestos teatrais,
Exuberâncias, excessos.

O faltares assim que não se imaginava, arde.
Falta um “Nós” que se foi contigo,
Apesar de dar comigo a dar contigo a sorrir,
Inesperadamente, a qualquer momento,
Quando me vem precisamente à cabeça
Que me faltas tanto.

Porque foste egoísta e morreste?


No entanto sorrio das tuas macaquices, e já passou.