domingo, 27 de maio de 2018

XADREZ




Joguei as mais desabridas partidas de xadrez sem saber jogar. Fi-lo por deferência ao meu anfitrião, para aliviá-lo do tédio e pagar-lhe dessa forma, ainda que desonestamente (eu não sabia jogar e disse que sim), o seu acolhimento.

Claro que quando movi as primeiras peças, na primeira partida, ele entendeu a minha trapaça, mas perdoou, e sem nunca o ter dado a entender, com uma grande delicadeza foi-me ensinando xadrez, com sotaque basco.

Houve mesmo um dia, que me deixou ganhar. Aí entendi eu que a vida não nos traz coincidências e que mesmo os acasos são jogadas que o grande jogador de xadrez tem preparadas para nós.

Tudo isso aconteceu num tempo já a matizar as memórias, num tempo em que um bom jogador de xadrez com uma vida entediada, me abrigou dos desconhecidos, dos medos muitos da desassossegada aventura de ser adulto.

A ti, José, onde estejas.

CELEBRAR A VIDA



Este sim, um festim. 
Pela manhã, até ao limite de ser manhã, o dia que neste dia tem a tarefa de carregar o mundo para que todas as coisas sigam em frente, 
ainda dá fortes indícios de pureza, 
antes da poluição das futilidades dificultar-nos a 
a respiração e o desanuviamento.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

LER, OBSERVAR E ALFACE






Num jardim, no meio da cidade, não propriamente o meio, mas dizendo dessa forma se somos levados a pensar com detalhe -  um preciosismo -, no jardim onde uma mulher lê livros e eu observo e denuncio, duas jovens quase obesas comem saladas.

Elas são jovens para isso e não parecem gostar de ser, a menos que estejam a enganar.

Essas saladas acondicionadas em contentores de plástico comprados no chinês, foram confecionadas pessoalmente, sendo fresquíssimas depois das alfaces terem vindo anteontem das Filipinas e o ananás ter estado em trânsito na Islândia depois de ter sido colhido há dez dias na Colômbia.

Elas estão sentadas num parapeito e aparentemente satisfeitas, a contento da ordem pública, conceito que não existe em democracia. Cada um faz o que democraticamente quer sem ser multado.

Quem acredita em teorias de conspiração, vê  esses filmes até em minudências, e diria que há uma conexão obvia entre as pessoas curiosas que estão em jardins ou noutros lugares (para não se dedicarem a nada mais senão descreverem o meio que observam, como se tudo fosse só deles), as pessoas absortas em lerem livros, e as pessoas satisfeitas por comerem saladas. Este bouquet reunido, quer dizer alguma coisa, e esses teóricos, agarram-se como lapas ao estudo das coincidências, até darem em doidos, se é que não o são à partida.

Nenhuma destas conjugações em sincronia, se reúnem com essa disposição de contentamento, noutros ambientes senão nos jardins, levando a querer que os jardins são locais de acontecimentos privilegiados e singulares.

E para dar exemplos que não acontecem noutros lugares, veja-se:

Em nenhum corredor, e muito menos desembocando, de chofre, na sala magna da Assembleia do País, se pode dar nota de indivíduos ou individuas, empenhados a lerem livros, mesmo sendo de teoria política. Não.

 Observadores que captam o meio, não existem. Os que existem nesse lugar captam-se a si mesmos, estão sempre a olhar para um espelho inexistente mas que eles criam na sua mente saudável, a verem-se só eles.

 Comedores de saladas, da forma como estas raparigas fazem num parapeito, nem um, apesar de elas aparentarem estarem muito felizes com as saladas que confecionaram pessoalmente e agora comem, e haver legislação da mais avançada no mundo e feita nesta casa, sobre o acto bom de se comer uma salada.

Numa boa empresa, com nome feito, marca, ou uma de inicio fulgurante (tentativa de tradução rudimentar para “start-up”), não há empregabilidade nem necessidade de bons observadores, tipo olheiros de nada em especial, se não ficarem especados a observar coisas inúteis. Quer-se gente para trabalhar e não para estar a olhar para o vazio.

 Ler livros, é mal visto seja onde for, é um desvio que não se quer nas empresas, que são sérias. Ler livros, amolece as pessoas para depois executarem tarefas importantes.

Sobre as saladas, são as mais consensuais das anteriores nomeadas, comem-se amiúde nos refeitórios, ou em cima das secretárias de cada um.

Em outros locais fechados de grande dimensão, é improvável acontecerem estas três aberrações juntas. Não se está a ver em estações de Metro, em garagens automóveis, em Matadouros municipais, e por aí fora.

Tudo isto para levar onde? Para lembrar da impermanência das coisas do mundo.

A mulher que lê livros não é para aqui chamada, um dia quando tiver cataratas deixará de ler e já de si é anónima, o que não é nada bom; observadores e curiosos, há por todo o lado e são gente geralmente depravada; as saladas, são alimentos muito saudáveis, mas isto muda todos os dias e amanhã existe uma probabilidade de que sejam substituídas por panadinhos, alimentos muito saudáveis, mais ainda do que as saladas., o que está ainda por descobrir, mas em breve os cientistas vão dizê-lo.

Apesar de não ser uma blogger do estilo, uma influenciadora, não ter treze anos, não ser do sexo feminino nem aparentado, não apreciar dar palpites sobre todas as matérias e ter milhões de seguidoras que me endeusam, e não acreditar nas teorias da conspiração, estou em querer que haver quem leia livros, observe os outros e os passarinhos com prazer, e se comam muitas saladas, contribui para a diversidade, e no jardim que frequento gente dessa e outra com outros interesses ,vêm à hora almoço apanhar sol e praticar os seus prazeres pessoais.

Mas estou enganado!

As sonsas da alface, são espias a soldo de um município rival, que vieram disfarçadas de gordas a comerem saladas em jardins públicos, para verem o que na capital se faz para agradar aos turistas que nos visitam e também aos residentes fixos que falam a mesma língua do presidente da Câmara.

Estão a ser pagas para absorverem ideias  para implementarem essas metodologias no seu sítio, elas não estão a comer saladas para deixarem de ser gordas.

A alface , o livro e o mirone, não são randomizações do acaso, são casos de polícia, assim como o futebol que não é para aqui chamado.

Os conspirativos têm razão.


quinta-feira, 17 de maio de 2018

RALÉ







Não há poética em dizer isto: todos os homens são fundamentais ao andamento do mundo, menos a ralé, que são pústulas das sociedades, dejectos das classes, se ainda há isso.

A ralé é a franja de gente periférica à existência humana, cada vez em maior número, que alimenta o extremismo, a ascenção com pés de lã dos totalitários.

Sejam de que género e feitio forem: do futebol de praia aos bailes de debutantes nos salões do poder, a ralé está de novo a preencher os lugares vazios, multiplicando-se muito.

As elites, alimentam as ralés, interessa-lhes, pois são os que estão disponíveis para abdicarem das ideologias, para não terem de pensar. São bem mandados a tudo o que fizer falta, por um simples mandar sem explicações. O seu reconhecimento é grupal, daí primitivo, por não se darem disponibilidade de se abrirem aos outros, diferentes. Recompensam-se no seu seio poluído, pelo número de feitos de malvadez praticados.

Foi assim há setenta e nove anos.

As elites usam-nos para obterem objectivos mais ou menos reconhecíveis, mas de tanto conviver com estes indivíduos, sempre a necessitar deles para os “trabalhinhos”, acabam por ficar como eles, mimetizam-nos. É quando se chega aí, quando as elites também já são ralé, que isto começa a ficar um local muito perigoso.

De repente e de um dia para o outro - que nunca é, porque os sinais estiveram sempre lá, a piscarem e óbvios, só que ou não os viram, ou fingiram que não os viram, ou tiveram a cobardia de deixar para alguém e resolução do problema e poderem assim continuar a sua gloriosa e profícua vida fútil – a sociedade está de novo minada.

Regressou o dia em que se oferece ao rebanho o grande discurso:  O conto feito a mitologia do momento, do futuro radiante e eterno, o emblema, a bandeira, o cântico, o hino, a raça, a pátria.

A elite-ralé manda a ralé-ralé destruir, seja o que for, onde for. E ela vai contente, ordenada e eficaz. Pelo caminho há quem tire fotografias, e ponha de imediato na rede, e os faça famosos, quando eles, se alguém olhar e ver, ficam todos mal nas fotografias: são feios.

Nos pequenos e grandes acontecimentos, ao lado de casa ou num sítio ermo algures, faz-se a um ritmo que aumenta todos os dias, a repetição de histórias tristes, reprises de mau gosto e sabor amargo, vistas e revistas, vividas, morridas, sofridas, esquecidas, em que alguns ingénuos julgaram não serem mais possíveis. Estão aí.

Gaseados ontem, quase a não conseguirem uma descendência, matam hoje numa prisão a campo aberto onde pessoas argumentam com pedras contra os argumentos de armas lançadas por drones infalíveis – só se pode ser convincente sendo letal, dizem especialistas.

Exterminam-se miseráveis que não têm pontos de fuga e sem culpa formada, a não ser de terem nascido do lado errado dos muros construídos depois. Tudo em nome da religião, ou desculpada por ela, ou cobardemente apoiada nessa mentira.

São, somos todos tão donos de um pedaço de terra esteja onde estiver, como outro que goste dela. Não é de ninguém, é de usufruto transitório e sendo partilhada, trabalhada a dois, floresce jardins muitos mais esplêndidos e carregados de flores exóticas.

A ralé não sabe o que é uma flor, por isso é bárbara e previsível. Mata, mas não é ela que sobrevive, é o morto.



terça-feira, 15 de maio de 2018

VÉUS*









Vestem escuro, vivem de negro. uma formalidade. Sorrindo e que alguém o possa vir a saber: que sorriram, porque não testemunham o sorriso. Um véu tapa-lhes essa possibilidade e o mundo, que queria tanto, nunca ajuizará a pureza desse rasgar genuíno de uma boca escondida.

Praticamente só sobressaem os olhos, igualmente negros, grandes e muito redondos e perscrutadores, azeviche, pouco mais é dado a ver. O sinal de uma vida envolta dos pés à cabeça, em camadas de preto, por véus quasi-transparentes  que sobrepostos são opacos.

E como só despontam os olhos, concentram neles toda a sua energia, a comunicação inteira de um corpo, que quer escapar mas não pode. Imagina-se que aquele corpo que se imagina, tem os seus ângulos, uma harmonia. Imagina-se também que tem recônditos abrigados, outros menos. Aos olhos exteriores do desconhecido que os observa, não têm forma, são voláteis. Corpos fantasmagóricos, espectros à luz do dia. Corpos escondidos, entaipados, recolhidos em si, é uma vida toda de interior, uma obrigação. Como um pátio do sul do mundo, no âmago, no centro mais interior da casa, o espaço primordial, escondido aos olhos de fora.

São assim as mulheres que se apresentam nas pinturas, fortes estas e as mulheres igualmente - sem dúvida - objectos tridimensionados numa tela. Mulheres pintadas com mão pesada, intencional, impiedosa, zangada, sem filtro. Mão que preende os pincéis que vincam os percursos da tinta, marcando a cor nos veios da tela que foi branca no início de todas as coisas e agora fica marcada por esse testemunho: as mulheres do nicab.

Telas estas que no acto de serem preenchidas, violando-se, contam histórias, ou só uma crónica, contínua, várias, a das mulheres que saem à rua, mais vielas, envoltas num esconderijo, uma dissimulação. Nunca se saberá da beleza ou da feiura dessas mulheres. Só dos olhos. Vidas quotidianas de um local longínquo mesmo aqui ao lado, mas em tudo tão diferente.

São jeitos de cultura, de religião, indiscutíveis e sensíveis.
É tão denso o mistério, que quase não controla a vontade que outras mãos, não as do pintor, vão ao seu encontro, dos véus, para os rasgar, não querendo  nenhuma violentação senão somente ver, credibilizar pelos olhos que aqueles corpos existem, são reais.

São corpos sem luz, desabituados da luz do dia, e da falta da luz da noite. Corpo tapado, corpo assustadiço.

As mulheres do nicab caminham pelas ruas de terra batida e não se dá pelo seu aparecimento nem o seu desaparecimento, deixam simplesmente de se verem,  contornaram uma esquina  que não se contava, porque antes não havia ali, fora da vista.

O olhar do pintor, captação de instantâneos, sofre de um mal que é um bem: a curiosidade do viajante, que o leva a sair de casa. Os sedentários saciam o tédio olhando para a sua janela, e como ela está sempre fechada, vislumbram contornos de movimento, não vivem a realidade do movimento. Os aventureiros, e neste caso estão os pintores, e os escritores, e os bailarinos e todos os utópicos criadores do impalpável, precisam dos cheiros e de andarem como saltimbancos por essas terras e localidades e espaços cheios de nada, vazios de tudo, para saciarem a sua natureza nervosa, palpitante, ansiosos sempre para validarem a beleza das coisas, mesmo quando são pequenamente belas, no entanto, desconcertantes.

É difícil escrever sobre estas mulheres, é assunto delicado. Não dessa delicadeza da diplomacia, a arte de mexer no lixo com luvas brancas de pelica. É difícil porque não se entende, não se ajeita à compreensão, é um outro estranho mundo, que dá retratos magníficos, afinal de um preto carregado de todas as cores.

*Série de pinturas sobre as mulheres dos véus (nicab) por Paulo Robalo disponíveis por visita na Galeria Passevite - R.Maria da Fonte - Arroios - Lisboa



segunda-feira, 14 de maio de 2018

PENSAMENTO DA SEMANA





"O homem quer erguer ao mais alto o seu valor. E a forma mais eficaz para isso é a de se rebaixar. Porque quanto mais baixo ele estiver, maior a altura do seu Absoluto."

Virgílio Ferreira - um escritor demasiado esauecido.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

AZUL DE MAIO





Acordo e ausento-me de um sonho. 
Desperto, vou continuar a olhar para o céu, que ainda falta azul para pintar uma das paredes de mim.