segunda-feira, 27 de março de 2017

CHOVE




Hoje chove torrencialmente tudo.

Alegrias, tristezas, e até água, o que complica aindamais, ensopa os estados de alma.


Até que sequem, é um aborrecimento, e por vezes fica-se a cheirar a mofo.



sexta-feira, 24 de março de 2017

BERLINDES






Eram berlindes e guelas, os primeiros mais pequenos, os outros, mais vistosos, abafavam os berlindes. Eram de vidro cheios de cor, muitas, com padrões que davam ao girar a sensação de movimento encantatório.

Compravam-se nas papelarias de bairro, pequenas superfícies habitualmente familiares que vendiam de tudo de uma forma absolutamente eficaz e personalizada. Estabelecimentos, não superfícies, designações de um presente deselegante, um nome que soa estranho e é frio.

Os proprietários e os empregados sabiam os nossos nomes. Podíamos levar e pagar depois, numa contabilidade honesta que se fazia no livro dos devedores, preenchido a lápis de carvão. Este calhamaço era uma história do negócio, onde se desfiavam listas de nomes e produtos e datas. Raramente era usado para lembrar os atrasos: ninguém queria estragar relações de boa vizinhança, num tempo em que a honra e a honestidade eram valores não transacionáveis.

Uns buracos no chão com uma distância entre si, medida em palmos de mãos de gaiatos, o jogo do berlinde. Acertar nas covas e seguir em frente, afastar os berlindes inimigos e guelas oponentes. Jogava-se de cócoras.
Como em quase tudo era um exercício de poder em que vencia o mais habilidoso, o mais treinado, o mais concentrado.

Era a admiração, quase reverência com que os miúdos brindavam os vencedores. Havia-os bons e sofríveis, jogadores, e observadores que não tinham sequer assento nos campeonatos, ou por serem demasiado jovens, ou por serem uns nabos, o que também mimetiza o mundo.

Esta distração competia em popularidade com as corridas de caricas nos bordos dos passeios, os jogos de futebol de caricas com as caras dos jogadores da época e as corridas de carrinhos miniatura, lubrificados com umas gotitas de azeite para deslizaram melhor sobre o calcário.

Estas brincadeiras eram de paciência e baixo consumo de energia. As de alto-rendimento eram a bola, os carrinhos de esferas, as bicicletas. Representavam-se todas na rua, o grande espaço sem limites, a ausência de fronteira, a liberdade.

As meninas jogavam outros jogos com mais poesia e delicadeza. Os rapazes mesmo que muito concentrados e entretidos já gostavam delas, mas não sabiam como fazer. Nada havia ainda a fazer, senão olhar de raspão e imaginar, deixar correr os sonhos e fazer encenações mentais de beijos fugidios.


Era assim.


quinta-feira, 23 de março de 2017

LOUCA








A poesia é a louca que admiramos porque diz o que se adivinhava indizível.

A poesia desarma as palavras tíbias ditas em prosa e não pede autorização à consciência.

É rebelde, indomável, mas quando regressa dos seus não esperados passeios não se sabe onde, pomos a melhor toalha de renda para a receber.




quarta-feira, 22 de março de 2017

COPOS E GAJAS BOAS, DE PREFERÊNCIA







De manhã se começa o dia, dizia a minha querida avó, mulher avisada, que vestia de preto, tinha um buço pronunciado e gostava da pinga às escondidas.

Como quem sai aos seus, aos seus sai, já enfiei dois medronhos, para dar energia a enfrentar o dia que dá trabalho, e até chegar ao fim, é uma peregrinação quase religiosa ao botequim do chico. Pelo menos tenho fé em ir lá, é uma espécie de purificação do meu interior.

Agora só bebo sininhos, estou em dieta alcoólica, só pequenas quantidades (de cada vez claro). Não se pode dizer que saia caro. Cada sininho são 30 cêntimos. Um copo de três, cinquenta cêntimos. Apesar de alguém desavisado poder estar em desacordo (está longe, não vê, está mal informado), sou uma pessoa poupada: só bebo um de cada vez.

Se descontar de todos os que bebo, as ofertas, os brindes às efemérides de cada parceiro que frequenta o botequim, e os que o Chico se esquece de cobrar, gasto realmente muito pouco. Sou portanto no Sul, um dos homens mais poupados(mas há quem esteja ainda mais abaixo. O Sul não acaba aqui).

Nunca fui de esbanjar dinheiro, na verdade nunca o tive. Comecei a trabalhar bem cedo na terra, sem tempo para estudos nem letras.
 Depois alguém disse que era melhor deixar de trabalhar a terra. Não valia a pena, pagavam para ficarmos em casa. Só a partir daí é que comecei a ter algum dinheiro para gastar.

Como nunca pude aturar um ajuntamento de mulheres - só para o truca-truca, e mesmo assim apesar de eles acharem, está longe de ser todos os dias - e como é em casa que elas se juntam, para ocupar o tempo livre comecei a frequentar a tasca do chico. Entretinha-me a jogar as cartas, ao dominó e a ver os bonecos do “Correio da Manhã”, posto que não sei ler convenientemente: o pouco que leio, não entendo.

Ora para uma pessoa se entreter tem que consumir, o chico não alimenta a família com ar, é do negócio da venda de bebidas espirituosas, torresmos e sandes de bifanas em vinha-d’alhos.

Não sei o que aconteceu, mas ultimamente só se ouve falar de nós, do medronho, do tinto e das gajas. Isto é uma aldeia pacata. O medronho e o tinto para nós é água e não chamamos gajas às mulheres, chamamos mulheres, e apesar de falarem até à exaustão, gostamos delas não as tratamos como gajas.

De repente vieram para aí jornalistas e televisões, a fazerem perguntas, e sinceramente não entendo o alarido. Nós matamos a sede com prazer e gostamos à nossa maneira das mulheres, não andamos a roubar, a mentir, nem a beber bebidas finas com borbulhas nos salões onde eles vão todos aperaltados apalpar as mulheres dos outros quando vão à casa de banho retocar os beiços, e depois fazem negócios com eles, como se fossem amigos do peito.

Um dia destes ainda fecham a porta do Chico e aí quero ver como vamos matar as horas do dia: só se for sentados à beira da estrada, a ver ninguém passar, que aqui não vem ninguém. Para quê, se isto é um amontoado de velhos e mulheres com bigode?





segunda-feira, 20 de março de 2017

HÁ DIAS MUITO A JEITO





Hoje foi bom. O tempo simpatizou connosco, aqueceu-se, afastou cenários lutuosos.

Foi mesmo o grande acontecimento do dia, a sua mudança de humores.

Do que sobra para dizer é quase nada e displicente: não nasceram nem mais nem menos pessoas do que ontem; algumas vão ser absolutamente irrelevantes na sua passagem, outras não, algumas ainda vão ser híbridas. Do número de mortos contabilizam-se mais ou menos os mesmos da véspera, uns irão a enterrar outros ficam anónimos de como atravessaram a vida com pressa de saírem dela para o nenhures.

Se alguma guerra terminou não se deu conta. Se começou uma nova, daremos conta no noticiário do jantar, mas já é difícil comover-nos.

Crianças órfãs, violentadas, violadas, contam-se por muitas, mas não é preocupante porque ontem e o dia de amanhã dirão uma contagem idêntica.

O número de vilões per capita mantém-se estacionário, apesar dos pessimistas acharem que a tendência é para aumentar. Os optimistas, fiéis à sua fé, estão convencidos que os vilões estão a desaparecer e que o Bem triunfará finalmente sobre o Mal. Não se sabe quando, mas a fé é inabalável, não se questiona e conjuga bem com a razão.

Os melancólicos continuam a fumar muito, vão ter problemas no futuro se insistem e cada vez está mais caro. Os fleumáticos ainda não decidiram se gostam de fado, mas são vistos a frequentar as casas da especialidade. Também marialvas, mas por outras justificações.

Entre uns e outros há uma quantidade estatisticamente omissa de indivíduos que não sabem/não têm opinião. São esses imprevisíveis que descredibilizam as agências de sondagens.

Os amorfos arruínam as estatísticas. De repente alguém sopra-lhes ao ouvido uma mentira piedosa, e lá vão eles, todos, a correr, depositar voto de confiança. Em quê? Não sabem. Depois é no que dá: a quantidade de estúpidos que não para de aumentar e a quantidade de espertos que não para de enganar os primeiros.

“Rating” é uma palavra inglesa, que nem sequer soa bem.

E foi assim, nada de realmente importante aconteceu no dia de hoje, mais um, em que dizem que começou a primavera e nós não podemos dizer que não, porque eles é que são os fazedores de opinião.

Amanhã, apesar da possibilidade de aguaceiros esperam-se boas abertas, mas é tudo uma lotaria, sem aviso o tempo pode carregar-se ainda mais de sombrio petróleo, ou desanuviar, nunca se sabe.




domingo, 19 de março de 2017

IMORTALIDADE







Não me faltas porque te absorvi. Abriguei-te em definitivo na finitude tua, que será um dia a minha. Assim continuará com os meus filhos e os deles. É a imortalidade.



sexta-feira, 17 de março de 2017

PÁTRIA





O meu lugar é uma pequena aldeia por onde passa um pequeno rio sempre a correr.

O rio da minha aldeia sujou-se. Não tem metafísica.

Admito perante todos que não tenho aldeia.

Apesar do rio da minha não-aldeia estar poluído, nauseabundo e ser pardacento, eu não abdico da metafísica.

E gosto da ideia de ter uma aldeia,

com um rio que pode ser riacho desde que desague no mar, dá-lhe grandeza.

Essa é a minha condição fundamental, ter sítio, o resto são pormenores sem importância, como existir ou não uma aldeia com um rio ou não a atravessá-la.


E a metafísica.