terça-feira, 19 de novembro de 2013

New Age





Com as juntas desgastadas e uma lubrificação fisiológica já insuficiente, artroses dolorosas e circulação sanguínea deficitária, a posição de lótus não é nada confortável.

O estado meditativo não se compadece com  maleitas do corpo. É um bálsamo da Alma, mas os seus efeitos físicos não estão ainda devidamente documentados pela medicina baseada na evidência.

Noblesse oblige”, ofereça-se a carne ao esforço para ganhar a vida eterna.

O   dia desafia-se num corropio de actividades que tiram o peso do tempo e do espaço. Cumpre-se o roteiro do despojamento.

Desquitada  de um cristianismo com cheiro a naftalina, deu por concluido o capitulo da profissão de fé,com o enterro do amantíssimo esposo, vai para seis anos na campa 357-AB no cemitério dos Prazeres, num local recatado.Nem sempre se tem essa sorte, dá gosto visitar e quem lá mora não se queixa de humidades, o torreão dá de caras com o sol todo o santo dia.

O contacto fugaz com a presença absorvente do Senhor, dá-se ao  puxar o brilho do crucifixo de estanho quando vai de visita à campa, visitas estas  cada vez mais espaçadas. Mas mesmo quando dá lustro ao relicário ,a fé não atinge níveis terapêuticos. Apenas ténue impressão magnética, talvez da fricção repetida, e pouco mais.

Sendo  mulher sensata e precavida e como as potestades andam por aí, ela deixa a porta entreaberta, não vá algum querer entrar.

O tempo passa, faz-se acompanhar de mais incertezas, e indo-se para velho não se pode andar desprotegido de seres ubíquos, de objectos de culto, de rituais, da parafernália  que acompanha a espiritualidade, que dá  jeito em momentos de necessidade.

Após leituras compartilhadas com as amigas mais chegadas, abriu os braços e o peito generoso à Nova Era, a religião “light” dos tempos modernos. 

Pequenas porções do divino, sem sal nem condimentos, mas coloridas a gosto. Uma dieta da Alma que baixa os níveis de colesterol do abuso dos confessionários , das promessas cumpridas com sofrimento , das idas santuários mal frequentados dos cilícios que apertam as coxas - e maltratam- das banhas das religiões oficiais.

Não sendo mulher de meias tintas, quando se mete num assunto, leva a experiência ao limite, explora todas as fronteira da aventura.

Inchada de tempo, preencheu com actividades de enriquecimento espirirtual  os poros do dia.

Workshop esotéricos,  biodanza, regressões e progressões, círculos de luz, cristais que custam os olhos da cara, sempre na mala para que as boas energias a acompanhem. Tanta movimentação levou-a a um patamar superior, mas finge que não em falsas modéstias, apesar do umbigo a trair quando menos espera.

Desperta todos os dias pelas 7h00 , executa séries de três respirações abdominais profundas, para centrar a mente e o corpo, e veste-se com um mau gosto dificil de ir para pior.

 Túnicas floridas, mix de cores e venham mais, calças incomodamente largas  e sapatos rasos, com sola de pneu de viatura motorizada, passados de tempo e contexto. Tivesse mais unhas, contadas as das mãos e pés, com mais cores as pintaria:  catálogo Robialac do Merlin.

Às  8h00, nos jardins da Gulbenkian: Tai-chi chuan. 

Um chinês possivelmente mudo, nunca se lhe ouviu um som, executa uma dança em câmara lenta, de costas para a audiência. Os alunos imitam com a melhor das intenções, não se sabendo se o resultado é satisfatório, posto que o  mestrenão corrige as posturas e os movimentos.
 
A sessão faz-se acompanhar pelo chilrear dos passarinhos e pelo ruído dos carros, não completamente abafado pelo arvoredo circundante.

Às 10h00 infusão de ervas medicinais, numa conhecida casa de Campo de Ourique.
 Houvesse mais tempo para o ritual japonês do chá, mas a correria da cidade e a agenda apertada , contentam-se com esse estabelecimento aprimorado. 

 Às 12h00 aula de Reiki, segundo nível. criada em 1922 pelo monge budista japonês Mikao Usui. Energia vital universal "Ki"  manipulável através da imposição de mãos. Com esta técnica, os praticantes canalizam o fluído universal  restabelecendo o equilíbrio natural da mente, da emoção e do corpo físico.
Quando o simpático mestre morreu acabaram-se as boas intenções, e os  discípulos mais chegados, fundaram  três escolas diferentes. 

A avidez do nosso olhar ser a verdade universal!

Das 13h00 às15h00 refrigério e sesta retemperadora. 

Acorda e entretêm-se uma boa meia hora com renda de bilros, herança da falecida mãe, gente do Norte. A renda é  boa para as articulações da mão,  ginástica para manter a funcionalidade e saúde dos dedos. Também dá folga à  mente.

16h00 aula de pintura de Mandalas na Associação Budista. 

Um caucasiano europeu com um rosário na mão , de nome  Mala – o rosário -   balbucia uma ladainha indecifrável, meio cantada meio falada  e projecta numa parede branca figuras geométricas que representam a dinâmica da relação entre o homem e o cosmo . 

Os mandalas são utilizados para concentrarem a  atenção, afastar as distrações dos aspirantes e adeptos, são uma ferramenta que ajuda a abrir o espaço do sagrado,  Ajudam na meditação e induzem ao transe  que é um estado difícil de explicar.

Os participantes da sessão escolhem do cardápio uma figura e projectam-na numa folha de papel de cenário onde  traçam os contornos a lápis. Preenchem minuciosamente os espaços com cores, embalados na doce recitação de um mantra tibetano, que sendo em sânscrito não se  entende, mas que produz na mente o efeito libertador do abandono do "eu", seja o que isso for mas que soa bem.

O workshop vai ocupá-los durante um mês. Até ao fim do ano já se inscreveu  na “meditação dos corações gémeos”,  no“ sistema de cura do corpo espelho” e no “trabalho transpessoal das mulheres que correm com os lobos”. Este, particularmente, estimula-a bastante. Depois de ter visto a saga do “Crepúsculo”, fascinou-se pelos lobisomens, que afinal em condições normais, parecem bons rapazes. Quando se tranfiguram  ficam menos simpáticos.

Haverá ainda para encerrar a temporada, uma sessão especial para praticantes avançados de técnicas de visualização do lamaísmo Bon, onde espera ela com alguma inquietude,  aprender a domar os demónios que invadem a mente, transformando-a num reflexo do Nada. Com esta aprendizagem final, conta poder aquietar-se definitivamente.

Quase se esgotou o dia e a Maria do Carmo sente-se  cada vez mais ausente de peso, o que para uma mulher seja de que idade for é a maior das bençãos.

18h00 Num conhecido restaurante vegetariano da cidade onde no andar de cima,  há um pequeno templo budista tibetano, 

Meditação para ocidentais. Vinte euros por mês, duas vezes por semana. Cada seis meses sobe-se de nível. Podemos ser lamas tibetanos em três anos.

A sala está em penumbra  a boa insonorização do prédio impede que os sons dos talheres dos clientes que trincham os bifes de seitan criem interferências sonoras no processo de tranquilização da mente. 

Nas paredes pintadas de cor de vinho, máscaras medonhas , pinturas com caretos e figuras de arrepiar cabelo,  emparelham com personagens anafados e rechonchudos sentados em mantos de flores de lótus . 

Um fumo branco de cheiro intenso adocicado e agro, desprende-se em espiral de um incensório de madeira finamente trabalhada.

Existe um altar. Todas as religiões têm um altar.

Num dos cantos, quase esquecido,um homem envolto numa manta cor de tijolo,  olhos semi-cerrados, pousa  a mão ao de leve nas cabeças dos alunos, que as trazem juntas  em  sinal de prece  reverência.

Os que podem, sentam-se na posição de lótus, os outros trazem almofadas e conforme as autorizados do esqueleto acomodam-se.

Tranquilizados os ruídos, executam-se algumas respirações profundas  para acalmar a mente. Instala-se o silêncio, o monge recita os mangras e esse estado de quase anestesia a juntar à inalação dos fumos do incenso , transporta-os para um local diferente  Há até quem afirme já ter visto  alguns adeptos a flutuar no ar. Não importa que seja muito , qualquer milímetro conta.

O dia chegou ao fim.

De volta a casa com tempo  para acender uma vela de cinquenta cêntimos a Nossa Senhora, na Igreja da Misericórdia. Não vá o Diabo tecê-las!

Pela frente mais uma infindável noite de insónia. Queiram os seus novos deuses e energias que passe rápida que ela ainda não se habituou a dormir sózinha naquela cama enorme com lençóis de flanela estampados. Já se esqueceu de ter os pés quentes.

Os tibetanos quando morrem são esquartejados e deixam os seus restos expostos às aves necrófagas.

“Isso é que já não sei se gosto. Prefiro o aconchego de uma urna almofada e forrada de cetim. Uma pessoa fica mais recatada”.

A Maria do Carmo deixou-se ficar na escuridão do quarto a marinar nesta decisão futura.



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Tertúlia das Letras





Quando se vai para velho, dorme-se menos e  já que mais tarde ou mais cedo vai ser uma eternidade seria sensato aproveitar a vigília.  Mas isto é um contrasenso já que quando se vai para velho, o tempo em si, custa uma eternidade a passar.

Os minutos levam uma eternidade a dar a volta à hora, muito mais que sessenta. 

Com a companhia da solidão cada um amanha-se como pode, a única e derradeira companheira que não fenece antes de nós. De braço dado, leva-nos até à última porta, solenemente revestida do seu papel de meretriz.

Maria da Dores, acordou numa grande excitação. Tem 73 anos, pelo que a excitação advém de uma ânsia especial por algo que vai acontecer, presumindo-se que com essa idade, não será uma questão hormonal.

Todas as primeiras quintas-feiras do mês, fins de tarde, reúne-se a tertúlia das letras. Grupo reduzido,  pessoas avançadas, faltam jovens.  

Maria da Dores dorme habitualmente  mal e toma depois de um  jantar frugal, resumido a uma sopa anémica,u ma dose apreciável de Xanax. A valeriana há muito tempo que não vai lá.

 Até que o comprimido faça permita um sono com efeitos saltitantes, agora durmo, agora parece que não, faz a contabilidade da vida, para ter a escrita  em dia.

Mesmo assim o efeito é retardado, adormece ao raiar da manhã, e fica achatada na cama como um linguado inerte, já que não é habitual ter compromissos inadiáveis a horas tão matutinas.

Por volta das onze da manhã consegue ouvir decentemente as noticias de um pequeno radio-relógio despertador com uma luz estridente com números que até com cataratas se veem. Está pousado na mesa de cabeceira , onde também se encontram estacionados um copo de agua, tapado por um pequeno pano de renda circular – arqueologias do passado-,  livros do momento e um candeeiro com um elaborado abajour de seda mesmo na fronteira do piroso, dependendo da perspectiva.

É friorenta e não tem quem a aqueça. Vai para a cama com  meias de feltro, e tirá-las para calçar os chinelos de quarto, que trouxe de um hotel  numas férias longínquas na Isla Cristina em Ayamonte, é o primeiro exercício da manhã.

Hoje a Maria das Dores desperta cheia de energia.

Um gato compõe a cena. As pessoas espirituais preferem os gatos.

Enquanto  agua do chá anda à procura do ponto de ebulição, põe um disco a rodar numa aparelhagem do seu tempo,. Qual foi o seu tempo?  Uma efeméride de plenitude arrumada na memória poeirenta de quem já viveu muitos anos. 

A aparelhagem é uma relíquia com valor de mercado nos sites de leilões, mas vai ficar ao critério dos filhos quando um dia vierem inventariar os móveis e dividirem-se entre si pelo que cada um mais deseja. Junta-se uma história e ninguém nos fica com ela, só lhes interessam os objectos.

Gosta dos românticos, pelo que se serve todos os dias de uma dose generosa de Chopin. 

Como o efeito do comprimido ainda se faz sentir, ainda momentaneamente zonza, fica-se por casa, desentretida nas pequenas lides do lar, sempre infindáveis.

Leu algures numa revista que os ingleses tinham mais prazer numa casa arrumada e a cheirar a limpo do que  na actividade sexual regular, o que a reconfortou bastante, apesar de já ter uma ideia distanciada sobre o assunto.

Uma pessoa que vive acompanhada de si mesma, poupa-se nos gestos e nos hábitos: tem seis cadeiras de palhinha, mas senta-se sempre na mesa. Repete igual princípio com os sofás, o lado certo da cama, o copo, o prato, a toalha de banho. Nesta fase da vida escolheu de uma vez por todas os objectos mais íntimos, e não perde nem mais um segundo a olhar para os outros. Constam do acervo museológico da inutilidade nada mais.

Depois de passar o pano do pó e pouco mais, no bric-a-brac  da vida, o dia chega a meio.  A tarde vai se alentejanar, a noite então, anda para trás.

Maria das Dores frequenta o mercado biológico porque tem dinheiro para isso e está convencida que os produtos orgânicos lhe garantem mais um par de anos .

Convencimento encorajador já que de si o tempo  custa tanto a passar , com os produtos biológicos vai custar na mesma, mas de uma forma muito mais saudável.

Prepara para ao almoço uma mistura de legumes, que em  sobrando, se repete  ao jantar,. Quanto à sopa alterna-se na ementa,dia sim outro não.

As carnes entopem as veias, pelo que foram banidas, desde que o Coronel morreu, esse sim um carnívoro de primeira. No entanto, há dias em que a recordação de um de belo um cozido à portuguesa, desperta alguma palpitação.

Duas ou três vezes por ano permite-se ao desvario de uma dose de  cabrito assado com arroz de miudezas e grelos,  depois das caminhadas com as amigas, na serra de Sintra.

Nesta quinta-feira, o grupo vai assistir a um painel de convidados especiais que vêem falar sobre os escritores malditos, e sendo um tema estimulante, fica esclarecida a excitação  da Maria.

Estudou aturadamente o assunto, e preparou-se : a designação nasce com os românticos franceses, Paul Verlaine, como título de artigos publicados no Boletim Lutèce, para nomear o seu amante Rimbaud, a quem chegou a dar um tiro, onde nos leva o amor e a loucura.  

A partir daí foi um ver se te avias a nomear de maldito tudo quanto escreve, pinta ou faz música.

Leva as notas e apontamentos, num caderno moleskine, no caso de fazerem falta.

A meio da tarde vai à Neide arranjar as unhas e dar um toque no cabelo. Desta vez sai laranja, que é verão e este ano está na moda.

Às sete horas em ponto, entra na livraria no Chiado e escolhe um lugar na primeira fila.

Os horários nunca são cumpridos, não importa, deixa tempo a que os seus olhos procurem as amigas retardadas e se troquem comentários de cisrunstância.

Do painel do dia consta uma jornalista com cara séria,de se dar ao respeito, que atira perguntas como isco aos peixes. 

Três peroradores aconchegam-se com prurido em sofás de orelhas antigos - relíquias perdidas no armazém da livraria,  recuperados para a função. Uma Crítica literária, um Sociólogo e o Filho de um escritor maldito, entretanto falecido, compõem o ramalhete.

A Crítica , mordaz e ácida, enumera de uma lista do  Ipad  poisado no colo , os vícios dos malditos com as drogas, o alcool e os excessos na vida. E fá-lo com uma expressão  rubicunda, não seja a vermelhidão prenúncio de apoplexia eminente.

O grupo da Maria das Dores, entrado em anos mais muito energético, vai acenando com a cabeça e validando numa frenética sem contenções, as valiosas informações da crítica. 

Sim senhor, o Bukowsky era alcoólico. Está certo, o mesmo vício para o Hemingway.

 Senhor que se segue…

Cocainómanos, heroínomanos, os mistos, e sempre que a crítica enuncia um  nome do panteão, o coro exprime-se em sururu numa surdina intelectual, corroborando o elevado conhecimento e excelso coturno da mestra.

O sociológo escreveu um livro sobre o tema, e fala de cátedra, o que o reconforta bastante, já que só ouve a sua própria voz.Tendo conhecido em vida o pai do filho que se sentava à sua esquerda, era o único na sala que, se saiba, que tinha convivido directamente com essa espécie, o que lhe deu ascendente na audiência.

Quando algum dos companheiros ensaia uma opinião, ele interrompe e leva-os ao tapete. Exprime-se mesmo bem.

O filho do maldito está quase sempre calado e aceita, nem sabe porque o convidaram: ser-se filho não habilita a nada.

 A Crítica , porque tem muita prática nestas tertúlias e sentindo a audiência em suspenso,  ainda presumiu de o ofuscar- o do livro - mas o raio do académico é irredutível e sendo assim ela numa última estratégia, opta pelo beicinho e amua.

A audiência está a gostar, ninguém interioriza discursos de olhos fechados .

A moderadora pergunta ao filho que significado teve para ele ter sido  filho de um artista maldito. Boa pergunta, esta de se ser filho dos pais que saiam nos bingos do céus.

Ele,  criado despudoradamente na omissão de pai,  referiu educadamente não ter sido  agradável ser agredido com uma faca pelo progenitor, independentemente da sua genialidade enquanto artista. 

A conversa ficou por aí.

Acabou a sessão e ficou por dizer que a maldição do artista, de todos, é que a obra imaginada é sempre maior que a possibilidade da sua criação. Por isso somos seres mancos, incapazes da perfeição: é a inquietação suprema do homem. Mas isto são outras reflexões.

As pessoas vão saindo e já se arrumam as cadeiras, quando a Maria se aproxima do grupo reduzido dos discursantes que são massajados nos egos pela sua corte de seguidores. Não vai perder uma oportunidade para redimir-se de argumentos com esta gente da cultura.

O dia fez-se longo, já não há romenos nas esquinas a pedir dinheiro, os transeuntes  escasseiam, caminha-se agora tranquilamente.

Chega a casa por volta das nove. Toma o comprimido. Aquece as sobras  no micro-ondas  e estende-se no sofá, para ver a novela da noite.

É o seu momento do dia, de repouso entenda-se.

Com as pernas esticadas sobre duas almofadas com flores estampadas  vermelho vivo espera que a circulação sanguínea normalize e lhe devolva  as pernas . Dormita.

Acorda ao som das televendas e arrasta-se para a cama. Recomeço do lento pingar dos minutos que consomem uma noite.

Amanhã não há tertúlia, o que vou fazer?

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O Leitor Atento


Depois da reforma, na antecâmara do tempo que prepara a saída de palco, muitos sonhos esperam com as senhas na mão, a sua vez para serem atendidos a tempo. Uma noite de sono, nove horas bem medidas, não são suficientes no balcão de atendimento para satisfazer todas as expectativas dos que aguardam a oportunidade de serem projectados em technicolor no animatógrafo pessoal.

Este acervo de trabalho inesperado, pede empenho suplementar, horas extraordinárias na cama, é difícil contrariar um horário exigente e ordenar à mente que desperte o corpo.

Até as micções frequentes, se sentem prejudicadas: levantar-se para ir à casa de banho, é desperdiçar tempo útil. Desafiando a virilidade,  de pouco uso para quem está casado há cinquenta anos, optou pelas fraldas, seja o caso de uma incontinência mais premente. Ninguém sabe, não é pois uma fragilidade maior.

Com papos nas pálpebras descaídas,  poisa os pés no chão num tapete gasto, não se lembra de outro, à beira da cama que lhe deu filhos, prazeres, dores e muitas horas a olhar para o vazio que preenche a trevas das noites.

Inicia as rotinas do despertar: passar as mãos gastas do uso nos cabelos ralos que descompõem uma cabeça cheia de crateras capilares, alopecia, diz-se; bocejar porque tem de ser; esfregar com pouca convicção os olhos pequenos descaradamente míopes, reposicionar os óculos de massa, voltar a ver decentemente; pôr-se de pé, no seu metro e meio, rumo à casa de banho, primeiro objectivo do dia.

Aí, mais dormente do que adormecido, executa o exercício diário de vinte minutos sentado numa bicicleta enferrujada pelas humidades normais destes locais e porque também já se encontra aí estacionada desde sempre. Enquanto pedala desmotivado, porque não vai chegar a lado nenhum, pendura os olhos nos azulejos de cor indefinida e mau gosto. A estética ou a sua falta não lhe altera os humores.

Alivia-se prolongadamente.

Faz a lide do corpo pelos processos tradicionais: para a cara, pincel, espuma, lâmina num cabo de osso ; para a restante área corporal um duche  rápido para poupar nas contas; ajeita a camisola interior de alças por dentro das trusses igualmente brancas, que só se mudam dia sim dia não. Olha para o espelho, não se acha nada de especial: continua idêntico a ontem e espera ter a mesma opinião no dia seguinte.

Com esta constatação, esfrega as mãos com colónia Ach Brito e esbofeteia-se, o que é um exagero para dizer que perfuma o rosto recém escanhoado.

Regressa ao quarto.

Vai ser uma camisa extravagante comprada em viagens pelo mundo, nas excursões geriátricas que pagam para andarem duas semanas a mudar de avião, autocarros,  comerem comidas disfarçadas de exóticas,  dormirem em quartos minúsculos em hotéis periféricos, com vistas para nada,  assistirem até à náusea a sessões apressadas do folclore local, nos “lobby”.

Viajou por tantos destinos sem se dar conta.

É certo que as cores não conjugam mas esse é o critério da escolha, a sua imagem de marca. Toilete concluída, do conjunto fica a impressão de uma desarmonia intencional.

Na cozinha pousa os braços na mesa de fórmica, forçando-se a comer um iogurte natural e uma carcaça, sem conteúdos. Raramente toma café, apesar de apreciar os seus aromas subtis.

Sai de casa, faça chuva, faça sol, e pouca variação mais porque o clima é temperado. Como é para o friorento, agasalha-se em demasia.

Dirige-se, nem depressa nem devagar, ao quiosque que dista uns trezentos metros bem medidos, na esquina da rua principal. Detêm-se eventualmente para cumprimentos e interlúdios de circunstância: coisas habituais, sobre o tempo, as politiquices do momento, os trabalhos que os filhos já pais de filhos continuam a dar...

Em notas de descrição geográfica, a localidade onde habita é uma pequena cidade dormitório, paredes meias com os limites da capital, mas sem fronteiras ou espaços de fracturas reconhecíveis, tudo igual. Tem um nome desinteressante de origem árabe, é um dormitório de velhos e emigrantes de segunda geração.

Todos os dias compra o mesmo jornal, um matutino respeitado  que se mantém mais ou menos sério – assim o deixem os interesses – apesar do jornalismo já não ser como era antes,  desabafo recorrente que os velhos usam para se referirem ao presente: “no meu tempo é que…”

As opções não são muitas: caminhar sem rumo, passear o cão, jogar às cartas, sentar-se num banco de jardim e ler o jornal, ou remoer as agruras da vida, uma modalidade que ele pratica  assiduamente.

Opta pela leitura do jornal. Indo-se para velho, as pequenas rotinas dão mais segurança e conforto e o jornal continua a ser a sua ligação directa com a realidade. Não gosta de ouvir ou ver as notícias. Notícia é palavra, e esta lê-se.

Em jovem transportava-as debaixo do braço, acabadas de chegar, aos senhores cavernosos e taciturnos do lápis azul. O seu amor pelos jornais é um caso sério. Nesse tempo desconhecia as maldades que esses senhores infligiam às palavras que construíam as ideias, só mais tarde compreendeu.

Soubesse isso e nunca as teria servido de bandeja à voracidade dos vermes.

Sempre com ele debaixo do braço- com as palavras agora mais leves e soltas porque não foram encarreiradas como alguém quis - postura tão banal que nem devia ser referida, continua  caminho, peregrinação diária, absorto em pensamentos ou na falta deles.

Quem entra no jardim pelo lado oriental, ou seja quem está virado de frente para o rio, do lado esquerdo, é o décimo quarto banco. Identifica-se pelos dois corações esculpidos, obra de canivete, que penetram um no outro com dois nomes escritos, que não se revelam mantendo a privacidade dos amantes.

O banco está pintado de verde como os outros. Goza de uma boa orientação, virado a Sul, permitindo aos utilizadores, acompanhar o trajecto do Sol no seu apogeu diário. Um plátano majestático, facilita sombra em dias de calor, mas há quem diga que não é uma árvore saudável para os alérgicos.

O jardim, não se pode dizer que seja dos mais frequentados, teve melhores dias. Não havendo dinheiro para lavar a cara das casas e remendar  ruas, como há de haver para regar plantas?

Ele toma posse do seu banco, encostando-se à esquerda para quem olha de frente, cruza as pernas, a direita por cima da outra, respira fundo e observa atentamente o espaço circundante, certificando-se que tudo está igual à véspera.

Endireita o jornal, como se este tivesse aquele pau imaginário que se usava nos cafés do antigamente, e deita o olhar na primeira e na última página. A partir daí, segue do fim para o princípio: anúncios, temas triviais, social, programas de televisão, desporto, cultura – pouca-  aproximando-se das coisas que pedem mais fôlego: as economias, as políticas caseiras e as de fora.

Nos dias em que o recheio pede uma degustação mais apurada, leva aproximadamente uma hora na tarefa de ler.

Ao terminar, segue em passo acelerado para o urinol publico. Durante o dia não usa fralda, que incomoda os movimentos. Detêm-se o tempo necessário e suficiente ao esvaziamento, com cuidados para não escapar nenhuma gotícula. Abana  convenientemente.

Segundo capítulo: de volta ao banco, senta-se no mesmo canto, mas desta vez não cruza as pernas. Saca do bolso da camisa uma esferográfica Parker com banho de ouro, oferecida pelos colegas no jantar de jubilação. A caneta tem o seu nome impresso, e uma data que identifica o dia em que ele deixou de ser  útil e passou à categoria descartável.

Sublinha detalhadamente alguns títulos, excertos de frases, frases inteiras e vai salpicando o jornal com pontos de exclamação e de interrogação, que na pontuação em geral, são os sinais pelos quais nutre mais afeição.

Aproveitando os espaços livres de letras: as laterais, as fotografias, qualquer superfície onde se possa escrever, rescreve os artigos, deita opinião, critíca, desencanta na memória, já baralhada, exemplos do passado e sustentabilidade intelectual para os seus argumentos.

Haja dignidade, conceito vago que muito preza e de que não desiste.

Mais uma hora nestes trabalhos. A manhã está quase.

Dando-se por satisfeito, tira do bolso  das calças um sobrescrito dobrado e um pouco amarrotado , alisando-o cuidadosamente. Mais cinco a dez minutos nisto. O sobrescrito vem com um selo, apenso na véspera e o destinatário está escrito numa caligrafia que já não se aprende nas escolas.  Endereçado ao Conselho de Redação do jornal.

Com uma pequena tesoura de um canivete multifunções recorta e retalha os conteúdos da sua análise, e depois de os colocar no envelope, certifica-se que este está devidamente selado.


Levanta-se devagar, depois de estar muito tempo sentado pode ter tonturas. Limpa o banco com o lenço de assoar, e afasta-se olhando  uma ou duas vezes para trás, em jeito de despedida, que pode ser definitiva a qualquer momento.

A caminho do restaurante, na Baixa - num eléctrico amarelo que demora aproximadamente quarenta minutos até ao destino- deposita a carta num poste vermelho com uma ranhura, resquícios de mobiliário urbano em praticamente extinto. Podia fazê-lo num posto dos correios, mas como todos os velhos, há coisas de que já não se abdica, e o poste é uma delas. Fiel a princípios.

A mesa do restaurante, que é sempre a mesma há anos, tem cada vez menos comensais, está a ficar desconfortavelmente vazia. Vão-se subtraindo cadeiras para disfarçar, mas o espaço não preenchido dos corpos que faltam à chamada, não se desocupa tão facilmente dos olhares presentes.

...

Nos primeiros anos ninguém lhe deu atenção. Os jornais não ligam a anónimos, muito menos excêntricos. Ninguém liga a anónimos e é por isso mesmo que eles o são. Não é vontade própria.

Quem abre a correspondência do chefe, não gosta do trabalho que faz. Gostaria que a sua cara e o seu nome aparecessem, um dia, num editorial em primeira página. Abrir cartas é um longo caminho para a fama.

Com um estagiário destes há uma razoável probabilidade estatística de que as suas cartas tenham sido enviadas directamente para  arquivo morto todos estes anos.

“Velho (não sabe se é velho ou não) louco que não tem mais nada que fazer senão incomodar quem trabalha. Tanta noticia importante para dar ao mundo! Porque é que não se entretêm com a bisca em vez de me vir chatear a molécula!”

Lixo.

Mas esta história não é recente, tem muitos anos de banco de jardim, de caneta, de tesoura e de selos dos correios e os estagiários não são eternos, vão e veem.

Por alguma razão misteriosa que se desconhece, visto não se saber o que se passa nas redacções dos jornais, alguém começou a resgatar as cartas do lixo e as começou a ler. As missivas iniciaram desta forma a sua passagem de mão em mão, alimentaram curiosidades, atearam o fogo da imaginação: quem será este personagem que assina como “Leitor atento” no remetente das cartas ?

Que homem é este que não espera respostas, sinais de simpatia ou antipatia, que nunca virá a saber que foi lido, porque nunca escreveu o nome da sua rua, o número e o andar do prédio onde descansa os sapatos? Porque se dedica tão fielmente a emendar textos, assinalar erros, imprecisões, a desafiar com conselhos de emenda a noticia mal escrita, coxa de fundamento, insonsa de ingredientes?

Vinte anos de desassossego. Descontando fins de semana, para descanso e convívios, um ou outro dia de baixa por doença, enviou pelo menos cinco mil cento e quarenta cartas de que não guardou uma única cópia. Ninguém sabe o que ele escreveu, nem ele.

Quando chega a casa ao fim de um dia que nunca mais se esgota, ainda não morreu e o tempo já lhe parece uma eternidade, come uma sopa de feijão e vai para a cama.

Pega no trabalho dos sonhos, lavra de grandes responsabilidades, toda a atenção , não  escape uma cena fundamental ao entendimento no desenrolar das histórias bizarras projectadas no seu écran virtual.

Num filme em reprise, apreciado pelo único espectador que é ao mesmo tempo o projectista , um menino corre ofegantemente com uma pasta de cabedal debaixo do braço. Procura a sala certa num corredor soturno. Deposita a medo o conteúdo da pasta numa mesa de repartição pública onde um homem com cheiro a naftalina, com um lápis enorme, amesquinha as notícias do dia.

Foi assim, na violação das palavras, que o Américo se tomou de amores por elas.

As vezes quando a meio da noite faz um intervalo, pensa que ainda vai a tempo de as juntar sem equívocos. Se calhar tudo isto não passa de uma alucinação nos intervalos da insónia.

Em todo o caso, o banco do jardim existe, e ele cruza as pernas, a direita por cima da outra com o jornal nas mãos.

Faz grandes maratonas na cabeça. Quilómetros e quilómetros.