segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Homem Bala salva a Doninha bem-cheirosa



O super, mega, ultra-sónico homem Bala, atravessou o mundo de um lado ao outro, num relampejo de olhos para salvar a doninha bem-cheirosa, feita prisioneira do bando das formigas gigantes.

O nosso Bala ouviu o gemido de socorro da doninha, do outro lado do mundo, porque tem uns super poderes fantásticos e ouve realmente muitíssimo bem. Já estava com o seu pijama patusco dos pinguins , com os pés repousados na mesa – coisa que os meninos não devem fazer, porque é feio – a descansar de mais uma missão ultra-secreta de salvamento, quando recebeu a sua mensagem. Foi só o tempo de pôr aos ombros a hiper capa-asa e partir em socorro.

Habitualmente, é pela janela da sala, no terceiro andar, que ele costuma sair. E assim fez.

As formigas gigantes são tantas, que nem se poderia alguma vezes contá-las a todas! Mesmo que se pusessem todas alinhadas, sossegadinhas, era preciso que houvesse alguém cheio de paciência e muito bom contador, para chegar a um número final  e se por acaso se perdesse na conta, lá teria que voltar ao início da lengalenga.  Grandes trabalhos de contagem não são para qualquer um!

Dizia eu que elas atacaram a doninha quando a intrometida meteu o nariz na sua casa, formiga é um dos alimentos preferidos das doninhas. As formigas não têm mau feitio mas ninguém gosta de ser comido e mesmo a doninha não tem nada de pessoal contra elas, mas são docinhas e isso torna-as irresistíveis! Um petisco de se  tirar o chapéu!

As leis da natureza são assim, nem boas nem más, cada ser tem os seus trabalhos e as suas comidas preferidas, e não há inimigos nem malandrices. As formigas, por exemplo pelam-se com as folhas  verdes e bem tenrinhas e os pequenos arbustos não se queixam. As doninhas – já se sabe – papam as formigas, outros bichos comem as doninhas e os homens, comem tudo. São assim as coisas e nem as podemos discutir, só aceitar.

A bem cheirosa é um animal de bom carácter e estimado por todos. Reconhecida no reino dos animais, plantas e afins pela boa disposição, sorriso aberto, pronta a ajudar os habitantes da floresta, quando estão em apuros, mesmo dos que não se importam nada de a mastigar. E foi por esse motivo, que o homem-bala, que está sempre do lado dos bons, despiu o pijama dos pinguins, deixou o quentinho do lar e veio em socorro da amiga.

Chegou num repente pensando pelo caminho que realmente tinha sido uma boa compra, esta nova capa-asa feita dos materiais dos astronautas. Cara, mas dinheiro bem gasto que lhe proporciona um voo supersónico . Estacionou a capa-asa num galho de uma árvore e deparou-se-lhe um cenário insólito: a amiga tinha as pernas atadas com umas lianas, que são cordas feitas de ramos de árvores e estava esparramada de barriga para cima. Centenas ou mesmo milhares de formigas andavam em cima dela, para cima e para baixo, da barriga até ao pescoço. Uma plateia enorme, assistia e batia palmas desalmadamente. Quer dizer, se aquela coisa que elas fazem de estar a esfregar as patas da frente, é bater palmas! Nisso o Bala ficou na dúvida.

Como têm pernas que nunca mais acabam, se pudéssemos multiplicá-las chegaríamos a um número com tantos zeros que até nos dava a volta à cabeça. Calcula agora tu, todos esses pés juntos, o efeito que causam no passeio para cá e para lá: a grande tortura das cócegas.

A doninha ria a “a bandeiras despregadas” que nem uma perdida. Tanto tanto, que chorava.

Bandeiras despregadas é uma coisa que se diz e quer mais ou menos dizer: “velas dos navios ao vento”, “bandeiras desfraldadas” ou “bandeiras ao vento”. É rir como nos dias de festa em que só apetece mesmo é estar sempre de boca aberta a mostrar os dentes. Nos dias de festa, as bandeiras são desatadas para serem agitadas pelo vento e assim nasceu esta frase tão engraçada.

É que somos um povo de marinheiros e de barcos  e então estamos sempre a inventar frases destas para dizer. Frases feitas, percebes?

O homem-bala ficou sem saber como reagir. A chefe das formigas recebeu-o educadamente e disse-lhe que elas não tinham absolutamente nada a dizer sobre a doninha, que até gostavam muito dela. Mesmo assim, tinham decidido dar-lhe uma pequena lição, para não andar sempre a meter o nariz onde não era achada. E o castigo era pô-la a rir até mais não.

Chegada ao não e elas estavam bem atentas a isso, dariam por concluída a reprimenda e iria cada um à sua vida, amigos como antes.

O Bala, muito mais relaxado, aproveitou para se encostar a uma árvore deliciosa que estava a pedir que alguém se encostasse a ela, e ficou a assistir à festa. O dia tinha sido duro, salvamentos e mais salvamentos. A vida de herói tem as suas compensações, mas há momentos que se chega a casa com uma dormência nos braços, de estarem todo o tempo abertos a fazerem de asa.

Quando a bem-cheirosa já se tinha rido até à canseira, depois de livre das lianas e de barriga para baixo, deu dois dedos de conversa com o amigo, agradeceu-lhe com toda a simpatia os trabalhos a que se tinha dado de a vir salvar e despediu-se apressadamente .

O tempo de cativeiro deu-lhe uma grande larica, e tinha que ir à procura de comida, que se estava a pôr tarde. Nos bosques e florestas não há supermercados, nem lojas de conveniência. As formigas e mais as suas pernas, voltaram ao trabalho de carregar folhas, coisa que fazem seja dia ou noite. O nosso herói sacudiu o pó da capa-asas e meteu-se a caminho de casa, onde o esperava uma sopinha de agriões, aquecida no microndas, que amanhã, outra vez, o trabalho aperta e ainda bem que não inventam outro herói, senão ele ficaria sem nada para entreter o tempo.


Para sermos sinceros, a D. Mariana já não sabia muito bem como esticar a história mas o Joãozinho, menino menino - os únicos anjos visíveis a olho nu que os homens conseguem ver - finalmente adormeceu, o que lhe deu paz e descanso de tanta invenção para entreter o anjinho.

Os livros das crianças são sempre uma história em aberto. É quando elas começam a fazer perguntas ao narrador que este, para não dar parte de fraco, começa a seguir por outros caminhos. É nesse momento que as histórias verdadeiramente se inventam. Quanto mais tempo se aguentarem , melhores são.

D. Mariana fechou o livro. Arrumou-o na prateleira das estórias na ordem e corredor correspondentes. Fechou a porta da cabeça com uma chave que tem pendurada do fio ao pescoço.

Ajeitou suavemente os lençóis, puxou as grades da cama para cima, e tranquilizou-se que as gotas da vida continuavam a gotejar sincronizadamente do saco suspenso do cabide metálico, confirmando as leis da gravidade.

Também as máquinas continuam a emitir os sons habituais – ainda bem - neste pequeno mundo, já não se dá por elas.

Tirou a bata amarela, guardou no bolso o nariz vermelho de espuma, e encheu de Amor, o depósito do quarto.

Compôs o corpo despenteado de estar tanto tempo sentado.

Ao de leve encostou a porta, sem incomodar e despediu-se, até já, do seu menino-anjo.

Cá dentro é penumbra, lá fora está dia.

Percorreu os corredores brancos e frios e longos e aborrecidos e muito vazios. Desceu as escadas monótonas e muitas e escorregadiças e sem corrimões. Saiu do edifício de costas feitas e sem olhar para trás. Um edifício enorme, branco, soturno, adoentado. Ancoradouro das doenças.

A rua, acabada de despertar, esfrega os olhos. Enquanto esperava a carreira 27, rumo à simpatia da sua casa na Pontinha, lembrou-se de não se esquecer, que hoje, quando voltar ao turno noturno  de voluntariado, tem de contar ao Joaozinho que no reino dos animais não há mal-entendidos, nem zangas. Esta não vai ser fácil de explicar, mas é muito importante que o Joaozinho aprenda as diferenças entre os bichos e os homens, porque o Joãozinho, não o sabendo já, é um pequeno grande homem e esta aprendizagem dá jeito em todos os futuros por acontecer.

É um menino atento que percebe tudo. O tempo não lhe deu tempo de botar corpo, mas deu autorização à sua pequena cabeça para crescer numa correria desenfreada: ficar grande num lampejar de olhos.

Os anjos acreditam em tudo o que se lhes diz.



Descansa meu Joaozinho, até já.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Deus


Percorro todos os dias o mesmo caminho, a caminho do trabalho. Reconhecemo-nos caras, anónimos como eu; caras que tomam café, atrás das vitrines de pastelarias, eles dentro, eu passeando o meu olhar sobre eles; caras de transeuntes à porta de um supermercado de análises clínicas, que já vi duas ou três vezes, em pouco tempo; caras de taxistas à espera de fregueses.

Dos que saiem da estação de comboios e fazem o mesmo trajeto, rua acima, temos alguma intimidade , somos a mesma tribo.

Entreolhamo-nos, nas paragens temporárias enquanto não mudam sinais para atravessar as ruas que nos cruzam, e sempre os mesmos, expectantes da alternância para o verde dos peões, para serem os primeiros a chegar ao outro lado, da rua. 

São os mesmos de sempre que pausam nos quiosques para uma vista de olhos na banca; os que vão  pelo lado direito, ou esquerdo do passeio, já os identifico; os do meio, geralmente, não são habituais, andam mais pausadamente, não têm pressa de chegar, seja lá onde, e atrapalham o tráfego.

Alguns conhecidos, desse momento efémero do dia, fumam um cigarro ansioso à porta de entrada dos edifícios, ganham coragem para aguentar.

Pais desorientados estacionam os carros em cima do passeio , para depositar os filhos ensonados na creche, nem sabem eles que existem peões. Outros fazem o mesmo só para comprar o jornal.

Hoje de manhã uma pomba, estava deitada neste passeio atarefado e congestionado, e pensei que estaria doente, porque nem as pombas, se deitam no meio de um passeio atravancado de pessoas a passar constantemente. Mesmo habituadas a viver connosco, teriam que ser gente para esse à vontade.

Estava deitada no local milimétricamente exacto onde todos os dias, um mendigo, sentado no chão, olha para mim quando passo.

A pomba comia distraidamente migalhas de pão. O mendigo que a esta hora já deveria estar ao serviço,  substituiu-se pela pomba, ou deixou-lhe de comer na véspera, para lhe guardar o lugar.

Será que já estive com Deus e nunca me dei conta?

Uma mulher, que já escreveu sentimentos, disse há muito tempo numa crónica de um jornal  conhecido, que num deambular sem norte, na Praça de S. Pedro em Roma, tinha visto o rosto de Nossa Senhora no rosto de uma mendiga , provavelmente romena. O seu olhar não era deste mundo. Arrepiou-se.

O olhar do mendigo , que tem sempre a seu lado, pousado no chão um livro aberto – que não identifico – é deste mundo, mas olha-me  como se fosse o olhar de Deus.

A pomba  não me olhou , estava entretida a comer, mas para mim, ele estava algures ao lado, ou até mesmo, ela estava nele naquele lugar, onde ninguém ,que eu tenha reparado nas minhas viagens a caminho do emprego, alguma vez se deu conta da existência de um mendigo.
As pessoas andam muito distraídas.

No prato de plástico das esmolas, cor de laranja, que ele coloca à sua frente, nunca vi nenhuma moeda, e tenho a vaga sensação que isso não o preocupa em demasia.

Amanhã, se ele estiver por lá, vou fazer a experiência de passar por cima dele. Se for Deus de verdade, trespasso um obstáculo imaterial, disfarço, para os outros não acharem que estou a fazer figura de tonto, e sigo o meu caminho.  Se for só o mendigo, vou contra ele, e quando ele me olhar com espanto, vejo-lhe o olhar misterioso de Deus.

O dia, depois, corre-me melhor.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Testemunha

Estou numa torre, só pode ser uma torre. A altura desta torre é enorme, estou suspenso nela, sei que tenho vertigens mas sou atraído involuntariamente para uma janela recortada numa parede irregular. Está a acontecer comigo o fenómeno magnético de atracção dos ímanes. Plasmado numa janela. Não distingo nada com nitidez. A força que me atrai a esta possibilidade de janela, não me autoriza a mexer um único músculo. Desagradável.

Estou colado a uma janela porque pouco antes desse fenómeno involuntário ter acontecido, reparei num ponto de luz minúsculo na imensidão da parede vazia, onde um luar provável batia o pé às trevas da noite. E foi precisamente para esse ponto que fui sugado, só porque olhei para ele.

...

Olho e pouco vejo, mas continuo cheio de vertigens. Acho que flutuamos. Eu e a torre? Nem sequer sei se estou numa torre ou num barco desgovernado. O balanço está na cabeça ou vem de fora de mim?

...

Sinto que não estou sózinho.

Estou numa sala, mas a janela despareceu.

Quatro homens com barba farta e óculos importantes com aros de tartaruga, debruçam-se sobre um livro, no meio da mesa, no centro da sala. Cada um escreve palavras num caderno preto com uma espécie de plumas antigas onde se molha o aparo num tinteiro. Tenho a sensação de que escrevem coisas muito importantes.

Que estranho! Sinto que eles agora estão a encher uma mochila de uma grande responsabilidade. Vão pôr-me o saco às costas. Sou o transportador das palavras daquele livro, tenho de as entregar de porta em porta. O alforge é pesadíssimo mas não lhe sinto o peso.

Ainda não estou muito certo do que faço neste local, mas não me preocupo porque sinto-me naturalmente à vontade.

O ambiente é neutro, apesar das vertigens e eles não falarem comigo. Eles nem falam.

Agora que olhei mais atentamente, eles não têm lábios. Afinal o que eu pensava serem plumas antigas, são penas que lhes saiem dos dedos. O aparo é a unha do dedo indicador. De repente o conforto desapareceu. Isto está a ficar esquisito.

Tenho a sensação muito difícil de explicar a mim próprio, que estou aqui por uma razão particular aparentemente importante, mas tenho dúvidas!

...

Estou cheio de frio.

Estou deitado ao lado de uma bíblia. Uma bíblia do meu tamanho. É o livro que os barbudos estão a escrever. Sem respeito nenhum uns pelos outros, cada um escreve onde lhe apetece, até por cima do que os outros escreveram antes.

São os Sábios, é isso que eles são, nem se dão conta que eu estou estendido ao lado do livro dos livros.

Aproxima-se agora um homem com bom aspecto, com um indício de gravata a sobressair pela cor, da bata branca que traz vestida. Parece-me doctor.  Enfia-me um tubo na boca e insiste para que eu degluta um líquido vermelho escuro injectado à pressão por uma seringa de tamanho descomunal.

Faço o esforço de engolir, mas o sabor agro e ferruginoso interrompe a minha boa vontade.

Ele insiste, começa a chatear-me. Já não acho piada à gravata.

Sinto-me mal. O encosto forçado da minha orelha direita sobre a Bíblia, começou por causar dormência e agora transformou-se em dor. Dói-me o lóbulo da orelha!

Debato-me com toda a razão, mas ninguém me atende.

Os barbudos agora estão em cima de mim, escrevem palavras no meu rosto, o que dá comichão. O tubo já não é um tubo, transformou-se num sifão de uma sanita colada na boca que não me deixa respirar.

Vou asfixiar!



António José,Tozé em núcleo restricto, desperta em sobressalto, húmido de suores, com a respiração descoordenada, num escuro totalmente escuro . Está perdido e até perceber que está sentado no lado certo da sua própria cama, passa momentos de desnorte.

A mulher dorme profundamente enroscada na posição de decúbito lateral. Tem uma espécie de capacete na cabeça, com uns rolos metálicos que parecem uma central eléctrica, para não descompor o penteado. O relógio despertador emite uma luz verde exuberante – uma nave espacial pousada ao lado da almofada - dá horas a piscar, que é a sua função e mantém-se sossegado no local expectável: a mesa de cabeceira.

4 horas da madrugada.

Tozé teve um pesadelo. São cada vez mais frequentes. Todas as noites um sonho intrometido aninha-se sem se fazer convidado entre os lencóis e ocupa todo o espaço da cama. Pernas por cima dos inquilinos, empurrando, apodera-se do espaço com solavancos incómodos para mudar de posição. Ressona alarvemente

Agora que despertou, volta a marinar nos problemas da vida, que não são muitos: sempre teve a minúcia de se preparar para uma velhice sem sobressaltos. Para além dos prováveis - a próstata ou o cólon, lotaria nas mãos do sobrenatural – tudo está arrumado na prateleira certa, e se tudo continuar a correr como planeado, o resto da jornada será tranquila.

Tozé está reformado das finanças. Há trinta e cinco anos conheceu a Angélica . Ela estava com dificuldades em preencher os papéis do Imposto dos rendimentos. Na realidade não era assim tão difícil colocar os números que se pedia, mas para lá chegar, tinha um novelo de perguntas por responder que a deixavam baralhada.

Aqueles impressos tinham sido propositadamente inventados para confundir a cabeça dos contribuintes. Algum funcionário de Finanças anónimo e triste, de índole sadomasoquista, fez dos impressos que inventou, o seu grito de revolta e deu o seu contributo para a vida meio enjoada de quem se levanta de madrugada para ganhar lugar na bicha e conseguir  ser atendido na abertura de portas.

Com a ajuda do Tozé e o carimbo oficial nos impressos, tirou-se o passaporte para uma vida em Massamá – nos primeiros anos num discreto apartamento alugado, depois com o esforço dos remediados que poupam nos gastos, num empréstimo bancário a trinta anos tornaram-se proprietários - dois filhos feitos doutores e bem casados,com copo de agua e uma reforma simpática que sobra, para gozarem sem preocupação de mercearia o inverno da vida.

E é no inverno, quando faz mais frio, que os corpos se abafam de roupa e as almas, com frieiras, procuram mantas e cobertores.

O casal Antunes encontrou o seu porto de abrigo nas Testemunhas,

A religião de Cristo vivida na infância ficou-se pelo caminho, mas os últimos anos trouxeram à superfície a comichão da fé.

 A congregação tornou-se a sua família, assistem três vezes por semana às sessões do Salão do Reino. Apresentam-se de fato e gravata e vestidos discretos. Cheiro a limpo. Não há listas infindáveis de semi deuses para venerar e dar conta dos nomes, as velas não se usam, nem preces para decorar. Leituras, só leituras partilhadas. Estão todos ao mesmo nível e isso é uma benção tão difícil de encontrar nas outras agremiações, desde a tertúlia da sueca aos herdeiros do santo Graal.

Comentam em conjunto os Escritos, sem pastores nem cajados. Este rebanho é autonomo, sabe por onde caminha.

Pelas manhãs, todas, Angélica ajeita o nó da gravata pálida do marido e tem a preocupação de que a saia de tecido grosseiro não sobe a altura do joelho.

Comem torradas de pão integral acompanhadas com chá preto - linha branca - num silêncio concentrado, sentados na mesa da cozinha.

As bíblias são arrumadas em duas capas de pele sintética, das que se põem debaixo do braço. Levam ainda um stock de revistas “Sentinela” e ”Despertai”, com uma tiragem gráfica quinzenal de 50 milhões de exemplares por esse mundo fora.

Angélica dá os últimos retoques de alinhamento na colcha de renda que fez no ano passado e que cobre a cama do casal: “sabemos sempre como saímos de casa, mas nunca como voltamos”.

Reina neste apartamento suburbano um silêncio divino.

 Sai-se ao rodar da chave.

7h30. Boa hora para evangelizar.

 Estacionam os corpos na entrada principal na estação de comboios da linha de Sintra.

Gente ensonada, com pouca vontade de encarar o sentido de mais um dia, dirigem-se como autómatos para a plataforma nº2, onde param os comboios para o Oriente e o Rossio.

As portadas de acesso à plataforma abrem-se aos que têm passe válido. Outros aproveitam a nesga para escapulir ilegalmente. Outros, saltam por cima das portadas e resolvem o problema.


É assim a vida na periferia de alguma coisa.