quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O Paquistão e as comemorações do Natal



A notícia foi para o ar às 20h52, precisamente cinquenta e dois minutos após o início do Noticiário. Cinquenta e dois minutos preenchidos com assuntos prioritários – domésticos – os temas habituais. Nos episódios do mundo, neste dia também aconteceu um massacre, que só seria importante se não fossem mais importantes as luzes a acender e a apagar da árvore artificial.

No Paquistão houve um atentado talibã. Morreram 132 crianças, mas não faz mal, porque lá não se comemora o Natal.

Essa fatalidade não enegrece a comunhão entre os homens, que por essas bandas, esta época do ano diz-lhes pouco.

Lá não se preocupam com o presépio, os pinheirinhos iluminados, o bom do bacalhau, os sonhos e as rabanadas, os presentinhos. São gentes sem preocupações e como tal amorais.

Na Austrália morreram três pessoas, duas que estavam a tomar café na cafetaria errada, e a terceira que sendo bárbara quase não conta como pessoa.

 Lá na Austrália, comemoram o Natal e todos pensavam que podiam sair à rua tranquilamente para comprar as figuras do presépio, sem se preocuparem com atentados, que só acontecem nas localidades em que não se comemora o Natal. Enganam-se.

Na Nigéria raptaram centenas de crianças, estava-se longe da data do Natal, mas também não teve importância porque já de si e todos os anos morrem praticamente muitas pessoas sem sequer chegarem a Dezembro. E quem é que agora, na azáfama de embrulhar os peúgos para o avô se lembra de uma coisa dessas?


Assuntos assim – mal dispostos - nunca deveriam passar na televisão quando todos estamos concentrados na cadeia do amor que une as famílias numa quadra que é tão linda. Desfocam, distraem, incomodam a harmonia, mesmo em passando aos cinquenta e dois minutos de um jornal nacional, no momento em que se está a lavar a louça e não se vê a notícia.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

CONTO DE NATAL A UM SEM ABRIGO





Fome. Não é de pão, se bem esquecidos de uma refeição decente.

Perdeu-se o apetite pela comida porque ela anda arredia. Faz-se um esforço de Hércules no auto controlo para manter a biologia no seu lugar: obrigatoriedade de viver porque não há outras oportunidades mais interessantes.

Não é a fome que revolve os interiores, é a escassez de outros petiscos a cujo preço não se chega.

Esses acepipes são palavras, que têm cores fortes, sons agudos, ingredientes de conceitos complexos e muito sérios.

Revisite-se o cardápio:

Estima. Haverá fatiota mais galante que esta? Calcorrear a calçada trajados de limpo? Lustrosos? Sorrir à cara cheia e estar sempre a tirar o chapéu em mímicas de pantomina aos transeuntes que passam incrédulos pela calçada? Deixar rasto, a espuma dos dias que passam. É isso, vincar o caminho.

Útil. Todos os parceiros sem deixar de fora quem está sentado nas margens dos passeios. Dar a mão, receber outra, usar o seu impulso para o acontecimento de qualquer coisa. A somar as partes, fazer algo.

Energia. Os dias de inanição gastam, esbracejando sem glória, pelo elementar, pelo básico, pelo mínimo, vão-se as forças no essencial.
Tolerante. Perde-se a vontade de olhar para as pessoas apaixonadamente, encontra-se defeitos em tudo, nada se desculpa. É o pior sintoma desta estirpe de anorexia mórbida.

Não se é pobre por ter pouco dinheiro, mas porque baixa a febre da impotência, que descalcifica os ossos, ataca os músculos, conquista o corpo para a desistência.

Fica-se coitadinho, exposto a compaixões e penas, dos falsos rosários de prata a chocalharem no interstício de seios bem nutridos e vicejantes.

Quer-se dignidade – tesouro dos tesouros - porque entre outras razões que vêm à cabeça, já se pagaram os duodécimos desse manjar.
Oportunidade. Surripiada para os bolsos de outros casacos.

Esperança. É como a fome: não se morre pela sua falta, mas fica-se mais magro porque não alimenta absolutamente nada. Não tem calorias.

Vergonha. De vocês, abutres diletantes. E por nós, pelos desabafos, regurgitações da alma que não levam a lado nenhum.

Coragem. Para ajeitar os vossos colarinhos cheios de goma.

Amanhã. Se bater à porta será um dia como todos os outros, desinteressante.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

MANUAL DE ESCRITA CRIATIVA



- Desculpe mas olho para si e pelo ar latino, não vou falhar se disser que fala português. É verdade?

- É verdade.

- Tem tempo?

Espero alguém. Quando esperamos é porque temos tempo. Digo que sim, se bem a intimidade com o café tenha ficado por aí

- Já ouviu falar de escrita criativa? Sabe o que é? Interessa-se pela leitura?

Perguntas difíceis. Tento pensar antes de me comprometer com uma resposta. Trata-se de um desconhecido e estou numa esplanada, local incómodo para nos encostarem à parede.

Para além disso tenho dúvidas. Tenho sempre tantas dúvidas!

- Acho que sei o que é escrita criativa - sobre a leitura mantenho-me calado.

O homem, ainda jovem (trinta e poucos talvez) põe-me à frente dos olhos um volume de páginas A4 encadernadas com um espiralado plástico branco e uma mica transparente a fazer de capa.

 Reparo, sem saber porque reparo, na gola acastanhada da t-shirt que já deixou de ser branca. Salta à vista esse rebordo na primeira linha das várias camadas de roupa que tem em cima de si. Ou é friorento num dia de calor, ou traz consigo para onde quer que vá, o guarda-roupa completo.

- Este é o manual mais completo sobre escrita criativa que existe.

Quando alguém me diz uma coisa destas, tão definitiva, tenho a tendência para lhe cuspir na cara. A maioria das vezes não o chego a fazer, não respondo mas fico a chamar-lhes nomes para dentro.

-Tem à sua disposição um estudo comparativo de frases idiomáticas do português. São o melhor alimento da escrita criativa, as frases idiomáticas.

- Compreendo.

- Tem também um dicionário de semântica. De A a Z. O que seriam as palavras sem um significado? A semântica é a alma das palavras. Fundamental para a criação.

- Não sabia.

- Por último, ofereço nove contos originais e únicos. Se fizer todos os exercícios que o manual propõe e seguir rigorosamente as instruções, poderá igualmente vir a escrever textos parecidos com os exemplos apresentados.

- Estou a ver.

- Este curso pode ser de grande utilidade para a sua vida, e estou praticamente a oferece-lo a um custo ridículo.

- Agradeço a proposta, mas de momento não estou interessado – disse cobardemente, com medos de me enganar de novo nas ilusões.

- Tem ar de quem fuma. Fuma?

Ofereci-lhe um cigarro.

- Já ouviu falar de física quântica? Interessa-se por esses temas?

Também gosto de física quântica porque gosto de ser curioso, mas desta vez não sei se lhe vou responder. Encolho os ombros, ele aceita a minha ignorância. Olhou-me num esgar e tive a sensação de me sentir símio.

- É uma pena que não tenha nenhum chamamento para a ciência política. Compilei um manual que faz luz à compreensão da falência das ideologias no mundo contemporâneo.


Comprei o manual da escrita criativa por dez euros e convidei-o para um café numa esplanada burguesa no coração da cidade.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Tem sido um Outono muito chuvoso




E húmido.

As alterações climatéricas nas últimas décadas habituaram a um clima mais ameno, apesar de um que outro pico tempestuoso inesperado.

Antes as estações estavam no sítio – tudo tinha um sítio - a época certa para cada uma, e na sua época todos sabiam com antecedência as manifestações de tempo que iriam acontecer, facilitando em muito as arrumações dos roupeiros.

Era uma monotonia,  porque sempre previsível, mas era assim.

Ultimamente com as mudanças bruscas, ficou-se sem saber o que vestir, no entanto as pessoas nem se queixaram, pelo contrário, têm andado muito mais felizes dada a já referida complacência dos calores, dos dias mais solarengos, puxando a sair de casa e flanar por aí.

E a felicidade rondaria não fora o facto dos fenómenos inesperados, que alteraram na última década o nosso microclima.

Este ano então -  as condições têm-se agravado e muito – está a ser um verdadeiro vendaval de temperaturas amenas, uma enxurrada de episódios sem anúncio prévio nem controlo.

De tal forma que já não se confia na proteção das telhas dos telhados, ou pelo menos dos telhados de alguns.

A chuva e a humidade das águas em catadupa, assenhoram-se dos corpos e deixam as pessoas indispostas, desarmadas pelo achaques nos ossos e nas articulações que tolhem os movimentos e a sua plasticidade.

Baralham-se as ideias, fica-se sorumbático e triste: sem acção ou reacção.

Um tempo assim não é nada bom,  dizem que vai continuar  por todo o inverno, sem garantias de Primavera ou um verão quente e escaldante.

Quando chegar o próximo Outono logo se verá se volta a vontade de sair à rua, se o reumático deixa pegar na caneta como deve ser, e escrever como é devido.

Caso as condições adversas se mantenham, ficará muito papel em branco, desperdiçado inutilmente.


O que seria uma pena.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

NOTAS DE INTERVENÇÃO





A falência do regime, que se arrasta vai para lustros que nem se contam todos, não se explica com justificações na dimensão do país, nos seus recursos, no minguar de gentes, na sua localização periférica.

Facilmente se desmontam estes obstáculos que dão jeito.

Sobre tamanhos e medidas, temos de tudo: grandes dimensões como a Rússia ou a Índia, que não descolam de uma  emergência falaciosa, ou uma Suíça e Holanda, que são exemplo de pequenez com grandes sucessos e riqueza - talvez também falaciosas.

Dos recursos, o que são os recursos? Hoje estão em alta nos mercados, amanhã outros são o ouro que se procura. E os recursos são materiais, imateriais, coisas ou ideias, e todos eles, separadamente ou em conjunto, podem ser valiosos.

O petróleo que tirou as tribos dos desertos arábicos e os pôs a construir prédios de olhar ao infinito e a conduzir rolls-Royce forrados a diamantes, quando acabar, dará lugar a outras energias e fará ricos quem as produz e vende.

 Ontem a agricultura e a pesca não eram necessárias porque vinha tudo da europa, mais barato, supostamente melhor e ainda se pagava para estar quietinho e não produzir nada. Hoje o que vem da europa é caro, e não nos faz falta nenhuma (austeridade, submarinos). Cresceu entretanto o coro das lamentações porque já não há barcos para ir à pesca e os campos andarem ao abandono.

Sobre as gentes, o que mais importa? Muitas, poucas, muitas servis e acríticas, poucas mexidas e conseguidas? Também neste caso temos cardápios por onde escolher. Há países onde são muitas e mexem, noutros são muitas e vegetam. Dos que têm poucas, estão igualmente disponíveis os dois sabores.

A periferia também é um argumento curioso. Se fossemos por natureza do “contra”, diríamos que sendo o planeta quase redondo, a ideia de periferia não faz muito sentido. E não querendo desconversar, também se encontram exemplos com a maior das naturalidades, de que estar numa ponta pode ser bom porque, não havendo mais terra firme para pisar, temos que nos atirar de cabeça para o desconhecido até encontrar outra terra. Luta-se contra a inércia.

Agora somos suburbanos mas no século XV, fomos a plataforma avançada do Ocidente para abrir os portões do mundo global.

A Noruega é dos países mais periféricos que se pode encontrar, no entanto é o que é. A Austrália flutua num oceano a perder de vista, mas é o que é! Até a Nova Zelândia é o que é e são os antípodas mais periféricos que temos.

Todas as justificações são boas, e se se escarafunchar bem encontram-se sempre argumentos consistentes nos versos e nos reversos, para uma boa argumentação e uma boa retórica, que é a arte da ”palheta”.

A falência do nosso regime e por consequência do nosso progresso, não está em nenhuma destas justificações esfarrapadas.

Está numa ideia tão simples que até faz esboçar um sorriso de incredulidade: Na educação.

Pois é! Pequenos ou grandes, muitos ou poucos, com espaço ou claustrofóbicos, com mais ou menos colheitas e peixes no mar, a nossa fragilidade está na educação, neste caso na falta dela.

E educação entenda-se como um conjunto de disciplinas fundamentais no currículo para a formação das pessoas.

A “revolução” civilizacional do nosso povo aconteceu facilitando-se o acesso a bens de consumo a crédito. Ter um mercedes para parecer, mas não ter maturidade crítica. A escolha fácil de uma viatura catita, foi a cenoura envenenada que a elite politica e financeira pendurou nas orelhas das pessoas.

E elas babaram-se, o que foi de conveniência para se governar a bel-prazer sem interferências dos votantes que ficaram distraídos a fazer contas para pagar as prestações e a gasolina nos passeios tristes de Domingo pelas marginais deste país.

Como é que um país tão ridiculamente pequeno e quase despovoado tem tanta gente ainda a viver no século XIX?

Porque nenhum líder teve a decência e a coragem de investir na educação cívica, na educação escolar, no desenvolvimento de competências não só académicas e teóricas, mas igualmente práticas e de utilidade pública, na criação do hábito desde pequenos na prática da acção social, em voluntariados e projectos comunitários, onde as crianças fossem enraizando em si e no seu crescimento, os conceitos da solidariedade, da entreajuda, do espírito de entrega (não piegas claro) e de serviço.

Instituiu-se a matemática e o inglês, a primeira mal ensinada (não é culpa dos professores) e o segundo como arma de arremesso na propaganda dos ministérios da educação; falou-se da importância das tecnologias, mas do seu ensino prematuro não há fumo; vendeu-se ad nauseum a ideia de que todos se tinham que licenciar, proliferaram “universidades” em cada esquina esconsa, e os meninos chegam a “doutores” sem saberem expressar-se correctamente em português, sem saberem entender o conteúdo e sentido de uma frase um pouco mais elaborada.

Falharam as políticas por questões técnicas, ou pela falta de qualidade dos seus técnicos?
No fundo nada disso interessa a quem governa. Porque são temas que estão no oposto do mundo da competitividade, do ser o primeiro, conseguir o melhor lugar, ser melhor que os outros, e estes são os modelos do mundo “moderno”.

É pela estatística que se aferem os indicadores da “evolução”.

 Nada disso interessa a quem governa porque ao desenvolver nos outros essas competências, estamos a contribuir para um crescimento mais harmonioso dos humanos. E um ser em harmonia e equilíbrio pensa pela sua própria cabeça, é senhor das suas opções e decisões, escolhe caminhos, e constrói as casas e as pontes à sua maneira.

E tudo isso é precisamente o que um político tipo - de regime - não quer nem nunca quis.

Porque isso seria uma afronta ao seu poder, discricionário e cego. Porque isso lhe tiraria o acesso a esse poder, já que indivíduos que pensam não elegem indivíduos assim. E mesmo que se enganassem e os elegessem, rapidamente os tirariam da cadeira, corrigido a imprecisão de uma escolha mal feita em quem faz da prática política um saco azul para benefício próprio e da sua corporação, não considerando os outros cidadãos na equação da existência e da realidade.

É pois na Educação em todas a suas dimensões que reside o grande segredo do progresso. E esta não é um recurso escasso, não fazem falta quilhas nem enxadas: é uma semente que se rega com facilidade e floresce em pouco tempo e de folha perene.

Portugal não é pequeno, tem imensos recursos, as pessoas são as que existem e podem dar muito mais, mas diga-se que também é verdade: temos tido muito pouco brio, respeito por nós próprios, alguma apatia e preguiça.

Demasiado queixume e indecisão nas escolhas do que verdadeiramente queremos para todos nós.


Seria interessante se reflectíssemos um pouco sobre isto.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

TANGO DAS PALAVRAS



A arte da escrita estremece em terramotos quando abusada com imoderação.

Acelere-se aos limites do pedal: nos acertos, nos falsos desacertos das palavras, em frases estranhas, oblíquas, fora do tom.

Avive-se o colorido com vírgulas manhosas, descompostas, exclamações noutro contexto, pontos finais ao contornar esquinas, obstáculos inesperados que fazem tropeçar.

A escrita ganha o céu quando o homem a põe a secar ao sol, à chuva, aos vendavais, escorrendo-se dos pesos inúteis, no apoteótico esplendor da sua nudez primordial.

Assim como é!

Toda a tentativa de limar arestas e tapar buracos com massas baratas, alisa e limpa a sua superfície, mas também a impermeabiliza das chuvadas torrenciais de belo que curtem a sua pele para os doces usufrutos da alma.

Há textos, muito bem escritos que são qualquer coisa, mas não arte.

São diplomacias das canetas: educados e sensaborões.

Bons textos no entanto.

A beleza da escrita habita rostos cheios de rugas, lavrados por fenómenos climatéricos extremos. Rostos que são como são: sem plásticas.

Uma bela de uma escrita das palavras é tão simples e tão ingénua, que assusta escrever.


E há momentos em que se consegue, quando não se pensa nisso e saímos à rua com a maior das naturalidades.



terça-feira, 11 de novembro de 2014

O ARTISTA PERDEU A IDENTIDADE


Antes de inaugurar a exposição, ainda à porta e sem ter cortado a fita – inexistente, porque já não há fitas para cortar, nem quem segure a tesoura das fitas - o Secretário de Estado, fez uma pose a fingir-se de simpático com o artista, mas é óbvio que foi uma pose de grande maçada: o convívio com artistas mina a consciência, deve ser feito à distância, com máscara, para não se adoecer com o vírus da sensibilidade.

As poses é suposto mostrarem o lado mais fotogénico, que no caso deste Secretário é o lado direito – o esquerdo é habitado por uma verruga, que lhe desvanece a possibilidade de beleza numa irremediável desarmonia do rosto.

Estavam presentes os fotógrafos e as televisões, não porque uma exposição de pintura seja uma coisa importante, mas porque nesse dia tinha-se falado numa remodelação no governo, e este Secretário era dos substituíveis - preferem-nos de linha branca, baratos só que depois implodem mais cedo. Troca-se por um novo na loja dos chineses, sai em conta (são mais caros os carros, os motoristas, os assessores e os almoços pagos, do que os secretários nas lojas dos chineses).

O artista, justificando naturalmente a sua condição de inventor de abstractos, pessoa distraída em geral porque atarefada nas questões metafísicas das esferas - as coisas que importam - espantou-se com a presença em peso dos meios de comunicação.

Estranhou porque não percebeu na ingenuidade reconhecida aos artistas, que os microfones e as câmaras não estavam ali para o noticiar. Não fosse o Secretário ter comparecido ao acto com evidentes fumaraças a escapar pelos orifícios - processo revelador do fenómeno implosivo já em andamento - e os repórteres também eles de linha banca não teriam vindo em peso.

A arte é chata e não oferece croquetes. Só pede atenções.

Perante aquele aparato esmagador, ainda passou pela cabeça do artista - ao compor nos ombros o casaco que vestiu obrigado pela companheira que vincou as lapelas no ferro – que todo o seu esforço e suor tinha sido finalmente merecedor de um olhar.

Por uma qualquer e desconhecida razão, ao fim de quase uma eternidade – pelo menos uma quase vida inteira – os meios que poderiam divulgar o seu trabalho estavam ali, ao beijar da mão, para filtrarem a sua arte pelos olhos e fazerem a notícia, criarem as ondas de eco para a propagação pública.
 
Foi um pensamento efémero, caiu logo em si e recompôs-se.

Em todo o caso no momento da fotografia, pode-se afirmar que ele estava feliz.

Trinta anos a olhar para uma tela em branco, a indecisão de todos os inícios, as gestações difíceis das obras sempre incompletas, mancas da perfeição absoluta, a solidão da auto-crítica violenta, que arranca a pele e doí, todas as camadas de frustração acumuladas, têm finalmente um ponto final.

Cem exposições, sem querer ser rigoroso com os números, para ter uma figura do estado e a cobertura dos meios a baterem-lhe à porta!

É agora! Amanhã, mesmo que só tenham saído notas em rodapé, a vida muda. O reconhecimento e alguma bola autocolante verde, ajudam a pagar as tintas. Caríssimas!

Fosse o artista um sonhador e poderia em estado de excitação, ser levado a pensar já no antegozo deste sucesso,que no próximo ano lectivo, estaria muito mais desportivo - e despreocupado - na questão da sua colocação como professor, afinal a única e eternamente temporária fonte de rendimento.

Mas após a fotografia tudo foi rápido e definitivo, como já se esperava.

O Secretário entrou como saiu e os dos meios nem sequer entraram. O frisson não passou de um pequeno apontamento na linha da porta que demarca o fora e o dentro.

Dentro não havia salgados mas os amigos aguentaram – não foram pelo beberete.

Quando a vernissage estava a atingir o pico de audiência, o artista recebeu um telefonema, há testemunhas disso e do que se passou a seguir.

No meio da algazarra viu-se a gesticular, a arfar, a lançar para o éter sons inaudíveis devido aos níveis elevados de decibéis da sala.

Ainda não se disse que a exposição estava muito bem, mas já não se vai a tempo, a atenção vira-se agora para as reacções inesperadas do artista.
  
Depois da chamada ele trocou breves palavras com o galerista que franziu o sobrolho. Este, ainda com o sobrolho desarranjado, foi falar com a namorada espampanante que lhe indiciou o indicador direito pintado de preto numa proximidade demasiado perigosa do nariz do homem. À distância parecia estar a dizer-lhe: “Vês! Bem te avisei, arriscas tudo em nomes desconhecidos, e depois é o que acontece”.


Afastou-se indisposto deixando a namorada a reacender conversa com quem estava ao lado, um rapaz altíssimo com dedos dos pés enormíssimos a saírem como garras de uns chinelos. Esse rapaz vestia uns calções por cima de umas leggings e o cabelo espetado como se tivesse acabado de apanhar um susto. Mais do que um susto: uma assombração.

Nervosíssimo o dono do espaço começou a recolher os catálogos da exposição, e virou contra a parede um cartaz k-line com a fotografia e o nome do artista.

O pintor tinha ar de estar a asfixiar num cigarro desesperado. Sorvia aquela poluição toda como se não houvesse amanhã.

O seu irmão que de repente intuiu que algo estava a acontecer – as luzes interiores de alerta, vindas dos fundos das entranhas, inexplicáveis pela razão mas que os irmãos chegados possuem  – aproximou-se.

- Estamos fodidos. Perdemos a identidade.

- Como que perdemos a identidade? As finanças ainda só podem bloquear as contas do banco, que me tenha dado conta ainda não congelam os bilhetes de identidade.

- Deixa-te de graçolas, isto é muito mais grave do que tu imaginas.

- Isto o quê? Que ficaste com os cabelos magnetizados como aquele avatar que anda aí a desconjuntar-se todo das ancas? O que aconteceu!

- Não somos filhos do pai.

- Então? Se não somos filhos do pai ele não é nosso pai.

- Temos outro apelido.

- É pena, eu gostava do que tinha, mas não há-de ser agora, ao fim de cinquenta anos que eu vou deixar de ter apreço ao nosso pai que já não é o nosso pai. Habituei-me a ele, fico-me com este, não quero outro.

- Eu também não.

- Então está tudo resolvido, não se pensa mais nisso. Nem lhe vamos dizer nada, que ele se calhar nem sabe. Mas já agora porque me estás agora a dizer isso, aqui e nesta situação?

- É que acabo de o saber pela mãe. Deve ter tido um arrebatamento inadiável de consciência existencial, ou então aumentou na dose e está com alucinações, e acaba de telefonar a dizer que não podia morrer sem que soubéssemos que afinal somos filhos do Pardal.

- Do Pardal? É como te digo, esquece, já nos afeiçoámos ao nome do nosso falso pai,o Pardal já morreu, nunca o conhecemos, ficamos com o nome que temos e encerrada a questão.

- É que não estás a ver! Depois do telefonema fui dizer ao galerista, e ele não reagiu nada bem.

- Disse o quê?

- Disse que tinha andado este tempo todo a investir em mim, a construir o meu nome - que até é giro - e agora apareço com um diferente, ainda por cima quando me apresentou ao quase ministro e tudo.

- E tem razão, hoje que pela primeira vez conheci um meio ministro - débil é certo - mas ainda assim um quase ministro, e amanhã que com alguma sorte vai aparecer o meu nome num ou outro jornal, do dia para a noite deixo de ser peixe para passar a ser pássaro.

- Já não tenho tempo nesta vida para construir uma nova carreira com um nome diferente.

- E o que é que isso interessa: o teu nome não pode ser diferente do próprio?

-Pode, eu é que não consigo viver com uma vida dupla.

- A mãe amarfanhou-se, sabes que ela até os nossos nomes próprios troca. Pode ser que esteja no meio de um pesadelo, meio acordada. O avô contou-me um dia que ela em pequena era sonâmbula. Uma vez saiu de casa a meio da noite e foram apanhá-la no outro lado da rua com a almofada na mão.

- Pode ser que estejas certo.

- Sim é isso, esquece o assunto, vais ver que é desta, amanhã serás um artista reconhecido.

No dia seguinte não se pincelaram notícias de rodapé e a mãe despertou por volta do meio dia, sem saber em que dia estava. O pintor pegou nas aulas pelas oito e só as largou depois de preenchidos os relatórios burocráticos que preenchem a vida emocionante de um professor. O Galerista acordou tarde com a loura a ocupar todo o espaço da cama, a cheirar mal da boca.


O Secretário viajou para o interior profundo para uma sessão de esclarecimento sobre o orçamento de Estado e como intelectual que é, fez-se acompanhar de um dicionário de vernáculo para aligeirar os discursos e facilitar a vida – e o entendimento de coisas complexas – às gentes deste país.    

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Educação e bom senso




A utilização de termos brejeiros e jocosos, em tons de ironia arrogante, são impróprios ao decoro dos representantes eleitos  à Assembleia da República ou a outros orgãos de soberania. Assim como é imprópria uma postura desleixada ou encenadamente blasé.

Não se está a fazer a crítica do humor ou da boa disposição. O bom humor é difícl e inteligente – por isso escasso, geralmente muito escasso nessas pessoas.

Cenas de uma caricatura muito fraquinha, a menos que consequência de causas artificiais desencandeadoras desses comportamentos - que se desconhecem -  são embaraçosas para todos.

Não temos outra alternativa senão assistir impávidos e estupefactos à confrangedora imagem com que recorrentemente (parece que escolhem a vez), algum desses representantes da nação nos mima.

Confrangedora, patética, triste, pequenina, muito rasteira.

Não podemos fazer nada!

Chegamos a um momento da nossa democracia, ou ao seu estertor, em que já não são só as luzes vermelhas e histéricas a piscarem insistentemente anunciado a explosão eminente do sistema, que nos  alarmam.

Estamos no momento – talvez de não retorno – em que o nível, a qualidade, o profissionalismo da classe política, ultrapassou o limiar do aceitável.  Dando-se – e aleatoriamente porque há muitos por onde escolher – o exemplo da (falta) educação e (desrespeito) das regras de convivialidade, que são um dos termómetros que mede a febre – e a existência de infecção - na sociedade.

Os senhores dos botões de punho e dos fatos de alpaca, arrotam e comem com a boca aberta.  
Os senhores palitam os dentes com palitos de prata e limpam as beiças perfumadas com a mão -  e esta limpa-se à toalha, debaixo da mesa.

Os senhores bebem quantidades imensas de vinho francês e continuam a arrotar.

Os senhores expelem gases em público mas ninguém lhes faz reparo, porque são ministros,e nem os deixam de convidar.

A maralha do outro lado do ecrã, também de boca aberta a mostrar cáries, incrédula, não acredita no que está a ver. 

Uns imitam, porque se os importantes fazem é porque é fino. Outros enervam-se, dizem  asneiras e ensaiam sopapos de violência doméstica. Outros ainda,  comedidos e lúcidos ficam muito preocupados, preocupados porque ainda não conseguiram pôr os filhos do outro lado das fronteiras a salvo destes tempos tenebrosos.


E sai um copo três e um pastelinho de bacalhau para a mesa do canto!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

PORQUÊ




Há momentos que nem no humor com que embrulhamos as palavras, para que não sejam tão ásperas, se consegue tirar da cartola - depósito quase inesgotável onde inventamos os truques de mágica tontos e simplistas, que ainda nos fazem sorrir para aguentar a total ausência dos sentidos da vida – um alumbramento de jeito.

Há realmente momentos, de vazio completo.

Malabaristas que somos, ainda assim, mesmo assim, pantominamos os que amamos, distraindo-os (protegendo-os), tentando abraçá-los para que não vejam, não sintam, não chorem, não lhes passe sequer pela cabeça a ideia que viveram a sua vida em vão.

O meu Pai tem oitenta anos, é e sempre foi um homem muito decente, não porque seja eu seu filho, a dizê-lo.

Viveu a sua vida de uma forma banal e sem história: trabalhou muito, contribuiu sem nunca discutir ou questionar, abdicou facilmente de pequenos excessos para educar bem os filhos e depois, merecedor mais que absoluto de poder sentar-se sem cerimónias a admirar a sua obra, foi obrigado a pôr-se de novo em pé porque os filhos ainda precisavam dele.

Possuidor da pequena fortuna de anos e anos de descontos para uma reforma de nababo (pouco mais de mil euros), foi chamado a repartir essa orgia pelos filhos, necessitados estes de viver também de uma forma banal e sem história.

Pela primeira vez na sua vida de oitenta anos, entrou hoje necessitado de um aconselhamento médico, na urgência de um hospital de Lisboa.

Vinha em mau estado, e mesmo assim a conter-se, para não incomodar os seus, e não ocupar com atenções a si, o espaço de outros eventualmente mais necessitados.

Parvoíce de um velho tonto, que estava mesmo necessitado de ajuda.
A ambulância do INEM foi a casa, rápidos e de um profissionalismo que nos deixou inchados de orgulhosos.

Na triagem da urgência do hospital, calhou-lhe a pulseira amarela: urgente.

Como nas tempestades climatéricas, a gravidade da situação vai do verde ao laranja/vermelho (neste caso acrescentaram o azul, como gravidade nenhuma, pulseira para os utentes que não tendo médico de família, ou não tendo consulta em tempo útil para o mesmo, têm que se dirigir à urgência para tomar o tempo e os recursos escassos dos profissionais).

Num painel televisivo, uma espécie de gráfico com as cores, indica os tempos médios de atendimento.

Para os verdes (os que não têm nenhum sinal de estretor nos dias mais próximos) cinquenta minutos. Para os laranjas/vermelhos, muito urgentes, vinte minutos (parece ajustado: em vinte minutos não se vive nem se morre, é o tempo suficiente a acontecer qualquer apoplexia na sala de espera, entre chegarem os maqueiros, conduzir a maca entre as filas dos utentes, e chegar a tempo do médico de banco indicar aos familiares o número da funerária). Os amarelos, a cor simpática que deram ao meu pai – a dos urgentes – tinha um tempo de atendimento a rondar uma hora e vinte e sete minutos.

Ao meu pai que foi depositado numa cadeira de rodas, com a cabeça a pender constantemente para a frente – a cabeça – não lhe pareceu nem bem nem mal, ao filho pareceu que pronto, dado que se tinham que despachar os azuis e os verdes, e já que os laranjas antes mesmo de chegarem ao hospital já eram póstumos, era de toda a justeza, que a um  cidadão banal de oitenta anos descontados até ao tutano, lhe fossem oferecidos uma hora e vinte sete minutos, a ver se a coisa pendia para o clube dos laranjas, ou dos verdes.

Ele aguentou, e lá tiveram que o atender. Um jovem médico no primeiro ano do internato da especialidade, agraciou-nos com a bênção – e nós somos ateus – de ser um jovem médico no primeiro ano da especialidade mas de uma sensibilidade rara e que seguramente já o sendo, vai ter uma carreira brilhante.

Saiu-nos o euro milhões, apesar do meu pai nem se ter apercebido disso. AGRADEÇO-LHE MUITO!

A urgência de um hospital central de Lisboa estava a ser garantida por uma dúzia de miúdos cheios de boa vontade. Avistei ao longe alguém mais velho, de bata e estetoscópio, com um ar muito cansado e gasto, talvez desistente.

Depois as coisas correram bem: deram-me um frasco para recolha de urina e a casa de banho da urgência estava fechada por “questões técnicas” (descobrimos depois de uma aventura exploratória por salas e recantos, a casa de banho da ortopedia, atapetada com papel higiénico e líquidos presumíveis no chão), na sala de espera do TAC, podíamos utilizar uma caixa de cartão aberta para deitar o lixo, onde conviviam luvas, compressas com sangue, invólucros de rebuçados e lenços, algumas migalhas de bolo.

Cansados de esperar, e como não aparecia ninguém para transportar a cadeira onde tinha o meu progenitor depositado, pusemo-nos eu e ele a caminho da urgência (como já tínhamos explorado o local na busca do wc, já conhecíamos razoavelmente o hospital). Graças a deus, encontrámos o tubo do soro que anteriormente tinha estado ligado à sua veia, que pendia, pendendo e pingando à espera que o dono voltasse, e voltou, pingando também do cateter do braço esquerdo, mal vedado, que lhe manchavam as calças compradas na rua dos Fanqueiros vai para trinta anos.

Após sete horas, em que o meu Pai, sem o saber, usufruiu dos serviços que andou a pagar toda a vida, deu-se o aborrecimento de ter que ser internado!

Ele não queria dar despesa, mas lá terá que consumir antibióticos genéricos de quarta escolha; tocar a campainha cinquenta vezes pela enfermeira, que já não as há; e ser corrido para casa ao fim de dois dias para aprimorar a estatística das taxas de ocupação hospitalar.

Se o meu Pai aos seus oitenta anos tivesse a graça de estar em plena lucidez, teria ficado profundamente humilhado pela forma como o seu dinheiro foi tratado.

Ele merecia melhor, nós merecíamos mais.

O que vos fizemos, para merecer a omissão?

terça-feira, 7 de outubro de 2014

FIM DE DIA NA ESPLANADA





Está um fim de dia exultante – para simplificar, satisfeito.

A esplanada cumpre a função como local de encontro de pessoas que querem afrouxar.

É uma mulher bonita, ainda jovem, com pequenos sinais de desleixo. Talvez não seja desleixo, pode ser um desprimor temporário.

O mais pequeno dos pormenores é fundamental, e quase sempre determinante, há pessoas que se esquecem disso.

Pelo desconforto forçado que imprime à sua linguagem corporal, sabemos que ela, nesse momento preciso, não se sente bonita nem interessante, e ela também o sabe, só que não autoriza essa sensação trancada no inconsciente a vir à tona.

Pôr-se bonito é estimular a atenção do outro a descobrir o interessante, a acontecerem as duas coisas, ganha-se a lotaria.

Mesmo com essas incertezas, esforça-se. Tenta subtilmente o contacto do corpo acompanhado das palavras, que não se revelam ao observador – só se percebe o do corpo – dada a distância entre as mesas que os separa.

Quando fala com ele, na intenção de dizer, curva-se, quer envolver a ilha delimitada pela mesa e as duas cadeiras preenchidas pelos seus corpos. Reposiciona a colher de mexer o café do parceiro no bordo do pires – é uma pessoa arrumada - brinca com a ponta dos dedos finos, cuidados, belos, passando-os tenuemente sobre a superfície metálica do encosto de braços da cadeira do companheiro.

Dá o melhor de si, na maior das dúvidas de ser bonita.

Ele – as costas não dão para perceber se é bonito e interessante – defende o corpo, encostadíssimo à cadeira, as pernas esticadas para o lado oposto onde ela pousa os pés de unhas arranjadas, calçadas numas sandálias apetecíveis.

Com os braços cruzados no peito, para proteger o coração ouve-a, ou finge. Não ouve, engana-se a si próprio.

O observador sofre imensamente – um abuso de estilo porque não é imensamente, nem sofrimento - imaginando expectativas e desfechos: elaborou uma opinião distanciada – mas ficou refém da história porque entrou nela sem convite – e agora, já não são dois, mas três.

E um deles não se fez convidado: ele!

Foi decorrendo o tempo que conta para o final de dia, com o trafego normal dos que chegam e saem de uma esplanada num dia de verão. O sol a pôr-se sem mais alternativa, que a de se ver obrigado a recolher.

Está a ficar fresco, veste a camisola.

A mulher que é bonita e insegura, afinal é uma lutadora: não desiste de o amaciar em seduções. Algum sussurro interior lhe dirá que neste deve apostar tudo e aceita esse cicio da intuição.

O seu caderno das oportunidades está nas últimas páginas, é bela e ainda jovem mas já vê a linha do bojador da vida a aproximar-se. Ou escreve qualquer coisa, ou guarda a sebenta no esquecimento de uma gaveta num móvel sem uso, arrumado no sótão.

Mas não será com este homem (mera suposição, analisados os sinais exteriores), e o observador amisera-se por estar sentado na periferia da mesa errada, porque descruzaria facilmente os seus braços ao menor descuido desta sedutora, esboçasse ela o gesto de se curvar para o envolver.

Pelo menos assim imagina – talvez porque esteja sozinho. Assim se tece uma ilusão.

A história verdadeira é que o outro está de braços cruzados e afastadíssimo, não porque não a ache bonita e com umas sandálias desejáveis, mas porque cada vez que ela se curva para o envolver, exala uma assopradura que anula qualquer possibilidade de amor.

E o observador a roer-se de inveja!