domingo, 23 de março de 2014

Um jantar à luz das velas




Jantar num monte alentejano decorado com memorabilia e pormenores de gosto desconcertante – posto que da aristocracia não se pode alegar mau gosto nem adjectivação inapropriada - antigo coto de caça de uma família com pergaminhos,  do norte, que agora aluga o espaço em package com direito a histórias de passados gloriosos em voucher de fim de semana. Manuseando talheres antigos e outros que para lá caminham, veio a tema, entre um lombo de porco e uma “crumble” de maçã, a excelência da empregada ucraniana.

 Não fora o facto merecedor da mais sonora admiração, o de ela falar bom português com acento alentejano, ainda conseguiu o feito de levar os dois filhos ao colo até a licenciatura num estrangeiro que não este.

A “Mãe” – não a da ucraniana mas a da anfitriã - acometeu-se de uma arrelia crónica que a levou à morte,  por ter de partilhar a mesa de família com autóctones de Massamá e outras proveniências. Foi uma enxaqueca que a consumiu, a da partilha e por ter de alojar os criados no sótão, que nesses tempos de aperto, em que se tomou a decisão do negócio, estava em péssimas condições devido à momentânea incapacidade familiar de suprir os custos de um telhado novo que abrigasse os comensais sem riscos de contratempos nefastos. 

Também não lhe acentou bem o facto de alguns comensais desconhecerem a utilização prática da quantidade alucinante de talheres que bordeavam os pratos antigos lascados com que os serviam, mas isso não contribuiu em nada para o seu apagão.

A velha senhora acabou por fenecer, os tempos mudaram e a família lá vai fingindo que aceita o convívio com os bárbaros, que o dinheiro é igual vindo de onde vier e faz falta para manter o monte.

Contra todas as intempéries, a ucraniana  desempenhou o seu oficio de emigrante exemplar, nunca se queixou nem meteu baixa, e medrou nas poupanças de moedas e notas de baixo calibre para investir no futuro, aquela ilusão de um dia se poder usufruir das mordomias que não se teve, sem preocupações de carteira.

A dona da casa, com um estilo blasé típico, que assuntos destes merecem, utilizou-se da serviçal para exemplificar na companhia do vinho simpático que se bebeu, a excelsa lição que os portugueses constantemente dão ao mundo sem cobrarem nada por isso: apesar da adversidade e do incómodo de terem de sair do sitio em que gostariam de continuar a estar - se os deixassem - abalando para um desconhecido assustador, a sua humildade, disciplina e sentido de honra, dá-lhes a fibra dos melhores trabalhadores do mundo, reconhecidos e acarinhados nos locais de acolhimento.

São únicos, porque nenhum outro emigrante se lhes iguala. Trabalham de sol a sol , não entendem nada das línguas que se falam, mas isso não lhes atrapalha a labuta.

O genuíno lusitano (ficou-se aqui na dúvida se era do equino que se falava), é o ser humano melhor adaptado para sobreviver na mudez, às agruras e injustiças do mundo.

A senhora – como todas as senhoras de famílias conservadoras que nunca  conseguiram fazer uma folga dos seus espartilhos– está na sua razão: jamais uma ucraniana, presumida que seja na sua eficiência, se poderá comparar a este espírito único, diferenciador, motivo de exemplo e constante referência universal, como é o emigrante português, disputado por tudo e todos.

Os comensais suburbanos e ateus de finura, após recolherem aos seus aposentos, no limbo pós prandial, entraram numa espiral de dúvida e confusão: será que os ucranianos da Ucrânia, não pensam o mesmo dos seus filhos emigrantes? Os seus verdadeiros heróis, abnegados, humildes, trabalhadores ? Será que os nossos emigrantes não são o melhor de nós, precisamente por isso mesmo? Porque quando se é deportado à força, baixa a raiva de sobreviver com dignidade , e vem à superfície o melhor de cada um , quando o melhor de cada português vivendo no seu país é sempre o pior aos olhos de quem se esquece das prescrições de prazos para governar.

Se puserem algumas telhas novas, a ucraniana ainda se vai aguentar nesse sotão, caso contrário pode sempre arriscar a Guiné Equatorial já que sabendo falar bom português não terá problemas de aclimatação.


Teria a sua piada se um dia vier a comprar esse monte alentejano.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A raposa e o mineiro


A escuridão é quase absoluta num túnel feito pela mão do homem, escavado nas entranhas da terra, terra adentro, na direção das profundezas.

Não se veria praticamente nada não fosse um coto alimentado por uma lamparina de azeite presa no capacete, a debitar uma luz mortiça.

Uma multidão de homens escuros, sem rosto, sem um som de voz a sobressair no ruído insustentável das picaretas, formigas que escavam e transportam incessantemente toneladas de carvão: o ouro que alimenta as feéricas e estonteantes máquinas que rolam sobre carris, e que vão ligar de ponta a ponta o mais grandioso Império do Mundo, de Ocidente a Oriente, de S.Petersburgo a Vladivostoque.

Esta gente alimenta eternamente os seus czares, e dobra as costas massacradas em tormentos, no bater das botas de todos os cossacos.

Vlad, nunca vê a luz do dia, consome-se nas trevas de uma gruta, mineiro à força, escravo do Grande Senhor da Rússia. Cá fora – não há cá fora nessa terra maior do mundo - todos são igualmente mineiros, na penumbra duma imensidão de cinzento.

O silêncio dos homens é imposto pelo ruído ensurdecedor das pás e das picaretas, das explosões que abrem novos túneis e matam homens -sem conta que não contam - dos vagões que trazem o carvão à superfície, comboios de fantasmas.

Porque vive no jejum de palavras, Vlad alimenta a utopia de uma conversa de amor com Liçá, um sonho-amor irreal, desabafos meio alucinados no mundo de todas as durezas.

Admira a graciosidade e a sua ausência de peso, quando imagina as suas correrias sem norte e sem rumo, pelos bosques intermináveis das estepes russas.

A sua Liçá capta todos os sons do mundo, e põe-nos na cabeça de Vlad para que este se absorva das cores que não vê, para que se inebrie com os odores húmidos e puros da terra, para que sinta uma vida real que não existe.

Através dela, o mineiro-escravo ensaia entender, e gostar, de um mundo que nunca irá conhecer.

Nunca tocou em Liçá, nem sabe se ela tem vida própria para além dos desvarios do seu pensamento enquanto fere as entranhas da terra , mas gostaria de sentir o altamente provável toque sedoso do seu pelo, ensaiar uma tentativa de abraço, sentir o calor da proximidade de outro corpo.


Liçá é a sua ideia de liberdade, a sua cúmplice, a amante que nunca chegou a conhecer a não ser por uma fotografia de uma jovem mulher russa, resgatada do bolso de um companheiro morto por falta de ares, numa galeria que desabou nessa maldita mina de carvão.

Liçá será Lisa? Os nomes dos animais que flanam na sua cabeça, confudem-se com nomes de pessoas.

Lisa é uma raposa indomável e selvagem que saltita sem saber da existência dos czares , nas estepes geladas dos Urais, não sabe de minas nem comboios, e também não sabe de quem a possa sonhar.

 Por onde cirandeia a Lisa?

domingo, 16 de março de 2014

Não foi assim há tanto tempo

As crianças passavam os dias na rua até que o chamamento estridente das criadas para o jantar, se desenvencilhasse do bruá dos putos no pátio, e fosse ouvido, com pena da brincadeira terminar.

Guelas, caricas com a cara de jogadores famosos, pião, bola claro! Apanhada, cabra cega... as peças do puzzle do dia a encadear os sonhos da noite.

Tempos de mudança. Os rapazes tinham mais liberdades que as raparigas, mas algumas  começavam já a desnovelar uma  vida confinada aos quartos e salas bafientas por onde acirandavam as mães e outras antiguidades.

Tempos de convívios incómodos, para elas que se aventuravam nos primeiros deslumbramentos fora do universo bafiento,  para eles cedência de espaço, galarós tímidos presumidos de à vontade.

Os géneros acabaram por se fundir no grande pote da infância e quase todos recordam com nostalgia o tempo em que o tempo parou.

O espaço do pátio que então parecia enorme e hoje não tem pretensões de grandeza, partilhava-se assim entre o feminino e o masculino . Os mais afoitos, enviavam de quando em vez uma bola distraída à espera de contraditório. Umas recatavam-se em sorrisinhos de boca fechada, outras por atavismos a despontar, reduziam-nos a pó, naquela forma letal de olhar que só as mulheres conseguem quando querem dar um assunto por terminado, seja ele qual for.

O pátio foi o laboratório a céu aberto, tubo de ensaio do futuro.


 
A fanfarra a cavalo da Guarda Republicana era o espectáculo da semana, ninguém faltava.

Os cavaleiros músicos, nas suas fardas majestosas, ensaiavam cadências e sincronicidades no vasto descampado de ervas daninhas que se espraiava à frente do prédio. Ao fundo, apurando as vistas, via-se o rio já quase a ser mar. Havia golfinhos.

Em bicos de pés os miúdos ajeitavam os queixos no bordo do muro do pátio, e assistiam estáticos, apatetados, à dança das belas montadas brancas.

A audiência só se descompunha na risada, quando algum ginete menos experiente caia das enormes e majestáticas bestas e levava consigo, aos trambolhões, tambores do tamanho de uma roda de camião, que rolavam e saltavam e acabavam por embater noutro cavalo, que histérico e assustado desembestava descompondo a compostura solene da banda, e gerando caos.

Era uma catrefada de miúdos de diferentes idades, alturas e feitios .

Miúdos felizes.

No prédio viviam pequenos burgueses, burgueses com mais porte, e o rol de serventes, que também eram fam nossa portaleite em garrafas de vidro peirasarçanos vinham trazer as compras e seres menores, ília apesar dos mais presumidos fingirem que os tratavam mal, só para armar e manter as conveniências do tempo.

As mercearias – todas as ruas tinham a sua - enviavam os marçanos a casa dos fregueses com os bens do dia, e estes, recém chegados da parvalheira, ou já mais espigados, aproveitavam para catrapiscar as sopeiras; Os leiteiros deixavam o leite em garrafas de vidro transparente à porta de casa; a água fresca das fontes de Caneças era vendida por mulheres que a traziam à cabeça em bilhas de barro; os amoladores, em dias certos da semana, percorriam as ruas anunciando-se ao toque melódico de gaitas de beiços e aparavam as facas e tesouras, numa corrente-lixa engenhosamente colocada na corrente da bicicleta, que ao pedalarem afiava com primor os utensílios da cozinha.

Não foi assim há tanto tempo.

O  pátio era também o recreio da escola primária da D. Celeste, escola de meninas. Muitas e ruidosas. A D. Celeste era boa pessoa, tinha uma filha obesa e um gato. Dada a sua condição avantajada a Elvirinha não saia de casa, vindo a dar uma leitora obsessiva.

Uma fila de casinhotas dispunha-se longitudinalmente a todo o comprimento do pátio, casas de arrumos e depósito de objectos abandonados pelos donos nessa espécie de cemitérios do passado que são os sótãos e as arrecadações.

Vinte no total,  quatro para cinco metros quadrados, com uma porta de madeira e um buraco com um diâmetro aproximado de 20 centímetros, para arejar.

Os residentes após atenta observação de campo, concluíram que as meninas necessitavam de mais distração na hora dos recreios. Ou isso seria a desculpa para se meterem com elas, primeiros ensaios na atração do desconhecido que leva a assumir as consequências do risco de se conhecer o outro.

O Salvador, menino Nestlé, loiro de olhos claros e pele branca imaculada tinha uma magnífica mala gira-discos portátil que funcionava com pilhas.

Abria-se a tampa, colocava-se o disco de 33 ou 45 rpm, começava a rodar, punha-se o braço com a agulha sobre a superfície do vinil e a música escapulia-se por essa mesmíssima tampa que também era um alto-falante.

Último grito da modernidade.

O pai do Joaquim trabalhava numa empresa de música, o do Salvador era intelectual – mas também trabalhava . À noite disfrutava da companhia dos discos, enquanto lia um dos livros da sua biblioteca-sala e degustava em baforadas lentas um cachimbo Porsche ultra-moderno, com uma fornalha de aço escovado.

Era tanto livro que se ficava com um torcicolo de estar tanto tempo de cabeça ao lado a ler títulos. Sempre que o Joaquim entrava na sala, todos os dias, vinha-lhe sabe-se lá de onde, um impulso incontrolável de tocar, escolher um de tantos e folhear, sempre no sobressalto  que alguém da casa  reprimisse esse namorico não autorizado pelos livros.

Assim, na clandestinidade, ficou refém deles para o resto da vida. Aquela biblioteca foi o seu primeiro cárcere.

O Salvador e o Joaquim possuíam uma coleção invejável de discos com todas as novidades e outras coisas mais entediantes, tipo música clássica e jazz, que eram um aborrecimento danado. Nesses nem tocavam.

Se as raparigas precisavam de se animar mais, ninguém naquele prédio tinha maiores credenciais para as satisfazer do que eles.

Numa assembleia magna a dois, com assistência sem direito a voto dos irmãos mais novos, decidiram instalar uma rádio local com sede na casinhota nº 10, a do Joaquim que estava mais vazia.

Pioneiros das rádio privadas locais!

O estudo da implementação foi aprofundado e sopesado com opiniões e palpites dos outros meninos, a quem não se deu crédito, porque só eles estavam à altura de entender e dominar as novas tecnologias e sabiam do que se estava a falar.

Haviam no entanto, pequenos problemas técnicos por resolver tendo-se decidido pedir conselho ao Joaozinho, rapaz que vá-se lá saber porquê tinha criado à sua volta uma aura de sobredotado, isto porque não saia de casa para brincar, e os meninos que não saiam de casa eram vistos como prodígios em potência de qualquer coisa, ou então estavam tísicos.

Ele não saia porque era o filho da porteira, e os pais gente humilde, crente a Deus e ao Senhor que governava com pulso os seus súbditos, protegiam a cria do enxovalho dos fidalgos.

Lá mais para a frente o  rapaz chegou a doutor médico e alguns “aristocratas”, continuaram no desemprego desde o dia em que se olharam pela primeira vez ao espelho. É um jogo que se desenrola assim, com as regras sempre a mudarem e os desfechos imprevisíveis.

Foi bem pensado pedir-se um parecer técnico, pois aproveitou-se para encher os bolsos de peças de Lego em falta no stock  e mais dois carrinhos da Matchbox, que estavam em defícite no espólio.

Estas incursões eram frequentes pelo que já havia uma táctica afinada com bons resultados: o joaozinho ansioso por ter companhia para brincar expunha na mesa da cozinha o material de construção, que dava para erguer uma cidade inteira em miniatura.

O António distraia-o ajudando a erigir um estádio de futebol - obra difícil - e o sócio, sempre na retaguarda, depois de assinalar as faltas de material e controlar a mãe desconfiada, no momento oportuno, quando os dois estavam emaranhados a pôr de pé uma bancada que apresentava problemas de sustentação e a progenitora a mexer o arroz de tomate para não queimar,  carregava os contentores laterais das calças  com os Legos e calcava para não dar nas vistas.

Nesse dia sairam com a mercadoria, e ideias de gabarito para resolver o fenómeno da propagação do som, coisa da física acústica que os preocupava.

 O Joaozinho nunca na vida se queixou abertamente dessas perdas de material de construção, o que sossegou a consciência dos infractores.

A montagem do estúdio fez-se portanto em bom ritmo.

 
O pai do Joaquim cedeu um altifalante que encaixava no buraco negro da casinhota, com uma ligação sofisticada dos fios à mala cantante. Conseguiu-se ainda um microfone para emissão intervalada dos noticiários e demais temas de interesse local.

Ensaiou-se o sistema num fim de semana em que os irmãos e outros subalternos em idade, foram coagidos a fingirem de meninas em hora de recreio no pátio.  Alinhou-se nesses ensaios - não é para gabarolice - a primeira playlist de qualidade da história da rádio regional.

Georges Moustaki, Chico Buarque, um cheirinho de Fanhais, Cat Stevens, e um que outro hit dos festivais da canção. música eclética para todos os gostos.

O organograma da Estação era como se explica:

A Direcção Geral e a Presidência do Conselho de Administração estava nas mãos do António, por ser o dono da aparelhagem . O Joaquim era Administrador Delegado com assento no Conselho.

Como empregados:

O António que punha a música e não deixava ninguém mexer na aparelhagem, e o Delegado como locutor de serviço.


 
A inauguração oficial aconteceu numa segunda feira. Fazia uma Primavera das boas, daquelas em que o cheiro do ar deixa memórias, e o calor vai para quente. 

A escola  não tinha campainhas, pelo que era mais ou menos por intuição que se adivinhava o tempo do recreio.

Elas vieram em correria para o pátio, barulhentas e buliçosas como todas as crianças.

Entrou em cena o Stevens, para dar cabo delas logo à primeira.

Como disse o escritor que tudo disse o que havia a dizer que depois dele os outros ficaram temerosos de tentar mais ajuntamentos de palavras: elas estranharam a música, segredaram-se porque estavam inseguras e de seguida gostaram!

Sendo locutor e como só fazia separadores e noticiário, sobrava tempo e enquanto o António limpava discos, punha discos, tirava discos, o Quim ia pregando o olho numa nesga do buraco negro, para auscultar a audiência e as suas reacções.

Estudo das tendências do consumidor, também nisso inovadores.

O objectivo era hipnotizá-las, trazê-las ao estúdio, e depois cá para fora, gabarem-se de galãs e famosos, no ensaio precoce dessas inseguranças e estimas pessoais que alimentam e veem a causar danos mais tarde.

A rádio foi um sucesso que ultrapassou toda a expectativa. As meninas quando perderam a timidez inicial começaram a passar por baixo da porta bilhetinhos dobrados,com discos pedidos, as mães vieram conhecer o fenómeno e a D. Celeste, em pessoa, esteve no estúdio com honra de entrevista tecendo louvores ao trabalho e considerando-o de interesse público.

 
Durante esse período, entre a Páscoa e as férias grandes do Verão,  aumentaram os shares, diversificaram a programação, agora com rubricas para os irmãos e música dengosa para as criadas, que nos breves intervalos a seguir às refeições, depois da louça lavada, encostavam os seios fartos nos parapeitos das janelas da cozinha e deixavam-se a sonhar com os magalas do Regimento de Lanceiros, a sua saída dominical, as aproximações e recuos das mãos nos bancos de jardim, tudo isto no embalo dos sons maviosos que imanavam da casinhota nº10.

Tudo corria bem, até que um desprezível mal entendido, arruinou o sucesso desse empreendedorismo e quiçá uma carreira de futuro.

Não se pense que todas as meninas da escola eram umas santinhas, de não partirem sequer um pires que estivesse à mão. Recatadas eram, mas uma que outra, pela surra, não perdia a oportunidade de experiências  arrojadas.

Deu-se pois o infortúnio da Carolina, uma loira angelical, que se arriscava a usar a saia um pouco mais que acima do joelho, ter sido convidada pelos donos da Estação a uma visita às instalações, com direito a explicação detalhada do funcionamento complexo de uma emissora de rádio.

Os ânimos exaltaram-se, o ambiente pôs-se agradável e a pequena, imbuída na missão da Eva, levantou a saia e mostrou umas gloriosas cuecas de algodão em tons de rosa. Não havendo testemunhas imparciais, é difícil afirmar que esse gesto foi propositado e provocador. Também não se consegue provar, que na realidade esse acto apanhou desprevenidos os radialistas, que ficaram sem reacção.

Foram no entanto as primeiras cuecas de mulher, ao vivo, das suas vidas e uma experiência destas não é fácil de esquecer.

Se existe felicidade suprema, aquele primeiro episódio de sensualidade, fica no albúm de memórias do belo, em posição de destaque.

Tudo se resumiu a nada mais que isso.

Uma semana depois os Directores foram chamados ao gabinete da Directora, onde se encontrava sentado numa posição demasiado hirta para ser confortável, um homem de bigode fino e cabelo rigorosamente acachapado pela brilhantina, imitação dos heróis do cinema mudo.

Na continuação de um silêncio aterrador e propositado e sem que o personagem abrisse a boca, nem sequer levantar o olhar, a Professora ditou o veredicto: os meninos tinham andado a levantar da saia da filha do senhor Inspector, fizeram várias tentativas de tocar nas suas pernas virgens, iriam ser severamente castigados. Tinha que se limpar essa nódoa incómoda na honra da púbere, pequena andorinha inocente que foi obrigada depois de trancada pelos meliantes na casota nº 10, a actos indecorosos.  Os pais dos meninos receberiam a notificação do sucedido, em viva voz e nesse mesmo dia, a Elvirinha iria falar com as suas mães.

Como punição, um jejum prolongado de idas ao pátio, sem contestação, não vão os pais terem que explicar àquele senhor como os seus filhos passam lixo revolucionário, e onde arranjaram aquelas músicas perturbadoras dos espíritos e da ordem.

Eles não tinham feito nada de mal. Tinham tido uma visão deslumbrante do céu, ficaram aflitos sem saber como reagir, e simplesmente olharam, um com um disco de vinil na mão, o outro sem saber o que fazer ao microfone.

O mundo dos adultos é injusto.


 As meninas da D. Celeste perderam uma excelente rádio local que as entretinha enquanto saltavam ao elástico e jogavam a cabra-cega, mas a bola continuou a ir parar ao seio delas na expectativa de uma devolução com um sorriso.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Sapatos



Tenho o carro à porta de casa, porque  a garagem está atafulhada de caixas de sapatos.

 Os meus “Manolos”, os meus “Loubotins”, os apreciados “Stuart Wetzman”, uma vida de grande esforço para os ter. Sim são como filhos que fiz nascer , que criei e alimentei com um carinho e um desvelo de filhos verdadeiros.


Acariciei-os mais que ao próprio, o do sangue, que os homens de pequeninos e de boas famílias, não se alimentam com carícias, mas com distanciamento e razão. Quando forem adultos, não são piegas, moldaram a força do seu carácter, na ausência do afecto, estão preparados para nos tratar, a nós mulheres, como gostamos: com as deferências do gesto e a protecção material dos nossos pequenos caprichos.


É assim que eu gosto deles, dos meus sapatos: arrumados, catalogados por filas de género e estação.


Já não os uso todos, os dias do ano não são suficientes e a moda é mais rápida que o som, e se queremos estar na primeira fila, não devemos ter arrependimentos e deixar para trás o que já lá vai, neste caso, o que já se calçou. Mas também há dias, que da manhã à noite, não descanso os meus pés bem tratados, no calçar e descalçar, nostalgias tontas.

 Cada um conta a sua história e lembro-me de todas.


Os sapatos, são a minha grande paixão, e por elas cometem-se todas as loucuras e impulsos. Não olho a despesas, e se me piscam o olho, frágil e ainda ingénua - bens que nunca perderei na vida - deixo-me seduzir, não resisto.


Os sapatos são a minha arte, a minha cultura, a minha preciosa biblioteca. E posso dizer que tenho uma vasta colecção dos clássicos aos contemporâneos.


Estou convencida que o meu amantíssimo marido, que teve que se ausentar por uns momentos, para fazermos face ao custo da vida - que até a nós já afecta -  nunca reparou nos meus sapatos. Não me lembro que tenha alguma vez feito um comentário, um murmúrio indefinido que fosse. Agora as minhas amigas, as que o querem ser e as parvas que me odeiam só por ser boa e poderosa, essas sim não tiram os olhos do chão que eu piso .


Sou a diva dos pés. A rainha dos tapetes vermelhos.


O chão sustem-me e merece-me.