sábado, 17 de maio de 2014

O meu Iphone nunca funcionou




Joga-se ao tostão, cara a cara, o momento da vida, no hospital das bonecas.

Mecanismos, luzes fortes, sons estridentes anunciam a expectativa sem uma resposta definitiva que nos descanse.

A continuação da vida em modo suspenso.

Esperança pelo sim.

Que não nos toque o mau som, que não se apague a nossa luz, que as linhas da máquina continuem histéricas, para cima e para baixo. Bom sinal.

Desta vez escapámos, foi o do lado. Somos solidários nos piores momentos, mesmo cheios de egoísmo.

Anjos brancos atarefados de um lado para o outro, sem parar, usam todos os estratagemas e truques e magias.

Uma vezes sucedem, quase sempre, não desistem... são homens.

Um homem de barba vestido de negro, a mulher também, a família imensa, lá fora acampada, em negro, entram constantemente por ali adentro, ambiente desinfectado, sem lavar as mãos.

Não ligam a isso apesar dos protestos constantes dos anjos. Esquecem-se de pôr a bata verde, o verde que separa o ar puro lá fora, de um pesadelo asfixiante à luz do dia escuro.

Numa nesga qualquer mínima dos olhos sempre postos concentradíssimos na jogada que se segue, ele vem ter comigo.

Senta-se ao lado da cama que eu estou a acompanhar.

O senhor é a pessoa mais bem posta deste sitio e por isso venho falar consigo.

Andamos os dois a poupar migalhas ao tempo para o poder levar para casa e vem este com esta conversa!

Na cama que ele acompanha, a coisa não está correr bem, mas estou muito mais interessado na minha.

Nesta sala enorme só me apercebo da existência da minha.

Tenho um Iphone para si a bom preço.

Declino olhar para ele. Concentro-me nos números da máquinas, fundamentais, e dou-lhe a mão, ainda com mais força. Mais força não, mais Amor.

Num intervalo para um cigarro quase derrotado, ele insiste e mostra-me o objecto. Dou-lhe o dinheiro que tenho e não me interessa.

A comunicação que eu quero não é um telefonema em touch screen.

Quero uma ligação directa à vida.

A nossa cama foi desocupada e saímos limpos, prontos para gozar o ar à tripa forra, palhaços, malabaristas, fazedores das mais excêntricas macaquices que nos vier à cabeça.

Mal fugimos, virámos costas e quisemos lá saber das outras camas!

O meu Iphone nunca funcionou mas foi o melhor negócio da minha vida.

AMO-TE.



terça-feira, 13 de maio de 2014

O olho de vidro da minha tia florinda





A minha tia tinha um olho de vidro e à noite afogava-o, maneira de dizer ,num copo de água em cima do psiché.

A água não era gaseificada, mas constituíam-se pequeníssimas e inúmeras bolhas à sua volta. A modos que um olho numa flute de champanhe.

Para quem está habituado a dentaduras a boiar, esta foi uma grande ideia da minha tia.

Sendo uma mulher com o sentido prático da vida, e como não se está a ver ninguém dormir com um fechado e outro aberto,  não tendo outros inquilinos, arrendou o aquário ao vítreo.

Foi o meu avô que lhe ofereceu o olho, mais para ganhar as graças da sogra e ficar oficializado o namoro com a minha avó, sua irmã , do que atenções à zarolha. Foi no entanto um gesto de simpatia.

Um dia já sem memória que a bicheza das campas  as comeram ao mesmo tempo que as carnes, chegou a casa delas com um embrulho de papel pardo na mão e disse alheadamente: toma, a ver se encaixa.

A minha tia desembrulhou-o na expectativa das testemunhas oculares  - a mãe Carolina e as filhas -  puxou brilho com uma naturalidade que parecia não fazer outra coisa que puxar  o lustro à vista, acompanhou-o até à nova habitação, vazada por um gato de maus humores e relaxou-se a olhar fixamente para a audiência, boquiaberta pelo novo cenário da rapariga.

Na realidade não ficou a ver melhor, mas parecia mais atenta.

O meu avó ganhou bastantes créditos,  era homem que em momentos de necessidade, poderia perfeitamente substituir peças em falta aos familiares mais chegados .

 Os corpos  vêm sempre necessitados de pequenas afinações. Deus cria-nos tanto tantos, que calham imperfeições aleatórias.

O Mário não substitui o Altíssimo, mas cumpria os deveres de bom cristão.

São estes pequenos e distraídos gestos que transformam as nossas histórias.

Não lhe tivesse baixado a ideia,  estratagema sedutor, e a minha tia não teria tido as vistas todas – apesar de uma ser a fingir -  ele não teria casado com a irmã, e por sua vez, que isto é um encadeamento sem fim, eu não estaria agora a recordar um olho de vidro que o meu avô comprou um dia numa loja ao Martim Moniz.

Jeitoso que era!

Se  minha tia foi sempre uma mulher amarga num coração enorme às avessas com o mundo, amaciou-se de vez e até ganhou coragem para pedir o Jacques em ajuntamento, que nisto de decisões grandes ou ligeiras, ela não pedia licença a terceiros.

O afrancesado que não fazia a mínima ideia que o era – aparte a estranheza do apelido -  descendente de um espermatozóide perdido nas invasões francesas, entregava botijas de gás  e obviamente não resistiu aos encantos da Florinda.

 Antes nem lhe via a cara – diga-se em verdade que preferia pousar os óculos noutras partes - e agora ela olhava-o tão penetrantemente  que desarmou o distribuidor de gás desprevenido, o que não é fácil visto que os distribuidores de gás nunca estão desprevenidos.

Para a Florinda foi. Quando uma mulher se põe bonita fica o mundo em alvoroço.

Em criança, quando a visitava - viviam numa Vila de Lisboa - fazia figas para que o olho ainda estivesse a descansar, e poder deliciar-me rodando o copo, observá-lo sobre todas as perspectivas, procurar sinais de vida apesar da fixidez que ele punha em mim.

E como a imaginação das crianças é ainda mais prodigiosa que a própria da Criação, que esta molda a matéria e a delas trabalha com energias muito mais subtis, via-me a descobrir-lhe  - no olho de vidro -um roteiro de pequenos vasos sanguíneos, desenhando curvas  e contracurvas. Cheguei até a jurar-me a pés juntos, que a íris se contraía quando a confrontava mais insistentemente.

Lembro-me bem desse olho, por onde andará agora?

Se por acaso - que os há valentes - vier de alguma forma à pele da terra e alguém que vá visitar um ente querido ao Alto de S.João der de caras com um olho muito aberto a olhá-lo persistentemente, vai apanhar um susto dos grandes.


É o olho da minha tia.

domingo, 4 de maio de 2014

MARIA

A Maria  é encantadora.

Sessenta e sete anos bem medidos, não em tamanho , mas na energia inesgotável.

Não via a minha Maria há muito tempo.

Ai o meu menino, fez-se homem.

E abriu a porta da boca, agora só com dois dentes como porteiros.

Sendo feia, tão feia, como consegue o sorriso mais espontâneo deste universo?

Tão bonita a minha Maria!

A explicação encontra-se na metafísica!

Como vai a vida D. Maria?

Vamos menino, vamos costurando as voltas a ver se nos deixa de rabear.

E vai-se vivendo não é? tem que ser D. Maria.

 E quanto tem de reforma?

É um dois mais um cinco , um sete e seis e oito também.

Chega-lhe?

É poucachinha menino.

E quando paga de renda de casa?

Aí menino, esses números são todos repetidos, até me engano. Deixe ver: é um nove e outro e mais um e acaba num três.

Esgotou-se-me o à vontade com as perguntas.

A pior das vergonhas é quando a temos pelos outros, dobra.

Facilitei-me demasiado, na ânsia de crescer e ser bem sucedido   esquecendo essas mãos que nos ensaios dos meus primeiros passos, rumo à individualidade, estiveram sempre à mão , na distância dos seus (a)braços para apararem os pequenos insucessos das minhas quedas eminentes.

Peço tanta desculpa D. Maria, fosse eu a tempo (estou mais que a tempo)e despedia os administradores da Gebalis, os responsáveis da gestão dos bairros, as assistentes sociais, as psicólogas e até a gaja que passa os recibos da sua renda, uma sucessão interminável de noves por pagar.

Toda a culpa é minha, sabe?  A de não ter cuidado dos seus dentes, para que fossem mais, e  de não ter já despedido há muito tempo esses meliantes.

Também me deslumbrei com as facilidades.

Mas deixe que lhe diga, perdi a cabeça por um bom par de sapatos, mas nunca os usei para pisar! Foram só pela comodidade de andar melhor.

Não se preocupe D. Maria, agora que a revi e caí de novo em mim, vou dar o meu melhor, estar a seu lado quando claudica e raios se não iremos os dois para um apartamento à Lapa, com uma vista esplendorosa sobre o rio.

Andando toda a sua vida nessa correria pelas batatas, alguma vez se sentou à borda do nosso rio, de preferência num fim de dia em que as águas estão expectantes do teatro de luzes preparado para o pôr do Sol?

É um espectáculo supimpa!

Havemos de ir um dia destes, quando a cidade estiver mais arejada de todas essas poeiras que nos fazem alergia.