quinta-feira, 31 de julho de 2014

Episódios de verão

O jovem empregado tinha a boca bem ventilada. Não sabemos se foi propositado, faltam-lhe os caninos. Os fluxos de ar, permitem uma corrente de ar apaziguadora de calores, o que facilita a interacção com as camones, se bem que um pouco ciciada.

É um rapaz com estilo (rapaz, considerando-se à cautela um intervalo que vai aproximadamente dos quinze aos vinte cinco, dependendo de testes hormonais. Antes disso seria miúdo, depois será um jovem adulto).

Cabelo rapado, com uma crista galinácea que alguns jovens insistem, brinco na orelha, e as imprescindíveis tatuagens tribais nos bíceps trabalhados em momentos de lusco-fusco no ginásio da povoação.

A t-shirt é banal – considerando-se por banal um regurgitado de cores florescentes a engalanar uma frase de provocação sexual. Para rematar esta imagem cuidada, umas sapatilhas – ténis - azul turqueza com atacadores amarelos e um tacão generoso ( para conferir ao conjunto um aspecto mais encorpado, que os meridionais ainda andam curtos nos tamanhos).

Serve a mesa do lado: ovos com bacon, torradas em banho de manteiga, duas fatias de tarte de alfarroba, sumos de laranja do Algarve (pode ser de Lepe, que ninguém nota a diferenças no sabor).

Serve uma jovem família obesa de holandeses obesos, com três neonatos que para lá caminham, se seguirem o exemplo dos pais, gente civilizada.

Serve-os mas só tem olhos para ela, a mãe, que apesar de rechonchuda, é loira, e esse facto tem um peso determinante na líbido de um homem do sul.

Uma loira no curriculum vale por três.

Quando pousa o último prato, e para marcar posição diz-lhes num inglês exímio ( mas ciciado) que também é praticante de golfe. Agora não muito, porque a incompatibilidade dos horários da esplanada e não havendo greens com iluminação artificial para aficionados tardios, impossibilita-o temporariamente de exercer tão distinto sport.

Fica registado que ele não é um borra botas qualquer!

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A casa em frente, imagina-se habitada por uma família de locais a almoçar. Esta suposição vem do odor a peixe assado e não havendo fogareiros nas redondezas próximas, só pode vir dali, porque há uma porta aberta e saiem fumos.

Os indícios ficam mais consistentes, porque alguém (homem) acompanha em karaoke da rádio um faduncho, arrotando frequentemente (a letra e o conteúdo do repasto), o que segundo os chineses é uma atitude saudável e de fina educação.

Independentemente dos chineses serem ou não achados para a conversa, os fumos vêem acompanhados com os trinados, o que não deixa margem para dúvidas: são mesmo locais, senão ouvia-se o som das balalaicas, ou do forró.

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Encravado à sua esquerda pelos seguidores de Lutero, e à sua frente pelos representantes do folclore, o observador tem à sua direita uma mesa composta por três homens maduros (maduro define o intervalo que vai dos vinte e cinco anos até ao aparecimento dos primeiros sintomas prostáticos) protegidos do sol por uma barreira de minis em estado terminal.

Estão muito preocupados com a crise de valores do mundo contemporâneo, e verbalizam ainda que a soluços, a situação:

-   inda se fosse bifa!
-   Quem?
-   A gaja que levei no barco hoje de manhã, para a praia.
-   Era boa?
-   Era tuga.
-   E então?
-   É que se fosse bifa, com a porta da igreja escancarada daquela maneira, até ia à missa, confessar-me! agora uma das nossas, naqueles propósitos? São maneiras de uma mulher se apresentar! perna toda aberta!

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o observador pagou, e foi ao supermercado local comprar um sucedâneo de carvão por seis euros (tem que ser importado e portanto é o dobro do preço) para a bela da febra e da entremeada no seu fogareiro de luxo em condomínio certificado.


Férias como deve ser,  é para limpar o corpo e a alma – só comida saudável -  já basta o ano inteiro a comer (e a ver) porcarias.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Comentador de assuntos vãos



Àquela hora, todos os indícios prometem uma boa manhã: o papagaio do vizinho já se debate com questões linguísticas, as gaivotas estão histéricas, o sol ainda mal abriu os olhos e os seus raios varrem horizontalmente os objectos e os seres, vestindo-os de contraluz.

Vai se aperaltar um grande dia de verão!

O vento recolhido no lar, deixa o ar abafado e quente ,

Jacinto acordou nesta algazarra sensorial, mas permaneceu, tomando-se com vagar senhor dos automatismos vitais - agora sob o seu controlo - protegido pelos lençóis de fina cambraia.

Aguarda pelo noticiário das seis na Antena 1, espera que a voz da rádio o ponha ao corrente do pulsar, ou estertor, do mundo.

Uma canção de combate, das antigas e boas, aviva resíduos dos tempos em que ainda existiam ideologias e causas, tem um arrepio momentâneo de nostalgia pé de galinha e enterra a cabeça grisalha, na almofada ortopédica.

Espera-o um longo dia de trabalho, como comentador de assuntos vãos, opinador do inverosímil.

Na pequena fábrica que construiu num anexo sem vistoria, fabrica um produto fino: entendimentos do mundo com assinatura.

Para tal efabulou primeiro e logo concretizou uma linha de montagem, que se passa a explicar.

A plataforma número um, consta de uma caixa em alumínio anodizado por onde entram através de uns filtros - cuja patente não revela – os sons, as imagens e todas as palavras escritas e ditas que consegue aprisionar.

Tarefa sobre-humana, portanto humana, que é no impossível que nos pomos em bicos de pés!

Tudo o que anda por aí a flautear no éter, é absorvido e captado.

Por um processo elaborado de autodidatismo científico, as fontes são separadas e encaminhadas individualmente via um tapete rolante de alta sensibilidade, para um alambique em cobre.

No seu interior, uma lavagem alquímica e muito esotérica, expurga o bem do mal.

Dada a preocupação ecológica do criador, os resíduos tóxicos são reciclados e transformados em energia voltaíca ( para alimentar a fábrica e o plasma que se mencionará a seguir).

O caldo, agora purificado, entra num tambor simpático, para secagem e desidratação, que vai expelir para outro tapete de alta sensibilidade, mensagens limpas e escorreitas.

O ajudante do Jacinto, igualmente reformado (o nosso empresário só dá trabalho a seres disfuncionais), munido de luvas cirúrgicas para não ser contaminado, separa algumas porcarias que ainda restam, enquanto vê o canal Benfica num plasma pendurado do tecto ( o patrão quer dar boas condições ao empregado, e este na distração, está-se mesmo a ver que separa as porcarias!).

Os resíduos serão posteriormente transformados em ração para as gaivotas. Fica explicado o seu comportamento histérico e necrófilo.

  
Plataforma número dois: acondicionamento e acabamentos finais.

O segundo tapete desemboca numa esplêndida secretária de mogno, com três áreas distintas: um tabuleiro em imitação de pele de foca do ártico, do IKEA, o Jacinto de corpo e alma, e um computador Apple com ligação à Internet.

As ainda não notícias, às postas, caiem no tabuleiro, o Jacinto dá-as a conhecer umas às outras, achega-as – casamenteiro empedernido – casa-as com bênção e ordens de marcha. No passo que se segue são comprimidas num ralador sofisticado que vai originar (maravilhas da informática!), um texto escorreito no mais belo e perfeito “Word”, última versão.

Concluiu-se o ciclo. Após esta fase, Jacinto apõe vírgulas, pontos e demais sinalética ( o sistema apesar de sofisticado ainda não chegou a esse detalhe)e envia o produto final, fresco e são para uma lista exaustiva de periódicos e blogues onde colabora como voluntário.

Esse é o momento do criador: a obra nasce, o homem mirra. Fervilha no vazio da espera, o nervoso de um reconhecimento.

O dia foi longo. O papagaio do vizinho, já sem pruridos linguísticos, só diz asneiras, as p... das gaivotas em overdose da tal ração, fazem um berreiro ensurdecedor, o sol fechou a pestana e passou o turno à lua, mulher fácil.

A Jacinto espera-o ainda o pior dos trabalhos pela frente: de olhos pregados no ecrán do Mac, ausculta os shares. Que jornais publicarão a sua opinião de cidadão? Quantos likes? E comentários, amigos e invejosos? E a estatística dos blogues – no julgamento feito pelo seus pares?

Enquanto se fica nisto até altas hora da noite, o ajudante cansado de tanta porcaria, apanhou uma terrível cardina para esquecer a vida de miséria a limpar notícias conspurcadas – é todos os dias assim – e está a estas horas a dormir, bronco e ébrio, embalado pelos sons celestiais que fazem demasiado eco ( são os sons do chocalhar da bebedeira, que ele julga serem as sinfonias dos anjos).

Amanhã, como todos os dias na vida de reformado, ele vai pela ordem dos seguintes acontecimentos: tentar ser menos infeliz, beber, ver o canal Benfica e conseguir dormir.

Jacinto é um comentador de assuntos vãos e leva muito a sério o seu trabalho.

Será que um dia lhe darão coluna própria, com nome e fotografia e tudo?


Apesar da concorrência ele merece, depois de tudo o que tem sofrido com a sua doença de reformado disfuncional!


 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A bandeira degolada



Dizemo-nos com símbolos: as palavras são, a iconografia é, pessoas que simbolizam conceitos vivos para o colectivo, expressões de identificação e entendimento, plasmam a identidade da tribo.


Todos estes símbolos são os veículos e meios de expressão pelos quais, munidos de uma liberdade total, comunicamos com o mundo. São os códigos que dispomos para nos entendermos, desentendermos, coexistir, de preferência harmoniosamente, em sociedade.

Não nos exprimimos  sem liberdade de expressão, o que não quer dizer que não possamos – que podemos  mas a decência não devia deixar - veícular as nossas ideias usando uma qualquer estapafúrdia ou violentadora forma de dizer, rebaixando o outro com  golpes de violência verbal, gestual ou mesmo física.

Se usarmos esses subterfúgios de jogador de Poker somos menos livres porque aprisionamos os incautos nas armadilhas do nosso suposto poder. E não há pior poder que negar a palavra do outro.

Os homens necessitam de símbolos para a sua fotossíntese. Mas atenção, os símbolos são nutrientes  da identidade, não são a identidade.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Leprosos






A cidade bule, impiedosa como todas as urbes, não por maldade própria, mas pela inerência normal da imensidão de pessoas difusas, cada um nos seus afazeres do dia.

Numa intersecção de vias rodoviárias, ruas movimentadas, pontes de circulação pedonal, viadutos por cima e por baixo, existe uma aldeia de casas de cartão e materiais efémeros.

Não se sabe se esta aldeia tem um nome, deveria ter. A toponímia legaliza a geografia.

Nessa aldeia de papel, vivem pessoas, como em todas as aldeias.

Habitada por seres primitivos – palavra difícil de entender e de mal entendidos – no entanto humanos.

Os cidadãos atarefados da urbe, fingem que não os veem: envergonham o seu olhar.

Outros e muitos, desprezam a insistência de um copo preso numa mão estendida.

Os seres deste aglomerado em cartolina, quase primevos, ainda assim humanos, vieram de terras desconhecidas, mal afamadas pelo desconhecimento.

Não se imagina como conseguiram chegar - nem se perde tempo com isso- comendo as distâncias na fome de a saciar.

Aqui não encontram alimento.

Que sonhos se sonharão numa noite ruidosa sob o tecto de um viaduto?

Que sonhos existem num mísero copo de plástico que tremelica numa mão constantemente estendida, agastada pelo desconforto muscular? 

Os sonhos mirram com a humidade que desfaz as paredes de papel, porque não medram  sonhos com frio nos ossos, com fomes acumuladas, na impiedosa omissão de serem gente.

Não há homem mais corajoso do que aquele que se põe a caminho na busca de poder vir a ser um homem.

Será escorraçado, vilipendiado, violentado, omitido, cuspido, escandalosamente escarrado.

Emigrante definitivo, preenche na busca do pão a verdade da essência de se poder dizer homem.

A cidade bule impiedosa contando os segundos para chegar a horas ao trabalho.

Seguem-se os dias e as noites,e as paredes de cartão são constantemente reconstruídas no lixo de uma cidade distraída, algures num viaduto qualquer.