terça-feira, 23 de setembro de 2014

O meu amigo romani




Tenho um lugar de estacionamento reservado, todos os dias da semana até às 8h30. Se me atraso, as coisas complicam-se e dou-lhe mais vinte cêntimos para conseguir outro decente, de acordo com os meus princípios. 

Depois das manobras, seguindo as suas indicações e sinaléticas - como se eu tivesse uma limousina de cinco metros difícil de manobrar, quando a minha viatura, se estender o braço acaricio o vidro traseiro - fecho o veículo com um comando à distância, que me intriga por ainda funcionar, e dou-lhe a propina diária.

- Bom dia chefe. Bom trabalho.

- Bom dia chefe, obrigado.

Foi a conversa mais profunda que tivemos nos últimos trezentos dias – descontando os descansos.

Hoje é domingo, e estou numa galáxia distante da que habito nos outros dias da semana.

Estou parado num sinal vermelho num bairro às portas da cidade. Não olhei mas sei por instinto que tenho um eléctrico amarelo ao meu lado.

Distraío-me com a radio enquanto espero que os meus pais desçam as escadas para irmos almoçar. Cumpro neste local e neste momento a desculpa esfarrapada do filho consciencioso e grato que não abandona os pais velhos na solidão.

Reponho os meus níveis de consciência tranquila com um almoço semanal de duas horas em que os resgato temporariamente do abandono. Depois disso sobrevivo às recorrências do sentimento de culpa, até ao domingo seguinte, e eles convencem-se a si mesmos que a semana se reduz aquelas duas horas, e que todo o restante tempo que a preenche não é mais do que um buraco negro vazio de tempo.

Enganamo-nos mutuamente numa espécie de acordo silencioso em que nenhuma das partes denuncia a outra.

Mas eles amam-me muito mais, porque se convencem da ausência de tempo, pelo amor que me têm, e eu, nem das recorrências me livro!

Enquanto espero, não penso em nada de especial, senão no desejo vago de que as próximas duas horas sejam rápidas. Tenho coisas mais fundamentais para fazer no domingo, como por exemplo,preparar-me para os dias que tenho pela frente na galáxia real em que resido.

Do meu lado esquerdo começo a ouvir um matraquear abafado e persistente. Uma mão a bater insistente numa superfície sólida.
Viro-me por instinto, e vejo um individuo a gesticular para mim com um sorriso sem dentes à vista.

Este homem está absolutamente alegre por me ver, creio.

As suas feições não são estranhas mas não identifico imediatamente quem seja. Reconheço o chapéu, reconheço o colete cor khaki: já sei! É o romani que gere por conta própria o descampado de terra batida, ao lado do teatro da “Comuna” onde estaciono o carro. 

O que me dá as indicações precisas, como um funcionário “follow me” a estacionar um Airbus na placa do aeroporto.

Está mesmo feliz de me ver num sítio improvável para ambos, e eu, sem maiores explicações, também fico muito feliz.

Rimo-nos pateticamente e não paramos de nos dizer adeus e de pôr as mãos fechadas com os polegares para cima. Gestualmente relembramo-nos um encontro marcado, amanhã, no lugar do costume.

O eléctrico arranca eu ainda não, ele vai à sua vida. Eu continuo à espera de cumprir a minha, de preferência sem remorsos de monta.

Aí vêm eles, vamos almoçar.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

DESCULPEM-NOS





- Desculpe, não fiz de propósito! Só queria ir ao facebook colocar um autoretrato. Acho que pressionei o botão errado (as unhas de gel não dão jeito nenhum para teclar teclas de computador), e apagou-se tudo.

-Deixe estar colega,não é a única, eu também peço desculpas. Errei nos cálculos, nunca tive queda para as matemáticas: para fazer o quinto ano dos liceus necessitei sempre de explicador.

- É bom pedir desculpa, mais ainda quando o fazemos juntos, liberta-se o sentimento de culpa, de insucesso, a frustração de se estar sempre a errar.

-Cara colega, a dois, é tudo mais fácil.

-Sabe por acaso o colega se aqui na repartição podemos frenquentar algum curso de computadores em horário pós laboral?

- Já perguntou nos Recursos Humanos, se eles têm? Eu cá por mim já comecei a comprar uma colecção em fascículos semanais que sai no jornal. Chama-se: “como preencher uma folha de Excel”. Pode ser que tenha outros temas informáticos.

- Obrigado colega, vou ver. Entretanto, a minha filha fazia anos ontem e não recebeu o meu autoretrato no face. Que aborrecimento. O transtorno que isto me causa, nem pode imaginar!

- Bem a compreendo estimada colega, o meu erro também afectou – se bem que muito ao de leve – milhares de pessoas que queriam ir para o trabalho e ficaram sem saber onde. É um contratempo, confesso.

- Olhe e se pedissemos de novo desculpa? Em uníssono,a duas vozes? Espaira a tensão.


- Vamos nisso: DESCULPEM! 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Guerra



Não te sobressaltes, eu estou aqui, aninha-te na minha mão.

Os sons estridentes que se ouvem no exterior não nos estão a chamar para a festa. As luzes coloridas que se veem no céu da janela da nossa casa, não estão a anunciar calendários de romarias.

São sons maus e luzes feias, sons que violam os nossos ouvidos, luzes que cegam os nossos sentidos. Não nos deixam dormir, prenunciam uma guerra a bater à nossa porta.

Não atendas, pode ser que vão embora. Vamos fingir que não estamos em casa.

Apaga a luz, e finge.

Os tambores estão a assustar os animais. Oiço-os balir, coitados dos animais.

Imagino – mas não distingo os rostos - homens que fazem tremer o chão com os tacões das suas botas pretas infetas. Levam aos ombros estandartes de mau gosto, e caminham em uníssono para nos amedrontar e espetar os pálios aguçados nos locais das novas conquistas.

Imagino que à sua frente, outros homens a quem ninguém pediu opinião, disfarçando o choro para dentro, para não apoquentar as mulheres e as crianças, abandonem as suas casas.

Transportam nada nos ombros, rumo a nenhures, a uma terra sem mais exigências senão a possibilidade simples de viver.

Tenho em mim a vergonha dos homens do mundo, e a frustração de não ser capaz de os chamar à razão.

A ausência de um algo que seja – uma sensação, um esboçar de emoção, um esgar de sentimento - habita as suas mentes gélidas.

Não há sinais de vida humana nos labirintos vazios que preenchem os invólucros cranianos dos homens dos tacões negros.

Não consigo chegar à fala com os corações desses homens: couraçados pela musculatura desenvolvida nos ginásios do poder, em que treinam, frenéticos, obcecados, dia e noite, alucinados pelos efeitos de hormonas indesejáveis.

Passa-me agora pela cabeça, a correr desalmadamente, a ideia que somos a espécie mais evoluída do planeta mas não a mais sensata.

Evoluídos e bacocos! Arrepio-me.Tenho frio.
Estou agora numa cena diferente: vejo-nos a idealizar grandes obras, moldando essas abstrações em matéria – dizemos arte - para deleites e encantamentos de todos.

Mas ao lado dessas obras, junto a nós, iguais a nós, vejo homens a assassinar com a maior das crueldades, enterrando as adagas até ao punho, num gozo e num acto que nenhum animal pratica.

Tenho vergonha e medo. Muito medo!E frio.

Acordo sem saber onde estou. Levo tempo a orientar-me. Executo malabarismos patéticos com as mãos para voltar a ser senhor do escuro. Encontro o teu corpo quente.

Não te preocupes, dorme o teu sono repousado. Eu estou aqui.

 Acabei de ter um pesadelo.