quarta-feira, 15 de outubro de 2014

PORQUÊ




Há momentos que nem no humor com que embrulhamos as palavras, para que não sejam tão ásperas, se consegue tirar da cartola - depósito quase inesgotável onde inventamos os truques de mágica tontos e simplistas, que ainda nos fazem sorrir para aguentar a total ausência dos sentidos da vida – um alumbramento de jeito.

Há realmente momentos, de vazio completo.

Malabaristas que somos, ainda assim, mesmo assim, pantominamos os que amamos, distraindo-os (protegendo-os), tentando abraçá-los para que não vejam, não sintam, não chorem, não lhes passe sequer pela cabeça a ideia que viveram a sua vida em vão.

O meu Pai tem oitenta anos, é e sempre foi um homem muito decente, não porque seja eu seu filho, a dizê-lo.

Viveu a sua vida de uma forma banal e sem história: trabalhou muito, contribuiu sem nunca discutir ou questionar, abdicou facilmente de pequenos excessos para educar bem os filhos e depois, merecedor mais que absoluto de poder sentar-se sem cerimónias a admirar a sua obra, foi obrigado a pôr-se de novo em pé porque os filhos ainda precisavam dele.

Possuidor da pequena fortuna de anos e anos de descontos para uma reforma de nababo (pouco mais de mil euros), foi chamado a repartir essa orgia pelos filhos, necessitados estes de viver também de uma forma banal e sem história.

Pela primeira vez na sua vida de oitenta anos, entrou hoje necessitado de um aconselhamento médico, na urgência de um hospital de Lisboa.

Vinha em mau estado, e mesmo assim a conter-se, para não incomodar os seus, e não ocupar com atenções a si, o espaço de outros eventualmente mais necessitados.

Parvoíce de um velho tonto, que estava mesmo necessitado de ajuda.
A ambulância do INEM foi a casa, rápidos e de um profissionalismo que nos deixou inchados de orgulhosos.

Na triagem da urgência do hospital, calhou-lhe a pulseira amarela: urgente.

Como nas tempestades climatéricas, a gravidade da situação vai do verde ao laranja/vermelho (neste caso acrescentaram o azul, como gravidade nenhuma, pulseira para os utentes que não tendo médico de família, ou não tendo consulta em tempo útil para o mesmo, têm que se dirigir à urgência para tomar o tempo e os recursos escassos dos profissionais).

Num painel televisivo, uma espécie de gráfico com as cores, indica os tempos médios de atendimento.

Para os verdes (os que não têm nenhum sinal de estretor nos dias mais próximos) cinquenta minutos. Para os laranjas/vermelhos, muito urgentes, vinte minutos (parece ajustado: em vinte minutos não se vive nem se morre, é o tempo suficiente a acontecer qualquer apoplexia na sala de espera, entre chegarem os maqueiros, conduzir a maca entre as filas dos utentes, e chegar a tempo do médico de banco indicar aos familiares o número da funerária). Os amarelos, a cor simpática que deram ao meu pai – a dos urgentes – tinha um tempo de atendimento a rondar uma hora e vinte e sete minutos.

Ao meu pai que foi depositado numa cadeira de rodas, com a cabeça a pender constantemente para a frente – a cabeça – não lhe pareceu nem bem nem mal, ao filho pareceu que pronto, dado que se tinham que despachar os azuis e os verdes, e já que os laranjas antes mesmo de chegarem ao hospital já eram póstumos, era de toda a justeza, que a um  cidadão banal de oitenta anos descontados até ao tutano, lhe fossem oferecidos uma hora e vinte sete minutos, a ver se a coisa pendia para o clube dos laranjas, ou dos verdes.

Ele aguentou, e lá tiveram que o atender. Um jovem médico no primeiro ano do internato da especialidade, agraciou-nos com a bênção – e nós somos ateus – de ser um jovem médico no primeiro ano da especialidade mas de uma sensibilidade rara e que seguramente já o sendo, vai ter uma carreira brilhante.

Saiu-nos o euro milhões, apesar do meu pai nem se ter apercebido disso. AGRADEÇO-LHE MUITO!

A urgência de um hospital central de Lisboa estava a ser garantida por uma dúzia de miúdos cheios de boa vontade. Avistei ao longe alguém mais velho, de bata e estetoscópio, com um ar muito cansado e gasto, talvez desistente.

Depois as coisas correram bem: deram-me um frasco para recolha de urina e a casa de banho da urgência estava fechada por “questões técnicas” (descobrimos depois de uma aventura exploratória por salas e recantos, a casa de banho da ortopedia, atapetada com papel higiénico e líquidos presumíveis no chão), na sala de espera do TAC, podíamos utilizar uma caixa de cartão aberta para deitar o lixo, onde conviviam luvas, compressas com sangue, invólucros de rebuçados e lenços, algumas migalhas de bolo.

Cansados de esperar, e como não aparecia ninguém para transportar a cadeira onde tinha o meu progenitor depositado, pusemo-nos eu e ele a caminho da urgência (como já tínhamos explorado o local na busca do wc, já conhecíamos razoavelmente o hospital). Graças a deus, encontrámos o tubo do soro que anteriormente tinha estado ligado à sua veia, que pendia, pendendo e pingando à espera que o dono voltasse, e voltou, pingando também do cateter do braço esquerdo, mal vedado, que lhe manchavam as calças compradas na rua dos Fanqueiros vai para trinta anos.

Após sete horas, em que o meu Pai, sem o saber, usufruiu dos serviços que andou a pagar toda a vida, deu-se o aborrecimento de ter que ser internado!

Ele não queria dar despesa, mas lá terá que consumir antibióticos genéricos de quarta escolha; tocar a campainha cinquenta vezes pela enfermeira, que já não as há; e ser corrido para casa ao fim de dois dias para aprimorar a estatística das taxas de ocupação hospitalar.

Se o meu Pai aos seus oitenta anos tivesse a graça de estar em plena lucidez, teria ficado profundamente humilhado pela forma como o seu dinheiro foi tratado.

Ele merecia melhor, nós merecíamos mais.

O que vos fizemos, para merecer a omissão?

terça-feira, 7 de outubro de 2014

FIM DE DIA NA ESPLANADA





Está um fim de dia exultante – para simplificar, satisfeito.

A esplanada cumpre a função como local de encontro de pessoas que querem afrouxar.

É uma mulher bonita, ainda jovem, com pequenos sinais de desleixo. Talvez não seja desleixo, pode ser um desprimor temporário.

O mais pequeno dos pormenores é fundamental, e quase sempre determinante, há pessoas que se esquecem disso.

Pelo desconforto forçado que imprime à sua linguagem corporal, sabemos que ela, nesse momento preciso, não se sente bonita nem interessante, e ela também o sabe, só que não autoriza essa sensação trancada no inconsciente a vir à tona.

Pôr-se bonito é estimular a atenção do outro a descobrir o interessante, a acontecerem as duas coisas, ganha-se a lotaria.

Mesmo com essas incertezas, esforça-se. Tenta subtilmente o contacto do corpo acompanhado das palavras, que não se revelam ao observador – só se percebe o do corpo – dada a distância entre as mesas que os separa.

Quando fala com ele, na intenção de dizer, curva-se, quer envolver a ilha delimitada pela mesa e as duas cadeiras preenchidas pelos seus corpos. Reposiciona a colher de mexer o café do parceiro no bordo do pires – é uma pessoa arrumada - brinca com a ponta dos dedos finos, cuidados, belos, passando-os tenuemente sobre a superfície metálica do encosto de braços da cadeira do companheiro.

Dá o melhor de si, na maior das dúvidas de ser bonita.

Ele – as costas não dão para perceber se é bonito e interessante – defende o corpo, encostadíssimo à cadeira, as pernas esticadas para o lado oposto onde ela pousa os pés de unhas arranjadas, calçadas numas sandálias apetecíveis.

Com os braços cruzados no peito, para proteger o coração ouve-a, ou finge. Não ouve, engana-se a si próprio.

O observador sofre imensamente – um abuso de estilo porque não é imensamente, nem sofrimento - imaginando expectativas e desfechos: elaborou uma opinião distanciada – mas ficou refém da história porque entrou nela sem convite – e agora, já não são dois, mas três.

E um deles não se fez convidado: ele!

Foi decorrendo o tempo que conta para o final de dia, com o trafego normal dos que chegam e saem de uma esplanada num dia de verão. O sol a pôr-se sem mais alternativa, que a de se ver obrigado a recolher.

Está a ficar fresco, veste a camisola.

A mulher que é bonita e insegura, afinal é uma lutadora: não desiste de o amaciar em seduções. Algum sussurro interior lhe dirá que neste deve apostar tudo e aceita esse cicio da intuição.

O seu caderno das oportunidades está nas últimas páginas, é bela e ainda jovem mas já vê a linha do bojador da vida a aproximar-se. Ou escreve qualquer coisa, ou guarda a sebenta no esquecimento de uma gaveta num móvel sem uso, arrumado no sótão.

Mas não será com este homem (mera suposição, analisados os sinais exteriores), e o observador amisera-se por estar sentado na periferia da mesa errada, porque descruzaria facilmente os seus braços ao menor descuido desta sedutora, esboçasse ela o gesto de se curvar para o envolver.

Pelo menos assim imagina – talvez porque esteja sozinho. Assim se tece uma ilusão.

A história verdadeira é que o outro está de braços cruzados e afastadíssimo, não porque não a ache bonita e com umas sandálias desejáveis, mas porque cada vez que ela se curva para o envolver, exala uma assopradura que anula qualquer possibilidade de amor.

E o observador a roer-se de inveja!


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

PIROPOS





Bom dia!

Hoje vou dizer-vos carícias sussurradas nos sons da nossa intimidade.

Enviar rodopiando pelos ares, piropos acrobáticos com ideias afoitas e apimentadas.

Vai a caminho, num bater de asas e por pomba táxi, a flor que acabo de inventar, com cores inexistentes até ao momento em que a receberes.

Hoje, é daqueles dias que desafio a minha timidez a entregar-vos em mão um cumprimento que vos vai deixar embaraçados,

e vou mais longe: a flor e os piropos serão entregues com salamaleques e pantominas.

Hoje, é um bom dia para fazer tudo isso.

E cheguei a esta conclusão quando ainda estremunhado, me aguardava um pintaroxo no beiral da janela por onde olho o mundo, posto de vistas comigo, a desejar-me um bom dia.

Considero que um fenómeno destes - tão raro - é um argumento mais que suficiente de plena felicidade.

Partilho assim esta excelente boa disposição convosco.

E desafio-vos a vivermos juntos este dia épico: relatem-me em pormenor, o que hoje vos fez acordar felizes!

Gozem a flor, ponham ao peito ou a descair ligeiramente da orelha,ajeitem no espelho saiam à rua pimpões e inchados.


É que hoje, e como sempre, está um grande dia!