quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O Paquistão e as comemorações do Natal



A notícia foi para o ar às 20h52, precisamente cinquenta e dois minutos após o início do Noticiário. Cinquenta e dois minutos preenchidos com assuntos prioritários – domésticos – os temas habituais. Nos episódios do mundo, neste dia também aconteceu um massacre, que só seria importante se não fossem mais importantes as luzes a acender e a apagar da árvore artificial.

No Paquistão houve um atentado talibã. Morreram 132 crianças, mas não faz mal, porque lá não se comemora o Natal.

Essa fatalidade não enegrece a comunhão entre os homens, que por essas bandas, esta época do ano diz-lhes pouco.

Lá não se preocupam com o presépio, os pinheirinhos iluminados, o bom do bacalhau, os sonhos e as rabanadas, os presentinhos. São gentes sem preocupações e como tal amorais.

Na Austrália morreram três pessoas, duas que estavam a tomar café na cafetaria errada, e a terceira que sendo bárbara quase não conta como pessoa.

 Lá na Austrália, comemoram o Natal e todos pensavam que podiam sair à rua tranquilamente para comprar as figuras do presépio, sem se preocuparem com atentados, que só acontecem nas localidades em que não se comemora o Natal. Enganam-se.

Na Nigéria raptaram centenas de crianças, estava-se longe da data do Natal, mas também não teve importância porque já de si e todos os anos morrem praticamente muitas pessoas sem sequer chegarem a Dezembro. E quem é que agora, na azáfama de embrulhar os peúgos para o avô se lembra de uma coisa dessas?


Assuntos assim – mal dispostos - nunca deveriam passar na televisão quando todos estamos concentrados na cadeia do amor que une as famílias numa quadra que é tão linda. Desfocam, distraem, incomodam a harmonia, mesmo em passando aos cinquenta e dois minutos de um jornal nacional, no momento em que se está a lavar a louça e não se vê a notícia.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

CONTO DE NATAL A UM SEM ABRIGO





Fome. Não é de pão, se bem esquecidos de uma refeição decente.

Perdeu-se o apetite pela comida porque ela anda arredia. Faz-se um esforço de Hércules no auto controlo para manter a biologia no seu lugar: obrigatoriedade de viver porque não há outras oportunidades mais interessantes.

Não é a fome que revolve os interiores, é a escassez de outros petiscos a cujo preço não se chega.

Esses acepipes são palavras, que têm cores fortes, sons agudos, ingredientes de conceitos complexos e muito sérios.

Revisite-se o cardápio:

Estima. Haverá fatiota mais galante que esta? Calcorrear a calçada trajados de limpo? Lustrosos? Sorrir à cara cheia e estar sempre a tirar o chapéu em mímicas de pantomina aos transeuntes que passam incrédulos pela calçada? Deixar rasto, a espuma dos dias que passam. É isso, vincar o caminho.

Útil. Todos os parceiros sem deixar de fora quem está sentado nas margens dos passeios. Dar a mão, receber outra, usar o seu impulso para o acontecimento de qualquer coisa. A somar as partes, fazer algo.

Energia. Os dias de inanição gastam, esbracejando sem glória, pelo elementar, pelo básico, pelo mínimo, vão-se as forças no essencial.
Tolerante. Perde-se a vontade de olhar para as pessoas apaixonadamente, encontra-se defeitos em tudo, nada se desculpa. É o pior sintoma desta estirpe de anorexia mórbida.

Não se é pobre por ter pouco dinheiro, mas porque baixa a febre da impotência, que descalcifica os ossos, ataca os músculos, conquista o corpo para a desistência.

Fica-se coitadinho, exposto a compaixões e penas, dos falsos rosários de prata a chocalharem no interstício de seios bem nutridos e vicejantes.

Quer-se dignidade – tesouro dos tesouros - porque entre outras razões que vêm à cabeça, já se pagaram os duodécimos desse manjar.
Oportunidade. Surripiada para os bolsos de outros casacos.

Esperança. É como a fome: não se morre pela sua falta, mas fica-se mais magro porque não alimenta absolutamente nada. Não tem calorias.

Vergonha. De vocês, abutres diletantes. E por nós, pelos desabafos, regurgitações da alma que não levam a lado nenhum.

Coragem. Para ajeitar os vossos colarinhos cheios de goma.

Amanhã. Se bater à porta será um dia como todos os outros, desinteressante.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

MANUAL DE ESCRITA CRIATIVA



- Desculpe mas olho para si e pelo ar latino, não vou falhar se disser que fala português. É verdade?

- É verdade.

- Tem tempo?

Espero alguém. Quando esperamos é porque temos tempo. Digo que sim, se bem a intimidade com o café tenha ficado por aí

- Já ouviu falar de escrita criativa? Sabe o que é? Interessa-se pela leitura?

Perguntas difíceis. Tento pensar antes de me comprometer com uma resposta. Trata-se de um desconhecido e estou numa esplanada, local incómodo para nos encostarem à parede.

Para além disso tenho dúvidas. Tenho sempre tantas dúvidas!

- Acho que sei o que é escrita criativa - sobre a leitura mantenho-me calado.

O homem, ainda jovem (trinta e poucos talvez) põe-me à frente dos olhos um volume de páginas A4 encadernadas com um espiralado plástico branco e uma mica transparente a fazer de capa.

 Reparo, sem saber porque reparo, na gola acastanhada da t-shirt que já deixou de ser branca. Salta à vista esse rebordo na primeira linha das várias camadas de roupa que tem em cima de si. Ou é friorento num dia de calor, ou traz consigo para onde quer que vá, o guarda-roupa completo.

- Este é o manual mais completo sobre escrita criativa que existe.

Quando alguém me diz uma coisa destas, tão definitiva, tenho a tendência para lhe cuspir na cara. A maioria das vezes não o chego a fazer, não respondo mas fico a chamar-lhes nomes para dentro.

-Tem à sua disposição um estudo comparativo de frases idiomáticas do português. São o melhor alimento da escrita criativa, as frases idiomáticas.

- Compreendo.

- Tem também um dicionário de semântica. De A a Z. O que seriam as palavras sem um significado? A semântica é a alma das palavras. Fundamental para a criação.

- Não sabia.

- Por último, ofereço nove contos originais e únicos. Se fizer todos os exercícios que o manual propõe e seguir rigorosamente as instruções, poderá igualmente vir a escrever textos parecidos com os exemplos apresentados.

- Estou a ver.

- Este curso pode ser de grande utilidade para a sua vida, e estou praticamente a oferece-lo a um custo ridículo.

- Agradeço a proposta, mas de momento não estou interessado – disse cobardemente, com medos de me enganar de novo nas ilusões.

- Tem ar de quem fuma. Fuma?

Ofereci-lhe um cigarro.

- Já ouviu falar de física quântica? Interessa-se por esses temas?

Também gosto de física quântica porque gosto de ser curioso, mas desta vez não sei se lhe vou responder. Encolho os ombros, ele aceita a minha ignorância. Olhou-me num esgar e tive a sensação de me sentir símio.

- É uma pena que não tenha nenhum chamamento para a ciência política. Compilei um manual que faz luz à compreensão da falência das ideologias no mundo contemporâneo.


Comprei o manual da escrita criativa por dez euros e convidei-o para um café numa esplanada burguesa no coração da cidade.