segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

DIAS FELIZES, TODOS.






Lamento mas este Natal tenho pouco para vos dar, pouco mais que o desejo de um bom dia, voto que faço no apogeu e no desfecho dos dias dos anos que passam, enquanto por cá andarilhamos.

Não tendo nenhum voto em especial e específico só para o Natal. Não vos auguro mais só por ser Dezembro. As religiões, não me meto com elas - evito equívocos - por isso não comemoro as efemérides de nenhuma.

Tenho como garantido que não vos esquecerei no dia 26  mais do que vos vou esquecendo habitual e desastradamente ao longo do ano, deveria era lembrar-me mais, sempre!

Nem vos saúdo mais efusivamente durante esta semana, porque de repente me lembrei que existem.

Não me parece educado arrumar contas de bom e sincero amigo, enviando por correio um cartão cheio de purpurinas cintilantes, ou escrevendo à pressa uma mensagem esfarrapada, rebuscada, presumida, acompanhada por uma imagem piegas, repetida por todos os que andam distraídos, nos faces ou nos depósitos dos sms e emails que entopem a comunicação que realmente importa.

Lamento mas não tenho presentes para vós, não gasto dinheiro para atafulhar-vos de inutilidades para depois andar a pagar prestações infindáveis de cartão de crédito inflacionado.

Prefiro gastar as notas, almoçando ou jantando, ou até mesmo tomando um bom copo de vinho, numa esplanada virada ao mar, absorvendo um fim de dia esplêndido e actualizando conversas.

Essa festa proponho que façamos durante todo o ano, podem ser os nossos natáis, muitos, e repetidos. São as comemorações que mais gosto. Espontâneas e civis.

O bacalhau,as couves e as filhoses deixaram de me interessar, não mais do que me interessam esporádicamente, e para as degustar não sou obrigado a ter data marcada.

Árvores dentro de casa, prefiro-as no exterior, são mais amplas, apreciam-se melhor. Quanto às luzes a piscarem, incomodam-me – não me deixam ver afincadamente a novela – e consomem electricidade, um bem ridiculamente caro.

Sonhos, esses, é que não podem mesmo obrigar-me a consumi-los com agenda marcada. É quando os quero - uso e abuso - independentemente do seu teor calóríco, que estou-me pouco borrifando para isso.

Não tenho cotas de consumo dos sonhos, quantos mais, melhores.

Posto isto, resta-me desejar-vos a continuação de dias soalheiros, vividos até à exaustão, consumidos com os requintes do prazer de viver, também ao lado dos amigos.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

UM BONITO CONTO DE NATAL




“Mãe, fomos à terra do Pai Natal, voltamos para a Consoada”.

Estamos na época do ano em que as pessoas pedem suplemento de mimos, as crianças muitos brinquedos inúteis, alguns velhos carinhos, os sem-abrigo não pedem nada.

E está instituído assim, que todos devemos estar mais sensíveis e disponíveis neste período. Se um idoso nos mendigar atenções em Maio, que é um mês sem ocorrências histriónicas assinaladas no calendário, fazemos de conta que não é connosco, voltaremos a ele em Dezembro, se ainda for vivo e puder falar.

Nesta altura em que se comemora o reencontro, a partilha, a reunião da grande família humana cristã, em que até o a-sentimental mais empedernido olha de relance para o pobre, se apieda tenuemente e lhe atira uma moeda de cêntimos, os homens de boa vontade – escassos - não têm mãos para despachar tanta solidariedade concentrada em meia dúzia de dias. Só com ajuda, e divina.

Que se saiba, só Deus Nosso Senhor e o Pai Natal conseguem prover a todos em todo o momento, possuídos pelos superpoderes da ubiquidade e da omnisciência. Este último dispõe ainda do trenó voador mais rápido que se conhece.

Por isso fomos pedir-lhe auxílio, que este país cheio de velhos, abrigados em tectos frágeis, é um local que precisa de muita ajuda natalícia.

A residência oficial do santo Nicolau é na lapónia, mas tem outras moradas registadas, nomeadamente Carrazedo de Montenegro, de quem é Padroeiro.

Começámos por aí, que apesar de distar mais de quatrocentos quilómetros, fica mais próximo de Queluz (a nossa residência oficial) que o círculo polar Ártico.

Quando chegámos não estava, a senhora que tem a chave da igreja, despachou-nos com a desculpa de não o ter visto ultimamente. Ou desconfiou de nós, ou estava preocupada com a sopa de couves que estava no braseiro a queimar.

Decidimos tentar a Lapónia.

Comemos uma alheira e uma bucha com presunto - para o caminho - enchemos o depósito de gasóleo e passámos a fronteira de Quintanilha deserta aquela hora e quase sempre.

Não é fácil chegar à Lapónia! Apesar de praticamente haver uma autoestrada que a liga a Bragança.

Não é fácil porque de um dia para o outro, o caminho encheu-se de obstáculos, obrigando a fazer paragens forçadas, muitos atrasos e contratempos.

Indiferentes à nobreza dos nossos sentimentos, os espanhóis, os franceses, os alemães, os bálticos, todos, receosos de terroristas que fossemos, a fazerem-se difíceis à nossa passagem.

Sempre a sermos incomodados com perguntas inconvenientes e revistas à viatura e a nós mesmos, procuram coletes suicida e armas automáticas, quando o único objecto cortante que transportávamos era a naifa do Quim, instrumento essencial para cortar os enchidos que dão a cor ao pão.

E as desculpas para não nos querem deixar passar? Era por sermos portugueses à procura do Pai Natal – que é motivo para desconfiar - era por sermos morenos e só os loiros é que gostam genuinamente do Pai Natal, era porque tínhamos um gato chinês dourado sempre a dar ao braço com o punho fechado na chapeleira do carro (o que é que fazia ali um gato daqueles?) era porque o pipo da roda sobressalente não cumpria com a norma europeia.

Um rol de imparidades, ou simples má vontade dos agentes da autoridade, para estes cidadãos do espaço Schengen, dos mais fiéis e pacatos, unionistas genuínos, de boa cepa que nos orgulhamos de soer.

Guia-nos uma nobre missão e eles a desvalorizarem o desiderato!

Saímos da nossa multiétnica e multicultural aldeia de Queluz convencidos que eramos europeus – nós que somos de nos sentir em casa em Portugal como na Estónia -, mas as autoridades locais a não quererem perceber. Para eles, a europa começa na sua fronteira. Foi assim em todos os países que atravessámos.

Tão demoradas foram as explicações e os convencimentos de que eramos pessoas de bem e íamos por uma causa justa, que só chegámos à Lapónia passado o Natal.

Fazia um frio incompreensível e parvo (mesmo com as samarras alentejanas com gola de raposa, as partes mais distais dos nosso corpo, encarquilharam – pode-se lá viver num sítio destes!), não vimos vivalma em Rovaniemi, tudo fechado. Em desespero, descobriu-se um gnomo jeitoso, de barrete verde, a gaguejar assobios, cambaleante, presumimos que do efeito deletério do grogue consumido nas festividades.

Disse-nos num finlandês perfeito que o Santa Claus, cansado das correrias pelo mundo – tudo concentrado: a atenção, o amor, a solidariedade, toda essa azáfama num só dia de trabalhos – e com a consciência dos deveres distributivos cumpridos, arrumado o trenó e desemparelhadas as renas, tinha partido de férias para a residência de Carrazedo de Montenegro, paradeiro longínquo de climas amenos e gente macia.

Só podia estar a mofar! Das duas a que seja a melhor: ou o gnomo estava inibido temporariamente da razão, ou o raio da porteira da igreja de um raio, também caturra (e que se dane a concordância e o estilo da frase), folgou com a nossa cara, de suburbanos pacóvios.
Tanto quilómetro em vão, só para termos a certeza de que afinal e apesar do que nos diziam constantemente na televisão, não eramos benquistos em lado nenhum, nem já em África (que não vem ao caso para esta história tão bonita).Ainda por cima sem rasto do Papai Noel.

Regressámos. Desta vez foi tudo muito mais fácil, era só apontar para o Sul, dizer Portugal, que os guardas com cães levantavam as cancelas das fronteiras, muito mais relaxados os primeiros, babando-se os segundos, que se não estivéssemos já suspeitados, acharíamos que nos queriam era ver pelas costas.

Mesmo com estas mesuras e o caminho desimpedido, a distância era longíssima pelo que só chegámos em inícios de Janeiro.

Falhámos na missão de trazer o Pai Natal para ajudar no consolo dos precisados, falhados e derreados, eles e nós.

Por amor próprio – justificação esfarrapada – insistimos uma vez mais numa paragem em Carrazedo. São Nicolau mandou um serviçal enxotar-nos. Cá fora transpareciam ruídos de farra, vislumbravam-se recortes de sombras nas janelas iluminadas, ouviam-se sons cheios de swing, estava lá de certeza! mas nem quisemos saber mais dele, voltámos a Queluz esmorecidos.

Esperava-nos uma ceia tardia com restos da “roupa velha”, entretanto congelada, e filhoses que foram frescas na semana anterior.

Na manhã seguinte, demos conta por observação no terreno, testemunhos vários e supervisionamento televisivo, que afinal as crianças já estavam muito mais brandas, agora na fase de negação dos brinquedos entretanto destruídos que tinham recebido no sapatinho. Os velhos, passado o prazo em que lhes devíamos mais atenção, continuam velhos, insistentemente velhos, iguais de gastos todos os meses do ano.

Enquanto se desenrola esta conversa, sabemos que houve festas para os desabrigados, que a seguir voltaram a frequentar os mesmos cantos esconsos onde alucinam de não conseguir dormir nas noites arejadas e frescas nas suas “casas” a céu aberto.

Tudo está igual e na mesma. O mundo assim segue: funâmbulo, nos equilíbrios instáveis, a fazer despreocupadamente ginásticas sobre os abismos.

A nossa fé ficou abalada, andamos ansiosos desde miúdos e até hoje nunca conseguimos ver o Pai Natal. Todos os anos se escapa com a cumplicidade do escuro da noite.

Não fossemos nós, os homens, e as crianças ficariam desconsoladas, os velhos não teriam nem um abraço e um bolo rei, e os indigentes uma manta nova e um gorro de pai natal com luzinhas a piscar no frontispício da testa.


Começamos a achar que ele não existe. Quem faz os milagres somos nós, e tão humildes somos, que lhe damos a assinatura desses méritos.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

UM PASSEIO A VILA VIÇOSA






Fomos de passeio até Vale Viçoso ou Vila Viçosa, toponímia alterada por D. Afonso III, há tanto tempo que se arquivou na gaveta dos dados inúteis.

Tomámos essa decisão porque faz bem sair, ir a qualquer lado, vagabundar sem reserva feita,nestes momentos de medos que atormentam as almas, em que aumenta a temperatura dos desnortes, febrículas insidiosas que debilitam corpos e afrouxam cabeças num adormecimento indolente, atarantados todos na escolha de direcção nas encruzilhadas dos caminhos, sempre difíceis os caminhos.

Cada um reage a seu modo: uns valem-se de amnésias propositadas (aos esquecidos tudo se desculpa), vagueiam fora de si, como sempre fizeram - por aqui e por ali - seguindo as correntes do momento; outros põem-se à procura dos valores (não os do dinheiro, mas os do espírito), esquecidos nas gavetas, perdidos nos labirintos interiores das suas casas, vagueiam dentro de si não encontrando nada; há os que colocam perguntas, esperançados que o gorgorejo das verbalizações sossegue a mente. Estes são vagos e consomem o tempo inutilmente. Não há resposta para todas as perguntas, serão sempre mais numerosas.

Entornados nos pensamentos, na preocupação do mundo, fomos arejar, para diluir as névoas peganhentas que se alapam insidiosas em nós.
Escolhemos o Sul, vamos terra adentro, às arrecuas do tempo, prestar homenagens à Restauração. Não vamos de caleche o que é uma pena - teríamos vistas mais desafogadas e lentidão para apreciar melhor - vamos de carro.

Que não se espante D.João IV e a sua descendência, a ilustre casa de Bragança, na viatura estranha que nos apresentamos: é do nosso tempo, e se sua Majestade nos der o gosto, convidado está para uma voltinha.

No cardápio das palavras, o Alentejo cola bem com Luz, Branco, Paz. Escolhemos todas, ficam bem na vestimenta da sua sensualidade, espreguiçada nas volutas que imitam o recorte de ângulos belos, projecções mentais do feminino.

Rodovia-se portanto num embalo pintado de terra, nas cores da estação do ano.

É nos locais, de tranquilidade extrema, que se afinam os ritmos do coração. Aqui imaginamos um mar calmo que afinal é terra: serena, mel, como as pessoas: serenas, simples, doces.

Hoje há menos homens, abalaram e deixaram os velhos e os conformados. O interior – Portugal - é um deserto que se finge não ser, as aldeias são marcos geodésicos a assinalarem o nada. Todo o interior está em suspenso da decisão de um dia,em breve, se fechar a porta.

Fomos a Vila Viçosa para nos acalmarmos dos receios, das inseguranças, da desprotecção, que vemos na televisão. Procuramos carregar a bateria do positivo, no olhar da paisagem alentejana.
Antes de chegar ao destino patriótico, negocia-se um pretexto de paragem em Estremoz, que também tem castelo, uma Pousada como deve ser, e o restaurante “São Rosas”, experiência degustativa fundamental. E para que a informação não fique como redutora, fotografámos o Teatro Bernardim Ribeiro, inaugurado em 1922 com a Companhia Amélia Rey Colaço. Tem uma fachada de “Art Noveau rural”, criando assim uma nova designação de estilo que nunca existiu senão na mente abusadora do cronista.

Desta vez, com agenda curta para outros espraiamentos na cidade, catrapiscou-se o olho à feira das Velharias – fraca porque chovia e ventava. Não havia cacos mas encheram-se os sacos com produtos da terra: legumes, frutas, queijos, enchidos, alimentos que se vêem muito mais bonitos exibidos no terreiro, em pose blasé e desorganizada, do que nas estantes claustrofóbicas das superfícies comerciais.

Aqui não há prateleiras privilegiadas, há agricultores que pesam os produtos em balanças mal calibradas, o que não importa, logo as mãos enrugadas e negras de remexer a terra, acrescentam mais uma maçã, ainda um limão, numa honestidade que as balanças de supermercado não autorizam, sempre a exigir peso certo para factura certa - que viaja instantaneamente (ainda estamos a pôr as compras no saco) via cibernáutica para o fisco, que quer saber com exactidão quantas bananas compramos todos os Sábados.

Ao pagar, não se fazem trocos de cêntimos, arredonda-se em benefícios mútuos, do vendedor e do comprador, a melhor diplomacia da teoria dos mercados.

Saímos contentes.

São pouco menos de vinte quilómetros. Longas fileiras de vinha, alternam com amontoados de pedra mármore – fossemos excêntricos e víamos pirâmides – os tesouros da região.

Vila Viçosa tem quatro mil habitantes, mas nos dois dias de estadia, não se avistaram mais de vinte, trinta, para não exagerar. As pessoas não saem à rua, onde andam? É assim em todas as localidades do interior, seja Norte seja Sul.

A Pousada D.João IV ocupa o que foi o Convento das Chagas, fundado em 1539, para albergar as irmãs Clarissas. Há quem diga – mexericos - que foi um depósito da bastardia dos reis e dos príncipes, dados a desvarios e fraquezas, não fossem eles humanos.

Ficámos na cela 119, com mordomias e confortos que elas não terão tido. Mesmo assim, no novelo de um colchão envolvente com um dossel a abater-se das alturas e a ver as notícias sujas do mundo num plasma panorâmico, não deixámos de sentir um que outro arrepio místico.

Cirandou-se pelos antigos claustros, pelo jardim, as fotografias, as selfie da praxe e jantou-se.

Pediu-se lebre e galinha de fricassé. A primeira, se foi lebre e selvagem e correu solta e livre pelos campos, no prato não se descobriu o que tinha sido: até mesmo peixe. A outra, menos livre por natureza, ganhou o apelido de fricassé, porque ficava bem na carta dos pratos do dia. Uma desilusão que não foi barata e que beliscou a simpatia e profissionalismo, estes num patamar muito acima dos rácios de gestão deste estabelecimento.

Estamos convencidos, que nos menús escritos à mão pelo rei D.Carlos e aguarelados pelo mesmo, para os serviços aos seus convidados no iate “Amélia”, emoldurados numa das salas do palácio ducal, os Frangãos assados, terão sido frangos másculos absolutamente criados para serem saborosos à mesa do Rei. Noutros tempos a palavra dada era outra.

O dia seguinte – as fatias douradas fizeram esquecer o desaire da véspera – apresentou-se formalmente como a primeira manhã de Outono em modos de aragem fresca e temperatura condizente. Quando até as estações do ano subtraem, por serem narcísicas, o tempo certo das outras, ver a coragem desta a revindicar o seu tempo foi estimulante. Andar em pleno Novembro de t-shirt e calções é uma farsa, ofende os bons costumes.

O mármore cinzento da fachada do palácio ducal brinca às cores com a brancura casta do Terreiro. Pede meças de santidade ao seminário da Arquidiocese de Évora prantado face a face. Este conflito é mediado pelo bronze majestático da estátua de D.João IV, no seu cavalo, estacionados no epicentro da praça. De costas para o seminário, o castelo e a igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal, rival da Nossa Senhora de Fátima, que sendo duas senhoras, não argumentam publicamente. E para que não se desentendam aceitamos ser filhos espirituais de duas mães, afinal dois apelidos da mesma entidade.

O Palácio Ducal abre portas às 9h30 nos fins-de-semana, com visitas guiadas – duas da parte da manhã.Os ingressos são caros, mas a Fundação da Casa de Bragança não é (é?) subsidiada pelo erário público e arear todos os cobres daquela cozinha, consome dias, trabalho braçal que se supõe seja remunerado, a menos que voluntário, e são muitos tachos e tachinhos para dar brilho!

Se se tiver o desejo cultural e patriótico de ver tudo: o palácio, a biblioteca, as loiças, a armaria, os coches, o valor total da entrada é o equivalente a um almoço supimpa nos “Cucos” (restaurante sem pretensões arquitectónicas implantado na Mata Municipal). Faça cada um a escolha entre umas magníficas migas, ou um pato estufado, e uma dose concentrada de história em modo de sprint pelas salas e corredores do palácio - belas sem dúvidas se nos tivessem dado tempo para pousar os olhos.

Ainda assim o guia foi alentejanamente simpático.
   
O palácio tem um acervo simpático de pintura portuguesa, fica a pena de muitos dos quadros estarem expostos nos corredores da criadagem, corredores estreitos, de pouca luz. Não se podem apreciar porque mal se vêem e o guia está apressado para o almoço.

Finda a visita na cozinha do palácio: setecentas peças de, dois mil e quinhentos quilos, o maior “trem” de cozinha de cobre da Europa e graças à Senhora, os meliantes ainda não descobriram este tesouro.
Ocasiões não são ocasiões, pagámos os ingressos e fomos almoçar aos “Cucos”.

Despedimo-nos de Vila Viçosa oxigenados para encarar a realidade contemporânea com olhos de esperança: amanhã podemos e voltaremos a ser livres, dos jugos, das peçonhas, a nossa identidade não é o que posso ser agora, mas é isso mais o que trago na minha mochila e num futuro voltarei a ser independente.


No regresso faz-se uma paragem técnica para um lanche de doçaria em Arraiolos. Termina o dia na “bicha” da ponte 25 de Abril, que já foi de Salazar mas independentemente do nome do dono é um prazer único, flutuamos sobre Lisboa, ultrapassando a fronteira que liga o Sul ao Norte e entrarmos na nossa cidade, felizmente pacata, segura, ainda afastada das imprudências sanguinárias do mundo que está perigoso.


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

TEMOS A CAPITAL DA CASTANHA




O clima é extremado, não gosta de meias tintas: rigorosamente frio, ou intransigentemente quente. As poucas pessoas e bestas que habitam as paisagens – bucólicas as últimas na perspectiva do transeunte em passagem – são igualmente assim. De tanto convívio com a natureza, sorveram do ambiente o seu feitio complexo, ensimesmado.

Não deixam a porta aberta para que qualquer um entre, mas fica encostada quando saem de casa. Não são seres que amem as solidões, mas o confinamento e a escassez de almas, encerra-os, convite quase forçado a sentarem-se no escano em frente ao fogo. Sorriem de portas adentro, em família, gente séria nos rostos que se apresentam à luz do dia.

Em passados antigos repetindo-se nos recentíssimos, foram poucos os que não se refugiaram no estrangeiro ou nas grandes cidades do litoral. Fica quem não se despega da terra: impossibilidades pessoais ou físicas.

Fica quem tem os magnetismos alterados, os que apresentam raízes nos pés, que se metem a crescer pelas profundezas da terra.
São esses os que não saem, nem para dar descanso às suas dificuldades.

É assim, nestes lugares como em todos os outros, em que vai passando o tempo, distraído, atarefado nos avanços para o futuro, sem fazer pausas no presente.

Antes, era quase um dia para chegar a Trás-os-Montes, pedia-se uma mentalização prévia para a viagem, curvas e mais curvas, enjoos, estradas más, retratos bonitos a passarem em flecha à frente dos olhos, como se as janelas do carro fossem ecrãs de cinema. O automobilista, sem espaço de memória para os arquivar todos.

A fazer de fundo para estes cenários, uma paleta de verdes e castanhos acobreados, se é Outono, a estação que rivaliza de cores com a Primavera; e um catálogo de cinzentos, se é Inverno, a estação que rivaliza de tristeza com o fim.

Agora é tudo rápido, o país intersectou-se de linhas rectas traçadas a alcatrão. Saídos de casa, estamos daqui a nada à porta de qualquer sítio que se aponte no mapa. O que se poupa na velocidade com que se chega, subtrai-se no prazer da viagem, insonsa do seu melhor condimento, a aventura – apercebermo-nos das alterações da paisagem, as cambiantes subtis ou não da luz que se projecta nos sítios, as meteorologias -, presos no cinto de segurança e na previsibilidade enfadonha de chegar a um destino sem memória de acontecimentos interessantes assinaláveis no lapso de tempo decorrido entre a partida e a chegada. 

É assim que as coisas agora são.

Adiante, que vamos para Carrazedo de Montenegro, a capital da castanha. Tem que se ser a capital de qualquer coisa, aparecer no “ranking”, para não se transfigurar em fantasma, um risco elevado nas geografias interiores quase despidas de vida palpitante.

Carrazedo de Montenegro poisa-se nas alturas do Concelho de Valpaços – oitocentos metros – e olha para este de alto para baixo. Foi sede de Concelho até 1853 e ficou o ciúme - qual o mais bonito, e o mais importante - que da pouca população, Valpaços leva-os à perna, em contas de dois milhar e picos de superavit populacional.

É uma vila aberta aos brilhos pristinos do céu, mais próxima das alturas, o que conta e muito para a purificação dos ares e das almas, que é tudo boa gente.

Por vezes as entidades que presidem as coisas da terra, que neste caso – tirando a poesia - também se podem chamar fenómenos climáticos, para entediar os terrenos que vivem no vale, na chamada “Terra Quente”, carrega-os de muitos nevoeiros. Não é por mal, são brincadeiras dos seres superiores fora do entendimento humano.

Quando este fenómeno acontece, os de cima, de Carrazedo, olham para o céu e agradecem a pequena maldade: os de Valpaços, vão passar a manhã a tentar descobrir a ponta do nariz, tal é a densidade da névoa que se instalou.

À tarde as coisas mudam, levantam-se os panos, a luz inunda o vale e todos esquecem rivalidades, cada um à sua vida.

Especula-se sobre a etimologia do nome. Há quem diga que “Carrazedo” vem de carrasco, abundância de carrascos (uma espécie de carvalho, aqui há muitos). “Montenegro” vem da escuridão da vegetação da serra da Padrela, o negro monte que lhe faz sombra.

Nos dias de hoje, Carrazedo é uma vila limpa e pintada de cores frescas, claras, todo o contrário do que se anunciava no parágrafo anterior. Tem uma igreja Matriz quase majestosa, uma pequena catedral, que do interior dizem os vizinhos não ser a mais rica - picardias locais. Foi construída no Séc. XVI e remodelada no Séc. XVIII, Neo-Clássica com acréscimos do Barroco.

Venera-se S. Nicolau de Mira, o Taumaturgo. Santo padroeiro da Rússia, da Grécia, da Noruega, e de Carrazedo de Montenegro. Este homem do Séc. III, milagreiro, ganhou fama pela caridade com as crianças e tornou-se um símbolo ligado directamente ao nascimento de Jesus (e à época natalícia: Pai Natal, Santa Claus, é este senhor).

Espreguiça-se a vila por um jardim contemporâneo, já não se usam árvores nestes espaços, só relvas e patamares de pedraria e canteiros rasos com arbustos.  À noite, deserta de seres de qualquer espécie – descontando os cães vagabundos que cumprem penas de outras vidas - luzes modernamente estudadas nos candeeiros de pé alto, criam o ambiente que ninguém vê.

A feira da castanha na capital da nomeada, é uma festa. No pavilhão das actividades económicas apresentam-se os stands sérios: as instituições, os produtores, os comeres. Á porta do pavilhão estacionam as “forças vivas” da região, no ponto estratégico onde se vê quem vem, quem falta, se cumprimenta e se ganham fichas de simpatia, se passam recadinhos com ditos mais ou menos sinceros.

Cá fora, no jardim, os feirantes profissionais de tenda montada, oferecem o que é de costume: as trusses, as meias, os fatos de treino, as camisolas com estampados de tigresas e outros felinos.
Farturas é com fartura, não se resiste ao trocadilho, tanta oferta num espaço tão curto de gente.

A Castmonte (assim se chama esta feira) celebra o tesouro da região, e é a oportunidade (voltamos ao princípio da conversa) da terra aparecer no mapa das terras que ainda não feneceram.

A televisão do Estado marcou presença, programa de Domingo, com as pimbalhices habituais e as ofertas de dinheiro e carros, pagos e bem pagos nas chamadas ingénuas e às carradas, dos espectadores ávidos de virem a ser os felizes proprietários de uma viatura para a qual não têm dinheiro para a gasolina, a manutenção, o Imposto de circulação e o seguro.

Não há dúvida que Carrazedo de Montenegro é a capital da castanha, que a melhor é a “judia”, mas se o cliente quiser e for conhecedor também pode levar a longal, a lada, ou mesmo a cota, nomes que se aprendem e são bons nomes.

O Concelho não tem ainda uma oferta turística diversificada. Umas poucas unidades de turismo rural e residenciais paradas num tempo próprio: desde o dia em que abriram portas.

Aos poderes autárquicos, em esforço de criatividade, cabe-lhes divulgar e trazer turistas, a tal diplomacia económica. É um trabalho que pede ideias fortes, bem ilustradas, que atraiam e cativem as pessoas. Bons argumentos que façam os turistas escolherem esta terra em vez de outra, para disfrutarem o fim-de-semana.

Nós, chegados a gente de cá voltamos amiúde, e pelas noites, sentados no mesmo escano do início desta crónica, crepitamos as castanhas na lareira, alouramos as pinheiras (cogumelos selvagens) com sal e uma pitada de azeite, cozinhadas na brasa. O vinho, é denso, escuro, saboroso e telúrico.

Houvessem hospitais e boas escolas e era na terra da castanha que ficávamos, a ganhar cores e enrijar as energias, que na grande cidade só se ganham arrelias e catarros.
    

sábado, 3 de outubro de 2015

DICIONÁRIO PRÁTICO DO ELEITOR



Estimado e paciente leitor,

Apresenta-se perante vós um manual resumido e sintetizado, que pretende ser de utilidade para o Eleitor confundido.
O objectivo deste dicionário é ajudar a compreender alguns termos “técnicos” que os políticos utilizam e que nem sempre – dada a descontextualização permanente com que eles os usam para nos baralhar – o cidadão comum entende.
A escrita deste Dicionário é fácil, esclarecedora e completamente imparcial.
Se sentir o impulso de lexicógrafo a irromper das entranhas, são bem-vindos comentários e até novas “entradas” (desde que respeituosas e esclarecedoras).
Usufrua, passe aos amigos e aos que odeia e, sobretudo, se tiver nas suas relações de intimidade, amigos políticos no activo, faça o favor de lhes dar a ler este dicionário.
Bem haja! E vote Bem!


ELEITOR:
Cidadão esperançado que gostava de ser útil mas não sabe ao que vai.

CARTÃO DE ELEITOR:
O segundo cartão que se perde logo a seguir ao boletim de vacinas.

VOTANTE:
Reformado, velho, inválido e os bombeiros, que já que estão ali também vão votar.

VOTO:
Investimento num produto tóxico de alto risco, por convencimento do seu gestor de conta (o político), sem remuneração garantida.

BOLETIM DE VOTO:
Folha A4 tipo menú de restaurante, onde onde se colocam cruzes, de preferência só uma.
Serve como contracto a tempo incerto, sem as claúsulas impressas, nem sequer em letra pequena.

URNA:
Última morada do cidadão enquanto fenecido ou caixa onde deposita em papel as derradeiras ilusões enquanto vivo.

MESA DE VOTO:
Secretária ocupada habitualmente por um professor frustrado que serve nos dias das eleições para umas senhoras que foram arranjar o cabelo para a ocasião, fazerem lindos origami com os boletins de voto.



C.N.E. (COMISSÃO NACIONAL DE ELEIÇÕES):
Grupo de técnicos superiores da Direcção Geral de Recursos Hidrográficos requisitados pelo Ministério da Administração interna para o callcenter das queixas dos eleitores, por escassez de recursos humanos qualificados.

DEPUTADO:
Homem desinteressante, escolhido como porta-voz de uma região, mas que tem todos os amigos e conhecidos a viverem numa região longínqua à que ele se candidatou.


ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA:
Ponto de encontro dos deputados antes de irem para as suas empresas ganhar a vida. Voltam à hora do almoço porque se come muito bem e em conta.

PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA:
Pessoa que se julga importante, sem importância nenhuma, que tem que ser muito bom a cronometrar os tempos das conversas ubíquas dos deputados. Serve também para mandar evacuar as galerias da Assembleia.

CANDIDATO A PRIMEIRO-MINISTRO:
Indivíduo sem cadastro que é o único a acreditar na sua inocência. E a mãe dele também.

LEGISLATURA:
Período de quatro anos e às vezes uns meses mais, que se divide da seguinte forma:
·       Nos primeiros seis meses são todos simpáticos.
·       Nos segundos seis meses começam todos os dias a dizer que afinal a coisa está mais preta do que a encontraram.
·       Nos dois anos e meio seguintes, navegam por palpite e fartam-se de fazer asneira.
·       Nos últimos seis meses, aprovam todos os diplomas sobre todos os assuntos que se possa imaginar, e dedicam os últimos dois a inaugurarem edifícios e distribuir dinheiro para os agricultores e pescadores não trabalharem.

COLIGAÇÃO:
União irrevogável de indivíduos que se odeiam, com a finalidade de aguardarem pacientemente a primeira oportunidade para tomarem o lugar do parceiro.


PARTIDO:
Designação dúbia para conjunto de pessoas sem talento. Designação de espaço fechado, claustrofóbico, onde conluem e intrigam indivíduos cinzentos. Agremiação com fins lucrativos.

PROPAGANDA:
Máquina montada por associação recreativa que organiza viagens à Lapónia, com visita obrigatória à residência oficial do Pai Natal, que nesse dia não está lá porque não existe.
É também o discurso mais sério dos candidatos antes do dia das eleições. No dia a seguir trocam essa ferramenta pela Demagogia.

DEMAGOGIA:
Uma licenciatura que se pode fazer nos partidos (não tem numerus clausus). Na ciência da demagogia, as palavras têm todas um sentido diferente. Não há ainda nenhum dicionário da demagogia, pelo que são desconhecidos o sentido e o valor das palavras dos políticos.


INDECISO:
Cidadão sábio mas preguiçoso,que não sabe em que partido votar nem se há-de ir às urnas ou ficar em casa a preparar-se para as comemorações do 5 de Outubro.


ABSTENÇÃO:
Diz-se do cidadão distraído que se esqueceu da data das eleições.Não confundir com abstinência, mas em ambos os casos o corpo é que paga.


VOTO EM BRANCO:
Azar dos  azares. Esqueceu-se da caneta em casa e o eleitor antes dele roubou a que estava no local de voto.

VOTO NULO:
Quando o indeciso tem um ataque de nervos perante o boletim de voto. Também: cidadão indignado por não ver os símbolos do seu clube no boletim de voto e que num acesso de cólera, gatafunha o boletim todo.

BOICOTE:
Uma maçada para os reformados, velhos, inválidos e bombeiros. Nestas ocasiões é usual os boletins de voto verem-se transformados em canudos para as castanhas. É igualmente um aborrecimento para o C.N.E. porque o call center não tem no seu guião respostas para este tipo de incidente anti-democrático.

CAMPANHA ELEITORAL:
Oportunidade rara de os políticos sairem à rua – apesar de acompanhados pelos emplastros – e terem uma noção, se bem que vaga, do país real.
Época de alegria e confraternização onde eles se abraçam e mimam, ainda convencidos que vão ganhar.
Espaço de tempo em que se fazem mais promessas que todas as promessas feitas num ano pelos penitentes que frequentam a capelinha dos milagres em Fátima.

CHEFES DE CAMPANHA:
Em condições normais é escolhido o elemento na estrutura do partido ou coligação que não tem a mais pequena ideia do que seja comunicação e estratégia. Se perder, nunca mais o deixam assistir a sessões internas. Se acertar tem a maior das possibilidades de vir a ser um populista poderoso.
Não é infrequente ao fim de uns anos na ribalta, afastarem-se do país e terem grande sucesso como facilitadores de negócios.


CARTAZES:
Competição onde ganha o pior. As agências pelam-se para competir nesse clube restricto do bom gosto.


COMITIVA:
Ajuntamento de emplastros completamente desconhecidos que acompanham os líderes nas feiras e mercados. Têm por missão distribuir bandeirinhas e chapelinhos a pessoas que andam distraídas a comprar cenouras e grelos.


PEIXEIRAS:
Elemento fundamental de uma campanha eleitoral. Há candidatos que se especializam nesta área. Uma beijoca a saber a peixe pode decidir eleições.

MAIORIA:
Uma utopia (sem mais entradas neste dicionário).

DERROTA:
Uma mentira. Nunca nenhum partido ou coligação foi derrotado em eleições democráticas e livres. Senão, vejam-se os discursos de todos os candidatos após o anúncio dos resultados eleitorais. Os discursos também podem ser reflexo dos bufetes ricos em líquidos e sólidos servidos nas sedes de campanha na grande e longa noite da contagem de votos.

TEMPO DE ANTENA:
Espaço televisivo-radiofónico dedicado à apresentação de anúncios de produtos de venda online,a preços de saldo.

MODERADOR:
Jornalista que não conseguiu negociar a folga no dia do debate e que teve que decorar imensas perguntas decisivas que não vão ter resposta.


DEBATE:
Diálogo de surdos que desconhecem a linguagem gestual. O único que se enerva é o jornalista que não queria estar lá nesse dia.


SONDAGENS:
Método cabalístico pseudo-científico de utilidade duvidosa mas muito bem pago.
Usam-se frequentemente os números de telefones fixos, para conseguir uma amostragem jeitosa e representativa dos entrevistados.


PROGRAMAS ELEITORAIS:
Cadernos densos, habitualmente escritos pelos melhores alunos finalistas de cursos de escrita criativa. Normalmente a sua carreira fica-se por esta primeira edição/publicação.

COMENTADORES:
Amigos dos candidatos, convidados para fingirem que não estão ali para falar dos amigos. Conseguem ganhar dinheiro com isso, o que é uma coisa espantosa!
Geralmente dão bons candidatos às Presidenciais.

DIA DE REFLEXÃO:
Período de 24 horas que antecede o dia das eleições. Os candidatos ficam em regime de clausura e reflexão - os que são capazes desse esforço.
Não se sabe ainda se é nesse dia que o Presidente vai falar, ele tem andado tão calado ultimamente!
O povo segue a sua vida normal, menos os velhos, reformados, inválidos e bombeiros, que se preparam de véspera para irem votar.



NOITE DE ELEIÇÕES:
Único programa alternativo na televisão, quando se acabou o Viagra, não há farmácia de serviço e a patroa está com dores de cabeça.
Um minuto depois de começar já acabou. Depois disso segue-se um longo e interminável desfile de opinadores, cada um com considerações mais profundas que as dos parceiros.

O DIA SEGUINTE:
Vai ser lindo! O presidente, os politólogos, os constitucionalistas, os comentadores, a ralé em geral, todos a darem palpites sobre a constituição e formação do novo governo.
Alguns rapazes começam a limpar as gavetas dos gabinetes e apagar os discos rígidos dos computadores (ou talves não).
Os velhos, os reformados e os inválidos apesar de terem votado em massa vão continuar a ter a sua dose de abandono, desprezo e malfeitorias.

Os bombeiros voltam aos quartéis na esperança vã de no próximo verão terem melhores meios para combater os incêndios.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A DEMOCRACIA É UM LONGO E PENOSO CAMINHO



Visitei a Eslováquia em 1998. A república Checa tinha há pouco tempo “corrido” com este pequeno ainda não país, porque era a parte pobre que os checos não queriam para si. Viviam os seus primeiros anos no “admirável mundo novo” da democracia, ainda a medo, macambúzios, acossados pelos fantasmas do passado.

A imagem mais forte que guardo desses dias - quase uma semana - é do cinzento plúmbeo das paisagens dessa tentativa de país. A escuridão era feita das sombras, das casas, das árvores, das pessoas, todo esse mundo a esgravatar a medos procurando luz e uma esperança nova.

Angustiado pela asfixia de um tempo morto e pesado, escapei-me para passar um dia em Viena. Fui de autocarro, acho que era o único meridional presente e mesmo assim, quando chegados à fronteira austríaca, a polícia pôs toda a gente cá fora, revistou o autocarro, apalpou os eslovacos, ficou-lhes com os documentos para busca minuciosa de informação, e a mim, depois de olharem para o meu passaporte que lhes mostrei na minha mão – sem ter saído da minha mão – deixaram-me altivamente passar.

Ao fim do dia, no regresso, os guardas de fronteira eslovacos, só me revistaram a mim.
Não fiquei com saudades de voltar a este país, apesar de ter assistido a uma ópera no seu teatro que me arrebatou: o edifício e a qualidade dos artistas. Todavia quando saí no fim da récita, o negrume abafou a minha euforia.

Agora, quase vinte anos depois, a Eslováquia é membro de pleno direito da União europeia e decidiu fechar as portas das suas fronteiras. Como já é um país com uma democracia estabelecida, madura, consolidada, não aceita no seu seio mendigos esfarrapados e fedorentos, atitude consonante até à exaustão com o ideal da declaração dos direitos do homem.

Com isto não me queixo nem critico o povo eslovaco, consigo ainda distinguir os cidadãos das pessoas que as governam, e infelizmente nem sempre – ou quase nunca – estes estão ao nível dos primeiros.

Só tenho pena que um país que ainda não conseguiu varrer a escuridão dos seus dias de sol encoberto, não tenha aprendido a soprar em uníssono para afastar as nuvens e fazer clarear a luz.




domingo, 26 de julho de 2015

O Homem que escreve histórias de Amor



O local não podia ser mais arejado, é irrelevante se faz bom tempo, que agrinalda o espaço, ou se chove: uma cortina de pingos de chuva pode ser plúmbea de bonita.

Neste caso em que o tempo climatérico não conta, avistam-se cumes de mastros com movimentos ritmados num parque de estacionamento para barcos de recreio. Em segundo plano corre um rio que nesse acontecimento terminal de ser rio penetra na salinidade do mar, une-se com o seu infinito, realizado está. É um segundo plano, porque entre os mastros e essa qualquer coisa que desconfiamos seja mar, armazéns desfeiam o que podia ser poesia.

António foi escolhido por esse lugar para viver e escrever cinco romances de amor. Cinco versões da mesma história, com nomes distintos, mas femininos, e todavia sobre o amor, o tema de toda a atenção. Na vida o que sobra de outros assuntos são banalidades.

Este homem reside num endereço sem caixa de correio, vizinho de outros escritores de palavras que não escrevem sobre o amor, mas sobre os entendimentos e desentendimentos do mundo – banalidades - relatores passivos de episódios diários. Em vez de florescerem, as suas palavras mirram no instantâneo em que são lidas.

Vive no edifício contíguo a um jornal. À sua porta, antes da linha de conforto. Habita na parte de fora da casa.

Os jornalistas cruzam-se todos os dias com ele, eventualmente até se cumprimentam, mas não sabem que este homem corajoso escreve sobre o amor, ocupados que andam a notificar os andamentos coxos do mundo, distraídos nessas pequenices.

Se conhecessem o seu trabalho esboçariam grandes considerações e salamaleques: um homem que escreve sobre o Amor é um homem de respeito e cartola.

No tamanho de um só dia escreveu trezentas páginas. Só trezentas páginas dão por findo um dia infindo. Quando terminou sentiu-se menos mal, o que foi bom, venceu as agonias do relógio, ilustrando as páginas com palavras, uma forma de representação tão real como outra qualquer.

Os companheiros da rua consomem o dia em caminhadas nos bordos das margens do rio, António fica-se pelo escritório a céu aberto, sentado na cadeira branca, plástica, de pernas cruzadas com os cadernos pousados no tampo da mesa inexistente mas imaginada, com um pedaço de contraplacado a fazer a função. Quando chega ao fim de cada linha e antes de navegar a próxima, levanta precisamente fixado o olhar para as pontas dos mastros, fuma um cigarro enrolado e chama pensamentos.

Uma paisagem de maresias diante dos olhos é agradável, mas António não pensa nesses luxos, nem tem picos de felicidade.

Perdeu o rumo da vida quando o primeiro nome do primeiro romance de amor lhe faltou, resolvendo morrer prematuramente. Ela não o avisou que ia morrer e ele sentiu-se traído. Quando se perde um grande amor com vinte anos, fica-se naufrago para a vida inteira. Os que se vivem  depois são actores menores, alguns até mentiras cobardes inventadas para encher o espaço, palavras cruzadas para enovelar vazios.

Quando se perde o amor é provável que se caia na asneira. Muitos passos em falso, com a raiva babando. Desumaniza-se o coração, o pior que pode acontecer: remeter um órgão nobre para a desinteressante função mecânica de bombear vida sem sentimento para um corpo abandonado de si.

Asneirou em tudo e acabou como correio internacional de droga. Para ele era um emprego como outro qualquer: ficou sem o manual de ética quando virou essa esquina da vida de peito desfeito para o nada. Despido dessa forma tão violenta, pode-se exercer todas as profissões sem remorsos.

Treze anos depois, sem papéis de identidade para além da posse de um nome, está quase a fechar o ciclo. Terminados os romances sobre o amor – o castigo do seu deus cruel para a redenção - está pronto a viver.

E tudo vai acontecer naturalmente como começou naturalmente. Os acontecimentos não se anunciam pelo mordomo, enquanto despem o sobretudo na antecâmara.

A mudança de residência será descomplicada: um saco de roupas e os cadernos. A cadeira não fará falta e os outros móveis são caixas de cartão desmontadas que não parece fiquem bem na nova decoração. Não se espera um último olhar de despedida. Não se olha para trás quando se esqueceu.


Num amanhã próximo, António vai resgatar dos arquivos o seu bilhete de identidade e com a mais plena das tranquilidades vai viver abrigado por um nome. Publicou cinco livros sobre o amor, mas deixou ficar os cadernos à porta do jornal.




terça-feira, 21 de julho de 2015

A ALDEIA DE CAVALEIRO





«Estás bem apresentada, a boca toda a ensinar os dentes!»
«Casaste bem ontem à noite, não?»
«O ti Quim também parece que dormiu pouco mas não deve ter sido da raladeira!»
«Esqueci-me dos comprimidos.»
«E o que vai ser?»
«Se me apuseres em cheirinho de licor beirão,c’o café ficava bem!»
Uma aldeia que se chama Cavaleiro, abaixo para quem desce ao Sul, de Almograve: uma rotunda com uma rua principal a desembocar numa praia vaidosa, como todas as do Litoral alentejano.
Hoje é dia de inauguração, os da Junta todos em nervoseira: os vendedores de camionetas ambulantes de peixe e de verduras e de batas com cores garridas, tem um novo espaço para feirarem, devidamente assinalado com uma tabuleta minúscula, mas garbosa, que ainda por cima não assinala bem. Correções de sinalética autárquica a serem levadas a Assembleia.
No ajuntamento de poucas casas de Cavaleiro,a caminho do Cabo Sardão, está o bar da Adélia, o único “spot” com conexão ao ciber-espaço, onde se misturam as conversas de gente normal, com os alienígenas, deprimidos de tanto silêncio e ávidos de consultarem a “rede”. 
Cá fora, e porque é verão e faz calor, os velhos esparramam-se à porta das suas casas, sentados em cadeiras - quedos e mudos, até que alguém passe por eles. Em passando, descontrolam-se em cumprimentos, com olhos de grande curiosidade. Meia dúzia de forasteiros num dia é muito movimento, mas é uma animação que vale por todo o ano.
Cavaleiro é uma tentativa de aldeia, mesmo assim cosmopolita: tem dois emigrantes paquistaneses que trabalham nas estufas e duas alemãs fugidas do sufoco, que vivem aqui, sem que nunca lhes tenham visto sinais de prepotência.
 Enquanto os homens da terra falam sobre nada e bebem, os orientais, sentados ao seu lado, não bebem e não se sabe se entendem as conversas. Em todo o caso são gente da terra.
A Senhora Maria e o Senhor Francisco criam galinhas. Ele planta-lhes um campo de salsa para elas comerem e ficarem já temperadas.
Encomendamos duas para um churrasco. Ela estende um lençol branco sobre o chão, uma tábua de madeira e diz que vai pela machadinha. Aparece com um machadão, agacha-se, curva-se e muito velha corta lentamente a carne em pedaços pequenos. Quanto mais pequenos mais fixa a audiência, que um cortar assim é para dar tempo à conversa, e para conversar mesmo que em monólogo, precisa-se gente.
«O meu Francisco diz que eu sou a esgravatadinha, como o juízo das galinhas.»
«O juízo das galinhas senhora Maria, onde é que isso fica?»
« Os senhores estão a ver esta risca aqui, no cimo da cabeça? É onde está o juízo. Isto e as patas que por estarem sempre na terra, é onde absorvem mais os alimentos, são as partes mais saborosas.»
Com ou sem juízo, estavam boas.
Depois de Cavaleiro é o fim do mundo, isto porque se diz que os faróis estão sempre colocados no fim do mundo. Por isso mesmo: para serem a luz intermitente que encaminha os extraviados.
Um farol e um campo de futebol pendurados numa falésia.
O campo de futebol está num plano inclinado (sorte para os que jogam a descer) e tem duas choupanas em madeira para resguardo dos jogadores em dias de canícula, se é que alguma vez se disputou uma partida nesse local. 
Se aconteceu e foi no final de um dia de Verão, os espectadores indecisos na decisão de porem os olhos no acontecimento ou deslumbrarem-se com um céu carregado de estrelas, não ficaram com notícia de que nesse campo tenha ocorrido uma partida de futebol, porque só olharam para as alturas.
À noitinha, come-se moreia frita com as vistas postas para a rotunda de Almograve, na companhia do doce alentejanar dos ti’jaquins que continuam com as mesmas conversas, disputando nos intervalos um ajuntamento de mines, porque a vida e sua filosofia devem ser convenientemente regadas, não se seque a boca das palavras e daí a sabedoria.