sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Anda, caminha



Anda, vem comigo. Puxa brilho nas botas, e dá um passo. Um chega para nos pormos a caminho.

Se aceitares esta proposta indecente, mas delicíosa, somos dois. Sendo dois convencemos muito melhor o terceiro, está em inferioridade numérica e vai vencer a inércia de espectador, vai querer juntar-se à maioria.

Sendo três somos muitos, toda a gente nos vai acompanhar. Sem nos darmos conta, somos quatro e cinco e infinitos números e quantidades, uma multidão a caminhar, senhora de todos os pontos cardeais, com prazer e fidalguia.

Não tenhas nem a menor nem a maior das dúvidas, os nossos passos fazem tremer o chão, e as cabeças. Não importa que as passadas sejam síncronas – pelo contrário, não queremos dessas – basta serem passadas na companhia de amigos, para se dar um belo de um passeio. E com certeza que chegaremos lá, ao fim de um dia bem caminhado e decisões tomadas no acordo de termos todos trocado impressões enquanto andávamos.

Cansados, despedimo-nos bem dispostos e vencedores, combinando a próxima saída.

Anda, vem comigo. Puxa o brilho nas botas e dá um passo. Não fiques em casa.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE, E UM QUEIJO!



Liberdade de expressão ou libertinagem na expressão.

A primeira é uma atitude. Pede inteligência, gosta do caleidoscópio das ideias, respira diálogo.

A segunda alimenta-se da crença desviada de que “liberdade, Igualdade, Fraternidade” são direitos adquiridos e universais, livre-trânsito para a violação do sensível. Um vale-tudo garantido, e só com uma via: a dos direitos adquiridos e sem deveres, porque um homem “livre, igual e fraterno” não se verga perante ninguém, muito menos às amarras do dever.

O libertino é um ser voraz no consumo de si próprio e do que o rodeia: é um eucalipto.

O problema está em que o homem que é um ser embrulhado por muitas camadas, apesar das invenções magníficas que consegue realizar, evoluiu pouco nos convívios sociais desde o dia em que deixou a caverna e começou a construir cidades.

É um egocêntrico com laivos de compaixão.

Poder pensar tudo não é fazer tudo. Este é o síndrome do filho único (nem todos): está tudo a meus pés e se me contrariam faço birra, que os papás logo vêm pressurosos depositar o mundo à minha frente.

Não podemos fazer tudo. Nem desculpar tudo. E podemos com a maior das certezas e convicções – mais não sejam filiais, que são universais – dar uma valente de uma murraça bem encaixada ao mentecapto que chama nomes à nossa mãe.

Não se pode tirar a vida a ninguém, em substituição dos arbítrios da natureza que tem a sua agenda própria sobre essa matéria.

Não se pode igualmente, sem escrúpulos na consciência provocar os limites dos outros, em nome desse postulado enunciado - que todos eles permitem as mais variadas das interpretações.

Andamos aqui às voltas com este tema enquanto o silêncio permanece denso e cortante sobre o massacre de Baga. Num caso como este não há postulados que valham, porque se trata da mais primitiva das barbaridades assobiada para o ar pela mais primária das hipocrisias (a nossa).


Resta-nos a Pena, um menosprezo disfarçado, um não sentimento, um incómodo pessoal passageiro, até que um dia nos bata à porta e não lhe reconheçamos o nome.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

CARTA



Ninguém que se considere escreve cartas. É difícil, consomem tempo, a usufruir-se noutras correrias que não levam a nada. Escrever cartas é piegas.

No intervalo da chegada de uma frase ao apeadeiro do seu fabricador e até ao apito de partida para a próxima, sentados na estação do entretanto, não resta outra ocupação ao operário senão pensar. Cansa, assusta e compromete. É uma actividade de risco mal remunerada.

Quando se escreve, não se pode apagar, o que é um embaraço. Tenta-se histericamente ocultar o que se escreveu não se querendo escrever, mas fica sempre a marca probatória para os mais atentos – e há sempre uns chatos de uns atentos mortos por apanhar uma fraqueza nossa.

Assim que escrita, a palavra esparrama-se no papel a apanhar sóis e bronzeados, e valendo pelo que diz, nas conjugações com a anterior e com a que se põe a seguir, marimba-se para as consequências de ter sido parida. Deixou de ser um problema seu.

Escrever é uma matéria muito trabalhosa porque obriga a cuidados na grafia – a escolha de uma caneta decente - para que fique bonita, vaidosa nas suas roupagens, não se vejam as imperfeições.

Quando se faz a coragem de escrever uma carta, e terminá-la, somos obrigados a levá-la de mão dada até ao correio - com mil cuidados – apor um destino no sobescrito, colar meticulosamente a cola da lombada e do selo, confirmar e sua inviolabilidade- levá-la confortável à porta da carruagem que a vai transportar.

No momento da despedida – o que nos custa aos dois esse momento! – olhamo-nos como patetas para a ranhura de um buraco negro, atafulhados já de saudades mútuas.
Voltamos a casa na mansa espera da volta do correio, aguardando a resposta que às vezes não tem. Ninguém escreve sem a inconfessada esperança de uma resposta.

Quem tem a coragem de escrever uma carta, é merecedor do recado.

Passam-se os dias nas suas coisas de dias,e nós nas coisas nossas, e por aí andamos até que quase esquecidos, ou com a angústia doseada, nos bate à porta o carteiro, apressado como todos os carteiros, mas grandes amantes de todas as cartas em geral.

Deposita-nos em mão uma recheada de uma missiva, afogueada, vinda de um périplo sabe-se lá de onde.
Se não voltasse a casa, era mau sinal.

Que grande excitação: de novidades, de aventuras, mesmo de respostas óbvias às coisas simples e banais como as perguntas ingenuas que sempre se fazem nas cartas. Tipo “como vai a vida?”

Fechada a porta de casa e despedido o carteiro, as mãos desajeitadas e quase brutas violam o envelope, a abrir caminho aos olhos ávidos dos segredos que se avizinham.
Ofegantes, despímo-la com as febres de um sexo carnal, irresistível e muito físico, no entanto mental, o mais sensual ou brutal dos actos de amor.

E lemos. E relemos, com o sabor a pouco do que ela relata, imaginando nas entrelinhas e nas pausas, querendo mais palavras a fazerem histórias que nos embalem, e sosseguem na inquietude de se querer mais, esta inquietude de dias que acabam e fogem das mãos.

Uma carta é um prazer que não se esgota, múltipla de novas leituras e deslumbramentos inauditos.

Se escrevêssemos cartas, o mundo andaria mais apaziguado, porque enquanto esperamos pela possibilidade de darmos  resposta, não somos capazes de matar, rombo fica o gume da faca, transformada num aparo que afaga a superfície aveludada da folha de um papel.

E aturdidos na responsabilidade de uma resposta urgente nesse tal apeadeiro onde estamos sentados, não temos sequer tempo para apostasias, estamos aí, sós e sentados esperando pela  chegada do comboio das oito, marinando para nos entretermos nas coisas que nos passam pela cabeça.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

EU SOU "BAGA"



Sabem o que é? uma cidade inteira de duas mil pessoas sem rosto nem identidade dizimadas por terroristas na quinta feira passada.

Crianças feitas bomba pulverizadas em nome do nada, do zero absoluto, da total ausência de humanidade.

Baga é na Nigéria, um sítio que não é sítio e totalmente desinteressante para nós, arautos da grande civilização ocidental, ocupados com os nossos pequenos dramas entre-portas.

Só choramos e vamos aos funerais que estão à esquina da rua onde moramos.Os outros pouco nos tocam, são longe e mal frequentados...

Sou Baga, sou Charlie, sou Maomé, sou Cristo, sou EU, ser individual que integra em si todas essas caras.

Tenho o sonho mas não sei como o realizar de ver esses assassínos  alcançarem em vida a dimensão do Ser. Sei que é uma utopia e que haverá sempre uma quantidade indeterminada de seres tendencialmente bons e outra idêntica de seres tendencialmente maus, nos equilíbrios de leis que desconhecemos.


Tenho no entanto esse sonho que  me atormenta mais do que me pacifica.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

PELA LIBERDADE



Um punhado de homens – doze, um número imenso – morreu pelas balas do mais hediondo dos inimigos: o ódio.

Doze vidas cujas individualidades eram fundamentais no bouquet de sete mil milhões de cabeças que compõem a diversidade do universo que conhecemos.

Flores insubstituíveis e de rara beleza, como quase todas são.

Morreram de morte cruel – não há nenhuma que o não seja – pela arbitrariedade de animais sem alma, que nem sequer têm uma justificação para esse acto -impossível de ter quando se tira uma vida - movidos nas teias da loucura do vazio que os reveste.

Amanhã o mundo continuará a ser admirável mas muito perigoso. Amanhã haverá novos sorrisos, e alegrias hão de brotar do coração dos homens, mas estes doze seres humanos vão fazer muita falta.

Neste canto quase recôndito onde me pouso, saudo-vos, orgulhoso de partilhar convosco a aventura de pensar livremente.

ATÉ AMANHÃ


O GRANDE SEQUESTRADOR



Pelo sopro que escapa na frincha de uma porta de uma cela, um indivíduo sequestrou um país, refém desavisado, pronto a morrer em vão – ou porque merece essa sorte – nas mãos de um grande manipulador.

Vivemos o tempo do Homem-media que alimenta o “homem-massa”(1),homem que “erra sem objectivos pela vida, livre de qualquer esforço intelectual, sem referências, verdades ou princípios orientadores. Sem orientação espiritual, e que se agarra às massas e deixa-se levar por elas”(1), só preocupado consigo e os seus ganhos de materialidade fácil.

Os momentos efémeros de glória e posse (material) deste homem massificado afirmam-se na sorte de uma epifania a acontecer num centro comercial num dia com algum dinheiro no bolso, tudo se resume a isso e ao azedume persistente nos lábios.

O homem-massa alimenta-se dos sensacionalismos, das banalidades, e de sonhar que um dia virá a conduzir fugazmente um mercedes branco.

Este Homem-media que agora se fala, é um prisioneiro na plenitude de todos os movimentos numa cela sem paredes,mas um grande  mestre no entendimento do homem-massa contemporâneo.

Ele sabe que “os mass media são a melhor escola para os demagogos, e de como estes retiram o seu poder do facto de o povo, à força de se alimentar de uma linguagem que mais não faz do que simplificar, não compreender mais nada, nem querer ler ou ouvir coisas diferentes” (2).

 Ele utiliza esse foguetório de escândalo, queixume e provocação, vitimização e rebelião, para pôr a vida do país dos homem-massa em suspenso.

"Sou tudo eu, os outros são eu, a vida como é conhecida no universo, sou eu". É este o seu lema.

Deixou de haver passado, não há futuro, até que o Homem-media decida por todos.E também não há amanhã, enquanto alguns jornais comerciarem demagogia ao custo de um euro, mesmo havendo quem os compre para ler (ouvir, ou ver) as novelas das tragédias e dramas e comédias- rasteiras e banho maria.

Ainda assim, outros resistem a isso. O enviesamento está no leitor!

As pessoas gostam de sentir o calafrio das armadilhas da miséria humana que se reflecte no que leem ou veem, para terem a desculpa insana de justificarem a sua condição de passivos egoístas.

Nas teses de licenciatura dos homem-media, cai bem esse espírito nas massas, e este em particular – príncipe dos príncipes – domina todas as narrativas.

Daí e porque é o melhor parceiro das audiências, todos correram histéricos para a conservatória do registo civil mais próxima, e não parece que haja algum meio que se dê ao luxo de anular o  casamento mesmo sabendo que a mulher é dissoluta, e os filhos venham a sair enjeitados.

Hoje não é o dia cinco de 2015, é só e infelizmente o dia trezentos e setenta de 2014, em que se vão continuar a consumir em “prime time”, os programas preferidos do homem-massa.

(1) “Rebelião das Massas”, Ortega y Gasset


(2) Karl Kraus, humorista vienense nos princípios do Séc.XX