sexta-feira, 27 de março de 2015

O SUICÍDIO




No reino animal o suicídio acontece pouco. Acontece julgamos nós (que não estamos na cabeça dos animais) sem razão pensada deles, por desencadeamento de mecanismos dúbios.

Só os homens o fazem por vontade própria, e geralmente tomam tempo para decidir a forma e o momento, ou quando estão encurralados.

É um acto difícil de julgar. Cobardia para uns, da maior das nobrezas em espíritos de índole romântica.

Seja como for é uma decisão de grande responsabilidade, mesmo para os partidários da amoralidade nos acasos do universo.

Tento entender essa possibilidade, compreender os becos sem saída, o cansaço absoluto, a situação terminal. Não sei o que me espera e ainda bem.

Lamento não estar confortável com conjugações karmicas, chamamentos a paraísos paradisíacos, sacrifícios humanos para ganhar a vida eterna.

A minha espiritualidade, boçal e eventualmente mesquinha, resume-se a cumprir a única existência que conheço: este momento.
Amanhã, gosto de olhar para o céu, esteja de azul, cinzento, ou amalucado em tonalidades várias. Olhar para o céu com deslumbramento é mais do que suficiente.

Mas este assim, sou eu. O meu vizinho ao lado, que estimo e por quem nutro a maior das considerações pode amanhã sair de casa para irresolver a sua vida e a de mais cento e cinquenta outros, sem que alguma vez nos cafés que tomámos juntos eu me tivesse apercebido das suas determinações.


Assim funciona esta roleta.

terça-feira, 24 de março de 2015

RIO DE ONOR: A FRONTEIRA INVISÍVEL





Todas as manhãs andam os dois numa trabalheira: o cão, enorme, todo branco com uma mascarilha farrusca no focinho, a dar-se ares de encapuzado, e o pastor ensimesmado e de falas nenhumas. Nunca se lhes viu trocarem uma palavra, apesar de andarem há anos juntos.

Uma aldeia no fim do mundo, ou no princípio. Uma linha imaginária a traçar um meio, uma divisão territorial abstracta nas gavetas dos burocratas. De um lado Portugal, do outro a Espanha, sem diferenças, afinal sem lados.
Só os transeuntes raros e vagos, põem nos óculos esses filtros, porque leram algures, ou ouviram dizer algures que neste povoado comunitário – metade de uns, metade de outros – as pessoas coexistem sem fronteiras, o que de si dá o tom sensacionalista à notícia: uma aldeia excêntrica onde duas nacionalidades comuns coabitam.



Partilha do mesmo espaço, em casas de granito com telhados de xisto, que se espelham num rio cristalino nos dias em que o sol projecta imagens.

Para se chegar a este sítio o carro despede-se da cidade. Também esta um isolamento, ainda assim com gente circulando ou passeando (não se sabe) nas ruas. Derramando-se algumas em cavaqueira solta nos cafés com nomes de outras terras: café Lisboa, café Parisiano, o Central - todas as cidades têm um café Central.

Esta geografia agreste mas muito bela, convida ao recolhimento: “nove meses de inverno, três de inferno”. Os ditados são sempre infalíveis, revelam a nudez das coisas em palavas simples.

Atravessa-se um planalto despido de sinais humanos. Pelo caminho um aeroporto sem aviões. Está ali como símbolo, símbolo de quê? Do progresso das ligações rápidas entre dois pontos distantes. Aqui isso não funciona: ninguém quer aterrar no meio do nada; ninguém do nada quer voar para onde está tudo. São duas posições, ou melhor, declarações de princípio incompatíveis e irreconciliáveis: o nada e o tudo.

No aeroporto que até tem uma torre de controlo, a única manifestação de vida é um catavento de riscas vermelho e branco – medidor de direcções - que destoa dos tons verde e castanho, o arco-íris das cores da terra nesta altura do ano.

Depois do planalto, no recorte de uma muralha salpicada de neve nos cumes- terras da Sanabria – começa-se a descer ziguezagueando curvas apertadas e estreitas até se chegar ao portão da aldeia. Portão que não existe mas que cola bem que a ideia de um paraíso: só entram os eleitos.



Mal se sai do carro e se fecham portas ouve-se o ladroar dos cães, mesmo assim um ladroar educado, a espaços, de baixo volume, como manda a boa educação dos cães. Nos intervalos, o som do nada. Quase todo o tempo neste povoado é um intervalo.



Pelas manhãs em horas matinas de névoas frescas, o farrusco e o seu chefe, atravessam as ruelas silenciosas engrossando a procissão das ovelhas e das cabras que nos seus automatismos de transumância saem ordenadas das lojas do casario. Estas são o celeiro e os currais, o rés ao chão das casas, o local onde se guarda a riqueza das gentes: os produtos paridos da terra, os animais da maior estimação.

O bafo quente dos habitantes animais compactados nas lojas, faz o aquecimento do piso de cima, onde os habitantes homens recolhem à noite para remoer recordações com os olhos fixos nos braseiros.

Quando se fala, não se fala nem a língua de Castela nem a da Lusitânia, fala-se numa comunicação própria, costurada anos e anos nos convívios das gentes da aldeia. Se assim se entendem é porque entendem tudo, a sua língua é rica.

O gado todos os dias vai à sua vida - rotina em círculos - conduzido pelo pastor, aqui não existe especialização, todos os membros desta a comunidade mal medida de uma centena de almas comungam de todas as funções, menos a de padre, claro está! Que essa só para representante autorizado.

Assim que pastores são todos, em calendário rotativo, assim como a cozedura do pão é feita no mesmo forno. Até as grandes decisões são tomadas na praça pública, recanto à sombra de uma árvore frondosa, que não podemos nomear com essas amplitudes de espaço grande, mas que aconchega os suficientes para legitimarem as assembleias.



O residente mais jovem tem mais de sessenta anos, e foi importado. Excelente idade para se ser o mais jovem. Mimam-no como se fosse uma criança, e na verdade é.

Resolvido o engarrafamento do tráfego ovino matinal, a aldeia mergulha de novo na suspensão do tempo, com recortes de seres trajados de negro, curvados a remexer a terra, ou talvez a acariciá-la. Veem-se ao longe e quem vem da cidade não distingue essas subtilezas.

A geografia desta terra, um recôndito embrulhado nos vales, não convida a roteiros turísticos. Quem a procura, fá-lo determinadamente, com decisão tomada desse propósito, sabe ao que vai, não a procura por engano ou equívocos de turista incauto na descoberta de acasos fotogénicos.

Quem vai até esse fim, vai porque precisa de ir, de percorrer uma vez mais a pé a aldeia, para se assegurar e aquietar de que as casas continuam de pé, que não foram violentadas por nenhum material estrangeiro, que as desfearia da sua identidade única.

Os poucos rostos que se cruzam, sem se lhes ver os olhos (de que cor são esses olhos?), são rostos íntimos. Intimidade que nunca foi mais longe que a expressão de um “bom dia”, mas basta este diálogo profundo para nos assegurarmos que tudo continua igual e ali, como se espera e anseia de um local suspenso, a nossa aldeia.

Quem vai, vai para carregar-se de energias puras, vai pelo impulso irracional e telúrico de voltar à terra onde não nasceu biologicamente, mas por decisão posterior da sua razão. Vai com o amor incondicional e louco de revisitar o lugar que lhe faz palpitar o coração de saudades quando está fora.

No fim ou no princípio do mundo - para mim no centro do mundo - a minha aldeia é o local mais cosmopolita e diverso, é onde sinto a paz das gentes simples, o meu exercício de sublimação.

Não é fácil chegar a Rio de Onor –o nome da minha aldeia - e ainda bem, que se preserva de companhias indesejáveis.

Se um dia quiserem lá ir, vão preparados: espera-vos um caminho de desafios e privações, uma iniciação do despojamento. Só é merecedor do prémio final quem apreciar a beleza sem maquilhagens, singela portanto.


Ela está lá no cimo de tudo, no mais longe das lonjuras, mas vale a pena o caminho.