domingo, 26 de julho de 2015

O Homem que escreve histórias de Amor



O local não podia ser mais arejado, é irrelevante se faz bom tempo, que agrinalda o espaço, ou se chove: uma cortina de pingos de chuva pode ser plúmbea de bonita.

Neste caso em que o tempo climatérico não conta, avistam-se cumes de mastros com movimentos ritmados num parque de estacionamento para barcos de recreio. Em segundo plano corre um rio que nesse acontecimento terminal de ser rio penetra na salinidade do mar, une-se com o seu infinito, realizado está. É um segundo plano, porque entre os mastros e essa qualquer coisa que desconfiamos seja mar, armazéns desfeiam o que podia ser poesia.

António foi escolhido por esse lugar para viver e escrever cinco romances de amor. Cinco versões da mesma história, com nomes distintos, mas femininos, e todavia sobre o amor, o tema de toda a atenção. Na vida o que sobra de outros assuntos são banalidades.

Este homem reside num endereço sem caixa de correio, vizinho de outros escritores de palavras que não escrevem sobre o amor, mas sobre os entendimentos e desentendimentos do mundo – banalidades - relatores passivos de episódios diários. Em vez de florescerem, as suas palavras mirram no instantâneo em que são lidas.

Vive no edifício contíguo a um jornal. À sua porta, antes da linha de conforto. Habita na parte de fora da casa.

Os jornalistas cruzam-se todos os dias com ele, eventualmente até se cumprimentam, mas não sabem que este homem corajoso escreve sobre o amor, ocupados que andam a notificar os andamentos coxos do mundo, distraídos nessas pequenices.

Se conhecessem o seu trabalho esboçariam grandes considerações e salamaleques: um homem que escreve sobre o Amor é um homem de respeito e cartola.

No tamanho de um só dia escreveu trezentas páginas. Só trezentas páginas dão por findo um dia infindo. Quando terminou sentiu-se menos mal, o que foi bom, venceu as agonias do relógio, ilustrando as páginas com palavras, uma forma de representação tão real como outra qualquer.

Os companheiros da rua consomem o dia em caminhadas nos bordos das margens do rio, António fica-se pelo escritório a céu aberto, sentado na cadeira branca, plástica, de pernas cruzadas com os cadernos pousados no tampo da mesa inexistente mas imaginada, com um pedaço de contraplacado a fazer a função. Quando chega ao fim de cada linha e antes de navegar a próxima, levanta precisamente fixado o olhar para as pontas dos mastros, fuma um cigarro enrolado e chama pensamentos.

Uma paisagem de maresias diante dos olhos é agradável, mas António não pensa nesses luxos, nem tem picos de felicidade.

Perdeu o rumo da vida quando o primeiro nome do primeiro romance de amor lhe faltou, resolvendo morrer prematuramente. Ela não o avisou que ia morrer e ele sentiu-se traído. Quando se perde um grande amor com vinte anos, fica-se naufrago para a vida inteira. Os que se vivem  depois são actores menores, alguns até mentiras cobardes inventadas para encher o espaço, palavras cruzadas para enovelar vazios.

Quando se perde o amor é provável que se caia na asneira. Muitos passos em falso, com a raiva babando. Desumaniza-se o coração, o pior que pode acontecer: remeter um órgão nobre para a desinteressante função mecânica de bombear vida sem sentimento para um corpo abandonado de si.

Asneirou em tudo e acabou como correio internacional de droga. Para ele era um emprego como outro qualquer: ficou sem o manual de ética quando virou essa esquina da vida de peito desfeito para o nada. Despido dessa forma tão violenta, pode-se exercer todas as profissões sem remorsos.

Treze anos depois, sem papéis de identidade para além da posse de um nome, está quase a fechar o ciclo. Terminados os romances sobre o amor – o castigo do seu deus cruel para a redenção - está pronto a viver.

E tudo vai acontecer naturalmente como começou naturalmente. Os acontecimentos não se anunciam pelo mordomo, enquanto despem o sobretudo na antecâmara.

A mudança de residência será descomplicada: um saco de roupas e os cadernos. A cadeira não fará falta e os outros móveis são caixas de cartão desmontadas que não parece fiquem bem na nova decoração. Não se espera um último olhar de despedida. Não se olha para trás quando se esqueceu.


Num amanhã próximo, António vai resgatar dos arquivos o seu bilhete de identidade e com a mais plena das tranquilidades vai viver abrigado por um nome. Publicou cinco livros sobre o amor, mas deixou ficar os cadernos à porta do jornal.




terça-feira, 21 de julho de 2015

A ALDEIA DE CAVALEIRO





«Estás bem apresentada, a boca toda a ensinar os dentes!»
«Casaste bem ontem à noite, não?»
«O ti Quim também parece que dormiu pouco mas não deve ter sido da raladeira!»
«Esqueci-me dos comprimidos.»
«E o que vai ser?»
«Se me apuseres em cheirinho de licor beirão,c’o café ficava bem!»
Uma aldeia que se chama Cavaleiro, abaixo para quem desce ao Sul, de Almograve: uma rotunda com uma rua principal a desembocar numa praia vaidosa, como todas as do Litoral alentejano.
Hoje é dia de inauguração, os da Junta todos em nervoseira: os vendedores de camionetas ambulantes de peixe e de verduras e de batas com cores garridas, tem um novo espaço para feirarem, devidamente assinalado com uma tabuleta minúscula, mas garbosa, que ainda por cima não assinala bem. Correções de sinalética autárquica a serem levadas a Assembleia.
No ajuntamento de poucas casas de Cavaleiro,a caminho do Cabo Sardão, está o bar da Adélia, o único “spot” com conexão ao ciber-espaço, onde se misturam as conversas de gente normal, com os alienígenas, deprimidos de tanto silêncio e ávidos de consultarem a “rede”. 
Cá fora, e porque é verão e faz calor, os velhos esparramam-se à porta das suas casas, sentados em cadeiras - quedos e mudos, até que alguém passe por eles. Em passando, descontrolam-se em cumprimentos, com olhos de grande curiosidade. Meia dúzia de forasteiros num dia é muito movimento, mas é uma animação que vale por todo o ano.
Cavaleiro é uma tentativa de aldeia, mesmo assim cosmopolita: tem dois emigrantes paquistaneses que trabalham nas estufas e duas alemãs fugidas do sufoco, que vivem aqui, sem que nunca lhes tenham visto sinais de prepotência.
 Enquanto os homens da terra falam sobre nada e bebem, os orientais, sentados ao seu lado, não bebem e não se sabe se entendem as conversas. Em todo o caso são gente da terra.
A Senhora Maria e o Senhor Francisco criam galinhas. Ele planta-lhes um campo de salsa para elas comerem e ficarem já temperadas.
Encomendamos duas para um churrasco. Ela estende um lençol branco sobre o chão, uma tábua de madeira e diz que vai pela machadinha. Aparece com um machadão, agacha-se, curva-se e muito velha corta lentamente a carne em pedaços pequenos. Quanto mais pequenos mais fixa a audiência, que um cortar assim é para dar tempo à conversa, e para conversar mesmo que em monólogo, precisa-se gente.
«O meu Francisco diz que eu sou a esgravatadinha, como o juízo das galinhas.»
«O juízo das galinhas senhora Maria, onde é que isso fica?»
« Os senhores estão a ver esta risca aqui, no cimo da cabeça? É onde está o juízo. Isto e as patas que por estarem sempre na terra, é onde absorvem mais os alimentos, são as partes mais saborosas.»
Com ou sem juízo, estavam boas.
Depois de Cavaleiro é o fim do mundo, isto porque se diz que os faróis estão sempre colocados no fim do mundo. Por isso mesmo: para serem a luz intermitente que encaminha os extraviados.
Um farol e um campo de futebol pendurados numa falésia.
O campo de futebol está num plano inclinado (sorte para os que jogam a descer) e tem duas choupanas em madeira para resguardo dos jogadores em dias de canícula, se é que alguma vez se disputou uma partida nesse local. 
Se aconteceu e foi no final de um dia de Verão, os espectadores indecisos na decisão de porem os olhos no acontecimento ou deslumbrarem-se com um céu carregado de estrelas, não ficaram com notícia de que nesse campo tenha ocorrido uma partida de futebol, porque só olharam para as alturas.
À noitinha, come-se moreia frita com as vistas postas para a rotunda de Almograve, na companhia do doce alentejanar dos ti’jaquins que continuam com as mesmas conversas, disputando nos intervalos um ajuntamento de mines, porque a vida e sua filosofia devem ser convenientemente regadas, não se seque a boca das palavras e daí a sabedoria.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

PROCISSÃO





As festas da nossa aldeia, estejam elas habitadas por fantasmas que há sua maneira também comemoram, ou recebam um milhão de festejadores, são as festas da nossa aldeia, as melhores, o nosso orgulho.

O marco geodésico que sinaliza a comunidade exactamente geográfica onde nascemos, ou onde queríamos haver nascido e da qual nos fazemos adoptar como filhos da terra - demos as voltas que dermos por esse mundo fora – é a guardiã extremosa da nossa essência, que se chama folego: um sopro-chama, que nos soprou pela primeira vez, enviando-nos para as rotas a cumprir na vida.

Todos os anos, com hora marcada abraçam-se de costados os emigrados, rapa-se o fundo às conversas para pôr em dia, faz-se a procissão da santa, come-se e bebe-se, e a música pirosa e brejeira, ouve-se em volume estúpido, saída aos gorgorejos dos auto-falantes pendurados nos candeeiros de rua.

Pela manhã quando o tempo ainda está propício a louvarmos o Senhor, sai a procissão finda a missa solene celebrada na igreja acanhada que não acomoda o povo todo. Os que ficam de fora - a maioria - ultimam os preparativos para se fazerem de observadores ou de participantes. Os absolutamente descrentes, encostam-se aos balcões das tabernas ou cá fora, nas paredes, e apesar de serem apóstatas, também querem ver a procissão a passar.

A fervilhação é muita: os meninos a serem vestidos de anjo e outros personagens coetâneos, nos retoques finais, as mães a esfregarem com bálsamos os joelhos que vão pagar promessas.
Repenicam os sinos, abrem—se as portas de par em par, vai começar a procissão.

As velas na mão, que pingam pingos queimosos complicam os equilíbrios concentrados dos ombros que sustêm os andores dos santinhos e das santinhas, atafulhados estes de mãos, pernas, ouvidos e cabeças - membros de parafina - representações virtuais com os nomes dos donos escritos, pedidos dos homens da terra para os senhores do céu.

Desejos para apaziguamento de achaques, de imperfeições, solução para doenças sem solução, cura dos males de possuimento e assombramento, coisas dos espíritos, que cozem no caldeirão do diabo, piores ainda que as coisas do corpo.

As manifestações populares de louvor ao sagrado acontecem antes do almoço, e assim está bem, quando os homens ainda podem levar os andores por bom caminho, quando o mundo ainda não atingiu a cota diária de pecados feios, quando ainda é quase puro e portanto ingénuo.

As autoridades e os participantes aproveitam o fresco da manhã para fazerem uma peregrinação estimulante, imprimindo as suas pegadas no chão para elevação das almas.

Nas varandas, ricos e pobres em ostentação terrena de honras à Senhora, penduram colchas – a melhor peça do enxoval - umas de seda e outras menos. Unem-se famílias, novos e velhos, para ver passar a procissão, benzem-se e cuscam as indumentárias dos vizinhos, comentando sobre os desavindos, vindos ou ausentes, dos poleiros do lado.

E continuam a benzer-se: uns genuínos no sinal da cruz, outros em fingimento. Fiéis profissionais cobrem o rosto com mantilhas negras. Cá em baixo, os empregados de Deus hirtos e compenetrados, aspergem a água benta, absolvendo pelo líquido puríssimo e santificado, os homens, as mulheres e todas as criaturas da terra.

Raparigas espigadas lançam dos alpendres códigos de sedução aos rapazolas, garbos e na plenitude da energia, que carregam os andores pesadíssimos fazendo de conta que não custa nada. Os mais maricas usam almofadas para protegerem os ombros do peso absurdo dos palanques. Retribuem a malícia delas com meios sorrisos e piscar de olhos, ansiosos que a provação acabe. Há quem finja que não é nada consigo.

A abrir o cortejo a cavalaria da Guarda, tantos cavaleiros quanto a importância da localidade.

A fazerem o cordão que separa os participantes dos observadores, os escuteiros, no papel que define a epítome da sua existência: ao serviço da boa acção.

Na primeira fila, compostas, engomadas, engraxadas, as autoridades civis e militares, desfilam sincronizadas no mesmo passo, no modelo de caminhar politicamente correcto que aplicam sempre nas cerimónias de rua, nas procissões, nos desfiles, na deposição de coroas de flores, na entrega de medalhas e insígnias, nos casamentos e funerais de Estado. Andamentos empalados e solenes, de cabeça arrebitada, olhos no nenhures e com um rigor facial que ao ver de uns é seriedade e de outros frivolidade de interiores.

As autoridades civis trajam fato e gravata escuras. Os militares fardam de gala, os dourados das galonas ofuscantes e as botas - engraxadas por amanuenses - espelhando brilhos.

O Padre, ricamente paramentado, com o alvo e puro das vestes realçando os dourados da mitra, arrasta um báculo com a cor dos ouros; protege-se da canícula debaixo de um guarda-sol carmim transportado por sacristãos convictos do seu papel.

Os diáconos também estão negros, por dentro e por fora, incluindo as auras, para quem as vê. Dos seus pescoços pendem panos vermelhos, que seriam xailes não fossem homens de deus.

Depois das eminências na terra, vem o cortejo das celestiais, andores em figuração dos seres imateriais, recriações de caras e de corpos humanos, para terem rosto. É muito difícil a adoração do invisível.

Abre o desfile a Nossa Senhora da Boa viagem, revestida com um longo e imaculado manto branco e azul celeste. Pousa os pés virginais sobre num tapete de rosas cor de chá, rodeando-os a parafernália dos membros de parafina num conjunto de grande incongruência. Dos cabelos – peruca de cabelos falsos - pendem fios de nylon com notas de euro e outras estrangeiras, dádivas e créditos, coladas a fita-cola. Notas esvoaçantes.

Seguem-se outros andores, mais santas do que santos. A família de Deus é numerosa, tem muitos nomes. Mas hoje nenhum outro será mais louvado que o da Padroeira, é o seu dia glorioso, deus a mantenha junto de si, mas não deixe nunca de olhar para os homens.

Segue-se no alinhamento o retorno à terra. Desfilam as filarmónicas, a local, e as das redondezas. Quase todos os músicos têm um chapéu de general, porquê? E quase todos, eles e elas, têm gravatas vermelhas, com nós amanhados como se pode e soube a quererem asfixiar o sopro deles. Tocam à vez. As músicas são as mesmas, umas mais ensaiadas, às vezes nota-se a falta de talento dos músicos.

Os espectadores assolapados nos beirais esvanecida a fase em que tudo o que era importante para fazer-se visto e ver, foi, recolhem-se e mesmo que as bandas sejam dissonantes, não importa. Ninguém quer saber das bandas.

Uma longa e comprida cauda de povo fecha o desfile. Vão descalços e alguns de joelhos, procuram no sofrimento físico as glórias da salvação. Outros mais racionais, ainda assim bons cristãos, desfilam calçados. Fazem bem, não sofrem tanto.

As criancinhas encantadoras – porque se tem que dizer assim – salpicam de colorido (imagem de gosto duvidoso), o cortejo inundando-o de colorido e graças: as santinhas, os santinhos, os guardas romanos, as ovelhinhas, tão lindo, tão lindo!

Elas levam muito a sério o personagem que vestem, tímidas transbordantes de felicidade, na sua primeira mimetização como actores principais.

Com toda esta conversa a procissão já percorreu as ruas do lugar, o calor aperta, o cortejo alenta-se e alguns meninos acusam o cansaço, tão jovens que são para aguentarem o tempo interminável que levam as coisas sérias a passar. Não é fácil fazer de deus, e se estes seres virginais operassem milagres logo ordenariam ao corpo um suplemento de energia para a aguentar o que começa a ser um suplício.

Insidiosamente a desordem germina.

Os Santo António, rapazes tolhidos de movimentos pelas saias que não estão acostumados a usar, arregaçam o saiote e prendem-no à cintura, prendem-no com o cordão. Os rosários de contas gordas, desconfortáveis, pendem as cruzes para as costas, esganam as gargantas. Muita cabeça se coça do incómodo das áureas, das tiaras e dos véus de musselina. Os piolhos não ajudam em nada, põem-se doidos com o calor. Os “romanos” – ninguém quer ir mascarado de romano – já andam com a gálea virada para a nuca em estilo “mitra”, uma “tribo” urbana. Os catraios mais irrequietos ensaiam lutas com as espadas de madeira, arrastando os escudos de lata pelo chão, numa barulheira que se mistura com as notas desafinas das filarmónicas. Tão pequeninos e desavindos, ensaiando cismas futuros.
 
Não estivesse a procissão a acabar e os sacristãos sempre a admoestar os catraios e a chamar ao entendimento, e a compostura do episódio seria difícil de enquadrar na fotografia.

Nem na casa de deus se consegue harmonia.

Finalmente todos desembocam no cais, compostos ou descompostos, como podem e já se viu. As embarcações dos pescadores e dos marinheiros de fim de semana, vindas de todas as margens do rio, aguardam reverentes pela benção da Senhora, com procuradoria do senhor Padre, que a santa, por ser de madeira não mexe as mãozinhas para aspergir os batéis dos crentes muito crentes, que necessitam desse chuveiro de purificação para se sentirem protegidos no mundo dos homens e das feras.

Unções cumpridas, arreiam-se os palanques, pousam-se no chão as gaitas, desfazem-se definitivamente os nós das gravatas. Há quem refresque os pés e os joelhos massacrados na água retemperadora e acastanhada do rio. Cada um vai à sua vida, que é só de cada um, sem mais companhias. Depois de uma manhã assim, plena de emoção e suor, o courato crepita nos fogareiros a pedir almoço urgente, que mais para a tarde largam-se toiros.

Que bela é a procissão da minha terra!