sexta-feira, 13 de novembro de 2015

TEMOS A CAPITAL DA CASTANHA




O clima é extremado, não gosta de meias tintas: rigorosamente frio, ou intransigentemente quente. As poucas pessoas e bestas que habitam as paisagens – bucólicas as últimas na perspectiva do transeunte em passagem – são igualmente assim. De tanto convívio com a natureza, sorveram do ambiente o seu feitio complexo, ensimesmado.

Não deixam a porta aberta para que qualquer um entre, mas fica encostada quando saem de casa. Não são seres que amem as solidões, mas o confinamento e a escassez de almas, encerra-os, convite quase forçado a sentarem-se no escano em frente ao fogo. Sorriem de portas adentro, em família, gente séria nos rostos que se apresentam à luz do dia.

Em passados antigos repetindo-se nos recentíssimos, foram poucos os que não se refugiaram no estrangeiro ou nas grandes cidades do litoral. Fica quem não se despega da terra: impossibilidades pessoais ou físicas.

Fica quem tem os magnetismos alterados, os que apresentam raízes nos pés, que se metem a crescer pelas profundezas da terra.
São esses os que não saem, nem para dar descanso às suas dificuldades.

É assim, nestes lugares como em todos os outros, em que vai passando o tempo, distraído, atarefado nos avanços para o futuro, sem fazer pausas no presente.

Antes, era quase um dia para chegar a Trás-os-Montes, pedia-se uma mentalização prévia para a viagem, curvas e mais curvas, enjoos, estradas más, retratos bonitos a passarem em flecha à frente dos olhos, como se as janelas do carro fossem ecrãs de cinema. O automobilista, sem espaço de memória para os arquivar todos.

A fazer de fundo para estes cenários, uma paleta de verdes e castanhos acobreados, se é Outono, a estação que rivaliza de cores com a Primavera; e um catálogo de cinzentos, se é Inverno, a estação que rivaliza de tristeza com o fim.

Agora é tudo rápido, o país intersectou-se de linhas rectas traçadas a alcatrão. Saídos de casa, estamos daqui a nada à porta de qualquer sítio que se aponte no mapa. O que se poupa na velocidade com que se chega, subtrai-se no prazer da viagem, insonsa do seu melhor condimento, a aventura – apercebermo-nos das alterações da paisagem, as cambiantes subtis ou não da luz que se projecta nos sítios, as meteorologias -, presos no cinto de segurança e na previsibilidade enfadonha de chegar a um destino sem memória de acontecimentos interessantes assinaláveis no lapso de tempo decorrido entre a partida e a chegada. 

É assim que as coisas agora são.

Adiante, que vamos para Carrazedo de Montenegro, a capital da castanha. Tem que se ser a capital de qualquer coisa, aparecer no “ranking”, para não se transfigurar em fantasma, um risco elevado nas geografias interiores quase despidas de vida palpitante.

Carrazedo de Montenegro poisa-se nas alturas do Concelho de Valpaços – oitocentos metros – e olha para este de alto para baixo. Foi sede de Concelho até 1853 e ficou o ciúme - qual o mais bonito, e o mais importante - que da pouca população, Valpaços leva-os à perna, em contas de dois milhar e picos de superavit populacional.

É uma vila aberta aos brilhos pristinos do céu, mais próxima das alturas, o que conta e muito para a purificação dos ares e das almas, que é tudo boa gente.

Por vezes as entidades que presidem as coisas da terra, que neste caso – tirando a poesia - também se podem chamar fenómenos climáticos, para entediar os terrenos que vivem no vale, na chamada “Terra Quente”, carrega-os de muitos nevoeiros. Não é por mal, são brincadeiras dos seres superiores fora do entendimento humano.

Quando este fenómeno acontece, os de cima, de Carrazedo, olham para o céu e agradecem a pequena maldade: os de Valpaços, vão passar a manhã a tentar descobrir a ponta do nariz, tal é a densidade da névoa que se instalou.

À tarde as coisas mudam, levantam-se os panos, a luz inunda o vale e todos esquecem rivalidades, cada um à sua vida.

Especula-se sobre a etimologia do nome. Há quem diga que “Carrazedo” vem de carrasco, abundância de carrascos (uma espécie de carvalho, aqui há muitos). “Montenegro” vem da escuridão da vegetação da serra da Padrela, o negro monte que lhe faz sombra.

Nos dias de hoje, Carrazedo é uma vila limpa e pintada de cores frescas, claras, todo o contrário do que se anunciava no parágrafo anterior. Tem uma igreja Matriz quase majestosa, uma pequena catedral, que do interior dizem os vizinhos não ser a mais rica - picardias locais. Foi construída no Séc. XVI e remodelada no Séc. XVIII, Neo-Clássica com acréscimos do Barroco.

Venera-se S. Nicolau de Mira, o Taumaturgo. Santo padroeiro da Rússia, da Grécia, da Noruega, e de Carrazedo de Montenegro. Este homem do Séc. III, milagreiro, ganhou fama pela caridade com as crianças e tornou-se um símbolo ligado directamente ao nascimento de Jesus (e à época natalícia: Pai Natal, Santa Claus, é este senhor).

Espreguiça-se a vila por um jardim contemporâneo, já não se usam árvores nestes espaços, só relvas e patamares de pedraria e canteiros rasos com arbustos.  À noite, deserta de seres de qualquer espécie – descontando os cães vagabundos que cumprem penas de outras vidas - luzes modernamente estudadas nos candeeiros de pé alto, criam o ambiente que ninguém vê.

A feira da castanha na capital da nomeada, é uma festa. No pavilhão das actividades económicas apresentam-se os stands sérios: as instituições, os produtores, os comeres. Á porta do pavilhão estacionam as “forças vivas” da região, no ponto estratégico onde se vê quem vem, quem falta, se cumprimenta e se ganham fichas de simpatia, se passam recadinhos com ditos mais ou menos sinceros.

Cá fora, no jardim, os feirantes profissionais de tenda montada, oferecem o que é de costume: as trusses, as meias, os fatos de treino, as camisolas com estampados de tigresas e outros felinos.
Farturas é com fartura, não se resiste ao trocadilho, tanta oferta num espaço tão curto de gente.

A Castmonte (assim se chama esta feira) celebra o tesouro da região, e é a oportunidade (voltamos ao princípio da conversa) da terra aparecer no mapa das terras que ainda não feneceram.

A televisão do Estado marcou presença, programa de Domingo, com as pimbalhices habituais e as ofertas de dinheiro e carros, pagos e bem pagos nas chamadas ingénuas e às carradas, dos espectadores ávidos de virem a ser os felizes proprietários de uma viatura para a qual não têm dinheiro para a gasolina, a manutenção, o Imposto de circulação e o seguro.

Não há dúvida que Carrazedo de Montenegro é a capital da castanha, que a melhor é a “judia”, mas se o cliente quiser e for conhecedor também pode levar a longal, a lada, ou mesmo a cota, nomes que se aprendem e são bons nomes.

O Concelho não tem ainda uma oferta turística diversificada. Umas poucas unidades de turismo rural e residenciais paradas num tempo próprio: desde o dia em que abriram portas.

Aos poderes autárquicos, em esforço de criatividade, cabe-lhes divulgar e trazer turistas, a tal diplomacia económica. É um trabalho que pede ideias fortes, bem ilustradas, que atraiam e cativem as pessoas. Bons argumentos que façam os turistas escolherem esta terra em vez de outra, para disfrutarem o fim-de-semana.

Nós, chegados a gente de cá voltamos amiúde, e pelas noites, sentados no mesmo escano do início desta crónica, crepitamos as castanhas na lareira, alouramos as pinheiras (cogumelos selvagens) com sal e uma pitada de azeite, cozinhadas na brasa. O vinho, é denso, escuro, saboroso e telúrico.

Houvessem hospitais e boas escolas e era na terra da castanha que ficávamos, a ganhar cores e enrijar as energias, que na grande cidade só se ganham arrelias e catarros.