sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

UMA BIBLIOTECA EM SINTRA







- Bom dia, tenho alguns livros para oferecer à biblioteca. Estão num saco, no carro.
- Nós não aceitamos livros.
- Olhe que são bons livros. Praticamente todos são, eu só leio dos bons.
- Já temos muitos.
- Mesmo assim. Não aceitam livros numa biblioteca?
- Não precisamos de mais livros.
- Mas se calhar estes que vos quero oferecer, ainda não têm. É literatura juvenil. E alguns para adultos também.
- Não temos quem os cuide. Vá à Junta, mas eles lá não devem aceitar. Tente.
- Só por curiosidade: vem cá alguém requisitar livros para levar para casa, ou lê-los aqui?
- Não temos ninguém, estou todo o dia sozinha.
- e não a entristece, ver este sítio vazio?
- já estou habituada. Passei vinte anos no atendimento, na Junta, desgastou-me muito. Aqui faço a minha renda e não tenho uma única reclamação. Gosto.
- Um bom ano para si, minha senhora.

- Para o senhor também, e que todos os seus desejos se realizem.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

DESANIMADO





Está um dia desanimado.

Não, sou eu e desculpo-me assim.

Os dias não vestem estados de alma.

Hoje falta-me uma certa pessoa, pelo menos o seu sorriso muito particular.

Está um dia como está, pela ausência desse sorriso.

Acabou de entrar na habitação definitiva da memória.

Agora, só recordá-lo.

O sorriso.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

FINADOS





Hoje é dia de finados, dos que se lembram, dos que se esqueceram.

Recordar alguém é bom, e trazer flores frescas. Visitar a sua campa sorrindo ou triste, ir um quase nada que seja.

Hoje é o dia de todos os santos, porque depois de viverem uma vida na terra, os homens ganham santidade.

E já que a vida é complexa e agitada, que eles tenham o seu dia, e que seja feriado, para não haver desculpa de não serem lembrados.


Hoje é o dia que um dia será o nosso. Até lá vamos batendo de porta em porta a pedir guloseimas, pode ser que a fingir de crianças nunca nos finemos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

QUANDO OS LIVROS DESAPARECERAM





Esqueceu-se a imagem de uma folha de papel com palavras alinhavando frases.

Sonhos acordados, poesia.

Os homens deixaram de ler. Há mais de uma geração, duas gerações. Era cansativo, consumia-se tempo sem garantias de um bom desfecho. A vida não se toma de paixões com o que atrase a sua permanente urgência de apanhar o futuro, e os dois têm assuntos íntimos para resolver, adiados. Andam sempre na eminência não conseguida de apanharem os seus calcanhares e resolverem-se, e nunca se apanham.

Há muitos anos que se esgotaram recursos da terra essenciais à vida dos homens, que na sua previdência natural, assistiram a isso como espectadores desinteressados.

As florestas consumiram-se. Foi assim que deixou de haver papel, e livros.
Nenhum dos dois factos – a falta deles - alteraram a vida das pessoas. Árvores e livros.

A imagem aroveitou e substituiu a palavra escrita pensando-se que seria mais simples. A imagem diz mais coisas em modo concentrado, mas o que aconteceu foi que o Homem perdeu a paciência. Ler tornou-se uma ocupação pouco prática, aborrecida, escura.

Os livros ocupavam espaço e acumulavam pó, eram insanos.

Acabar com os livros e destituir a palavra, foi um bem que ainda hoje não se alcança.

Os pensamentos são correntes imparáveis que emergem palavras à linha de água da cabeça. Estas, se podem escapam querem liberdade, uma ambição que as palavras têm.

A cabeça, a menos que se tenha fechado de comunicação com o mundo, não consegue por muito tempo impedir a fuga das palavras.


Há dois tipos de palavras: as que são ditas e se evaporam saindo disparadas a vogar para o infindo, e as que se escrevem. Estas são apanhadas à porta do pensamento, a ver quem passa, e distraídas por serem voyeur são capturadas pelos lápis. Não cometeram delito, mas como em cada pensador há um Procurador do Ministério Público, elas são amarradas por cadeias invisíveis às folhas do papel. Um livro não é mais que um ajuntamento inusitado de palavras prisioneiras, acusadas de não-delitos incomuns.

Eram assim os livros.

Recorda-se um dia, a que se junta a recordação de uma temperatura amena e uma luz difusa de início de Outono, quando os livros existiam, comprar-se por uma bagatela, a um vendedor mal-encarado de rua - talvez porque não tivesse querido ter essa profissão - um livro de folhas por cortar.

Em casa, deu-se uso a um canivete bonito, desflorando as folhas do livro, com vagares de domingo e antecipações de usufrutos.

Susana, recentemente achacada pelas produções hormonais descontroladas da adolescência pergunta admirada o que se estava a fazer, nunca tinha visto um livro com as folhas por cortar. Explica-se ser a garantia da sua virgindade. Ninguém antes o tinha lido, a esse pelo menos.

Ela responde que era um livro onde as palavras estavam aprisionadas.

E chegou esse momento em que as prisões dos livros ficaram sobrelotadas. Com prisioneiras a cumprirem penas de todo o tipo de delitos. Os de poesia eram as prisões de alta segurança: encerravam as delinquentes mais rebeldes, manipuladoras de massas, chegassem elas alguma vez às massas! As poesias, encantamentos potentes, se instaladas nas cabeças dos leitores causavam danos neuronais e afectivos irreparáveis.

No tempo em que liam, os leitores obrigavam-se a jogos de descodificação, entendimentos vocabulares, de conteúdo, de contexto, exercícios de reflexão, uma ginástica complexa, que os mais velhos diziam ser saudável, como também se dizia ser saudável caminhar e respirar o ar puro dos bosques (quando havia árvores) estando hoje provado que não fazem falta nenhuma - os livros e as caminhadas - e os homens vivem até aos cem anos para provarem isso mesmo.

Erradicar a palavra escrita do convívio com os homens foi dos maiores avanços na história da humanidade.

Eram seres inúteis e pedantes, durante milénios causaram desarmonia, mal-entendidos, desavenças filiais. Eram incongruentes, contraditórias, dúbias.

Livres delas e vendo à distância, custa perceber como alguma vez fizeram falta: arruaceiras, intriguistas, falsárias de significados vários.

Agora tem-se à mão uma colaboradora muito mais prestável. A imagem, que nasceu nos subúrbios dos intelectuais mais humildes, e quando cresceu em importância e ganhou só para si todo o espaço, engoliu os intelectuais.

É o suporte do conhecimento. Uma única imagem pode dizer tudo.

É claro que apesar dos avanços tecnológicos, ainda se pensa e comunica com palavras, mas já não se escrevem a não ser nas resmas diárias de ficheiros administrativos e burocráticos de repartições obscuras.

Estão portanto sob controlo, e mesmo que escapem algumas e vão a despropósito tentar estragos, não conseguem. As pessoas perderam-lhe os sinónimos, e não vislumbram já os seus sub-entendidos.

O indivíduo que inventou o chip de descodificação automática das palavras foi um génio. Com os avanços da neuro-mecânica generalizou-se à nascença a toda a humanidade a sua introdução no cérebro – assim como o chip de identidade e o de geo-localização.
Isto obvia a aprendizagem da leitura e os processos de compreensão linguística, matérias que levavam anos de estudo. Funciona como um dicionário imediato de significações e conceitos.

Uma das suas grandes vantagens deste chip é que antes havia uma quantidade enorme de gente estupida, que não tinha acesso ao entendimento. Com isto, reduziu-se o número de estúpidos e controlou-se igualmente o número de espertos que utilizavam as palavras – porque as conheciam bem – para levar avante intenções elitistas não explicadas.

O conceptualismo e a abstração desapareceram e as artes conseguiram respirar de alívio.

Terminaram as infindáveis discussões sobre as fronteiras do piroso (kitsch).

Há uma geração que não pegamos num livro! Já não se produzem! e não se sente a sua falta.
Já se esqueceu o mal que provocou, a infelicidade que causou, a tristeza, a angústia, a raiva, que gerou. Libertarmo-nos das palavras e dos livros, foi um salto da humanidade no caminho da felicidade sem perguntas, e um homem sem dúvidas, olha sempre em frente até ao último dos seus dias.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

NARCISO






No mito moderno Narciso não definha a olhar insanamente apaixonado para a imagem que se reflecte no espelho. Ele infla, são os outros que mirram, por não serem Narciso, ou porque podendo sê-lo seguram esse impulso em favor da sua decência pessoal. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

DOS PANAMA PAPER





CARTA A PEDRO SANTOS GUERREIRO I - Semanário EXPRESSO

Assunto: Panama Papers – 17 Agosto 2016


Caro Pedro Santos Guerreiro,

Desculpe-me a devassa de lhe entrar assim, de rompante, sem um doutor, um professor doutor, com uma ligeireza a parecer deselegância no tracto. Os títulos atrapalham-me (eu sei, é um problema meu), prefiro a descomplicação dos nomes, facilita a comunicação, reduz distâncias, anula hierarquias e altares.
Venho à fala consigo para pedir a gentileza de me fazer o ponto da situação relativamente àqueles papelotes que tanto anunciou em tempos recentes. Uns papeluchos escaldantes, prometendo confissões escandalosas (o que me pelo por um bom escândalo!)
Julguei perceber que era uma enorme papelaria, a ocupar muito espaço, resmas e resmas.
Os seus persistentes anúncios, puseram-me curioso, e aguardei a roer as unhas até que fosse feita a revelação prometida (e quem promete, se é cumpridor, da palavra, paga).
O tempo passou, entrámos na silly season (cá por mim que ninguém nos ouve, acho que estamos nela vai para séculos), e nada. Já ganhámos um europeu de matraquilhos, os fogachos andam a fazer das suas, e quanto à papeleta, népias! (que é uma palavrota meio desconxavada, mas gosto dela).
Pergunto-me: será que teve o descuido de deixar a janela do seu escritório aberta, e numa diatribe do vento, o papelame se pôs a fazer de pássaro, a voar para a liberdade, para onde não pode ser apanhado?
Compreendo a sua frustração - eu próprio também estou nesse estado -, tanta novidade a dar, e ela a escapar-se pelos interstícios de uma janela descuidada.
Se ao menos tivesse escrito alguns nomes num caderno, que nos pudesse revelar, só uns, meia dúzia!?
Caro Pedro, agora que somos conhecidos, não levará a mal que de vez em quando me chegue à palavra, a saber notícias suas, cumprimentando-o, e quem sabe um dia destes novos papiros venham pousar na sua mesa de trabalho, e em falando consigo, peço notícias sobre esses conteúdos, picantes certamente.
Venham daí esses ossinhos, e caso seja apropriado, votos de umas boas férias.


NOVA CARTA A PEDRO SANTOS GUERREIRO II - Semanário EXPRESSO

Assunto : Panama Papers – 21 Agosto 2016



Estimado Pedro,
Agora que nos escrevemos – só eu ainda para si - tratemo-nos sem formalismos.
Cá estou eu de novo à fala – neste caso muda – a saber notícias dos papéis.
Como não disse nada, não respondeu a minha missiva, fiquei preocupado. Disse até para a minha Maria: “Ou foi de férias, ou anda a apanhar papéis.”
Por mim não vale a pena ficar nervoso, eu espero, desde que me responda e me diga o que sabe sobre o assunto em apreço.
O ter dado a cara, a forma assertiva como o vez, revela coragem, e não me passa pela ideia que tenha esmorecido. Não o vejo a ceder a pressões, tenho-o em conta e grande decência.
Só podem ser as férias!
O pézinho de molho, a aragem com salpicos de sal, a sardinha, a “jola” fresquinha, não há como as férias, esquecemos tudo, até as coisas que nos arreliam.
Fico à espera de notícias suas e as outras. Se me quiser contar as aventuras dos miúdos, aprecio, que é sinal da nossa recente amizade. Agora, o que eu queria mesmo, mesmo saber era notícias do Panama.
Se não for antes até para a semana.
Respeitosamente,



AINDA MAIS UMA CARTA A PEDRO SANTOS GUERREIRO III - Semanário EXPRESSO

Assunto: Panama Papers – 26 Agosto 2016

Eu sabia que não tinha razão, pus-me com nervoseira, e estas coisas de investigação jornalística, levam o seu devido tempo. Não é de pé para a mão que se revelam notícias deste calibre. Têm que ser devidamente sopesadas, passadas pelos crivos da verosimilhança, da verdade, da concordância, do alinhamento. Tantas variáveis a exigirem rigor, precisão, clareza, oportunidade.
Eu a insistir consigo, já a dizer que tinha deixado distraidamente a janela do escritório aberta, e que os papéis se tinham posto ao caminho de voarem dali para fora, quase a culpá-lo disso. Do silêncio, de não dizer mais nada durante um tempo que me parecia uma eternidade, e o meu amigo, educadamente, a aguentar estoicamente os meus perdigotos.
Afinal o que esteve a fazer este tempo todo foi a escarafunchar no papelório, a tirar mais sumo, matéria clara de condenação, a ligar as coisas aos nomes, ou ao contrário o que dá no mesmo.
E hoje, acordando eu com a bílis a dar para o torto, já a afinar as facas a quem zurzir antes de ir de fim-de-semana para a minha casa na Herdade da Comporta, eis que dou de caras, escarrapachado, logo no página primeira, com uma bela de uma notícia do Panama: “ A mina de diamantes com ligações offshore” do malandro do israelita Benjamin Steinmetz.
Descomprimi, voltei a acreditar na humanidade. Tudo o que já passava em loop por esta minha enviesada cabeça é um desvario meu. Os Panama são para serem revelados ”sem apelo nem agravo, nem pedido de amigo”. Hoje foi este caso, amanhã serão casos portugueses, que os há (diz-se), e o meu estimado amigo que os sabe, só espera que a justiça dê vazão às resmas de papelotes dos processos do BPN, Sócrates e quejandos, para quando os vir mais folgados (aos juízes) dar-lhes esses nomes jeitosos que tem para que eles iniciem os longos, peregrinos, de desfecho imprevisível, processos.
Obrigado Pedro, agora sim: venham dai esses ossinhos!


     
A ÚLTIMA CARTA A PEDRO SANTOS GUERREIRO IV - Semanário EXPRESSO
Assunto: Panama Papers – 5 Setembro 2016

GOSTARIA DE VER PORTUGUESES ENTRE OS MELHORES NOS PANAMA PAPERS
   
Amigo Pedro,
Está bonzinho? Deveria dizer bronzeadinho? Espero que sim, a face com uma boa cor dá outro realce à alma, um glamour interior, uma certa luminescência.
Temos novidades dos papéis? Vi que publicaram pelo menos duas histórias: a do israelita e os seus brilhantes negócios dos diamantes, e a conta do GES (uma de tantas), tão complicada a história, que penso que lá para o terceiro parágrafo já me estava a perguntar qual era o tema da notícia.
Penso que é a este jogo de complicações que se dá o nome de “Engenharia financeira”, uma verdadeira arte.
Desculpe a insistência de querer à viva força (expressão mais linda!) saber de cidadãos nossos envolvidos nestas histórias. É um impulso patriótico que me impregna, uma vontade de ver reconhecido o nosso nome além-fronteiras, para que não se diga quando há coisas destas em grande estilo, que nós nunca aparecemos porque somos pequeninos e tímidos, incapazes de figurar na primeira linha.
Não senhor! Tímidos talvez, mas se a isso impulsionar o engenho e a vontade, temo-los tão bons ou melhores engenheiros que qualquer outro, da Papua Nova Guiné às ilhas Faroe.
Peço-lhe portanto amigo Pedro, que me vá mantendo informado, e mesmo que não me diga nada, eu respeito: há muita gente, boa e de pergaminhos imaculados, que não é dada a convívios com estranhos e só abraçaram a carreira jornalística, porque na altura não puderam ser produtores de mirtilos (não sabiam como aceder aos fundos).
Confio, que mais mês menos decénio, teremos notícia com substância, a colocar no devido lugar de destaque e pódio, os brilhantes portugueses envolvidos na primeira divisão mundial do campeonato da fina manigância.
Até lá, com muito apreço, e até – posso dizê-lo –, algum carinho que este nosso recente contacto avivou, despeço-me no anelo de ver uma palavra sua. Afinal já merecemos uma notícia de jeito sobre o assunto em epígrafe.

Apreciadamente, considere-me um fiel leitor,

domingo, 18 de setembro de 2016

IMPRESSÕES SOBRE OS MESES






Lá fora é Setembro, a luz já não é a mesma.

No Verão partículas de calor turvam o ar, saturam o ambiente. A luz em toda a sua plenitude encadeia. Anula o distanciamento, o perto e o longe. Os horizontes tremeluzem mais, longínquos como sempre, e ganha a persuasão do imediato que está à mão. É o tempo do agora.

A luz do Verão incide difusamente sobre os objectos, coloca-os à distância de um braço estendido que tateia os seus contornos esguios, por essas razões é uma época sensual dada à aproximação dos corpos.

Com a mudança do mês, na despedida da estação os cenários ganham lucidez, desaparecem as poeiras, puxam-se brilhos, redefine-se o aspecto das coisas, ou sendo mais simples, volta-se a habitar o quotidiano, anuncia-se a entrada no tempo sério.

Lá fora é Setembro e as crianças ainda jogam futebol na rua e gritam gastando energias impensáveis. Andam nisto há meses e não se cansam, felizmente. Quando começar a chuva e o vento, deixam de jogar na rua e não podem gritar em casa. Aborrecem-se.

No Verão a cristandade inteira pedia para se continuar em modo parado, sem se exigirem trabalhos a ninguém, tudo a sonhar que era assim a eternidade, uma suspensão do movimento inútil, a fruição do nada totalmente imóvel. Os outros, muitos, que não são cristãos, também estavam de acordo com esta ideia.

Em Setembro muda tudo, começando pela novidade que o Outono não tarda aí, e alguma frescura, dias mais curtos, olhares e meneios de corpos marcados por um romantismo específico talhados para esta época do ano.

Lá fora, as crianças continuam a gritar e a jogar, e assim será até perderem a inocência e deixarem de sair à rua por razões lúdicas, quando forem empossadas oficialmente a só terem razões laborais. Elas ainda não têm preferências pelos meses, porque estão na fase de serem eternas e não estão minimamente interessadas em saber que os meses têm nomes e são diferentes e efémeros, e alguns deles bastante chatos.

Lá chegará o dia em que elas realizam que não existe a imortalidade. Umas ficarão melancólicas, outras exacerbadas, com polo negativo ou positivo. Será nesse momento que se estabelece a doença da renúncia que acabará por as consumir.

A melancolia é uma tristeza que se aguenta, o exacerbamento é um exagero perigoso, dizem os psiquiatras que algumas vezes têm razão, quando não estão exacerbados de si nos outros.

O Verão será sempre caloroso e açafrão, o Outono é – diplomata entre o calor e o frio - como lhe toca e gosta, romântico. Usa-se de cores só autorizadas a vestir sem moderação na sua época, convencendo inclusive as árvores e os arbustos a abandonarem temporariamente a cor verde, arriscando acobreados, extravagâncias a que a natureza fecha os olhos nesta altura do ano, confundindo-se a si mesma pela alteração da ordem das coisas, neste caso as cores que forram os espaços dos jardins.

A menos que as estações do ano mudem em pirotecnias climáticas e contra a vontade dos deuses e dos ateus que são conservadores e não gostam de novidades que os tirem do sério, os meses do ano são fiéis aos seus princípios de serem como são, correspondendo honestamente ao que se espera deles: nada de particularmente especial a não ser as suas diferenças.

São os homens quem tem uma acentuada tendência para se extraviarem, enviesarem, entornarem, e coisas assim, e são eles a maioria das vezes, que quebram os tratados de fidelidade, indo pelas costas e atraiçoando as expectativas dos meses, que apesar de viverem há uma eternidade continuam e continuarão a ser absolutamente ingénuos.

As crianças chilreiam e esvoaçam. Não, são os pássaros. As crianças apalavram gritarias e dão saltos esvoaçantes. Está bem assim.

Lá fora faz um Setembro de se lhe pôr a vista em cima.


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

DA INUTILIDADE DOS MUROS





A parede de um muro tem dois lados, não há volta a dar. Não há muros de uma só face, todos têm o lado de dentro e o de fora.

Fazem falta as paredes? Sim, para proteger das intempéries.
As paredes são fortes para não serem derrubadas, são altas para que não se possam saltar. Fortes e altas é bom se protegerem das intempéries.

Não sendo nestas situações, não se vê nenhum interesse na construção de muros com outros propósitos.
São inúteis e como tal aberrações.

Paredes no meio de nada ou a cortar caminhos, impedindo o acesso a um dos lados, ou aos dois, são ideias redundantes. Podem permanecer de pé interminavelmente, à custa de um poder qualquer exterior, mas continuam redundantes e é bom que saibam que se sabe disso.

Podem-se rodear rios, montes, vales, ilhas, praticamente tudo, com muros de grandes paredes, pintadas ou não. Pode-se mesmo confinar o mundo a viver emparedado.
Mas o pensamento não, e mesmo que se conseguisse, bastaria escapar um para tornar os muros ridículos e dar-lhes cabo da reputação.

Assim que não vale a pena construí-los se o que se quer preservar for o bem-estar, a qualidade de vida, a harmonia e as doses homeopáticas de felicidade que fazem um homem feliz. Basta deixar os campos abertos, sem obstáculos, e a livre circulação  com o tempo, vai encarregar-se de pôr os passantes em sintonia.

Não construam mais muros, não vale a pena.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A TERRA DOS MANUEIS E AS UNIVERSIDADES DE VERÃO, UMA NOVELA APAIXONADA







Episódio 1

“Caro Manuel é um gosto recebê-lo. Em nome de todos dou-lhe as boas-vindas, esta é a sua casa.”
“Caro Manuel o prazer é meu.”
“O bom senso trouxe-o para junto de nós, verá que a nossa verdade, que é inabalável, é a que melhor lhe convém.”
“Sem dúvida Manuel anseio conhecer-vos melhor, estar ao nível das vossas expectativas, contribuir com o meu empenho para o nosso sucesso.”
“Em nome dos nossos correligionários agradeço Manuel, isto é uma irmandade e estamos aqui para as vitórias e as derrotas, que praticamente não as temos.”
“É uma lisonja pertencer a este colectivo, que nos orgulha a todos.”
“Na sessão desta noite faremos a sua apresentação, nada de muito formal.”
“Entretanto pode passar pela secretaria, o Manuel secretário completa a sua inscrição. O seu contributo, Manuel, é fundamental. Só sobrevivemos das quotizações de alguns beneméritos de grande generosidade e dos votos nas urnas.”
“Darei o meu melhor, sinto-me honrado por pertencer ao grupo dos manuéis e já agora, se me é permitido, digo que é uma boa política, justa, o Estado subvencionar os votos.”
“Sem dúvida Manuel vejo que estamos em sintonia, as suas ideias vão ser de grande utilidade. O voto é a fonte dos nossos proveitos: quantos mais, mais recebemos e por sua vez melhores campanhas podemos fazer para animar as pessoas a votarem em nós – é isso a democracia.”
“Confrade Manuel posso tratá-lo assim? No que puder contem comigo para passar a palavra. É certo que não somos deuses, mas na terra é como se o fossemos, e assim temos a missão que é como um desígnio superior de encaminhar as pessoas no caminho certo, para o seu bem e o da cidade.”
“Ficamos muito contentes com as suas sábias palavras. Todos os manuéis devem ser nossos. São poucos os que ainda não se inscreveram, por preguiça, mas temos os seus contactos e em breve estarão connosco.”
“Folgo em saber que estou no sítio certo.”
“Graças a si Manuel, e aos que se juntaram a esta nobre causa, podemos dizer que a nossa sociedade entrou definitivamente na fase de maturidade democrática.”
“Sim, o povo é sábio, sabe bem o que melhor lhe interessa, e é com os manuéis, que os manuéis estão bem.”
“Temos Manuel! Esse slogan é bom!”
“Nesta fase inicial, até que nos conheçamos melhor não diga muito, vá ouvindo. É a ouvir que se aprende. E se aprender bem, tem um futuro de oportunidades pela frente.”
“Sou todo ouvidos, não estou aqui para outra coisa!”
“Trate então da sua inscrição que a nossa secretaria fecha impreterivelmente às seis horas em ponto.”
“E logo cá o esperamos pelas 21h00, não se pede que venha a rigor, mas alguma contenção na fatiota, que isto não é nenhum regabofe.”
“A sessão vai ser orientada pelo nosso Secretário-Geral, o Senhor Doutor Manuel, que vai falar de um tema muito importante: A comunicação social e a sociedade.
“A nossa agremiação tem ideias límpidas, como água, sobre este assunto, e felizmente que os nossos confrades as entendem e interiorizam convenientemente, mas nunca é de mais relembrar a delicadeza deste tema. Uma comunicação sem uma supervisão atenta é uma bomba relógio, pronta a explodir a qualquer momento. Pode causar estragos irreparáveis na nossa pacífica sociedade e isso não queremos, porque somos cuidadores.”
“O que as pessoas precisam não é saber dos andamentos do mundo, elas querem é uma história bem contada. Até mais logo Manuel.”
À hora marcada Manuel entrou no grande salão, com um fato cinzento que não compromete e uma gravata da mesma cor monótona. Um lenço com flores de tons quentes a despontar da lapela do casaco, assinalava um pequeno apontamento de irreverência.
A sala estava à cunha de manuéis, animados na repetição dos cânticos e dos slogans do partido, ao mesmo tempo que esvoaçavam as bandeirolas com a sigla do grupo, um grande M, a preto num fundo azul água.
“Esses lugares estão reservados.”
“Convidados?”
“Não, é para os candidatos a sucessores do líder.”
Sentou-se bastante mais atrás entretendo-se entrementes com a dinâmica da sala.
Se os decibéis diminuíam, no palco, um jovem assertivo, mantinha em alta os níveis de excitação do instante.
Manuel reconheceu vizinhos, colegas de trabalho, clientes do café que frequentava, varrendo com o olhar o auditório, absorvendo toda aquela novidade, o seu encontro no partido, a sua iniciação para um mundo novo, que era obrigatório pertencer, cheio de expectativas e ilusões.
Do nada, a gritaria agora disforme, atingiu limites obscenos, com os manuéis histéricos a aplaudirem o mestre que entrava em apoteose acenando com uma mão convencida e uma cara séria para os apaniguados.
Tomou lugar no púlpito, rodou ligeiramente um copo com água meio cheio, deu indeléveis pancadas com o dedo indicador no microfone e disse:
“Estimados concidadãos, a liberdade de expressão é um caminho perigoso. Perdem-se mais amigos do que se ganha simpatia. Se um individuo se descontrola a dizer tudo o que lhe apetece dizer, por impulso, arrisca-se a causar muitos danos a todos os que o rodeiam, a ofender gratuitamente, a derramar ignomínia como ácido corrosivo. Um comportamento assim causa desarmonia na vida social. É a ofensa, a punhalada, a jactância, o vernáculo a cheirar a enxofre. Nós não podemos tolerar essa expressão doentia de uns poucos, e por isso fizemos regras e fazemos por que se façam cumprir. Os meios de comunicação, os jornais, as rádios, as televisões devem ser rigorosos e seguir o manual das boas práticas, porque apesar da nossa cuidadosa supervisão há sempre uma notícia que passa desconforme e que se não for travada a tempo pode geral a maior das confusões.”
“O povo sabe que estamos aqui para transformar a sua vida num passeio de belos prazeres. Mas para que isso seja assim, tem que depositar toda a sua confiança em nós para podermos realizarmos o trabalho de bastidores, que vai abrir caminho para que num futuro próximo ele possa gozar essa vida despreocupada e farta.”
“A liberdade, é boa a conta-gotas. Se for a mais causa anarquia, e esta põe nos a todos muito nervosos, porque é um veneno para a sociedade.”
“A bem da nação, a comunicação social só deve passar as notícias boas, as más cá estamos para as purgar.”
“É por concordarem, concordarmos, nas acções do governo, sem discussão nem bota-abaixo, que podemos trabalhar folgadamente, na construção de um mundo melhor, que é o que já estamos a viver.”
A casa a dar sinais de vir abaixo, uma ovação estrondosa, pessoas a abraçarem-se emotivamente, desfalecimentos de emoção, ou do calor que era elevado.
O homem tem o dom da palavra, é um hipnotizador, e sabe disso.
“Reflictam bem nas minhas palavras e compreendam que não há necessidade de criticar, nem de dar opiniões que confundam as mentes mais fracas. O mundo não precisa de opiniões, precisa de dogmas feitos por homens que saibam guiar.”
“Os tempos em que os jornais ocupavam espaço com as cartas dos leitores e outras rubricas envelhecidas terminaram. Esses jornais não sobreviveram aos tempos modernos. O Presente pede e exige uma escrita descomprometida, feita por gente jovem, sem preconceitos e ideias bafientas, que saiba veicular correctamente as mensagens, que siga a norma e os cânones instituídos.”
“As pessoas se quiserem dar uma opinião – e já o disse – que nos enviem através das redes, e deixem os jornais para quem sabem, e para o que servem: transmitir os acontecimentos sem emoção, mas com informação. E se a noticia não for fácil de dar, mais uma vez, cá estamos nós para compor o texto, torná-lo claro e entendível a todos.”
Agora é que a casa se abate.
“O Manuel é o maior, o Manuel é o melhor”, grita-se em climax.

O Manuel, eu, sinto-me preenchido, feliz. Inscrevi-me a tempo e não estou nada arrependido, na universidade de verão. Nos próximos dias temas sensíveis vão ser abordados por manuéis influentes, homens e poucas mulheres, de carreiras sólidas na política e no empreendedorismo. São eles os melhores exemplos que dispomos de abnegação pela causa pública. Por isso estou muito curioso de assistir com toda a atenção às prelecções dos próximos dias, de que vos darei conta.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

ESCREVER





É um encadeado de acontecimentos involuntários, não há controlo, a continuação e o rumo da história não está na nossa mão, somos só executantes – mais ou menos artísticos – de um guião escrito pelos pensamentos que brotam de nós com vida própria, independentes dos nossos desejos, dos estados de espírito ou se as condições atmosféricas estão propicias naquele dia, naquele momento, ao acto de escrever.



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

domingo, 14 de agosto de 2016

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

UM CERTO LITORAL ALENTEJANO, NOVELA FOTOGRÁFICA




Mesmo que seja de passagem é deselegante não deambular pelas ruas da vila. São Teotónio diz que tem a maior comunidade emigrante romena do país: essa mania de se inventar a pretexto de uma minudência alguma coisa que seja a maior e melhor, e ninguém tenha igual ou parecido, é coisa nossa.
                   

                        


Como era o que havia mais à mão, São Teotónio, lançou esse boato cá para fora, e pegou. Nas três vezes que lá fui no espaço de uma semana, não me cruzei com nenhum(romeno), mas também é verdade que não os distingo dos portugueses, havendo uma alta probabilidade de que misturados, não seja fácil identificá-los. 


Quanto à "barreira" do idioma e com quem se falou, assegura-se que a comunicação foi feita num genuíno alentejanar da palavra, e sobre o sotaque o mesmo. Pode dar-se o caso que eles há tanto tempo emigrados falem correctamente esta nuance do português do Sul.

A Praça principal, que pode não o ser mas é onde se encontra a igreja-matriz, é acanhada. O casario circundante não ultrapassa o primeiro andar, e não sendo arejada, abre-se aos céus. Em dias desanuviados, a intensidade do azul celeste parece que nos chove em cima, mas não, só  encadeia a visão, de tão intenso o azul. É nestes fenómenos naturais que um homem sente uma dor no peito, de tanta beleza.




A igreja é humilde, sem remates nem pirosices barrocas, está caiada de branco com os recortes a azul. Tem um relógio na torre, e abaixo o sino, os números a preto em contraste com a parede. Não se confirmou que desse horas (deliciosa a utilização do verbo Dar). Pode ser um relógio decorativo ou temporariamente fora de serviço.

A Praça também tem uma pastelaria, apinhada aquela hora da tarde – seriam umas quatro. Comeram-se uns deliciosos bolinhos de amêndoa: uma melancia e um pêssego. A empregada foi honesta e afiançou que estavam frescos. Tinha razão, considerou-se por isso e porque também sorriu bonito, que era da simpatia alentejana, característica difícil de explicar e só intuída.





No flanar pela vila de ruas estreitas que dão sombra às casas e aos passantes, desaguou-se numa sapataria, em dobrando a drogaria da esquina. Nestas terras as lojas têm de tudo, cada uma é um centro comercial.





Dá-se o nome de sapataria a este estabelecimento comercial porque o objecto que se viu mais exposto são sapatos, apesar de desirmanados. À primeira vista podia ser uma loja especializada em calçado para mancos de pernas: só o sapato direito, ou o esquerdo. Mas não, é uma loja ortopédica, não há pares, é mesmo assim.




Mal entrámos, temeu-se que o local tivesse sido fustigado por algum micro fenómeno ambiental, um terremoto, um tufão. Era um cenário de caos: caixas pelo chão, prateleiras cheias a acumular coisas esquecidas há mais de muitos anos, atacadores soltos que pareciam lombrigas, fivelas soltas que careciam de serem cintos, ferramentas ao deus dará…





Pediu-se, à cautela, para ver e experimentar o nº 42 de umas botas - a que tinha o aspecto mais saudável daquela loja, e estava delicadamente exposta no balcão. 

O sapateiro amuou por se ver obrigado a alterar a posição de sentado, e de propósito, ao fim de meia hora de uma procura alentejana lenta, é peremptório entredentes que o número maior que teve foi o 41, e isto há muito tempo. O possível cliente contrapõem que uns amigos seus, residentes na zona, lhe enviaram uma vez um par de botas nº 42. 

O ambiente começa a ficar tenso.







Para não se atingir o eminente ponto de zanga fez-se diplomacia, ele fechou momentaneamente a sapataria improvável e fez-se uma procissão com os litigantes para beber um sininho de medronho em local que se anuncia com fotografia.

É assim que se assinam tratados de paz, brindando. É um procedimento elementar e humano e não necessita de doutoramentos.




É um dois em um, e explica-se: o sapateiro é amigo do talhante que entretanto também é florista. Quando vazios de clientela, mantêm-se em repouso - mas alerta - na exuberância tropical e florida da "Pétala", acudindo ora a esta ora ao talho, consoante o produto que se procure.

Na metade que faz de talho, tudo limpíssimo, higienizado, como é de lei numa moderna morgue de animais. No balcão frigorífico onde refresca a fuça do porco, e outras iguarias todas suínas, guarda-se uma garrafa de medronho - fresquinho - para os amigos, que são todos os conhecidos, ou quem lhe entra pela porta uma primeira vez. Para todos portanto.

Não se sabe se o comportamento do talhante se altera com uma cliente do género feminino, supõem-se que a esta ele não ofereça um cálice de aguardente, talvez uma flor.

Gerou-se ali uma amizade com futuro, das que prometem serem boas. Depois de uns quantos sininhos, difíceis de contar à velocidade com que estavam sempre cheios, conclui-se que o sapateiro não é um homem carrancudo, gosta é de estar sentado e chateia-se quando o obrigam a vender. Do talhante só se pode dizer bem, é um homem encantador, um contador de episódios que estica ao sabor da audiência. Vendeu-nos partes do porco que não sabíamos existirem, nomes de coisas de comer saborosas e carregadas de gordura.

Numa tarde conheceu-se quase metade do tecido empresarial da região!



Ao fim do dia, no caminho de regresso à Zambujeira do Mar, uma terra avarandada sobre o mar que compete em vaidade com Milfontes e Porto Covo (compete mas sem invejas, cada uma no seu estilo), encontrámos na estrada dois velhos ainda apaixonados, sentados ao fresco no sofá da sala, entretidos a verem os carros a passar a toda a brida. Não há melhor vida que esta, do campo, junto à praia.













Se durante o dia o azul do céu do Alentejo não tem um adjectivo à altura, à noite são as estrelas no seu pisca-pisca, milhões de milhões, que transformam o telão escuro que nos cobre numa discoteca de luzes. É um espectáculo de pirotecnia fina, feito com a mais elaborada engenharia celestial, altamente especializada neste e outros fenómenos.







 À janela dos meus olhos com o novo dia parido, alumbrei-me demais, e debrucei-me nesta paisagem irreal do porto de pesca da Zambujeira do Mar.









De bicicleta, pelo caminho ainda deserto tomei-me de amores por dois rafeiros alentejanos, abentesmas, enormes, com um chocalho ao pescoçoal a fazerem-se cordeirinhos. Ficaram de meus amigos, companheiros no passeio, sempre ao som do chocalho.

Como eles estavam livres e danados que são para atazanarem o espírito dos seus iguais, lançavam-se num berreiro de ladroar por cada casa que passavam, onde os pobres tristes dos cães acorrentados, respondiam raivosos de não estarem no seu lugar. Lançada a inveja, voltavam para a estrada, todos contentes, caudas peludas a abanar e aos pinotes contra o ciclista, na brincadeira claro!








Por cá as praias têm uma sensualidade rebelde, dão luta nos jogos de conquista, mas quando o intruso se torna merecedor, estendem os areais banhados pelo mar frio e revigorante, e deixam-se namorar.

São tão puras que deveriam continuar num segredo pouco sussurrado. Nomear é divulgar, pelo que se aconselha veementemente não procurar nos mapas os caminhos que desembocam em Almograve, na Zambujeira, no Carvalhal, em Odeceixe (a aldeia é um presépio),o Monte Clérigos, a Arrifana.





E é da Arrifana que escrevo esta novela, no terraço de uma casa que imagino minha – não vou mais longe -, estando do lado da rua a olhar para ela, sonhando.

No terraço, onde pus uma mesa de madeira corrida e nada mais faço senão deixar escorrer o dia olhando o mar e escrevendo, uma devassa de uma gaivota-pata que me anda a atazanar o espírito desde que cheguei, está a fazer-se ao meu almocinho de peixes frescos de amêndoa algarvia! Parece o cherne-gold com os patos bravos que somos nós!







Amanhã continua-se esta conversa.