quarta-feira, 9 de março de 2016

MIRADESES TEM UM RIO










Formoso. Nasce no estrangeiro – galego - e desagua no Tuela, quando passa na aldeia faz-se de grande, rio crescido, alarga a distância entre as duas margens. Nesse ponto não tem fundura, não ultrapassa a linha dos joelhos de um adulto, não dá para natações, nem exercícios de estilos. No verão os utentes ficam deitados, ancorados ao chão arenoso, nessa doce modorra põem a escrita da vida em dia, olhos alapardados no céu azul.
As margens que desenham os contornos dos rios são duas vizinhas rivais. Aqui, uma aloja o casario granítico, ou inacabado, a outra, oliveiras e campo de pasto das ovelhas, que por lá se avistam, guardadas pelos mastodônticos cães de gado transmontano, cães imensos, com feições e corpanzil de se darem ao respeito, todavia, subornáveis por uma boa carícia, como qualquer dos mortais.
Uma placa numa pedra em imitação de menhir, anuncia-a como a “Terra dos Engomadinhos”. Pode ser, não se viu nenhum, nem descobriu a origem dessa nomeação.







Miradeses tem um dólmen com uma caixa de correio verde emoldurada. Como está plantado ao lado da pequena e estreita escadaria que conduz à acanhada mas bela igrejinha, o turista crédulo de toda a novidade, na primeira passagem pelo local, julgou estar a ver arqueologia. Está bem feito, mas não: é uma cenografia. Em vez de se pendurar uma caixa de correio nos sítios em que todas são penduradas, criou-se um “ambiente” só para ela.Vivem artistas em Miradeses.

Em subindo, de quem vem de Valpaços e já atravessou a ponte sobre o rio; viu o dólmen e a casa do Senhor; mais acima, isolado mas a olhar para a serra de Santa Comba, um cristo crucificado dentro de um casinhoto branco com portas de grades de ferro verdes; amendoeiras floridas a salpicarem a paisagem, neste inverno armado em verão um pouco mais fresco; chega-se à terra de Vale Salgueiro, onde se produz o melhor vinho da região, quiçá de todo o senhorio transmontano: Quinta das Corriças.




No casinhoto onde está cristo “sequestrado”, uma sombra de contornos humanos imprime os degraus quando o visitante sobe as escadas. Pensou-se logo em milagre, no corpo um arrepio misto de temor e rejúbilo. Mas não, é só a sombra do transeunte que desse alto avista a serra de Santa Comba. São uns trinta quilómetros pela estrada, fossem eles aves voadoras e era um bater de asa. O viajante, dada a inerência a que não pode renunciar da função que o reveste - salta-pocinhas, andarilho - transfere agora a história para contar a subida aventureira e corajosa desta serra de 1041 metros de altitude, quase totalmente despida de arvoredo (antes caminhando pelos trilhos não se avistava o santuário de tanto e cerrado que era), derrotado na eterna guerra perdida dos incêndios florestais.
O grupo estava bem equipado, e pôs os pés ao caminho, uma subida que nunca é ingreme.







Ventava, chuvava, Só podia ser um deus, no cimo do monte, com fôlego para soprar tão fortes vendavais. Um deus pagão, cultor de rituais anímicos, de crenças primitivas, adorações com sacrifícios, às forças da terra, do fogo, da água e do ar.

Todas elas queriam impedir o grupo de chegar ao cume, travou-se a eterna batalha dos homens contra os deuses. Estes, uma vez mais perderam, e amuaram até ao final do dia, deixando aos homens o gozo e usufruto das vistas do miradouro, onde se lobrigam outras serranias igualmente imponentes, mas só nesta vive numa fraga a santa Comba, e a história do seu milagre.

Era de uma beleza rara e apascentava os seus rebanhos despreocupadamente, coisa que uma mulher com atributos, nunca deve fazer. Em passando de regresso de uma caçada a um urso que importunava as aldeias e já tinha comido umas quantas criancinhas, o rei mouro, homem membrado, feio, com orelha de asno e outra de cão (relatos de época), apaixonou-se perdidamente pela virgem pastorinha.

Esta, muito assediada pelo quase mostrengo berbere, refugia-se cada vez mais na dedicação e práticas a deus. Entrega-se e dá-se em todo o seu ser ao Senhor. Ferido no orgulho de não ser o eleito do seu coração, o mouro acatingado persegue a moça, de lança em riste, penedio acima: sendo membrado, corre lesto.
Encurralada, a donzela implora a clemência de deus, este que nunca diz não a um aflito, ordena que se abra uma fraga, recolhe a pastorinha, encerra-a dentro do calhau gigante, numa manifestação do poder divino, que tudo pode.

No passeio até ao alto não se viu a pastora nem o rei aziago, que se teriam cumprimentado como se nada fosse.

Mas foi um passeio inqualificável - pepitas de felicidade -daquelas pequenas e irrelevantes coisas que pagam as arrelias que carregam os dias em geral.

Findou-se o dia com um salto a Murça. O pretexto era ver a sua escultura celta que representa um javali, um urso, uma porca, o que seja, que é bem de ver. Mas esse era o pretexto, que o objectivo era satisfazer o pecado da gula com um “Toucinho do céu”, doçaria conventual típica da terra.

À noite houve alheira, vinho, pão de centeio e galhofa farta com acompanhamento em som de fundo, do crepitar do azinho consumindo-se numa lareira em que cabia um cabrito.

Com um novo dia tira-se à sorte outro ponto cardeal, calha noroeste. Ala que se vai para Chaves, onde haverá muito para contar, mas primeiro tem que se pôr a conversa actualizada com os romanos, os suevos e os mouros, vizinhos que ergueram a cidade, num Trás-os-montes mais suave, com aragens da Galiza que lhe bate à porta.







A DOENÇA




Conheço-o mas não sei o nome. São os nomes que me falham, os rostos não. Os nomes têm letras e são essas que me entontecem. São muitas, não as junto bem. Quando me abordam, os rostos, não sei o que dizer. A cabeça para, fico a observar, a ver no que vai dar. Abordam-me com simpatia, eu queria ser educado, mas não sai nada.

Por vezes, desbloqueia-se um encadeado de letras, saem com uma velocidade inaudita, e digo-o, desanuvia-me. Mas o rosto que fiz o favor de lhe dar um nome, não gosta. 

Contrapõe com perguntas inconvenientes. “Quem é ele?”, “Como se chama?”, “Graus de parentesco?” Nesses momentos fico cansado, enervo-me, perco o controlo das letras, e para não ser inconveniente, olho, só olho, de olhos bem abertos, sem nada para dizer.

Ainda ontem, deve ter sido ontem, estava a tratar de uns assuntos importantes com a minha mãe, na cozinha, coisas da morte dela e do funeral que não gostou porque teve pouca gente, estavam também uns amigos do Gás que entraram pelas escadas dos canos por baixo daquela coisa que deita água para lavar pratos, e entra uma cara que está sempre a aparecer, que eu conheço, mas não sei como se chama. Não me deixou falar mais. Pôs-me uma coisa na boca e mandou-me para a cama.

Ficámos ali os dois, eu deitado e ele sentado ao meu lado, sem dizermos nada, ele com um ar carregado, eu a olhar para o tecto, a gostar de olhar para o tecto.

Como conheço aquela cara, acabei por ficar meio alterado com a sua tristeza.

Não lhe disse nada porque não me apeteceu estar para ali a deitar letras, fiquei de olhos arregalados.

Puseram-me uma coisa na boca, sabe bem, sou feliz.

DARWIN E A EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES





Quando uma sociedade não reage - não os cidadãos em geral, que esses só se queixam, ou dizem mal, ou tentam arranjar estratagemas criativos de imitação dos grandes corruptos, os verdadeiros modelos do mundo moderno –, nas suas estruturas inflexíveis, simplificando e deitando um simples olhar humano para os outros, em vez de seguir os guiões dos protocolos, das convenções, das ordens de serviço, da linha burocrática do requerimento, dos carimbos, dos tempos intermináveis que a burocracia inventou para fazer esmorecer as pessoas;quando chegamos a esse ponto em que a miséria, a fome, os maus-tratos, a morte, são laçarotes descoloridos que enfeitam as notícias das televisões,sempre as mesmas histórias, todos os dias iguais, só com nomes de actores diferentes; quando chegamos aqui, assim, não parece que tenha havido uma evolução na espécie.
Claro que existem estradas magníficas que intersectam toda a geografia; um número incontável de carros confortáveis e rápidos que levam as pessoas para longe; uma quantidade de supermercados a cada esquina das ruas, onde se vendem todos os produtos do mundo; o acesso a licenciaturas curtas e simples, em todas as áreas do saber e da imaginação; as facilidades de pagamento em prestações intermináveis de uma semana de férias num resort longínquo nas caraíbas, com as mesmas condições do INATEL dos anos sessenta, mas longínquo, e por isso exótico.
Tudo isto são evoluções, mas tecnológicas.
Evolução da consciência, da alma - se se for mais espiritual -, do amor – se se for mais sentimental -,vê-se pouco, porque estes crescimentos são individuais, não são fenómenos das massas, não se interiorizam com currículos escolares nivelados por baixo, não se aprendem a olhar para a televisão, e poder, se se quiser, passar todo um dia de manhã à noite, sem deixar de ver uma novela ou um “reality show”.
Ainda assim o universo evolui, do ontem, para o hoje, para o amanhã, e independentemente da nossa vontade e moral, ele continua a seguir o seu caminho, e nós, transportados à sua boleia, acabamos por ver e viver o que tiver que ser.
Não vale portanto carregar angústias, nem desilusões. O Mal e o Bem são relativos, e queira-se ou não, parece que a teoria da selecção natural do Darwin dá mais razão à adaptação para a perpetuação dos espertalhões, do que aos que se preocupam com estes assuntos, envergonhando-se por si e pelos outros, das figuras tristes dos primeiros, no seu esgravatar da ganância e do atropelo.