quarta-feira, 20 de abril de 2016

ABRIL CANSA-ME






É sempre assim! No princípio é só magnetismo, delícias de mil e uma noites, a fruição de todos os instantes, mas à medida que viram as folhas dos seus dias contados, vão ficando enfadonhos, não chegam ao fim, nem os podemos ver, os dias do mês.

Este ano não vou comemorar Abril, viro-me para outros.

Os outros andam meio aborrecidos comigo – não os mimo convenientemente, nem um piropo – e aceito as suas razões.
Abril caiu-me sempre bem, mas o clima tem mudado muito, e nos últimos anos tem sido um mês de chuvas inesperadas, bruscas mudanças de temperatura, uma grande instabilidade que se reflecte nas pessoas.

Optimistas que sejamos, um clima débil de carácter, erode o alento, baixa a guarda, não se sabe o que vestir. Nesse respeito deixámos de contar com Abril, que se tornou volúvel, dúbio, pouco fiável.

Há outros meses que não me lembro habitualmente deles e merecem um olhar novo. Por exemplo Maio. Antes via-o como a passagem feita a correr para o Verão, logo ali, no final deste. Mas Maio tem potencial de vir a ser um grande mês. Porquê?

Porque é quando volto a ter vontade de sorrir depois das tristezas que Abril semeia, quando recupero da ressaca de um mês que era de foguetório e se tornou num mês de pesadelo, desengano, fracasso. Para mim e até prova contrária, finou-se.

Como as coisas mudam! Como os meses nos afectam!

Pelas minhas razões já ditas, sublinho e anseio que este ano acabe depressa e no próximo fim-de-semana é certo e decidido que não me vou passear no Largo, feito ingénuo - esgotado de me passear pelo Largo - e nada muda, só nos cansamos.

Ponho-me mas é ao largo, vou fazer as primeiras experimentações científicas anuais da assadura da sardinha, recatando-me, só com os meus, preparando-nos para Junho, esse sim o novo rei dos meses: Camões foi um grande poeta - o seu dia e da raça - o Santo António é dos nossos, o São João e o São Pedro se não forem também o são.

Não há mês tão comemorativo como Junho, todos os dias festa, alegria, convívio, orgulho mesmo.

Dos outros meses não tenho queixas, uns aturam-se mais que outros.
Novembro também não é mau, mas tem má reputação, começando pelo primeiro dia, mesmo assim vou estar atento a ele. Já Outubro, depois de reabilitado, com cara lavada, e um feriado muito discutível mas que sabe bem feriar, é mês como deve ser.

Dezembro é fiável, Janeiro esperançoso, em Fevereiro temos o carnaval com chuva, o que pega bem. Março é metido consigo próprio mas não tem má índole. Restam Julho e Agosto, para a folia, e Setembro que não tem boa fama por ser mês de muita despesa, mas é um mês honesto.

De todos eles, só mesmo Abril é que anda ultimamente a empolgar-me os nervos, presumido de importante, narcísico, para dar em nada ao fim deste tempo todo.

Por mim dou-lhe castigo, pode ser que sem atenções caia em si, e volte um mês a ser um mês como deve ser, o rei dos meses do ano.




terça-feira, 5 de abril de 2016

FOMOS OS PERCURSORES DO TURISMO EM LISBOA





Nem um “ai” num boletim municipal, uma referência do Turismo de Lisboa, nada!

Fomos a primeira start-up, ainda o nome não existia, nem se sabia o que era (nem hoje).

Os comerciantes de Lisboa tinham uma ideia distante do idioma espanhol, eram os caramelos e pouco mais; meia-dúzia tinha umas luzes esbatidas do significado de quatro ou cinco palavras em francês, porque tinham familiares nos bidonville à volta de Paris; o Inglês falavam os bárbaros. Não se tinha visto a cara a um chinês, a um russo, a um angolano com dinheiro.


A Avenida da Liberdade tinha consultórios médicos e cinemas. Em Alfama o fado escorria pelas paredes dos botequins de copo “três” e atiravam-se pelas janelas os restos das couves e das sardinhas do almoço. As conservas andavam pelas ruas da amargura e nem nós as comprávamos – por muito bonitas que fossem as embalagens.

Só havia dois tipos de alojamento temporário para pessoas em trânsito: pensões com camas de casal partilhadas com percevejos e hotéis com instruções em português no minibar.



O Cais do Sodré tinha a maior concentração de putas e marinheiros sifilíticos por metro quadrado da península ibérica, era o local com os nomes mais cosmopolitas da cidade: Tóquio, Jamaica, Copenhaga, Shandri-la….




O Terreiro do Paço era o parque de estacionamento mais moderno da edilidade; quem se abeirasse do cais das colunas para uma photomaton, ficava com o cheiro do esgoto a céu aberto impregnado nos próximos quinze dias, ou pelo menos até ao fim da sua estadia. Ninguém fazia filas para visitar a Torre de Belém, que é bonita por fora e monótona por dentro.

A PSP vestia cinzento e tinham uns abdominais de fazer inveja.




Os carteiristas do eléctrico 28 eram os mesmos de hoje – juntando os romani - mas faziam muito menos dinheiro, porque os utentes eram os desgraçados dos operários e pequeno-burgueses que viviam na Graça, e eram uns tesos.

Os turistas, escassos, chegavam à estação de Santa Apolónia e até chegarem à Baixa, passavam pela alfândega de Lisboa e todos os escritórios de Despachantes Oficiais, a maior concentração de indivíduos com níveis paranormais de testosterona e inteligência a condizer.

Não havia tuk-tuk, só Zundap e Fammel, que faziam a mesma poluição sonora mas transportavam tipos com patilhas, cigarro ao canto da boca, botas de carneira, em vez de loiras espampanantes e ruivos entediados.

Fomos nós, uma mão cheia deles, os primeiros “acolhedores” dos turistas – mais elas, e não há uma consideração, uma referência abonatória, do verdadeiro trabalho de divulgação que aporta agora, todos os dias, a toda a hora, tantos euros e dólares e outras moedas manchadas de gordura, para riqueza da nossa cidade.

Recebemos em nossas casas, conheceram os nossos pais e os amigos mais tímidos, mostrámos todos os monumentos com explicações em linguagem gestual elaborada, choraram com o fado, vibraram com o calor do nosso acolhimento latino, fomo-nos despedir à Estação com uma garrafa de vinho do Porto, fomos os "Guis", a time-out em viva voz.

Inventámos o alojamento alternativo, qual hostel, qual city apartment! Demos voltas à cabeça para os distrair da inexistência das lojas de gifts very typical paquistanesas, das cadeias de fast-junky food, do pret-a-porter kitsch.

Era o que havia e eles gostavam, encantavam-se, e os que verdadeiramente se apaixonaram da beleza da cidade e da naturalidade das suas gentes, voltaram, repetiram, ficaram amigos.

Fizemos um grande trabalho, e agora temos que pedir a medo uma bica e um pastel de nata de qualidade duvidosa, em inglês escorreito, sob pena de correrem connosco da mesa de esplanada, que é só para consumo de turista.


E nem uma p… de uma medalhita de latão!

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O ABRAÇO




O universo desabou numa sala anónima de um aeroporto e eu protejo com um abraço a minha família: a minha mulher, o meu filho. Protejo-os para a vida. Não percebo o que está a acontecer, uso-me do instinto, a minha lucidez. 

Não dou ao meu filho tempo para chorar, e é disso mesmo que o protejo, para que não chore. Se o fizer, ficará para sempre impedido de ser ingénuo, perde a sua naturalidade, tão pequeno ainda, impedido de futuro numa sala anónima salpicada de corpos inertes à sua volta, a pior vilania que a vida lhe pode oferecer.

Vou trazê-lo para a rua, disfarçando como se nada fosse, de mão dada os três, e quando chegarmos a um ar que se respire, vamos comer um doce, vou dar-lhe um brinquedo que goste sem olhar a custos, beijarei a minha linda esposa, e continuaremos a viver, com novos medos, mas atentos a que ele não chore nunca.

Chorar é o que eles querem ver de nós, que sejamos tristes.

Mas com o meu filho, não. Enquanto nos beijarmos e nos abraçarmos com esta energia avassaladora, que é o amor, eles serão sempre uns pobres de uns enjeitados.
Pudéssemos, eu, a minha amantíssima esposa e o meu radioso filho, abraçá-los com este abraço que sabemos dar, eles não pintariam de escuro os dias de sol.

sábado, 2 de abril de 2016

ANOTAÇÕES SOBRE O AMOR I






Perdemos um amor, algures, nos fios que tecem a vida. Um grande amor ou a sua possibilidade. Num desencontro de minutos, à porta de um bar, numa paragem do eléctrico, na nossa cabeça, num equívoco da nossa cabeça, numa ilusão enganosa, numa desilusão anunciada.

Há amores que ficam amarrados a um cais, fazem-se estátua.

Encontramos, perdemos, voltamos a encontrar, perdemos uma vez mais. O mundo rodopia sem misericórdias nem sentimentalismos, não tem alma mas é a casa da nossa. Não encontramos quem julgamos que queríamos, não sabemos quem queremos encontrar, perdemos quem não sabíamos que queríamos e afinal estava ali, à distância de uma mão aberta, fácil de acariciar, que se esfumou num nada.

Mal decididos, desassossegados.


“Gira que gira/E torna a girar/A vida que querias/Não te posso dar.”

UMA IDEIA DE PURGATÓRIO





Não sei, mas devo viver no purgatório, pensei que tinha outro nome. Se não é o purgatório é o mais parecido na terra duma morada no além.

Como cheguei a esta conclusão bizarra?

Os vizinhos de cima passam o dia a ouvir missa (é bem possível que seja um sistema que funciona em “loop”), ouvem-na eles e todos os outros vizinhos mesmo sem nos terem perguntado se queremos. Fica-se a saber que as colunas de som são de qualidade.

Porque repetem tantas vezes esta ladaínha se a sabem de cor, há anos a praticarem, podendo perfeitamente dizê-la silenciosamente para dentro sem obrigarem os vizinhos a fazerem o papel de figurantes obrigados? Até porque se sabe que Deus aprecia mais a intimidade de um suspiro interior, uma introspecção comedida que os berreiros das feiras.

Deus é o primeiro a respeitar a intimidade de cada um.
Portanto no alto de nós, no andar superior, na colocação devida, temos o Céu.

Olhando para baixo:

A vizinha do nível inferior ao nosso, passa o dia a guinchar de prazeres que se supõem carnais, tão intensos (os urros) que num perímetro alargado nas redondezas, secam toda a vontade de imitação. Ouvi-la, só isso, mirra e afasta todos os apetites picantes da cabeça.

É pois o Inferno, posicionado devidamente no baixio que lhe compete, rasteiro e enxofrado.

Pensando nós que estávamos a ter uma vida normal, sem grandes sobressaltos existenciais, nem necessidades de suplementos espirituais (somos naturalmente felizes assim, sem termos que pensar muito sobre questões que provocam enxaquecas), e somos apanhados nesta contenda eterna dos deuses e dos demónios, que não se resolvem, e dão um péssimo exemplo como seres desavindos, que não discutem civilizadamente as suas diferenças.

A minha família e eu estamos ensanduichados, entre a terra e o céu, num rés-do-chão sem pontos de fuga, incapazes de atingir a purificação pela santificação da oração, porque não temos jeito para orar, diminuídos do gozo pleno da luxúria, porque já não temos idade para isso. Estamos entremeados no pior dos mundos.

Nem anjos nem demónios, simples mortais que despertam todos os dias às sete horas da manhã com o acumular nas pálpebras das noites mal dormidas.

Os anjos fazem todos os dias serão, os demónios passam a noite a atiçar os fogos. Nós, prisioneiros da nossa normalidade, castigados por uns e outros, num banho-maria, à espera de ascender aos céus, ou baixar definitivamente aos infernos.

O purgatório é a pior das moradas. Há dias em que confundimos o som de um cântico gregoriano com os guinchos de belzebu a ser sodomizado, ou a sodomizar. E é viver assim que não é saudável, na dúvida entre o Bem e o Mal, sem saber qual é o Bem e qual é o Mal. Se é para cima, se é para baixo.

Nesta inquietação de viver no purgatório, fui investigar.

Dirigi-me ao céu, bati à porta, uma porta aparentemente como todas as outras, e atendeu-me um senhor idoso, de roupão com nuvenzinhas azuis estampadas. Não tinha barba, não deve ser Deus.

O senhor teve muita dificuldade em compreender as minhas palavras. Perguntei-lhe se era ali o paraíso, porque é que passam o tempo todo com cânticos e orações, enfim, coloquei-lhe todas as questões metafísicas que pude e me lembrei no momento.

Ele acabou por me dizer que estava reformado da Carris, há dez anos, reforma curta, a mulher nem reforma tinha, e que passavam o dia em casa, a ouvir missa pela radio, o seu alimento espiritual e a preparação do caminho para a última morada que se aproxima. Para além disso eram surdos, entre outras maleitas próprias da idade.
Não era ali o céu!

Despedi-me acabrunhado e como estava nas escadas, aproveitei para descer aos infernos.

Do lado de cá da porta o ruído que vinha do lado de lá era significativo. Gritaria, batucadas, não há dúvida que seria a morada do demo.

Insisti bastante até ser atendido. Abriu-me a porta uma morena espampanante num roupão fino, semi-aberto, de uma grande sensualidade. Seria certamente uma odalisca ao serviço do cornudo.
Perguntei se estava no inferno, ela olhou-me atónita primeiro, e de seguida ofereceu-me uma risada tão genuína que desarmou a seriedade que tinha posto na pergunta, ri-me também, e desculpei-me pelo equívoco deixando-a muito provavelmente a pensar que deveria ser doido, para lhe bater à porta com uma pergunta destas.

Voltei para casa com duas certezas: não se vive nem o céu nem o inferno na terra, e todos os vizinhos do meu prédio vestem roupão, coisa que não faço, mas considero como uma possibilidade futura de conforto

MIRADESES NÃO É FAMOSA










Miradeses tem um rio formoso e uma praia fluvial, e tem um dólmen com uma caixa de correio verde dentro, e tem um cristo crucificado dentro de um casinhoto branco com portas de ferro forjado igualmente verdes, e amendoeiras com as suas flores a florirem antes de tempo, e produz provavelmente um dos melhores tintos da região.
Do alto de Miradeses vê-se a serra de Santa Comba. Esta serra guarda o segredo de uma lenda, da pastorinha, e de como Deus quando está inspirado, opera grandes milagres.

Miradeses é uma aldeia resguardada na “terra quente”, em Trás-os-Montes, assim como a serra de Santa Comba, 1041 metros – que não é uma altura por-aí-além para ser notícia -, a pastora está encerrada num calhau granítico que eles chamam fraga, é agora santa, e Deus, é Deus e está em todo o lado.

Afinal Miradeses tem muita coisa, outras que não se contam agora, só indo e só vendo.

Mas miradeses não é Paris, não é Berlim, não se localiza no Paquistão, ou no Brasil, muito menos na Coreia do Norte, Macau, Barcelona ou Verona, todos locais de sonho (dúvidas sobre a Coreia!), que disputam notícias nas revistas que divulgam destinos de passeio, estimulando a curiosidade de quem ainda não os visitou (não será o caso da Coreia que parece não ser muito pretendida).
Miradeses é um local desconhecido, inexistente, ínfimo, tímido. Que apetite desperta ao aparecer o seu nome numa revista de viagens?
O que pode Miradeses oferecer a um turista contemporâneo?

Tem um Mc Donalds com um Mc Drive? Lojas de Khebab? Lojas de “recuerdos” fabricados na china? Quarteirões inteiros de hostel e apartamentos low cost? “Tuk-Tuk” a debitarem ruídos estridentes? Carteiristas competentes? Terroristas e bombas imprevisíveis?

Miradeses não tem nada disso, e por isso não aparece nas revistas de ócio e lazer, porque Miradeses é somente uma pequena e desinteressante aldeia, onde se ouve o som do silêncio, as poucas pessoas cumprimentam os transeuntes honestamente, a água é fresca, e as doidas das amendoeiras, como se disse atrás, antecipam a Primavera desatando a florir antes do tempo anunciado.

Quem está interessado num montículo que nem sequer tem altura para ser serra, com a história patética de uma pastora-santificada? Para ver os milagres de Deus vai-se a Fátima pôr uma velinha, ou a Lourdes assistir ao desfile das cadeirinhas de rodas, isso é que é imponente.

Quase tudo em Miradeses e em Santa Comba é aborrecido e enfadonho, não estimula o frenesim de um turista.

Ditas as coisas como ela são, Miradeses não pode mesmo aparecer nas revistas, mas não faz mal, quem procura ambientes naturais pouco poluídos, acabará por a encontrar.

Os outros, talvez a grande maioria, nem interessa que saibam da sua existência, vão a Bruxelas, que é uma cidade linda, e visitem o berço da Europa.