domingo, 5 de junho de 2016

MORRE-SE ONDE TEM DE SE MORRER







Assistiu-se a uma morte, hoje, de manhã, quando ainda era demasiado cedo para acontecimentos deste impacto.

Faziam os dois o que pensavam que era bom, uma caminhada com exercícios aleatórios nos aparelhos de exercícios normalizados, para todos - jovens e velhos - que salpicam os jardins e parques das localidades que ainda têm gente (já foram observados aparelhos destes em locais completamente desérticos).

Ele tinha insuficiência cardíaca e sabia, mas não sabia que não podia puxar os limites quando já não se tem limites. No centro de saúde e na televisão diziam que o exercício dava vida e ele acreditou. Faltou-lhe bom senso como a quem lhe disse que fazer exercício era bom, é normal faltar o bom senso às pessoas.

Caiu fulminado no chão do parque infantil e a mulher esteve meia hora a olhar para ele, a falar com ele, em negação por ele não lhe responder, até achar que era tempo para chamar a ambulância. Achou erradamente e já completamente fora do tempo.

Quem se ginasticava aquela hora nesses aparelhos com instruções muito genéricas para consumidores que leem mas não entendem - quem as escreveu acha que sim – quase todos velhos, não reagiu, disfarçou, não quis ver nem tentar ajudar, ali ao lado, o homem estendido com baba no chão – reformula-se: estendido no chão e babando – já com as cores de morto.

Continuaram a ginasticar-se (mal) para a vida, concentrados e sem atenções para quem foi para ali morrer.

Quando se chamou a ambulância já era tarde, é provável que fosse tarde mesmo se se tivesse chamado a ambulância nos cinco minutos a seguir ao incidente, nunca se saberá, mas não se tentou.

A ambulância, o médico, demoraram uma eternidade, são poucos, fazem mais do que podem. Fica no entanto a sensação para os acompanhantes das vítimas que eles demoram uma eternidade, neste caso foram trinta minutos, o que para quem não respira é tempo mais que suficiente para morrer definitivamente sem apelo nem agravo.

Diga-se por ser verdade que também havia uma pequeníssima concentração de três espectadores desportistas idosos, como se estivessem a fazer uma reportagem para eles mesmos, dando opiniões entredentes, “está vivo ou meio morto”.

Se a cabeça pendia depois de uma manobra de reanimação, “afinal está vivo”. Se na manobra seguinte os olhos continuavam encerrados como sempre estiveram desde que feneceu, “afinal está morto”.

A opinião geral era de que “Coitado, não está nada bem, já morreu, mas o coração está muito fraco, estão a ver se o recuperam”.

Os outros utentes do parque continuam a fazer os seus exercícios de ginástica ao lado do ido, não têm tempo a perder para continuarem vivos. Enquanto trocam de aparelho, agora pernas, depois peitaça, vão-se perguntando sobre o estado mortal do defunto. Umas que não podem ir ver, sofrem do coração, outras benzendo-se e rezando antes de iniciarem uma nova série no aparelho do remo.

O desfecho final foi o esperado, dada a situação, muito desagradável é certo, ainda mais num local onde se celebra a vitalidade de todos os órgãos.

Uma coisa é certa o homem morreu, a mulher não aceita o acontecimento, e os vivos continuam a fazer os exercícios todos errados. Não interessa, desde que vivos faz bem.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

O MEU SANTO ANTÓNIO É MELHOR DO QUE O TEU










Ó meu rico Santo António,
tuga do meu coração,
faz-me lá um milagrinho,
um amor de supetão.


Para os Lisboetas que levam o amor pela sua cidade como coisa séria, aproximam-se os melhores dias do ano. As festas em honra do seu santo padroeiro, santo repartido, mas mais nosso do que dos outros, os italianos.

É o momento do ano em que descontraímos corpo e alma, às voltas com o caracol, a sardinha importada, o tinto a tingir os beiços.

É a época em que suportamos todas as cores e feitios, e até um arbusto desinteressante (é uma erva de aroma e dá pelo caricato nome de Ocimum minimum) que para dar cheiro é preciso deitar-lhe a mão, ganha uma outra vida e se torna um protagonista efémero, com um cravo de papel espetado e uma quadra popular dedicada ao festejO.

As tristezas e as vinganças da vida pagam-se depois, quando baixa a adrenalina, que agora anuncia-se a folia para o mês inteiro. As pequenas picardias ficam para a noite do desfile das marchas na avenida e quando se anuncia o vencedor: nunca o que se queria que fosse, o nosso, sempre os do lado – cambada de pindéricos! – amigos dos jurados, está tudo feito e combinado com antecedência.

Nas noites do santo António os bairros vivem-se fora de casa, na rua, nos becos e nas vielas, nos pátios onde se montam os grelhadores, as mesas desconchavadas e instáveis, se arma a banca das vendas, e se ouve a música popular, ensurdecedora pelo volume e pela qualidade, que gosto não se discute. Nessas noites até o Cid marcha, quer-se dizer: dança-se, neste caso sem banana e com o manjerico na mão.

Os turistas que andam por cá em bandos, tambem a marchar mas atrás de um pau com uma bandeirinha, transportado por uma senhora de meia idade com um ar enfadado e que fala sofrivelmente línguas, vão levar um banho de civilização, a nossa. Alguns irão mais leves para casa, desapossados das suas carteiras recheadas, outros vão fascinados de nós, dos costumes, dos petiscos, da bonomia de alguma gente, que nem toda.

Ao fim da noite, nos bailaricos improvisados e noutros de alguma organização, eles já cantam as modinhas locais e fartam-se de sorrir e dizer obrigado, partilhando os bens e as mulheres que se deixam, com os locais. Fartam-se de pagar cervejas e copos de sangria. Ganharam uma corte de novos amigos, desdentados e oportunistas (não são só os transmontanos), e amanhã vão ter uma ressaca tremenda enquanto visitam o claustro do mosteiro dos Jerónimos ou vão de homenagem ao Eusébio no Panteão Nacional.

Fazendo calor, muitos pares de pés descalços e encortiçados de tanto bailarico, procurarão refrigério na praia do cais das colunas, nas suas águas cristalinas e tão transparentes que se veem as taínhas a debicarem nas latas de conservas abertas e vazias que jazem no leito imaculado do rio.

Pés que se banham a horas tardias, tão tardias que o sol já desponta.

Não sabem onde estão – os pés e as cabeças - naquele estado não encontram a rua do seu maravilhoso hostel, com vista para o estendal da vizinha da frente, onde secam despudoradamente cuecas lilases e roxas (no chinês a três euros) lavadas depois do uso semanal, todas em fila, a contribuírem com o seu colorido para o festejo.

Quando baixarem os níveis de deslumbramento por estas festas tão lindas, os turistas acabarão por encontrar o seu rumo, a morada certa, e nessa altura, quando finalmente se forem deitar, já as cuecas foram apanhadas, porque estão secas.

A expectativa desta comemoração, à distância de uma semana, origina uma grande excitação. Tamanha é a agenda dos acontecimentos, que só acontecem uma vez por ano, e a vontade de os reviver: as noivas e noivos que se casam na Sé Catedral sob o beneplácito do santo e o sinal da cruz do patriarca, acabadinho de chegar de outra marcha, ainda com a camisola amarela a destoar do solidéu; o concurso dos tronos no Rossio – voltou-se a esta tradição, espera-se vê-los alguns e bons; o desfile sumptuoso e rico dos bairros da cidade pela avenida abaixo, mais os indispensáveis apresentadores televisivos histriónicos, sempre os mesmos, as madrinhas e padrinhos, figuras públicas algumas, que abrilhantam a competição ou a tornam um local mal frequentado; finalmente a enorme multidão que anda na rua, insuflada de contentamento, suando felicidade pura, deitando os maus olhados para trás das costas, que mesmo difícil e cara a vida, ainda se dá tudo por uma sardinha no pão, e vale a pena o mês de Junho para nos lembrarmos que temos santo, e podemos mandar com propriedade e diplomacia os italianos à fava, que este santo não o merecem, depravados do esparguete!

O santo António é lindo e para muitos de nós é melhor feriado que o 10 de Junho, o 25 de Abril ou o 1º de Dezembro. É como se diz, um valor seguro, que nunca falha e está sempre presente (no seu espírito celestial).


Viva o rei dos feriados, com os devidos cumprimentos aos reis dos feriados dos outros parceiros, que lá no céu eles são todos amigos, o António, o João e o Pedro, não mencionando outros que seria fastidioso, mas de que não temos menos consideração.