quinta-feira, 29 de setembro de 2016

NARCISO






No mito moderno Narciso não definha a olhar insanamente apaixonado para a imagem que se reflecte no espelho. Ele infla, são os outros que mirram, por não serem Narciso, ou porque podendo sê-lo seguram esse impulso em favor da sua decência pessoal. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

DOS PANAMA PAPER





CARTA A PEDRO SANTOS GUERREIRO I - Semanário EXPRESSO

Assunto: Panama Papers – 17 Agosto 2016


Caro Pedro Santos Guerreiro,

Desculpe-me a devassa de lhe entrar assim, de rompante, sem um doutor, um professor doutor, com uma ligeireza a parecer deselegância no tracto. Os títulos atrapalham-me (eu sei, é um problema meu), prefiro a descomplicação dos nomes, facilita a comunicação, reduz distâncias, anula hierarquias e altares.
Venho à fala consigo para pedir a gentileza de me fazer o ponto da situação relativamente àqueles papelotes que tanto anunciou em tempos recentes. Uns papeluchos escaldantes, prometendo confissões escandalosas (o que me pelo por um bom escândalo!)
Julguei perceber que era uma enorme papelaria, a ocupar muito espaço, resmas e resmas.
Os seus persistentes anúncios, puseram-me curioso, e aguardei a roer as unhas até que fosse feita a revelação prometida (e quem promete, se é cumpridor, da palavra, paga).
O tempo passou, entrámos na silly season (cá por mim que ninguém nos ouve, acho que estamos nela vai para séculos), e nada. Já ganhámos um europeu de matraquilhos, os fogachos andam a fazer das suas, e quanto à papeleta, népias! (que é uma palavrota meio desconxavada, mas gosto dela).
Pergunto-me: será que teve o descuido de deixar a janela do seu escritório aberta, e numa diatribe do vento, o papelame se pôs a fazer de pássaro, a voar para a liberdade, para onde não pode ser apanhado?
Compreendo a sua frustração - eu próprio também estou nesse estado -, tanta novidade a dar, e ela a escapar-se pelos interstícios de uma janela descuidada.
Se ao menos tivesse escrito alguns nomes num caderno, que nos pudesse revelar, só uns, meia dúzia!?
Caro Pedro, agora que somos conhecidos, não levará a mal que de vez em quando me chegue à palavra, a saber notícias suas, cumprimentando-o, e quem sabe um dia destes novos papiros venham pousar na sua mesa de trabalho, e em falando consigo, peço notícias sobre esses conteúdos, picantes certamente.
Venham daí esses ossinhos, e caso seja apropriado, votos de umas boas férias.


NOVA CARTA A PEDRO SANTOS GUERREIRO II - Semanário EXPRESSO

Assunto : Panama Papers – 21 Agosto 2016



Estimado Pedro,
Agora que nos escrevemos – só eu ainda para si - tratemo-nos sem formalismos.
Cá estou eu de novo à fala – neste caso muda – a saber notícias dos papéis.
Como não disse nada, não respondeu a minha missiva, fiquei preocupado. Disse até para a minha Maria: “Ou foi de férias, ou anda a apanhar papéis.”
Por mim não vale a pena ficar nervoso, eu espero, desde que me responda e me diga o que sabe sobre o assunto em apreço.
O ter dado a cara, a forma assertiva como o vez, revela coragem, e não me passa pela ideia que tenha esmorecido. Não o vejo a ceder a pressões, tenho-o em conta e grande decência.
Só podem ser as férias!
O pézinho de molho, a aragem com salpicos de sal, a sardinha, a “jola” fresquinha, não há como as férias, esquecemos tudo, até as coisas que nos arreliam.
Fico à espera de notícias suas e as outras. Se me quiser contar as aventuras dos miúdos, aprecio, que é sinal da nossa recente amizade. Agora, o que eu queria mesmo, mesmo saber era notícias do Panama.
Se não for antes até para a semana.
Respeitosamente,



AINDA MAIS UMA CARTA A PEDRO SANTOS GUERREIRO III - Semanário EXPRESSO

Assunto: Panama Papers – 26 Agosto 2016

Eu sabia que não tinha razão, pus-me com nervoseira, e estas coisas de investigação jornalística, levam o seu devido tempo. Não é de pé para a mão que se revelam notícias deste calibre. Têm que ser devidamente sopesadas, passadas pelos crivos da verosimilhança, da verdade, da concordância, do alinhamento. Tantas variáveis a exigirem rigor, precisão, clareza, oportunidade.
Eu a insistir consigo, já a dizer que tinha deixado distraidamente a janela do escritório aberta, e que os papéis se tinham posto ao caminho de voarem dali para fora, quase a culpá-lo disso. Do silêncio, de não dizer mais nada durante um tempo que me parecia uma eternidade, e o meu amigo, educadamente, a aguentar estoicamente os meus perdigotos.
Afinal o que esteve a fazer este tempo todo foi a escarafunchar no papelório, a tirar mais sumo, matéria clara de condenação, a ligar as coisas aos nomes, ou ao contrário o que dá no mesmo.
E hoje, acordando eu com a bílis a dar para o torto, já a afinar as facas a quem zurzir antes de ir de fim-de-semana para a minha casa na Herdade da Comporta, eis que dou de caras, escarrapachado, logo no página primeira, com uma bela de uma notícia do Panama: “ A mina de diamantes com ligações offshore” do malandro do israelita Benjamin Steinmetz.
Descomprimi, voltei a acreditar na humanidade. Tudo o que já passava em loop por esta minha enviesada cabeça é um desvario meu. Os Panama são para serem revelados ”sem apelo nem agravo, nem pedido de amigo”. Hoje foi este caso, amanhã serão casos portugueses, que os há (diz-se), e o meu estimado amigo que os sabe, só espera que a justiça dê vazão às resmas de papelotes dos processos do BPN, Sócrates e quejandos, para quando os vir mais folgados (aos juízes) dar-lhes esses nomes jeitosos que tem para que eles iniciem os longos, peregrinos, de desfecho imprevisível, processos.
Obrigado Pedro, agora sim: venham dai esses ossinhos!


     
A ÚLTIMA CARTA A PEDRO SANTOS GUERREIRO IV - Semanário EXPRESSO
Assunto: Panama Papers – 5 Setembro 2016

GOSTARIA DE VER PORTUGUESES ENTRE OS MELHORES NOS PANAMA PAPERS
   
Amigo Pedro,
Está bonzinho? Deveria dizer bronzeadinho? Espero que sim, a face com uma boa cor dá outro realce à alma, um glamour interior, uma certa luminescência.
Temos novidades dos papéis? Vi que publicaram pelo menos duas histórias: a do israelita e os seus brilhantes negócios dos diamantes, e a conta do GES (uma de tantas), tão complicada a história, que penso que lá para o terceiro parágrafo já me estava a perguntar qual era o tema da notícia.
Penso que é a este jogo de complicações que se dá o nome de “Engenharia financeira”, uma verdadeira arte.
Desculpe a insistência de querer à viva força (expressão mais linda!) saber de cidadãos nossos envolvidos nestas histórias. É um impulso patriótico que me impregna, uma vontade de ver reconhecido o nosso nome além-fronteiras, para que não se diga quando há coisas destas em grande estilo, que nós nunca aparecemos porque somos pequeninos e tímidos, incapazes de figurar na primeira linha.
Não senhor! Tímidos talvez, mas se a isso impulsionar o engenho e a vontade, temo-los tão bons ou melhores engenheiros que qualquer outro, da Papua Nova Guiné às ilhas Faroe.
Peço-lhe portanto amigo Pedro, que me vá mantendo informado, e mesmo que não me diga nada, eu respeito: há muita gente, boa e de pergaminhos imaculados, que não é dada a convívios com estranhos e só abraçaram a carreira jornalística, porque na altura não puderam ser produtores de mirtilos (não sabiam como aceder aos fundos).
Confio, que mais mês menos decénio, teremos notícia com substância, a colocar no devido lugar de destaque e pódio, os brilhantes portugueses envolvidos na primeira divisão mundial do campeonato da fina manigância.
Até lá, com muito apreço, e até – posso dizê-lo –, algum carinho que este nosso recente contacto avivou, despeço-me no anelo de ver uma palavra sua. Afinal já merecemos uma notícia de jeito sobre o assunto em epígrafe.

Apreciadamente, considere-me um fiel leitor,

domingo, 18 de setembro de 2016

IMPRESSÕES SOBRE OS MESES






Lá fora é Setembro, a luz já não é a mesma.

No Verão partículas de calor turvam o ar, saturam o ambiente. A luz em toda a sua plenitude encadeia. Anula o distanciamento, o perto e o longe. Os horizontes tremeluzem mais, longínquos como sempre, e ganha a persuasão do imediato que está à mão. É o tempo do agora.

A luz do Verão incide difusamente sobre os objectos, coloca-os à distância de um braço estendido que tateia os seus contornos esguios, por essas razões é uma época sensual dada à aproximação dos corpos.

Com a mudança do mês, na despedida da estação os cenários ganham lucidez, desaparecem as poeiras, puxam-se brilhos, redefine-se o aspecto das coisas, ou sendo mais simples, volta-se a habitar o quotidiano, anuncia-se a entrada no tempo sério.

Lá fora é Setembro e as crianças ainda jogam futebol na rua e gritam gastando energias impensáveis. Andam nisto há meses e não se cansam, felizmente. Quando começar a chuva e o vento, deixam de jogar na rua e não podem gritar em casa. Aborrecem-se.

No Verão a cristandade inteira pedia para se continuar em modo parado, sem se exigirem trabalhos a ninguém, tudo a sonhar que era assim a eternidade, uma suspensão do movimento inútil, a fruição do nada totalmente imóvel. Os outros, muitos, que não são cristãos, também estavam de acordo com esta ideia.

Em Setembro muda tudo, começando pela novidade que o Outono não tarda aí, e alguma frescura, dias mais curtos, olhares e meneios de corpos marcados por um romantismo específico talhados para esta época do ano.

Lá fora, as crianças continuam a gritar e a jogar, e assim será até perderem a inocência e deixarem de sair à rua por razões lúdicas, quando forem empossadas oficialmente a só terem razões laborais. Elas ainda não têm preferências pelos meses, porque estão na fase de serem eternas e não estão minimamente interessadas em saber que os meses têm nomes e são diferentes e efémeros, e alguns deles bastante chatos.

Lá chegará o dia em que elas realizam que não existe a imortalidade. Umas ficarão melancólicas, outras exacerbadas, com polo negativo ou positivo. Será nesse momento que se estabelece a doença da renúncia que acabará por as consumir.

A melancolia é uma tristeza que se aguenta, o exacerbamento é um exagero perigoso, dizem os psiquiatras que algumas vezes têm razão, quando não estão exacerbados de si nos outros.

O Verão será sempre caloroso e açafrão, o Outono é – diplomata entre o calor e o frio - como lhe toca e gosta, romântico. Usa-se de cores só autorizadas a vestir sem moderação na sua época, convencendo inclusive as árvores e os arbustos a abandonarem temporariamente a cor verde, arriscando acobreados, extravagâncias a que a natureza fecha os olhos nesta altura do ano, confundindo-se a si mesma pela alteração da ordem das coisas, neste caso as cores que forram os espaços dos jardins.

A menos que as estações do ano mudem em pirotecnias climáticas e contra a vontade dos deuses e dos ateus que são conservadores e não gostam de novidades que os tirem do sério, os meses do ano são fiéis aos seus princípios de serem como são, correspondendo honestamente ao que se espera deles: nada de particularmente especial a não ser as suas diferenças.

São os homens quem tem uma acentuada tendência para se extraviarem, enviesarem, entornarem, e coisas assim, e são eles a maioria das vezes, que quebram os tratados de fidelidade, indo pelas costas e atraiçoando as expectativas dos meses, que apesar de viverem há uma eternidade continuam e continuarão a ser absolutamente ingénuos.

As crianças chilreiam e esvoaçam. Não, são os pássaros. As crianças apalavram gritarias e dão saltos esvoaçantes. Está bem assim.

Lá fora faz um Setembro de se lhe pôr a vista em cima.


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

DA INUTILIDADE DOS MUROS





A parede de um muro tem dois lados, não há volta a dar. Não há muros de uma só face, todos têm o lado de dentro e o de fora.

Fazem falta as paredes? Sim, para proteger das intempéries.
As paredes são fortes para não serem derrubadas, são altas para que não se possam saltar. Fortes e altas é bom se protegerem das intempéries.

Não sendo nestas situações, não se vê nenhum interesse na construção de muros com outros propósitos.
São inúteis e como tal aberrações.

Paredes no meio de nada ou a cortar caminhos, impedindo o acesso a um dos lados, ou aos dois, são ideias redundantes. Podem permanecer de pé interminavelmente, à custa de um poder qualquer exterior, mas continuam redundantes e é bom que saibam que se sabe disso.

Podem-se rodear rios, montes, vales, ilhas, praticamente tudo, com muros de grandes paredes, pintadas ou não. Pode-se mesmo confinar o mundo a viver emparedado.
Mas o pensamento não, e mesmo que se conseguisse, bastaria escapar um para tornar os muros ridículos e dar-lhes cabo da reputação.

Assim que não vale a pena construí-los se o que se quer preservar for o bem-estar, a qualidade de vida, a harmonia e as doses homeopáticas de felicidade que fazem um homem feliz. Basta deixar os campos abertos, sem obstáculos, e a livre circulação  com o tempo, vai encarregar-se de pôr os passantes em sintonia.

Não construam mais muros, não vale a pena.