sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A DESCOBERTA DO AMOR







O amor com a pureza de um diamante, era o que ele queria, caçador de tesouros raros. Dedicou a vida nessa busca, não parou para ganhar fôlego. Uma vida por pouco tempo que seja, é muita vida para se consumir a perseguir o amor, uma ideia de amor. Que outras escolhas são mais interessantes?

Ele, um homem teimoso como todos, procurou, destapou mistérios que deram em pouco ou nada, explorou detalhadamente algumas possibilidades estimulantes, umas avançaram mais do que outras. Umas não avançaram nada. Todas as pistas tiveram um fim, e não foi triunfal. Souberam a pouco, muito poucas souberam a quase muito, nem uma pode ser considerada como a grande descoberta, ou talvez não seja bem assim.

Frustração? Sim ou não, uma questão de perspectiva.

Cansou-se nessa vida nómada, gastou energias suas e pagou créditos a agiotas, e com o tempo a passar, concluiu ser sensato diminuir o ímpeto brusco, sanguíneo, imponderado das buscas, tomou a decisão de encurtar distâncias, ajustar a uma medida plausível as quimeras iniciais.

Afinal, o amor não está ao estender da mão. Ou está?

Desistiu de procurar e fechou-se em casa a ver fotografias e a cumprir escrupulosamente as horas das refeições e de alguns comprimidos.

Podia continuar assim se estivesse conformado com isso, mas ele pensava demasiado, persistia num tipo de rebeldia difícil de catalogar, e os comprimidos para dormir para fazerem efeito, levam anos a fazerem o efeito de branquearem os grandes pensamentos. Diga-se agora que ele nunca cumpriu escrupulosamente a toma de alguns comprimidos recomendados.

Sendo um buscador de tesouros, irredutível mas sensato, acabou por se conciliar com a ideia de que jamais encontraria esse diamante, o rei de todos os quilates. Contentar-se-ia a partir dal, com a simplicidade.

Pragmático, para dar um rumo à sua inquietação, catalogou o amor diamantino como uma abstração, coisa não coisa, e como tal, impossível encontrar. Uma inexistência prática.
Desvalorizou-o, fingidor. E foi aí que irradiou a luz, preenchendo-o e a sua aura. Livre da obsessão do inatingível, começou a amar verdadeiramente. De  repente toda a Criação se transformou em objecto de amor. Ao dar-se dessa maneira, começou a receber um eco mil vezes amplificado.
Estava à frente dos seus olhos, sempre esteve, o diamante multifacetado do puro cristalino que procurou durante todo esse tempo e que lhe consumiu uma existência.

Viciou-se e recuperou os tempos de quase desistência.  Saciou-se desse prazer, afinal perfeitamente acessível a todos.

Completo, despediu-se de todos e dele no dia que escolheu partir para o sitio da memória. Apanhou o transporte que lhe bateu à porta da vida, e lá partiu para a morada que dizem ser o sítio onde não há necessidades nem anseios.


Deixou o amor com os outros, ou para os outros, livrou-se não sem alguma pena desse tesouro tardio que afinal era uma quase banalidade quotidiana, os homens é que não sabem disso, só mais para o final.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O ESTRANHO MUNDO DA REALIDADE FICCIONADA





Ando na rua, vou para casa e escrevo. É a minha inspiração. Se isso é ficção ou realidade, não sei. Custa-me distinguir. Ainda ontem, sim, foi ontem que choveu bastante e ventanou como se mais não houvesse. Estava macambúzio e fui para a Baixa, gastar dinheiro, não tenho, mas hoje em dia não é preciso ter para se gastar. Em todo o caso fui, comprar presentes de Natal, as lojas agora fecham mais tarde e a animação dos turistas, desde que somos o melhor destino do mundo inteirinho, dura até as tantas, tarde portanto. Fui e deixei-me ficar, embalado pelo movimento das ruas, os sons dos músicos nas esquinas, o cheiro da castanha assada a preços de nova iorque, e a simpatia da gente bonita, colorida, que por cá anda, curiosa, a querer saber das nossas coisas, da cultura e assim. Acabei por petiscar e como chovia e eu gosto da chuva e é rara, decidi ir a pé apanhar o comboio ao cais do Sodré, rua augusta abaixo, na direção da praça do comércio, rua dos bacalhoeiros, e é um instante, faz-se num nada, e tudo em minúscula, agora é assim. Desinteressados dos turistas e estes deles, dormiam, supõem-se que dormiam, e eram pessoas vivas de carne e osso e não enchumaços falsos, uns quantos sem-abrigo enfileirados nas arcadas da praça. Passei por eles como se nada fosse comigo, a disfarçar que não os via, a fazer o mesmo que os outros que no momento passaram também por eles. Apanhei o comboio grafitado e moderno, que agora usa-se, e deixei-me chegar a casa, calçar as pantufas e servi-me de um generoso grogue, para reflectir esmiuçadamente sobre o assunto. E veio ao de cima esta minha teoria que enunciei no início, de ter dúvidas do que seja a ficção e a realidade, e dai confundir as duas e misturar, e até achar que tenho tardiamente alguma espécie minor de dislexia, se isso existe e pode dar-se tardiamente, na idade adulta. Se é verdade que aqueles anarquistas eram desalojados temporariamente permanentes de casas que já tiveram, e sendo o melhor destino, este, ganhador de todos os prémios que há para ganhar, parece que está a competir com aquele jogador de caricas famoso que diz que é o melhor de sempre e para sempre, apesar de se aceitar com um sorriso porque foi um rapaz necessitado e quando se é necessitado e depois se tem sucesso, fica entranhado  como tique essa ideia de se ser o maior-melhor, não se está a ver que as pessoas com responsabilidade e sérias que tratam  das coisas das cidades não tenham pensado nisso e não tenham resolvido adequadamente essa questão, para não dar uma imagem errada, aos que nos visitam e vêm à espera do melhor destino, para visitar, sem terem que tropeçar num desgraçado que por alguma e qualquer razão sua, egoísta, esteja ali naqueles preparos a dar mau aspecto e enfeiar as cidades que se querem o melhor destino por muitos e bons anos. Com isto, fiquei na dúvida, e quando se autoriza a dúvida a entrar em nós, para a desalojar é a carga de trabalhos, não vai com vomitórios, clisteres, ervas, colheres de carvão, nada. É uma peçonha para a vida. As pessoas emagrecem porque a dúvida consome as energias e as gorduras. Digo que fiquei na dúvida de estar a pensar bem ou a alucinar, sendo que esta última se adequa melhor ao meu carácter e da primeira, porque tenho a doença precisamente da dúvida, não tenho a certeza de ser possuidor, quero dizer, pensar bem.  Para não vir a ter problemas a adormecer conclui por certo ter ficcionado ou lido algures e a seguir ficcionado, que há desabrigados a dormirem nas arcadas da praça do comércio, local muito bonito de passeio para os turistas e os escassos habitantes da cidade. Problema mesmo é esta inspiração que podia dar para puxar brilho a móveis em vez de dar para escrever, que dá nisto, um redondeio sem pés nem cabeça. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

CIDADE DE DEUS, TERRA DOS HOMENS






Nas terras dos homens, os deuses servem os pretextos das guerras.

Não por eles, inofensivos, pacifistas, usados a contragosto.
Os deuses não castigam nem permeiam. Criaram a criação e continuam nas suas vidas sem pecado.

Entre si dão-se bem, visitam-se, convivem, todos primos e chegados.

São os homens, que congeminando argumentos falsificados, usam os nomes dos deuses – os nomes que eles acham serem os nomes dos deuses – para se porem uns contra os outros e fazerem a guerra.

E não há inocentes, são os culpados e não têm desculpa por serem crédulos, ou patetas, ou simplesmente desprendidos das coisas politicas do mundo.

Os homens não se podem desresponsabilizar das coisas do mundo.

São eles que aceitam vindos das suas tribos, os inquinados e de vontades venenosas, que se aproveitam da dormência dos outros para envinagrarem o caos no mundo, local que já de si tem essa tendência de personalidade.

Aproveitam-se porque têm interesses e fazem do mal a banalização do mal.

A cidade de deus foi posta a arder, para gáudio dos pirómanos que assistem ao espectáculo nas varandas amplas e bem sentados.


Está mais difícil andar na rua só para gozo de uma boa aragem, ou uma réstia de sol caloroso de fim de dia.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

POESIA




A poesia, louca admirável, diz o que se adivinhava indizível, ninguém mais o pode fazer, sem autorização cedida pela consciência, escapa-se dela, desconsidera-a .

É mal-educada com propósito e gaba-se disso.

A poesia desarma as palavras bem-comportadas que se dizem nas prosas. Numa conversa a duas, leva a melhor, com os argumentos de ser inteiramente genuína e a outra rebuscada, uma monotonia chata, dormente, que nem sequer rima.

A poesia dá piruetas no ar e isso é giro; acrobacias que assumem toda a criatividade e isso é arte.

 Os miúdos acham-lhe piada, ela dispõe os adultos. Os cães sem entenderem o que nesses momentos se está a passar, com os donos sob os efeitos alucinogénios da poesia, ladram. Querem dizer que estão contentes, por os donos também gostarem da poesia, não eles, é o que lhes falta para serem humanos.

A poesia diz coisas sérias em frases curtas, um sentido prático da maior abstração. Mas, a favor da sinceridade, a maior parte das vezes diz banalidades. Enche livros e livros de banalidades, todos os dias.

E é isso que os seus leitores querem: distração.

A prosa não, tropeça nas palavras, amolece os leitores, bocejam. É boa para isso, pouco mais, ainda que se arme em séria e credível.

Há diferenças fundamentais entre os poetas e os prosadores.
Os poetas são seres encantadores com quem não se pode viver em casa, desarrumam a cabeça dos companheiros. São completamente imprevisíveis. De um nada qualquer, sai um poema, o que altera o equilíbrio no convívio intimo das pessoas, intromete-se onde não é chamado. Mas não se podendo viver com eles, ninguém se imagina na falta deles- é um convite a ser nómada para quem foi toda a vida sedentário.

Os prosadores – a cara oposta - ajeitam os lençóis e põem as almofadas do sofá na esquadria certa. Seres ideais, mas completamente sensaborões. São copos de leite até ao fim da vida, apesar de poderem vir a escrever boas e enfadonhas prosas.

Normalmente os poetas não chegam ao fim das suas vidas a pagarem os seguros de saúde: fazem tudo para chegar rapidamente ao fim da vida.

Os outros, fazem planos poupança e reformam-se com as artroses a darem problemas inimagináveis. Tal a magnitude do incómodo, que deixam de escrever, esquecem-se que o fizeram.

Dão-se por vezes a rir - rir apazigua as dores - se alguém lhes lê um pequeno poema.


Os poetas não guardam rancores.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CONTO DE NATAL A ACABAR BEM






A rena-chefe andava apoquentadíssima com o desleixo do Pai Natal. Incompetência. Não o podendo dizer com essa palavra, porque aos chefes não se lhes pode dizer isso - só pensar, e que seja de boca fechada. O chefe mesmo sendo-o em todo o seu esplendor, nunca o é, incompetente. Os gnomos também não andavam nada bem, mas esses sempre foram assim: folgazões, apreciados pela sua chalaça constante e a alegria que imanam, mas muito preguiçosos. Esparramados mesmo.

A praticamente três semanas do grande dia em que todos os humanos, incluindo os que têm deficiências de mobilidade, doenças crónicas, doenças terminais, acidentes gravíssimos de toda a espécie e feitio, os paupérrimos, indigentes, sem-abrigo, criminosos, os bonzinhos, remediados, muito bem remediados, os ricos, os alegres, os melancólicos, todos os crentes incluindo judeus, budistas, muçulmanos, cristãos, cristãos coptas, adventistas, testemunhas de Jeová, mórmones, amish, e restantes religiões  ( não se considere desprimor não nomear o nome mas a rena não os sabe todos) e todos os agnósticos e ateus, incluídos ou não nas categorias anteriores, anelam por essa quadra de grande paz e harmonia e amor, a extravasar das taças de espumante, e as filhoses e o bacalhau e o raio das comidas que nos outros sítios do mundo as pessoas comem nesses dias, que não têm gosto nenhum e ainda bem porque se todos comessem bacalhau já não havia para nós.

Anelam e almejam, que é mais ainda do que a primeira. Nesses dias baixa o amor à terra, cometem-se muito menos arbitrariedades, as pessoas estão mais piedosas, chacina-se muito menos, e quando se chacina usam-se métodos menos dolorosos, os chacinadores ficam mais frouxos. Mesmo o roubar de bens e dinheiro, em pequena ou em larga escala, faz-se mais diplomaticamente. Os de colarinho com goma fazem-no da mesma maneira que todos os outros dias do ano - geralmente não se dá conta - e portanto não contam para ilustrar este belo conto, são sempre iguais.

O mundo fica todo dado ao amor, que chega ao ponto de se votar um voto de rejúbilo ao Natal, nos parlamentos dos países democráticos. Depois disso, os deputados vão todos almoçar e são muito amigos (durante o resto do ano também). Nos países que não são democráticos, e não são muitos, os ditadores declaram que todos os súbditos estão obrigados a amarem-se uns aos outros, e podem também ir almoçar, menos os presos políticos, a escória de qualquer sociedade (não merecem portanto almoçar).

Sendo este o ambiente colectivo à escala planetária, é normal que as pessoas também vejam realizados os seus sonhos de presentes, já que os mereceram e pediram em sonhos, ou em introspeção intima.
E o Pai Natal, este ano, ainda nem sequer dividiu as encomendas por região e muito menos por apartado. A rena está preocupadíssima porque já antevê que vai ser le bordel (como dizem alguns franceses). O ano passado já foi assim: não programaram o GPS, andaram para trás e para a frente, aos saltos pelos continentes, com o Pai Natal e os gnomos a atirarem aleatoriamente os presentes para as chaminés. Gerou-se o caos e por mera sorte abafaram-se conflitos diplomáticos e outros de natureza mais bélica.

 Foi cristãos a receberem burkas, muçulmanos a receberem presuntos, refugiados a receberem voucher de fim-de-semana na neve, o Trump a receber um computador novo encriptado e ele não queria porque é um desbocado, o da coreia a receber os planos de um míssil verdadeiro, dos que voam mesmo com autonomia ilimitada, e ele que só quer brincar ao foguetório pífio. Enfim, houve de tudo.

A continuar assim este ano, as coisas podem complicar-se para o Pai Natal, porque começa a perder a credibilidade e se a perder a níveis rasteiros, não lhe resta depois outra profissão que a de político esganiçado.

Digam lá (pergunta a rena para si própria), o que vai acontecer se as vítimas dos incêndios em Portugal – e isto só para dar um ínfimo exemplo, de um lugarejo perdido por aí -  em vez de receberem as ajudas que os seus compatriotas deram vai para meses, a acamar nos cofrezinhos dos banquinhos, lhes dão árvores sintéticas com luzinhas led? Não servem para nada e quando ardem, apesar de arderem bem e depressa, não se podem depois vender. E a economia não prospera.

A rena, que já falou com as outras, tem um plano “B”. Se até ao fim de semana, que é feriado, o Pai Natal não atinar, no dia da distribuição, vão sedá-lo com medronho, prendê-lo com correias de couro de rena às pernas da mesa que são de granito ártico, e vão substitui-lo pelo senhor doutor Marques Mendes que nunca se engana, faz uns oráculos à distância muito bons, e é maneirinho, contribuindo assim para a poupança de consumos do trenó, e por consequência directa para a melhoria das alterações climáticas, um assunto também aborrecido, mas que a culpa é dos que fumam charutos: os cigarros também são bons e produzem menos fumo.


Espera-se que este ano, tudo se componha, e que seja um bom Natal, e passe depressa.


domingo, 3 de dezembro de 2017

PODER DA MÚSICA





Rasga, ouvir uma música sacra e não ter fé.

Ela a puxar os limites e nós, apalermados mas boas pessoas, querendo ir sem poder ir, ainda que indo.

A música desarma os argumentos.

Se fosse palavra – a música palavra -, encostavam-se interesses comuns, acordos temporários para derrubar o facto de se ficar desarmado por uma música religiosa não tendo fé.

Ginásticas para se dar a volta.

A música não vai em conversas de embalar, é música, dona garantida de todas as harmonias, mesmo as dissonantes.

Rigorosa e inflexível, na maior das flexibilidades que se conhecem, vem do mundo das coisas etéreas, e não sendo daqui, tem as regras próprias. Pode ser desavergonhada e religiosa sendo um problema seu, não humano, livre de noções pecaminosas mesmo que até seja enxofrada.

A música, leva-nos para onde quer levar que é lado nenhum mas um preenchimento de todos, uma fruição, só isso, tudo isso.

Faz-nos gato-sapato, e mesmo revelando-nos ao mundo como agnósticos sem nenhuma convicção credível do que se está a dizer, que  no final o que se queria mesmo era poder dizer-se que se acredita, mas não, falta algo.

 A música religiosa fissura-nos o corpo de bela, pungente. Leva-nos sem pedir licença para as alturas, só com a sua vontade, que nós não temos asas para isso, e a gravidade a puxar-nos constantemente para a insignificância.


Que não queremos ser, queríamos ser deuses , e é por essa vontade, que relatadas  vezes – poucos é certo – mas alguns de nós, fazem magníficos voos acrobáticos rasantes, mesmo ausentes dos movimentos voluntários dos acrescentos mecânicos que nos poderiam impulsionar para o céu.


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O MIRADOURO E O MONÓCULO







Perde-se o ar de tanto, uma asfixia, a respiração suspensa, no excesso de oxigénio, o que parece contraditório.

 No cimo da serra o que está a acontecer é  espanto, deslumbramento, uma paisagem inimitável, agreste. Como é a natureza, e como as pessoas ainda se admiram, todos os dias, com as suas novidades e  truques de mágicas inesgotáveis, a embeiçar os homens. 

A serra é circunspecta, senhoril, não cede a amizades fáceis. É profundamente bela, e isso é o que faz perder o folego e perdoar um aparente mau feitio.

Estar ali, em estado admirador, com uma visão panorâmica a varrer toda aquela lonjura, e o que se imagina de mais lonjura, tapada pelos recortes das serras e da linhas das terras, a abraçar quilómetros: um privilégio.

Se deus não se tivesse reformado seria uma bênção, assim é laicamente uma alegria.

Não é um equívoco: a paisagem é bela, mas não é o que se pode estar a imaginar da descrição feita. Não há cor, não há árvores, não há arbustos, flores, variedade de animais, os domésticos, pastores. Há um cinzento de tom único. É uma paisagem de como em esforço se visualiza um cenário lunar: cinzenta, nua, nem uma réstia de poeira a ser levantada por vento. Majestático e decadente.

Um grupo reduzido de pessoas encontra-se no local, um miradouro natural – tem um monóculo aumentador , de colocar moeda, que não funciona, vandalizado. O grupo, restricto, está ali em trabalho, motivo sério. Não são pastores, ou apicultores, ou tão só caminheiros. Nenhuns destes se reúne no cimo de uma serra por motivos sérios.

É um grupo de pessoas com interesses.

Os jornalistas fizeram as perguntas pigmentadas da anemia crónica habitual. Perguntas desistidas de serem perguntas já antes de serem ridiculamente perguntadas. Os batedores, os motoristas, os assessores de segunda linha, estão ali mas não estão, não vêem a hora de tirar os sapatos e sentarem-se no sofá, a beber uma cerveja ou a rezingarem com as esposas. Os das direcções gerais, estão ali como noutro sítio qualquer, não têm sentimentos, só ideias efabuladas sobre as reformas futuras, reformados desde o primeiro dia de entrada ao serviço. Os autarcas da cor ou de outra cor, estão para debicar os restos dos banquetes. Seres cheios de apetites insaciáveis.

O ministro olha para o relógio e lembra-se na agenda do dia, que ainda tem um último compromisso importante. Um jantar de investidores  imobiliários, num restaurante dos roteiros e estilo. Uma mesa recatada para não incomodar os outros comensais, que vão pagar muito e ainda conviverem  com um ministro e assessores.  

Lembrado dessa urgência, o ministro cansado e ligeiramente indisposto por estar ali,distribui - agora apressadamente -pêsames entredentes à meia dúzia de crédulos encartados que o acompanham, sorri  para uma derradeira fotografia, e faz sinal ao motorista para o resgatar para a realidade, a sua.


Se tivessem arranjado o monóculo a tempo, teriam visto as cinzas com mais pormenor.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O VOO






Escrever é como percorrer pacientemente - ou não - um espectro como as ondas da radio, procurando uma sintonia.

É uma tarefa quase sempre absurda, cansativa, mal sucedida, quando parece ser tão fácil juntar umas quantas palavras bem intencionadas, a fazer sentido.

Mas não é isso que se procura, fazer sentido.

Vai-se atrás de mais, que não se sabe. Algo que seja suficiente mesmo que só suficiente, à justa, para preencher temporariamente todos os poros e espaços em branco.

Depois, quando esporadicamente sai e flui, é-se oferecido de um espasmo inqualificável de prazer, que vai muito para além de um simples excelente momento de prazer.

É outro algo, etéreo, mas físico; volátil, mas que envolve. Sente-se a pressão desse enlaço.

Enfim, escrever não é nada fácil, mas é uma coisa não coisa que alguns poucos fazem tão bem; que alguns desejam suspirando tanto; que é fútil mas que tem uma utilidade: eleva a condição humana.


A partir do momento em que esse homem com condição, consegue desligar a ponta dos dedos dos pés do chão que o sustém, nunca mais ninguém o apanha, ganhou  num instante histórico, as artes do voo livre.

Fez-se artista.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

UM CASAL, UMA MULHER E UM HOMEM, AMA-SE.








Está praticamente vazio de viventes, o jardim onde uma mulher lê livros na hora de almoço. Também frequentado  por outras pessoas com objectivos de vida legítimos - independentemente de não lerem livros a essa hora - e animais domésticos descomprometidos com a vida e os objectivos, sejam eles os que forem.

Quase, porque vão aparecendo pássaros, que descem das árvores e vêm debicar o chão. Também cães, referenciados na zona, a cumprirem o passeio higiénico, guiados quase todos por raparigas jovens apetitosas - que era escusado e perigoso dizê-lo – filhas dos donos dos animais, obrigadas em chantagens de semanadas e saídas noturnas, a passear os bichos a hora certa, antes de irem para as faculdades ocupar o tempo, uma eternidade enfadonha, o tempo que se perde nestes sítios. Antes que se passe ao parágrafo seguinte diga-se que os pássaros, não cuidam de ser verão ou o que seja: debicam sempre que podem em todas as condições atmosféricas.

Elas, as filhas dos donos dos cães, cumprem a obrigação, concentradas no ecrã dos dispositivos móveis, e querem lá saber se o cão mija num tronco de uma árvore ou na perna – a pedi-las – de alguém que distraidamente se tenha sentado na esplanada completamente vazia num dia a ameaçar inverno, mesmo que estejam vinte graus. Não interessa, é um dia a ameaçar de inverno e assim sendo ninguém com juízo se senta numa esplanada: há dias para tudo, o problema está em que algumas pessoas não cumprem as regras.

A mulher dos livros não apareceu, as crianças que brincam no parque infantil, indiferentes às convenções, não deram pela falta, os adultos também não porque não foram ao jardim, num dia de quase inverno mesmo que estejam perto de vinte graus. Não se frequentam jardins, a não ser esporadicamente, ou por razão de força maior, como mijar para o tronco de uma árvore porque se está numa aflição de não aguentar mais. Coisa feíssima e deseducada, mas um imperativo para alguns.

Existe um estabelecimento de restauração, virado para o parque, que agora está cheio. É tempo de as pessoas serem assíduas dos espaços fechados, porque cumprem os protocolos da lei: inverno-dentro, verão-fora. Dentro do estabelecimento, pode-se olhar para as árvores despidas do jardim, ou distrair os olhos nas pessoas que se sentam nas mesas circundantes, e imaginar coisas.

Na segunda mesa da direita falam-se negócios; naquela esquinada, fuma-se e toma-se um vinho branco; nesta mais próxima, um casal de uma mulher e um homem, olham-se em silêncio, e ela afaga com um carinho puro a cara dele, que não disfarça o prazer que esse gesto lhe está a dar. Já não são jovens, cronologicamente jovens, mas actuam no amor como dois adolescentes, recém-chegados à descoberta das sensações que põem todo o corpo em pele da galinha, um alvoroço de suspiros prolongados, sonhos flutuantes, a fazerem-se caras patetas.


Hoje, não apareceu a mulher que lê livros, mas a presença enamorada dos dois numa mesa de café urbana, compensou a sua falta e entreteve os solitários, que não tendo nada mais que fazer, olham para os outros a viverem as suas vidas.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

UMA SECA




Antes pelo contrário, não fazia frio. As pessoas queixam-se com contenção de queixume porque lhes dá jeito, mas todos falam nisso. E termina-se a conversa com um sorriso dúbio a dar entender todas as possibilidades, e assim não se comprometem com responsabilidades. É melhor do que criar conflitos. Este aglomerado de pessoas, que foi raça em tempos passados e agora é só um aglomerado, têm este tipo de natureza: são informes: está tudo bem e mal, ao mesmo tempo.

Dar-se o sol a esta obscenidade e a temperatura ser de calores desta amplitude, no mês de novembro, é um contratempo ao qual as pessoas são alheias. Não têm nada a ver com o assunto, não fizeram nada (desculpam-se elas consigo próprias), concordam que não está bem, mas andam felizes por não chover. E se a água vier a faltar a culpa é dos espanhóis, que são um povo estuporado, que atazana desde tempos imemoriais a vida dos do lado de cá.

José António mesmo com os contratemos climáticos, optou por tomar uma decisão fundamental. Nunca lhe tinha acontecido tomar uma decisão assim, é a primeira vez, pelo que espera ingenuamente que lhe corra bem.

Esta decisão é do foro psicológico mas o senso comum acha que é uma mera extravagância física. Ambos estão enganados, o senso comum e os que pensam diferente: é uma coisa holística.

José vai anunciar finalmente, depois deste tempo todo – já com cabelos a branquearem, e o corpo a não ir para Adónis -, o seu posicionamento sexual.

Alguém que faz isto, deve ter razões inquestionáveis para o fazer. Anunciar um posicionamento é quase como uma fractura: fica-se a saber que depois disso haverá os que ficam numa margem e os que estão na outra. E o anunciador, tem sempre que escolher uma delas, perdendo os outros.

Mas é um posicionamento, vocábulo que não tem discussão, nem argumentos. E já que o mundo pode acabar a qualquer momento, ou pelo menos a eminente falta de água, vir a originar desidratações fatais, e ninguém está livre disso: pode muito bem vir a acontecer ao José António, e ele sem ter tido tempo de soltar a franga, pelo que resolveu anunciar-se.

José António é binário transgénero, não masculino, não feminino. Os pais morreram toda uma vida sem desconfiarem de nada; alguns amigos, poucos, acharam-lhe um piquinho muito ténue, mas nunca valorizaram; e no trabalho, continua a ser um excelente professor com a carreira congelada.

Uma coisa é mais do que sabida, mesmo em tempos de seca, José António pode orgulhosamente passear-se por aí a sibilar aos ventos a sua tendência de género, sem que por lei possa vir a ser assediado ou impedido da sua liberdade.

Pode vir a faltar a água, mas os seus direitos são inalienáveis, e até que  venha a encontrar-se uma relação directa entre os recursos do planeta e a acção maliciosa ou negligente dos seres que a habitam, nomeadamente os transgénero binários, a sexualidade bizarra do José não é tida nem achada para as vicissitudes do tempo.

A culpa é e continuará sempre a ser dos espanhóis.





segunda-feira, 13 de novembro de 2017

MOEDINHA?







O truque é a abstracção. Não é pensar abstracto, é abstrair-se, escapar para longe ficando no mesmo sítio. É quase uma coisa de iogui avançado.

Iliana fazia-o desde pequena, aprendeu com a mãe, que já vinha da avó e daí para trás.

Iliana é muito viajada, apesar de ainda ser jovem. Conhece a Europa de uma ponta a outra, de Norte a Sul. A boa Europa claro, a rica. Nomeie-se uma praça, um monumento, uma rua comercial, ela conhece-as todas. Não de nome, mas já lá esteve, e esteve constantemente estando, não é como os turistas que estão de fugida. Não, ela é uma viajante de permanências prolongadas. Deve o seu cosmopolitismo a esse poder de abstracção. Quase um dom.

Sem essa capacidade, como seria possível aguentar estar um dia inteiro, sentada no passeio com um copo de plástico na mão, a mendigar para esse copo quase sempre vazio, em frente a um belo restaurante com um belo terraço com janelas panorâmicas, de vidro, corridas do chão ao tecto com um sistema basculante que as recolhe em dias de amena temperatura?

Não seria, mas é. Porque ela está ali fisicamente mas os olhos vão com as pessoas que passam entre si e o restaurante, de quem ela só vê de baixo para cima, do nível dos joelhos destas, o que lhe dá uma perspectiva bastante alongada das pessoas. Elas gigantes e ela minúscula. E os seus olhos, voltamos a eles, acompanham-nas, vão atrás delas, até ao dobrar das esquinas que esquinam essa rua. Depois regressam à dona, para voltarem a fazer o mesmo com outros que entretanto passam. Assim ela entretém-se abstraindo-se da puta de vida viajada que tem.

Os comensais têm igualmente o dom da abstração. Neste caso selectiva. Explica-se: só não veem o que não querem. Este dom, magnífica funcionalidade, veio-lhes de suas mães e pais e dos coevos destes. São assim de pequenitos – que graça tinham em pequenotes quase todos eles, bochechas rosadas e gordas.

De vez em quando, há um cliente, que por ter sido apanhado desprevenido, ou por sofrer de algum mal de sensibilidade fina, se incomoda por ver Iliana de copo estendido.

Apieda-se e fica desconfortável, mas não pode fazer nada, porque é hora de almoço e naquele restaurante come-se muito bem. Continua a comer fingindo agora que ela não existe, que não a vê, mas o impulso é sempre mais forte do que a vontade (essa coisa da vontade de ferro é um mito urbano), e paga à pressa a conta para sair rapidamente daquele lugar,  ligeiramente abstraio.

Quando sai, olha para Iliana uma última vez, e procura rapidamente o virar da esquina para se proteger da sua mendicidade. Os seus olhos seguem-no, curiosos, brincalhões, e voltam para a dona quando se desinteressam de mais um transeunte anónimo, que não pôs uma desgraçada de uma moeda, mesmo uma somítica das pretas, no copo que segura Iliana.

O restaurante, nas sextas-feiras serve um cosido de uma riqueza de carnes, enchidos e leguminosas, exuberantemente bom e tem uma vista para a avenida, quase mesmo a fazer lembrar aquelas monumentais esplanadas dos boulevards de Paris. Ah Paris, a cidade do amor!


Ela já lá esteve e frequentou no ângulo do lado de fora, alguns desses locais famosos. Ao fim de algum tempo acaba por ser tudo igual e a gente habitua-se, ou antes: abisma-se, alheia-se, escapa-se. Tem sido assim com Iliana, a rapariga dos olhos verdes.


domingo, 12 de novembro de 2017

O SENHOR M






Andamos às voltas com o relato, o mais fidedigno que se pode e em esforço, do senhor M, um homem que é conforme da maior das considerações e que merece ser relatado apropriadamente. Por nada de especial mas porque todos os senhores e senhoras correndo o alfabeto dos nomes, merecem a homenagem de estarem vivos ou de já terem estado nessa situação, e uma homenagem é um acontecimento bonito porque a história do viver não é fácil de contar nem ela mesma de se  viver ao vivo.

Assim, já sabem que o senhor M gosta de apanhar sol e fumar cachimbo. De ler, igualmente. O que ainda não sabem, mas espera-se vir a contar, é que ele já foi um homem muitíssimo enxuto, e chegou mesmo a embevecer duas ou três (foram três) bailarinas de tango. Não por ter sido um grande dançador, mas porque os trejeitos de volta que ele punha na dança, deixava-as desconcertadas, na dúvida de se seria realmente um grande bailarino desalinhado, ou um homem com outros potenciais.

Era isso, teve na sua mão pelo menos três bailarinas de primeira água, e desprezou-as porque se distraiu com os potenciais.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

MANUAL DOS SOLITÁRIOS









I

Anda Farrusco, vamos acordar as ovelhas.

O cão, enorme, abentesma naquela quase escuridão,  do tamanho de um homem bem medido, nem se mexeu. Ou antes, entreabriu o olho direito, o que estava mais próximo do dono e olhou-o desinteressantemente. Voltou à posição de estátua marmórea.

A modorra das cinzas ainda quentes, espalhadas na lareira, a parecerem larvas incandescentes de um vulcão apagado – que faz as funções de fogão – meio mortiças, aqueciam sofrívelmente o casebre construído de pedra granítica daqueles lugares.

Ficar por ali o mais que pudesse, era intenção do animal. Todos os dias pensava nisto, e nunca se realizava essa ambição. Um cão pastor não tem domingos nem folgas.

Uma enxerga, que com muito boa vontade poderá imaginar-se cama, uma mesa bamba, um par de cadeiras, um escano junto ao lugar do fogo e um pouco mais de nadas, são os adereços de cena. Não há candeeiros, só lâmpadas cheias, envoltas de pó, às camadas, tantas que fazem de abajures.

No piso de baixo, na loja, os animais recolhem à noite e em dias de invernia rija quando o manto de neve cobre as ervas, os arvoredos, e quem por aí ande, seja animal  de homem ou ruminante tresmalhado..  Em dias normais sirigaitam, comandados pelo pastor  e pelo Farrusco, por serras e vales, pelos caminhos e pelas veredas, eficientes cortadores-comedores das relvas, limpadores ecológicos das matas abandonadas.

Estas almas, habitantes quase espectrais numa aldeia sem outra gente ou bestas, perdida nas geografias, flanam sem novidade nem monotonia: caminham somente, e comem. Têm uma vida simples, sem rastos, sem sulcos no chão, somente passam, ao de leve pelos lugares e não-lugares, sendo difícil de destrinçar uns dos outros, porque são ambos espectrais.

Em entretantos do passeio, conversam entre si nos seus dizeres particulares. Há relatos de que se entendem, o homem, o canídeo, os componentes do rebanho. As ovelhas e as cabras não se queixam, o Farrusco é cão de poucas confianças e o pastor fala para dentro, com personagens suficientes para entreter uma mão cheia de palração constante, ele não consegue fechar a torneira dos pensamentos, sempre a pingarem. 

Cumprem todos os ciclos da natureza, não há maior paganismo do que este, a primeira das fés. Eles são seres livres do tempo.

Instalada a noite, os humanos e aparentados – o pastor e o farrusco-  aquietam os cansaços com o olhar suspenso no jogo de luzes do crepitar da lenha, o espectáculo privado a que assistem diariamente, sempre diferente. As bestas deixam-se quedas a ruminar na vacuidade : a sorte que lhes coube de não terem pensamentos, coisa por provar.

Por vezes, interrompendo o quase silêncio da ruminação, os animais bezoam, berregam, balem, tudo a dizer o mesmo: a forma do seu dizer, desvalorizada aquelas horas pelos habitantes do andar de cima, que o que querem é repousar das suas intermináveis caminhadas.

Espampara-se a porta do novo dia e o Ti Manel veste as calças por cima das ceroulas, que fazem a vez de pijama, camadas sobre camadas. Salpica os olhos na água gélida de uma bacia ao lado da cama, e  atiça o lume para aquecer a chicória, que ao café verdadeiro chega-se pouco, é de tempos a tempos, quando vai à feira, na vila que dista para cima dos dedos juntos, todos contados de duas mãos de léguas, para negociar a produção de queijos amanteigados. Poucos, mas de   vénia, de pôr as papilas gustativas num frenesim de prazeres.

O Farrusco  toma o pequeno almoço - se assim se quiser chamar - com o patrão, porque este animal, é como se fosse homem: falta-lhe falar e fumar, já que de beber ponham-lhe à frente umas sopas de vinho e pão, e é um consolo vê-lo  comer.  Sorve a chicória e partilha o pão besuntado com banha, para dar sabor e consistência ao conduto.

O Ti Manel atavia o alforge com um naco de pão barrado, uma bota de vinho tinto , um par de maçãs e, os dois – o cão ainda renitente - descem para soltar os animais, irrequietos também pelos apetites da fome e fartos de estarem juntos, naquele espaço bafiento e confinado..

 O dia mal esboça ténues luminosidades na linha do horizonte, que da aldeia fantasma não se alcança, porque está cercada pela serra, e porque à frente desta outra há, e a seguir outra se segue, e assim o que se vê à frente ou atrás, nada mais são do que serras, e o que é certo e para se dizer a verdade sem enganos para ninguém, é que a linha do horizonte é impossível de alcançar. Nunca ninguém o conseguiu.

Existe inclusivamente, numa grande biblioteca de livros raros, um catarpácio pesadíssimo, que regista todos os homens que tentaram a proeza, heróis só por se terem lembrado disso. E esse registo existe, para lembrar aos outros – a maioria – que apesar de haverem coisas impossíveis de atingir, vale a pena tentar, pelo simples facto de que é melhor do que ficar em casa a remoer arrependimentos.

Horizonte é o longe, muito longe e o Ti Manel a essa lonjura nem em imaginação. A essa linha imaginária, não se chega com as pernas, pelo que e apesar de andarilho, o pastor está impossibilitado por lei de chegar aos confins da linha do mundo. 


Outros melhor apetrechados de viaturas velozes, também não conseguem lá chegar. Quando se está quase, a linha escapa-se para mais longe, e assim sucessivamente, num jogo de apanhada em que nunca se apanha.

Relativamente ao Farrusco não se sabe se tem pensamentos filosóficos ou poéticos. Pensa-se que sim, porque a forma como por vezes olha para as ovelhas, dá a sensação de grande interioridade, e transparece melancolia, sinal óbvio de que pensa.

Sendo um cão competente, e este é dos melhores, guiar ovelhas é tarefa fácil. Ele junta, conduz, reconduz alguma tresmalhada, e ao homem cabe apoiar-se no cajado e congeminar histórias e falatório interior, para tricotar o tempo. Assim que levam todos uma santa vida, comer, dormir, passear. Não há maior riqueza nos estados de alma de águas paradas.

Se alguém lhe perguntasse- se alguém de humano houvesse caído de trambolhões serra abaixo e aterrando nos pés do pastor- o que é que o Ti Manel tinha a dizer da beleza das folhas acobreadas que caiem das árvores ou das flores que renascem em mil cores, ou do verde  da erva dos campos que em viçosa, parece que entra pelos olhos adentro, ele simplesmente diria que não tinha nada a dizer sobre essas coisas. Porque isso não acrescenta nada à sua felicidade. Isso é a sua felicidade natural e simples, não a pensa, pelo que não poetisa.

A poesia é um fenómeno natural, como os nabos e as batatas doces, que cresce um pouco por todo o lado, dentro e fora dele, pelo que está bem.

E mais:  não conhecendo outros lugares – mais longínquos que essas léguas até à Vila - , havendo a impossibilidade de uma comparação com o que nunca foi visto, nem se sabe existir, o lugar onde se vive , não é bom nem mau, nem bonito nem feio, é o único. É o nosso lugar.

A grandiosidade das serranias é suficiente para o Ti Manel, dormir sem insónias, porque de dia é para ter os olhos abertos e de noite tê-los fechados com as luzes da cabeça devidamente desligadas, para não incomodar o sono e poupar na energia dos pensamentos, que são bem vindos, quando à luz do sol se apoia no cajado.

Aberta a porta do curral, as ovelhas saem aos atropelos por essa estreiteza, e espertas que são – apesar de andarem sempre encarreiradas - seguem o caminho da direita. Seguem sempre esse caminho, e voltam sempre a casa pelo da esquerda, deem as voltas que derem ao dia. Convencimentos dos animais, que não se discutem.

Aquela hora o tráfego ovino entope a aldeia, o único momento estressante da jornada. Depois a tensão baixa, e suporta-se.

Nunca se altera a rotina nem há novos planos. Vai-se ao sabor do pé que puxa pelo outro pé, e do cheiro da erva fresca. Quando o estômago reclama, o Ti Manel encosta-se a uma árvore se as houver por perto , e come descansadamente, intercala o pão com golos de vinho, em todo o momento com o olhar no nada. Homens solitários olham sempre para o nada. O cão, que na hora de trabalho não se distrai, aproveita o intervalo para espairecer, tem a mania que é um cão de caça, mais do que um sonho, é uma mania sua. Podia ser pior.

O pastor, por compaixão não lhe diz a verdade: com aquele peso e corpanzil, as lebres tomam-no por tonto, rabeiam-no, e à noite nos covis contam aos filhotes  deliciados com as histórias, como puseram o tonto do cão com a língua de fora, a esgotar-se que nem um louco atrás delas. Há dias em que ele quase consegue apanhar uma, e apesar de nunca a abocanhar, regressa feliz e inchado, para junto do dono. Deita-se a seus pés e olha-o num relance. Parece estar a dizer que afinal, também podia ser um excelente cão de caça.

Se o tempo está simpático – adjectivo que no campo não tem sentido - o pastor deita-se e olha para o céu. Olhos escancarados, absorvedouros de cor, a cor com que depois forra as paredes da alma.

Não é inusual quando se deixa assim ficar de aspirador, que o farrusco cansado de ser parvo, armado em farejador, desperte o patrão com uma lambidela farta. Desperta-o e leva um pontapé, que umas vezes acerta e outras não, mas está-se em crer que o objectivo é mesmo não acertar. Está na natureza daquele homem ser impulsivo e bruto, mas isso é tudo uma representação, ele é boa pessoa.

Com isto e pouco mais se passa o dia,a trupe volta a casa noite posta, agora sem  conversas, silenciosa, com vontade de descanso.

 Estacionam o gado, atiça-se novamente o fogo,  Manel descalça as botas malcheirosas que não faz diferença, não há ninguém nas redondezas para se queixar, o farrusco não se descalça porque anda sempre de pé feito. Começa para eles a hora de fiar os linhos da memória, histórias reais e outras sonhadas inventadas que emergem à superfície, passadas, repassadas, no pente fino do silêncio. 

Recordações do passado, dos bailaricos na aldeia, das moças trigueiras e cheias, das festas e romarias, dos filhos, da sua ausência nas terras de um Norte muito ao Norte – doutores uns, que foram ao ganha pão - da mulher que partiu quando estava a dormir (parece que já estava preparada de véspera: fenecer deitada, já esticada, para facilitar o trabalho às vizinhas, foi só enfiar o vestido pela cabeça e apertar os botões nas costas, rígidas , frias, mortas), lembrar com amargura a partida dos últimos habitantes.

Remói-se o albúm de fotogramas a sépia até que chega o sono. O farrusco leva vantagem, ressona desde que se instalou rente ao fogo, não tem que fazer contas com a vida, pode adormecer mais cedo.

“Mais um dia passou,e amanhã, se Deus Nosso Senhor quiser, continuo a olhar para o céu que ainda me falta azul para forrar uma das paredes.”






II

Indiferentes – passam a vida nisto: fingem que não se veem - o ti Manel e o farrusco ancorados no mesmo sítio, cada um no croché dos seus pensamentos íntimos, ao calor das brasas da lareira.

Terminaram o dia e as suas obrigações. Os acontecimentos, os actores e os espectadores deixaram vazias as cadeiras na plateia e saíram de palco. Apagaram-se os holofotes, os arrumadores limparam os sedimentos da poeira, recolheram-se.

O pano da noite cobre as pessoas e outros seres.

O ajeitar das madeiras e outros materiais, interrompem a espaços a escuridão do silêncio, começa o turno dos fantasmas reais, dos imaginários e dos mundos dos outros mundos. É o horário das almas penadas, das fadas, dos gnomos, da trupe dos elfos e as suas traquinices.

Fios de ideias esvoaçantes entram pelas janelas abertas, enfunam-se os cortinados, pisca a luz nos pavios das velas acesas, há correntes de ar que circulam nos interstícios das prateleiras dos arquivos pessoais.

“Onde andam os meus? O meu neto Manel, o meu nome, não lhe vi feições, saindo ao pai é parecido comigo. Pudesse eu mergulhar estes olhos, momentaneamente autorizados pelas cataras, a ver os seus contornos. Era uma felicidade”

“A esta hora já deve estar a dormir, amanhã tem escola. Lá é sempre mais tarde, e escuro, dias que não são dias, são noites constantemente.”

“Falta tanto para o próximo verão, falta tanto no que sobra de minutos. De nada me vale o tanto que não posso descontar em cruzes nos dias do calendário: este ano como nos passados não vêm para as festas da aldeia, aldeia manca de gente.”

“Não sou de meiguices, mas apetecia um bom abraço do meu Joaquim, com palmadas nas costas! Contentava-me vê-lo; e do Manelito estontear-me com as suas correrias inesgotáveis de criança.

“Estou a ficar velho, dá-me para a melancolia.”

Era mais ou menos isto que o Manel pensava, com palavras mais suas e menos apuradas.

O farrusco não tem descendentes emigrados, a sua família é o dono. Não rumina saudades – é um cão, não rumina - sem razão de as ter – o que é bom para a saúde – é um cão sem restrições na liberdade podendo roncar profundamente, que é o que faz.

Estas duas almas são a alegria deste cemitério de casas que não são mausoléus porque estão desabitadas de vivos ou mortos.

Só o vento trespassa os interstícios dos corpos e das pedras, nada mais que vento frio, reumático.

Depois destas evidências menos edificantes da velhice – a pieguice - o ti Manel, às portas do sono, deixa-se cair na enxerga, iniciando o despique sonoro com o fiel companheiro, que nenhum deles se ouve ao outro, pelo que todas as noites neste casebre perdido numa aldeia abandonada da serra, uma orquestra a duas vozes executa uma sinfonia privada para surdos.

Do outro lado das paredes, no exterior, os passaritos, muitos, estão entretidos no seu chilrear habitual, não ouvem nem querem saber da obra prima que está a ser executada pelo pastor e o seu fidelíssimo cão, frustrado de caçador incompetente.

Nem o gado a descansar na loja os ouve, que seria a maior e a única audiência. Até hoje não se soube de um comentário de agrado ou desagrado sobre a qualidade das récitas, o que impossibilita uma crítica distanciada.

Essa ideia muito legítima de querer conhecer o neto, ficou a fazer pingue-pongue na sua cabeça, que nos dias seguintes, não fosse o cuidado e profissionalismo do cão, o gado ter-se-ia tresmalhado, inexistente o seu querer ao trabalho, pouco ou nenhum, revirando-se apenas nos pensamentos obsessivos da saudade.

Decidiu-se por uma atitude, para sair do impasse, que é sempre uma paragem forçada e esgotante.

Ganhou-se de coragem e começou por ensaiar mentalmente a escrita de uma carta, a construção das palavras para quem delas não é pedreiro, não faz paredes direitas. É necessário pensar muito seriamente antes de se arriscar a pegar na caneta. No entanto, arriscou, ele é um homem corajoso e não se lhe pegam os medos.

O texto simples dizia: “Meu querido filho, quando vens a ver-me? Quando te vejo eu a ti? Quero conhecer o meu neto tocando-o, que só assim se conhecem os seres. Dá-me notícias, e uma alegria. Teu pai”.

Ficou-se parco, por aí, foi mais do que suficiente. Dizia tudo, tudo o que há para dizer quando se choram saudades.

Numa ida à feira da vila, vender queijos dos bons e soltar a rédea às conversas engarrafadas e acumuladas de não ter ninguém com quem falar, pediu a um conhecido que pusesse a carta no correio.

Bebeu bagaço, a intercalar os convívios breves com conhecidos, cansou-se rapidamente do espalhafato da urbe. Muito barulho, muito movimento, é melhor o silêncio.

Voltou às rotinas da pastorícia e assim seguiram os fios dos dias nas conjugações de cores que escolhem, continuando o ti Manel nos seus afazeres profissionais, com o farrusco mergulhado em preocupações porque o dono não tirava os olhos turvos da ponta das botas. Estava a deixar de olhar para o horizonte. De noite pelo contrário, revirava-os para as telhas do tecto: parecia que rezava. Deve ser da velhice, recomeça-se a rezar quando se aproxima a prestação das contas.

A notícia que ele esperava, a razão dessa sua espécie de desvario contido na apatia, não se anunciava.

Sendo o lugar da aldeia póstumo de gentes, o carteiro aparecia pouco e mais por consideração ao Manel, que indo na direcção de outros ermos, em calhar, fazia uma paragem técnica para partilhar um copo de aguardente com figos secos, a fazer lastro para o destino seguinte e dar dois dedos de discurso, um ânimo para os dois que se gostavam genuinamente como amigos de toda a vida.

Nos dias que se seguiram ao envio da carta para o filho, o pastor perscrutava insidiosamente o carreiro que faz a bissetriz do casario bafiento, com os cotovelos repousados no beiral do casebre, esperançado pela vinda do amigo.

E ele que tardava!

..........

Os relógios deram as voltas que tinham que dar até o António dos CTT estacionar com estrondo a sua famel  (o melhor e único investimento da sua vida), em paralelo com a parede da casa do Manel, encostada portanto e a apontar para a saída, que há saída não lhe convinha voltas e voltaretas. A direito, e mesmo assim quase de certeza ziguezagueando, para não haver incidentes.

Anunciou-se buzinando.

O cão ladrou competentemente – grande cão este - e o dono deu nota do acontecimento abrindo a porta com os nervos em rendilhado.

O António tira da ilharga da motorizada um pacote.

-Aqui tens Manel, uma encomenda da França-

-Achega-te homem, deixa ver.” Tremia-se todo, por dentro e por fora, tentando não mostrar fraquezas, inevitáveis fraquezas estas quando se ama tanto os nossos.

Conteve-se em esforços de esperar que o companheiro se sentasse no escano ao lado do fogo, foi pela garrafa de aguardente, íntima dos dois, serviu, tomou pose do embrulho, levantaram os copos e emborcaram de uma vez. Serviu segundos, e abriu a encomenda.

Uma caixa negra, mais ou menos quadrada com um papel branco colado com fita-cola que dizia (depois de passar o escrito para as mãos do António):

 “Olá meu pai,
estimo que te encontres bem, nós por cá, indo. Peça por favor ao António, para ler esta carta, que tem prática de ler os endereços nos envelopes e é um entendido nas letras.
Ele explica-lhe tudo.”

O farrusco não deu opinião, caladíssimo.

Dizia a carta:

“ Meu pai, a vida nem cá nem em parte nenhuma é fácil, trabalhamos muito, mas é tão cara, que não se chega a juntar. E quando se arrecadam uns trocos, logo aparece uma nova despesa, que leva o tudo tão pouco que se tem.
 Ainda não é desta que o vamos visitar. As coisas estão a ficar difíceis. Os de cá nunca gostaram de nós, aceitaram-nos para fazer os trabalhos que eles não queriam e agora cospem-nos na cara e dizem coisas racistas. Deixam-nos ir ficando, sabe lá até quando e como.
Trespassam-nos (que quer dizer que nos cortam a alma como se nos espetassem uma faca) com olhares frios, virando a cara, como se fossemos seres desprezíveis, inconsistentes.
Agora que também lhes começa a faltar o emprego, eles descarregam os seus remordimentos em nós, nos emigrantes.
Não posso mesmo ir, se me ausento do trabalho um único dia, no seguinte já o perdi”.

Ti Manel ouvia a leitura feita pelo António, com os olhos num crucifixo pendurado, deslocado, numa parede imensa e vazia. (E o cão a pensar que o dono estava a ficar religioso por maluqueira).

“Senhor António, essa encomenda que envio ao meu pai, é um computador, já devem ter ouvido falar dessas máquinas, servem para tudo.

É fácil de ligar, mas se for necessário ajude-o”.

O Manel vai no terceiro, copo.

O carteiro, que se tem em conta de ser  um profissional das letras, pequena, grande, fina, grossa, rabiscada, formal- um decifrador de todas – rapidamente entendeu a maneira de dar vida à máquina.

-Vamos ligar, que isto é parecido com as televisões.

A caixa depois de aberta está cheia de botões, seguidos uns aos outros em filas, todos pretos. Sem desenhos, bonecos, letras ou números. Nada, só preto. A tampa é lisa e igualmente negra.

Um autocolante branco com uma seta a apontar para uma tecla. No autocolante está escrito: “AQUI”. António pressiona-o.

Dá-se uma estridência de piscares e sons. O farrusco ficou com os pelos desfrisados, ladra histericamente.

E depois, faz-se luz:

Aparece um miúdo de olhos profundos e fixos, com um cabelo em caracóis revoltosos e um sorriso imenso de vida que inunda a sua cara de ainda muito miúdo.

Ti Manel não o reconheceu à primeira mas encontrou parecença. Chorou, desarmou-se de homem em frente do amigo e chorou pela primeira vez em público.

A criança ou o boneco de criança projectado a cores no ecrã, respeitou a emoção e esperou que o avô acalmasse. Falou:

-Posso sair daqui e sentar-me no teu colo?

Entrou-se numa outra dimensão, sem nome, não conhecida. Um fantástico, uma irrealidade, um mundo paralelo, uma inverosimilhança. No entanto foi assim que aconteceu, nesta história verdadeira. E teve como testemunhas aquelas três almas que estavam presentes no momento da teletransportação  do neto para o colo do avô: uma das cenas mais emocionantes que estes três viveram nas suas vidas simples e sossegadas.

O velho, feito pasmo disse: “salta que eu agarro-te” e abriu os braços fortes enquanto o miúdo se lança no ares em voo picado de um universo a duas dimensões para este que tem pelo menos mais uma.

-Hoje não tenho escola, tenho o dia todo para estar contigo.

-Como se chama o teu cão?

-É o farrusco.

-É maior que eu.

-Pois é.

-Morde?.

“Não sei, pergunta-lhe”.

O miúdo estendeu-lhe a mão e o animal, ainda não refeito dessa experiência mística, reconheceu cheiros, e pôs o focinho ao jeito de uma festa, e mais, todas as que o miúdo quisesse.

-Vamos passear avô, leva-me a ver os teus lugares. Tens mais animais?

-Muitos.

-Vamos soltá-los para nos fazerem companhia.

-Vamos.

O Manel pôs a criança às costas, deixando o António atónito a olhar para os dois com o copo na mão, e desceram as escadas seguidos do familiar.

Hoje refresca porque são inícios de Outono e o avô assegurou-se que o catraio estava confortável. Ocorreu-lhe nesse gesto simples quase imerecido de referência, que há muito tempo não protegia ninguém. Sentiu-se bem.

No borbulhar incessável dos pensamentos, emergiu uma lembrança antiga, em que outra criança, num daguerreótipo a sépia, veste uma samarra e um homem jovem se curva para lhe ajeitar a gola de pele de raposa. Reconheceu-se a si como filho , reconheceu o seu pai, e nada disso existe agora, materialmente, a não ser nas  feições de uma fotografia antiga.

-Tens tantos animais aqui fechados. Como se chamam?

-Ovelhas.

-Todas?

-Só ovelhas. Não têm mais nomes.

-Para que servem?

-Para darem leite para os queijos, e lã para fazer camisolas quentes.

-Posso tocar?

-Podes

Abriram a cancela da loja e os bichos foram saindo, o miúdo com o braço a fazer de portagem foi-lhes tocando enquanto saiam na sua lentidão ovina habitual, enfadonhas que são as ovelhas.

O cão comanda a procissão, fecha-a o velho, com o neto às costas, cordeiro de deus.

Caminharam-se serra acima, e foram pondo a conversa em dia: os seus atrasos, as novidades e as curiosidades. Houve histórias contadas de avô para neto, e outras intimidades. Embrulharam-se, distraíram-se, gozaram-se, na troca das palavras.

Caminharam sem conta dos passos que deram, distraidíssimos do passar do tempo e regressaram naturalmente para casa quando teve que ser.

-Estou cansado avô. Apetece-me dormir.

-Queres ficar na minha cama? Ponho mais uma manta? Está fresco.

-Infelizmente não posso avô, eu só estou na tua imaginação que ao veres-me na imagem do computador, reinventas-te todo o dia que passou.

-Isso não é possível, acabo de te tirar das cavalitas, ajudaste-me a pôr o gado no curral! Dizes que não te toquei se eu te sinto?

-Não me tocaste avô, mas sim, é verdade que me sentiste.

-Não te preocupes, amanhã se quiseres voltamos a passear juntos, e se me deixares, desta vez, levo eu o cajado na mão.

 -Agora carrega nesse botão e vamos dormir”.

-Até manhã avô”.

-Boa noite meu filho, dorme bem.






III

“Agosto é o melhor mês do ano.

Gosto de todos, mas este, para mim, é o mais bonito dos nomes com que baptizámos as fatias do tempo.

Agosto é o mês dos campos posto em sossego, da família que nos visita, das festas em honra da nossa padroeira.

O Farrusco e eu andamos desvairados nos preparativos das festas da aldeia. O Farrusco é cão, mas é o meu familiar mais próximo. Os outros estão lá fora (porque raio se diz lá fora?), e é por essa razão que a comissão organizadora das festas da minha aldeia só tem dois elementos.

Não há mais habitantes, e com os fantasmas não se conta, que eles para mexerem um dedo, está quieto! Só estorvam.

É uma trabalheira doida, só uma pessoa e outra que é metade de pessoa, mas a vontade é muita e somos profissionais nos festejos, sentimentais portanto.

Este casario é mais um lugarejo acanhado do que uma aldeia, mas tem igreja e escola, o que é fundamental para a sua dignidade de aldeia, apesar de não terem uso.

Como somos poucos, o farrusco e eu – mas precavidos - antes de pôr mão na obra, discutimos longamente em sede de assembleia, a estratégia do alindamento dos exteriores, o alinhamento das cerimónias religiosas e a contratação dos artistas, tudo com tempo, haja a necessidade de rectificativos de última hora, antes da chegada dos convidados.

Decidiu-se que no que respeita aos confetis para engalanar a rua principal, eu penduro-os e o farrusco lambe a cola (tem andando com um olhar vago nos últimos dias, mas não deve ser nada!)

Quanto às roupinhas da santa, está tudo controlado. Ela não é de grandes exigências, pelo que vai com o manto rosa pálido das últimas vinte e três procissões. Não estamos em tempos de esbanjamentos. Limpinha e honrada, o povo aceita.

Como estamos parcos no orçamento, as despesas sempre maiores que as receitas - soubesse eu escrever números num papel e dava a volta à coisa, mas assim de cabeça é natural que falhe - este ano não temos banda para o bailarico.

Não há problema: o António dos CTT ajeita-se na concertina e faz o concerto de graça (nunca é de graça porque ele tem muitas securas e desforra-se na aguardente).

Tenho por aí um bode velho, é um cabrão de um bode – deus me perdoe – que está destinado às bifanas. Tivesse sido simpático que assistia aos festejos, assim vai fazer parte dos festejos fatiado no pão.

E acho que está tudo tratado. Estamos prontos para receber as nossas famílias.

Espero que venham a caminho.

O farrusco parece mais nervoso que eu (e ainda por cima com a língua colada no palato).

Tenho quatro foguetes guardados da última festa (vai para três anos), que estavam cheios de verdete, humidades acumuladas na loja de estarem ao lado das batatas. Pus ao sol ontem, pode ser que sequem.

Amanhã, quando os meus chegarem, vão ser recebidos a foguetório com o meu assistente a uivar, raio do cão, se fosse aos concursos podia ter sido cantor!

Será que eles vêm?


Puta de vida esta, que os obrigou a partir!”







IV

Estava todo farruscas. O cão assustou-se claro – os pelos ficaram híspidos – e ladroou sem pedir autorização aos pulmões.

- Sou eu farrusco – disse o ti Manel.

O bicho reconheceu a voz do dono e acalmou o pranto. Quanto aos preparos em que este se apresentava não chegaria lá sem explicações mais convincentes. E ele era um canídeo inteligente.

O estouvado do pastor – dera-lhe para ali – cobria-se com uma saca de serapilheira a fazer de casaca, cravejada a castanhas e nozes, com apontamentos de folhas vermelhas. Enfiada na cabeça, uma carapuça da mesma cor.

Cada vez que ele meneava a cabeça, com um guizo a fazer de berloque no carapuço - a dar e dar - a barba, já de si branca, soltava uma espécie de poeira nívea.

O sacana (cogitações do cão) tinha a cara e as mãos chamuscadas de preto. Preto?

- Farrusco, estou de Pai Natal.

O cão, que era o único indivíduo naquela casa que não se chegava ao bagaço, compreendeu o personagem que o dono estava a encarnar. Agora em preto, nunca tinha visto!

Como viviam num sítio ermo era possível que estivesse desactualizado, e guardou essa estranheza só para si.

- Hoje é a noite mais bonita do ano.

- E vamos comemorar como manda a tradição: em família.

O cão que apesar de ter nascido na condição de cão, tinha o seu tino próprio, ficou com dúvidas relativamente aquela afirmação.

A família eram os dois, não vislumbrava portanto motivos mais fortes para que a noite fosse diferente de todas as outras que o ano desfia, já que a companhia era sempre a mesma.

- É uma noite especial, em que a paz e a harmonia baixa ao mundo, a noite do verdadeiro amor - o velho parecia um filósofo.

A rotina desse dia foi a receita habitual: madrugar, pastar o rebanho e os sonhos, e voltar para casa para a companhia do braseiro.

Foi tudo igual mas era possível que o dono, para estar com esta conversa, tivesse abusado na dose do costume. Ou então, outros sentimentos que desconhecia por ser um animal quase irracional, causavam aquela atitude desconforme ao normal procedimento do correr dos dias numa aldeia do abandono.

- Convidei o Zé da mula, que também está casado com a solidão, para a janta.

-Este ano vai ser uma alegria nesta casa.

Agora que olhava melhor, o farrusco viu que a casa estava num preparo diferente. Na lareira - um de cada lado - pendurados dois peúgos velhos, com buracos mais ainda meias. A mesa estava posta – com garfos e tudo - e um coto de vela enfiado no gargalo de uma garrafa bojuda e verde, a fazer de marco geodésico.

O Zé da mula vivia do outro lado da serra – mais de uma hora em bom andar – e era um homem - como todos os solitários - contido nos discursos: não lhes dá uso no dia a dia. Quanto a tudo o resto o Zé era igual a todos os habitantes daqueles lugares: resistente e sorumbático.

Caído o pano da noite, veio acompanhado da dita. O farrusco foi fazendo as honras da casa, rodeando e cheirando insistentemente a híbrida, pondo-se a jeito aos humores instáveis da mula que era um ser de carácter retorcido. Teve sorte porque ela também estava imbuída no espirito da data, e não lhe passou “cartão”.

Ao Zé que via as coisas com uma espécie de nevoeiro permanente em frente dos olhos, pelo que não era esquisito nas apreciações, não lhe passou desapercebida a diferença e não deixou de comentar a indumentária excêntrica do amigo:

- Oh Manel pareces o Baltazar, o rei mago.

- O Baltazar? Porque dizes isso?

- Porque estás disfarçado de preto.

- Então não sou o Pai Natal?
- E porque é que havias de ser o Pai Natal se estás pintado de preto?

- Não era a cor dele?

- Não, essa era a cor do tal do Baltazar. E o Pai Natal não tem nada a ver com essa história, é um gajo do Norte, enquanto o menino Jesus e os personagens todos do presépio, viviam lá para baixo, no deserto.

- Estás a mofar comigo.

- Não estou nada. O pai Natal é um gajo gordo e tem um carro puxado por renas e faz a entrega das prendas. O Jesus, nasceu numa manjedoura- ou parecido – e recebeu a visita dos reis magos, o branco, o amarelo e o preto.

- Onde raio terei ido buscar essa ideia? Olha que se dane! O Natal é como um homem quiser e eu quero que seja assim.

- Até ficas bem.

- Vamos mas é limpar o canal, preparar o estômago para as rabas e o bacalhau.

- Boa ideia Manel, venha daí um brinde.

E começaram nisto, que não se sabe onde acaba, mas sendo dia de festa é de esperar prolongamento.

O farrusco já habituado a ver o dono assim vestido, deixou-se dormitar ao lado da lareira.


- Meu amigo, a comida está pronta, vamos jantar. Tu também farrusco, hoje comes connosco.

- Oh Manel, o que é aquela caixa preta pousada no canto da mesa?

- É o meu neto

-O teu neto? Não o vejo.

- Mas vais ver.

O ti Manel serviu o bacalhau com as couves e as rabas, numa pirâmide a extravasar dos pratos. Comeram calados como fazem as pessoas que estão compenetradas na comida e não têm assunto.

Terminado o repasto, disse o Manel:

- Agora vamos falar com o Manelinho que está na França.

- Como se não tens telefone?

- Ele está dentro da caixa preta. Foi o meu filho Joaquim, que me mandou pelo correio. Já experimentámos e funcionou. Levanta-se esta tampa, carregamos neste botão e o catraio começa a palrar.

- E podemos fazer perguntas e tudo?

- Não, diz sempre a mesma coisa. Mas não faz mal, é bom na mesma.

O Zé da mula desconfiou. Olhou para o cão deitado aos pés da mesa, e este confirmou.

- Estou vestido assim para lhe fazer a surpresa. Os miúdos acreditam nestas coisas.

Por magias que as há, ou outros mistérios por conhecer, apareceu-lhes em cima da mesa um miúdo pleno de vida, aos pinotes e tropelias num jardim enorme com uma estranha torre de ferro cheia de arrebites por cima da sua cabecita.
Fartou-se de falar, e o avô, nas patetices sem sentido cheias de sentimento, que quase todos os avós fazem para os netos, abanou o guizo pendente do carapuço, soprou o pó branco das barbas, ensinou os enfeites na saca de serapilheira.

Estava feliz, era uma grande noite de Natal.

O Zé da mula, perdido de família de pequeno, entrou na brincadeira e divertiu-se à grande. Fartou-se de dizer adeus e desejar as Boas festas. 

O cão farrusco, não apanhou nada: estava estacionado nas traseiras da máquina e só via um quadrado preto pelo que desistiu de ser solidário.

Quando por artes a imagem desapareceu, os dois velhos sentaram-se de novo e encheram um último copo de aguardente.

Depois disso o Manel ficou melancólico e ressonou. O Zé ficou embriagado e ressonou.

No dia seguinte voltaram à sua vida. Tinha terminado o Natal numa aldeia remota e deserta de gentes, num País em que os velhos que não desistiram são pela lógica da ideia, teimosamente resilientes.



Boas Festas vos festejem!