sexta-feira, 31 de março de 2017

PORQUE NÃO SOU JURISTA






Os meus pais queriam que eu fosse jurista, mas escapei-me. Fugi para casa de uns primos afastados que tinham um negócio de venda de bifanas itinerante, numa rulote, na Alsácia. Tornei-me vendedor ambulante. Encontrei o meu caminho e sou feliz, mesmo pagando impostos elevados.

Recebem-me quando venho no verão matar saudades (já me custa falar), mais da terra do que das pessoas, mas não são espontâneos, sei que no fundo nunca me perdoaram. Não foi por não ter sido doutor, foi por não ter sido jurisconsulto, a carreira mais habilitada ao sucesso de todas as que existem, segundo a sua opinião e de conhecidos seus que frequentam a pastelaria “Boca Doce”, na venda de fruta da Dona Joaquina e na farmácia “Central” que nunca conheci o dono, só o empregado que se chama Carlos e é da minha geração.

São capazes de ter razão, descobrem-se jurisperitos , e bem sucedidos, em todas as profissões: ministros quase todos, parece que foram feitos para ministros; políticos e deputados, a maioria, tem um jeito enorme; banqueiros, pelo menos conselheiros deles, inteligentíssimos; presidentes de câmara, menos porque é uma profissão mais popular, ainda assim também os há, a realizarem grandes trabalhos; provedores de misericórdias, se forem católicos, é garantido, e uma misericórdia gere-se bem, tem pouca burocracia financeira; espiões  serviços de informação, foram talhados para isso. Não há ninguém que guarde melhor um segredo e empalme um bom segredo ao inimigo como eles, até devem ter uma cadeira disso na faculdade; presidentes dos serviços municipalizados de água, luz e gás, é um enxame, têm sempre trabalho; chefes de bombeiros, sócios de estilistas de sucesso, donos de restaurantes da moda, cantores, presos, e tantas outras que ficávamos aqui o dia todo a gastar palavras e papel.

Não conheço nenhum que venda bifanas.

É um curso muito completo o legisperito, dá para praticamente tudo, mas eu gosto mais de vender bifanas e inventei um molho único e bastante saboroso que me diferenciou da concorrência neste negócio igualmente competitivo das bifanas no pão.  Já fui uma vez abordado por um advogado que me aconselhou a registar a marca e patentear a receita. Foi tão amável que para facilitar as burocracias, até se prestou a ser meu sócio. Não aceitei, e ele pediu-me honorários pela ideia. Paguei e não foi pouco, não insistiu mais.

Tenho um amargo na alma que os meus pais não compreendam a minha profissão, talvez um dia. Eu nunca duvidei que ser legista fosse bom, mas também há outras vocações com a sua nobreza. Para mim são as bifanas com o meu molho especial.

Na região onde vivo há trinta anos sou reconhecido e nunca vi ninguém a ter preconceitos com as bifanas. Pelo contrário, muitas vezes repetem e comem duas.


Aqui os advogados também são muito respeitados, mas é uma profissão como qualquer outra, têm menos saída.


quinta-feira, 30 de março de 2017

MELANTROPO (palavra inexistente)





É esta sensibilidade que queima.
Doí muito mas não é dor, é um diferente com que nos habituamos a viver. 
Não passa com analgésicos. Não é sensibilidade aos elementos, não é uma alergia.
É um síndrome em abstracto. Sintomas como fogo-de-artificio, encadeados para embelezar o espectáculo dessa não dor que doí tanto.
Inquietações.
Desassossegos intrínsecos.
Tristezas suaves, tão leves que não turvam a continuidade da vida, mas fincam-se para a amargar. 
É a crista dos dias, com abertas de sol, 
por aí numa esplanada de olhos fechados a ver a vastidão inebriante do céu, imaginando- a que a sabemos de cor.

E o que vos amo, que completa tudo!


quarta-feira, 29 de março de 2017

REFLEXÃO: DO BEM E DO MAL






A origem do mal não se sabe, nem a do bem.Podem não ter origem nem existirem.

Aceita-se que uma flor faça essa distinção, a seu modo de distinguir.

É difícil acreditar que um seixo redondo do rio o faça, ainda assim aceita-se a possibilidade, num esforço de acreditar.

O que dizer dos homens, que escrevem belos livros e entopem o mundo de escritos e escritos, sobre todas as matérias?

Finos pensamentos sobre conhecimentos vastos, entendimento das coisas transcendentes e outras, tudo, tudo.

Porque se equivocam tanto nas distinções das coisas? Algumas tão simples e triviais?


segunda-feira, 27 de março de 2017

CHOVE





Hoje chove torrencialmente tudo.

Alegrias, tristezas, e até água, o que complica ainda mais, ensopa os estados de alma. 

Até que sequem, é um aborrecimento, e por vezes fica-se a cheirar a mofo.



sexta-feira, 24 de março de 2017

BERLINDES






Eram berlindes e guelas, os primeiros mais pequenos, os outros, mais vistosos, abafavam os berlindes. Eram de vidro cheios de cor, muitas, com padrões que davam ao girar a sensação de movimento encantatório.

Compravam-se nas papelarias de bairro, pequenas superfícies habitualmente familiares que vendiam de tudo de uma forma absolutamente eficaz e personalizada. Estabelecimentos, não superfícies, designações de um presente deselegante, um nome que soa estranho e é frio.

Os proprietários e os empregados sabiam os nossos nomes. Podíamos levar e pagar depois, numa contabilidade honesta que se fazia no livro dos devedores, preenchido a lápis de carvão. Este calhamaço era uma história do negócio, onde se desfiavam listas de nomes e produtos e datas. Raramente era usado para lembrar os atrasos: ninguém queria estragar relações de boa vizinhança, num tempo em que a honra e a honestidade eram valores não transacionáveis.

Uns buracos no chão com uma distância entre si, medida em palmos de mãos de gaiatos, o jogo do berlinde. Acertar nas covas e seguir em frente, afastar os berlindes inimigos e guelas oponentes. Jogava-se de cócoras.
Como em quase tudo era um exercício de poder em que vencia o mais habilidoso, o mais treinado, o mais concentrado.

Era a admiração, quase reverência com que os miúdos brindavam os vencedores. Havia-os bons e sofríveis, jogadores, e observadores que não tinham sequer assento nos campeonatos, ou por serem demasiado jovens, ou por serem uns nabos, o que também mimetiza o mundo.

Esta distração competia em popularidade com as corridas de caricas nos bordos dos passeios, os jogos de futebol de caricas com as caras dos jogadores da época e as corridas de carrinhos miniatura, lubrificados com umas gotitas de azeite para deslizaram melhor sobre o calcário.

Estas brincadeiras eram de paciência e baixo consumo de energia. As de alto-rendimento eram a bola, os carrinhos de esferas, as bicicletas. Representavam-se todas na rua, o grande espaço sem limites, a ausência de fronteira, a liberdade.

As meninas jogavam outros jogos com mais poesia e delicadeza. Os rapazes mesmo que muito concentrados e entretidos já gostavam delas, mas não sabiam como fazer. Nada havia ainda a fazer, senão olhar de raspão e imaginar, deixar correr os sonhos e fazer encenações mentais de beijos fugidios.


Era assim.


quinta-feira, 23 de março de 2017

LOUCA








A poesia é a louca que admiramos porque diz o que se adivinhava indizível.

A poesia desarma as palavras tíbias ditas em prosa e não pede autorização à consciência.

É rebelde, indomável, mas quando regressa dos seus não esperados passeios não se sabe onde, pomos a melhor toalha de renda para a receber.




quarta-feira, 22 de março de 2017

COPOS E GAJAS BOAS, DE PREFERÊNCIA







De manhã se começa o dia, dizia a minha querida avó, mulher avisada, que vestia de preto, tinha um buço pronunciado e gostava da pinga às escondidas.

Como quem sai aos seus, aos seus sai, já enfiei dois medronhos, para dar energia a enfrentar o dia que dá trabalho, e até chegar ao fim, é uma peregrinação quase religiosa ao botequim do chico. Pelo menos tenho fé em ir lá, é uma espécie de purificação do meu interior.

Agora só bebo sininhos, estou em dieta alcoólica, só pequenas quantidades (de cada vez claro). Não se pode dizer que saia caro. Cada sininho são 30 cêntimos. Um copo de três, cinquenta cêntimos. Apesar de alguém desavisado poder estar em desacordo (está longe, não vê, está mal informado), sou uma pessoa poupada: só bebo um de cada vez.

Se descontar de todos os que bebo, as ofertas, os brindes às efemérides de cada parceiro que frequenta o botequim, e os que o Chico se esquece de cobrar, gasto realmente muito pouco. Sou portanto no Sul, um dos homens mais poupados(mas há quem esteja ainda mais abaixo. O Sul não acaba aqui).

Nunca fui de esbanjar dinheiro, na verdade nunca o tive. Comecei a trabalhar bem cedo na terra, sem tempo para estudos nem letras.
 Depois alguém disse que era melhor deixar de trabalhar a terra. Não valia a pena, pagavam para ficarmos em casa. Só a partir daí é que comecei a ter algum dinheiro para gastar.

Como nunca pude aturar um ajuntamento de mulheres - só para o truca-truca, e mesmo assim apesar de eles acharem, está longe de ser todos os dias - e como é em casa que elas se juntam, para ocupar o tempo livre comecei a frequentar a tasca do chico. Entretinha-me a jogar as cartas, ao dominó e a ver os bonecos do “Correio da Manhã”, posto que não sei ler convenientemente: o pouco que leio, não entendo.

Ora para uma pessoa se entreter tem que consumir, o chico não alimenta a família com ar, é do negócio da venda de bebidas espirituosas, torresmos e sandes de bifanas em vinha-d’alhos.

Não sei o que aconteceu, mas ultimamente só se ouve falar de nós, do medronho, do tinto e das gajas. Isto é uma aldeia pacata. O medronho e o tinto para nós é água e não chamamos gajas às mulheres, chamamos mulheres, e apesar de falarem até à exaustão, gostamos delas não as tratamos como gajas.

De repente vieram para aí jornalistas e televisões, a fazerem perguntas, e sinceramente não entendo o alarido. Nós matamos a sede com prazer e gostamos à nossa maneira das mulheres, não andamos a roubar, a mentir, nem a beber bebidas finas com borbulhas nos salões onde eles vão todos aperaltados apalpar as mulheres dos outros quando vão à casa de banho retocar os beiços, e depois fazem negócios com eles, como se fossem amigos do peito.

Um dia destes ainda fecham a porta do Chico e aí quero ver como vamos matar as horas do dia: só se for sentados à beira da estrada, a ver ninguém passar, que aqui não vem ninguém. Para quê, se isto é um amontoado de velhos e mulheres com bigode?





segunda-feira, 20 de março de 2017

HÁ DIAS MUITO A JEITO





Hoje foi bom. O tempo simpatizou connosco, aqueceu-se, afastou cenários lutuosos.

Foi mesmo o grande acontecimento do dia, a sua mudança de humores.

Do que sobra para dizer é quase nada e displicente: não nasceram nem mais nem menos pessoas do que ontem; algumas vão ser absolutamente irrelevantes na sua passagem, outras não, algumas ainda vão ser híbridas. Do número de mortos contabilizam-se mais ou menos os mesmos da véspera, uns irão a enterrar outros ficam anónimos de como atravessaram a vida com pressa de saírem dela para o nenhures.

Se alguma guerra terminou não se deu conta. Se começou uma nova, daremos conta no noticiário do jantar, mas já é difícil comover-nos.

Crianças órfãs, violentadas, violadas, contam-se por muitas, mas não é preocupante porque ontem e o dia de amanhã dirão uma contagem idêntica.

O número de vilões per capita mantém-se estacionário, apesar dos pessimistas acharem que a tendência é para aumentar. Os optimistas, fiéis à sua fé, estão convencidos que os vilões estão a desaparecer e que o Bem triunfará finalmente sobre o Mal. Não se sabe quando, mas a fé é inabalável, não se questiona e conjuga bem com a razão.

Os melancólicos continuam a fumar muito, vão ter problemas no futuro se insistem e cada vez está mais caro. Os fleumáticos ainda não decidiram se gostam de fado, mas são vistos a frequentar as casas da especialidade. Também marialvas, mas por outras justificações.

Entre uns e outros há uma quantidade estatisticamente omissa de indivíduos que não sabem/não têm opinião. São esses imprevisíveis que descredibilizam as agências de sondagens.

Os amorfos arruínam as estatísticas. De repente alguém sopra-lhes ao ouvido uma mentira piedosa, e lá vão eles, todos, a correr, depositar voto de confiança. Em quê? Não sabem. Depois é no que dá: a quantidade de estúpidos que não para de aumentar e a quantidade de espertos que não para de enganar os primeiros.

“Rating” é uma palavra inglesa, que nem sequer soa bem.

E foi assim, nada de realmente importante aconteceu no dia de hoje, mais um, em que dizem que começou a primavera e nós não podemos dizer que não, porque eles é que são os fazedores de opinião.

Amanhã, apesar da possibilidade de aguaceiros esperam-se boas abertas, mas é tudo uma lotaria, sem aviso o tempo pode carregar-se ainda mais de sombrio petróleo, ou desanuviar, nunca se sabe.




domingo, 19 de março de 2017

IMORTALIDADE







Não me faltas porque te absorvi. Abriguei-te em definitivo na finitude tua, que será um dia a minha. Assim continuará com os meus filhos e os deles. É a imortalidade.



sexta-feira, 17 de março de 2017

PÁTRIA





O meu lugar é uma pequena aldeia por onde passa um pequeno rio sempre a correr.

O rio da minha aldeia sujou-se. Não tem metafísica.

Admito perante todos que não tenho aldeia.

Apesar do rio da minha não-aldeia estar poluído, nauseabundo e ser pardacento, eu não abdico da metafísica.

E gosto da ideia de ter uma aldeia,

com um rio que pode ser riacho desde que desague no mar, dá-lhe grandeza.

Essa é a minha condição fundamental, ter sítio, o resto são pormenores sem importância, como existir ou não uma aldeia com um rio ou não a atravessá-la.


E a metafísica.








quinta-feira, 16 de março de 2017

AS SOMBRAS





É a época em que os homens se perderam da sua sombra.

Rareia a luz que projecta a silhueta preta dos corpos na calçada branca. Orfãos de sombra os homens defrontam o mundo sozinhos e assustam-se.

Algures alguém da condição humana, de querer fazer uma escolha, má, capturou a luz, fez a pior das escolhas.

Não foi ingénua essa decisão.

Pouco se pode fazer agora, a luta afigura-se desgastante e vã. No epicentro da indecisão, nas opções naturais e outras inconcebíveis mas que são opções, entre o estar quieto e dar sinais de vida, e enquanto ainda assim se luta porque é cobardia desistir no que se acredita, a poesia ajuda.

A poesia não é ingénua, nem as artes, nem os engenhos do homem.
É criação e liberdade, e mesmo que o corpo esteja preso, a boca cosida e muda, as mãos algemadas e sem movimento, a arte não se deixa capturar, foge por entre as mãos dos carrascos que asfixiam o vazio e desesperam e urram, brutos, porque por muitos corpos que capturem nunca conseguem agarrar o essencial.

Por vezes é preciso um sofrimento insuportável para voltar a haver luz. Mas nascerá um dia de personalidade vincada, decidido a abrir as portas e as janelas e a escancarar essa ofuscante energia fundamental à vida.

No calendário desse dia, os homens vão recuperar a sombra e completam-se de novo como homens.

Até lá, continue-se a ler poesia, na intimidade ou em voz alta, que eles não entendem o como nos enchem esses intervalos de sonhos e levezas.


quarta-feira, 15 de março de 2017

PASSAROLAR



Era ainda noite parda.

Na insónia apanhei de ouvido, um, ou muitos pássaros.

Não sei se pequenos, se grandes, onde estavam, perto presumo, porque se ouviam bem.

Não havendo árvores por ali, eram pássaros pousadores nos beirais, dos livres e voadores.

Vinham de uma noitada, ou acabados de despertar na antecâmara do novo dia. Não sei.

Pararam temporariamente nos arredores da cabeceira da minha cama, separados pelo lá fora, eles, o cá dentro, eu.

Enleado nos lençóis. Livres e voadores, os pássaros. Presumido de livre mas preso à cama, eu.

Ali, aquela hora, pousados, criaram um lapso de tempo para fazer conversa.

Pareceu bastante tempo, mas à noite nunca se sabe porque está escuro.

Atento, curioso por entender o que estavam a dizer, concentrei-me nas modulações dos seus pios, e identifiquei diferenças.

Julguei até perceber que havia uns mais piadores e outros que só ouviam. Pode ter sido um devaneio, julgo que não.

Quase garanto neste dia que ainda não o era que houve uma conversa de pássaros num bordo de um prédio vizinho meu. Só não sei é se foi séria ou simplesmente libertina.

De que falam eles?

Apreciaria ser cumprimentado por um e responder e continuarmos assim, motivados.
Entrar com as mãos nos bolsos, dos que estão perfeitamente à vontade em qualquer conversa, eles nos beirais, eu no bordo da cama com a cabeça fora da janela, a conversarmos animadamente, pelos fiapos da noite.

Entretinha-me da insónia e falaria de importâncias com alguém, que a esta hora em casa estão em modo de dormir.

Intuo que seja uma língua rica e poética, a dos pássaros.

Amanhã ponho-me à escuta, e vou fazê-lo como um estudante aplicado. Raios se não escrevo um dicionário do passarolar, que me parece uma coisa importante para o mundo!

MACAQUEIO




Num dia assim, sem pretensões, com as brisas suspensas e uma luz despejada, simples, o que logo me apetece é fingir que a vida é bela.

Possuído por essa sensação quente, macaqueio por aí, muito solto, saltitante. Só puxa a gargalhar em grande estilo, um gargalhar de quem não tem contas a prestar.

Quando acontecem esses dias, catrapisco o olho às moças que passeiam pelas ruas - à espera elas de serem catrapiscadas - e mando as contrariedades darem uma volta.

 Dou folga aos dois: aos contratempos e a mim.

terça-feira, 14 de março de 2017

OPERÁRIO DAS FRASES FEITAS







Tenho a desgastante tarefa de escrever frases inúteis. Serão lidas, com sorte, uma única vez. Depois lixo.
Escrevo as frases mais efémeras que existem.
O propósito é mesmo esse, escrever frases sem emoção para serem lidas uma só vez. Não são feitas para se ficar a pensar. Não temos tempo.
Alguém tem que fazer este trabalho, outros, muitos, se puderem arrastam a minha honradez na sargeta para ocuparem esta cadeira. É alimentar o rastilho de um equívoco desinteressante e inventam todo um enredo, com personagens e boas mentiras. Os tempos não estão para facilidades.
É mil vezes preferível ter algum nos bolsos e ser precário, e aceitar enxovalhos do que os ter cheios de zeros. 
Já vi passarem muitos rostos sem expressão por este local. Esqueci-lhes os nomes, se os tiveram.
Tem que se ganhar o sustento, este é um trabalho como outro qualquer. Nem melhor, nem pior, uma forma de ir perdendo a vida a conta-gotas com algum dinheiro para comprar cenouras.
Nunca tenho horas para sair, há sempre novos assuntos para se produzirem frases. É um processo sem fim à vista. 
Não tenho vida própria. No princípio por ser estagiário, queria demonstrar toda a minha motivação. Aceitava escrever tudo o que me mandassem. O tempo passou, fui ficando, escrever tornou-se uma banalidade, como beber um copo de água. Agora já não sei fazer mais nada, sou organicamente inútil no que faço e no que não sei fazer, que é todo o resto de possibilidades que o mundo oferece e que eu desperdicei.
Venho para aqui de madrugada e saio quando tiver que sair, habitualmente pouco antes do dia clarear. Pego a entrada com a saída, o que me dá aproximadamente tempo para um banho, trocar de roupa e olhar com algum desalento, para a cama do meu quarto que tem um colchão de molas com quinze anos praticamente novo.
Nunca fui bom com números. Devo ter escrito uns milhões de frases vulgares. Não me lembro de nenhuma que me enalteça. Não fiquei com nenhuma. Nisso sou como os meus leitores anónimos: só as escrevo uma única vez e passo para as seguintes, sem nenhuma saudade pegada a elas.
O meu trabalho não tem verdade nem mentira. É um correr ininterrupto de frases frívolas.
Falei em leitores anónimos e nem sei se os tenho. Não escrevo para eles. Escrevo para comprar cenouras. E porque me mandam.
Antes de vir para aqui, quando era tão novo que só fazia a barba de três em três dias e fazia uma festa cada vez que descobria um pelo novo no bigode, tinha a ideia romântica das letras.
Era um tempo em que se liam livros bons.
Esta profissão parecia-me nobre. Só me apercebi da minha inutilidade vinte anos depois de juntar mecanicamente palavras. E já foi tarde, desisti.
É bem possível que venha a morrer antes de chegar à reforma, o que me vai facilitar muito o futuro.
A cama, alguém ficará com ela já que está praticamente nova, como disse.
Também devo ser dos últimos, este trabalho não faz sentido. Praticamente já ninguém sabe ler.

DO DIZER




Se adequadamente eu soubesse desenhar as letras que formam as palavras que exprimem as coisas tão belas e todas, escrevia mensagens ternas e de amor.

Perdi esse roteiro, não sei fazer, apaguei a memória dos seus contornos e as mãos estão autónomas de mim.

Nem dizer consigo.

Olho para ti, faço o esforço de tentar, mas estou prisioneiro de uma boca muda.

Apesar da resistência dos meus olhos, a quererem falar em sua substituição, tu não me entendes.

Nem eu do dizer-te o que queria tanto, a ti.

Que esqueci


quinta-feira, 2 de março de 2017

SEMPRE PEQUENO






Mãe por que tenho que crescer se um dia vou ser hipócrita e cínico e corro seriamente o risco de vir a morrer sem ter tempo de branquear essas nódoas que me mancham, soçobrando sem glórias, a uma vida absurdamente fugaz?

Posso ficar a brincar na rua distraído de tudo, mesmo do sol que está quente e agradável e é fundamental, mas eu não ligo nem sei da sua importância?

Não há nem nunca vai haver assunto mais sério e imprescindível que jogar à macaca ou ao eixo.


E se não crescer, não morro.