quinta-feira, 27 de abril de 2017

UMA PALAVRA QUE SE USA POUCO







Mansamente, é meigo de dizer. Doce e pacífico. E quase inaudível: mansamente.

Ninguém no seu juízo se incomoda que nos façamos anunciar nas suas vidas mansamente.

Assim devia constar nos manuais sobre conduta. Um perigo escrever manuais de conduta.

No início, na verdadeira e irrepetível primeira vez de tudo, fazê-lo de mansinho, que pode ser dócil, ou sereno, ou puro, ou só e bastamente de mansinho.

Se for assim, depois não haverá violência.



Será sempre bom assim. E amor.



quarta-feira, 26 de abril de 2017

SORTE







Afastam o sol dos ombros, como a caspa, incomodados, presumidos, porque tudo é fácil, ao pegar da mão.

Outros rangem no frio da sombra gélida, chafurdam na existência, não se aquecem convenientemente.

São as ditaduras do acaso.

A escolha é sempre injusta para quem é triste, ainda mais se for pela tirania das casualidades.

Reclamar é um esbracejar inútil, não dá calor nas articulações.


O tempo que se leva a recuperar da casa de partida, as vezes é nunca.

Os que apanham os adiantados, chegam cansados e ficam-se aí, esbofados, mal tocam com a ponta dos dedos nas costas dos que vão à frente, estatelam as fuças no lajedo escorregadio.




segunda-feira, 24 de abril de 2017

ABRIL EXPECTATIVAS MIL





Temos Abril, um mês a que devemos tirar o chapéu, velhos e novos.

Há uma lista de obrigações a cumprir e nem todos se lembram.

Aqui vai:

Receber condignamente a Primavera. Saudar as flores, os pássaros e a as abelhas, com entusiasmo. Ter fé que as condições melhorem para se ter um grande verão.

Responso:

Sejamos honestos, não temos cuidado dos meses passados como devíamos ter feito. Se as condições estão agora incertas e tremidas, a culpa foi nossa.

No início, quando o tempo abriu, era o espanto, tudo era novo, as pessoas andavam atarantadas. Depois foi o tempo do gozo, de uma liberdade nunca antes experimentada, sem impedimentos nem prisões.

Veio depois da festança o tempo para fazer, eram muitas as obras de renovação, trabalhos a pedirem maestria, o cabo deles, mas tinham que ser feitos. Alguns quiseram continuar em festa e descuraram. Outros abrandaram, acharam que tudo correria bem, só por si. Todos facilitaram.

Depois os que tiveram estas tarefas e responsabilidades em mão, tiveram filhos e como estes nasceram em liberdade e os pais - talvez menos bem - não lhes queriam privações de nenhuma espécie, atafulharam-nos com tudo. Era só pedir, nem isso: bastava pensar que se queria, e logo aparecia.

Os meninos foram assim criados, e crescidos já nem se lembraram mais do passado dos pais, muitos menos o dos avós, histórias longínquas, sensaboronas, a meterem censuras, perseguições, solitárias, castigos vários e muita pobreza, da carne mas sobretudo do espírito.

Abril desleixou-se e como os fenómenos atmosféricos também andam confundidos, deixou de ser o anúncio da primavera, uma estação que praticamente já não existe.

Uns, cada vez menos, os nostálgicos, comemoram este mês e saem à rua para cantar e oferecer flores. A maioria anda na sua vida, aproveita as folgas, faz as suas coisas, tratando dos seus interesses e não está para comemorações de memórias afastadas, a preto e branco com odores a bafio.


Agora é assim Abril, um mês como todos os outros, nem melhor nem pior. Tem trinta dias e geralmente dois feriados que dão muito jeito, um é religioso, o outro absolutamente laico, ainda assim ainda convivem e encaixam no mesmo mês. Melhor só mesmo Junho, o campeão das festas e das pontes, um mês como deve ser: de laréu, e gaitadas. 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O BEIJO








O rigor matemático que se exige num beijo para se atingir os mesmos níveis de emoção de um míssil que alcança a estratosfera enquanto o diabo esfrega um olho, obriga a capacidades diferenciadas: ser bom aluno das matemáticas dos beijos bem dados e aguentar sem falência cardíaca fulminante o impacto do amor, comparado com a projecção a uma velocidade vertiginosa de um projéctil na direcção desembestada do fim do mundo, nome que alguns damos ao infinito do espaço sideral.

Reunidas as condições, um bom beijo é quase a melhor coisa do mundo.


Um beijo para ti, outro. 

Dá-me um tu.




quarta-feira, 19 de abril de 2017

GLADIADORES







Num relampejo, estaremos babosos e sôfregos a baixar os polegares, pedindo a morte dos gladiadores, em coliseus imensos com enormes ecrãs de plasma  espalhados por todos os ângulos, para vermos a morte com detalhe e conforto.


terça-feira, 18 de abril de 2017

DA MORTE






A morte é o lado negro da vida e seja como for quando for, é horrível e não a queríamos nunca se se pudesse não querer.

Mesmo construindo desculpas torneadas e rendilhadas e filosóficas, mesmo com folegos e promessas de imortalidade e paraísos esplêndidos, mesmo que se façam finas poesias com todas as métricas certas e depuradas elegias à morte, é tudo mentira, ou equívoco, ou inútil.

A banalização constante das imagens da morte enjoa, adoece, afrouxa, desliga da realidade.

Chega o momento que se passa para insensível. Ganhou-se imunidade pela repetição do feio.

Mas quando tocar ao nosso lado, a nós, nas redondezas dos que nos cercam, não vai ser insensível, vai ser atroz.

Nesse instante fere forte e fundo e feio, e mata, e acabou-se.

A morte é o acontecimento mais desinteressante e malcheiroso da vida, não há necessidade de nos entrar pelos olhos dentro para que nos lembremos dela, lembrança que dispensamos enviando cumprimentos e saudações e que se faça esquecida pelo maior número de dias que puder ser.

E não é vendo-a até a exaustão que mais sensíveis ficamos, é cuidando das vidas vivas, porque depois, depois é tudo vago e já não se dão beijos.







domingo, 16 de abril de 2017

PÁSCOA







Os meus votos de uma santa Páscoa vão para todos os homens, que se põem constantemente em bicos de pés e levantam os braços com as mãos bem abertas para o céu, não para querem imitar os deuses, mas para ampararem a queda de todos os que são projectados pelos vendavais e remoínhos da vida, coisa difícil de levar.




sábado, 15 de abril de 2017

FUMAR MATA






Eram em número de três, mas a simbologia dos números é um assunto tão distante neste episódio como chamar Pitágoras para a conversa. Acabados de sentar na mesa que quiseram escolher, o restaurante estava vazio por ser Páscoa e as pessoas na primeira oportunidade não vão trabalhar. Se for para comemorar uma efeméride religiosa melhor, todos muito religiosos, mais às sextas e segundas, se der ponte aprofunda a fé.

Sentaram-se e ainda nem pediram nada. O prato do dia é carne de porco à alentejana. O detalhe do prato está na frescura da ameijoa e nos pickles. Se forem honestos com estes dois ingredientes, só com muito azar é que as batatas devidamente fritas e secas não se apresentam aos quadrados crocantes. O porco é simples: temperado com pimentão, uma pitada de cominhos, pimenta preta e frito com um bom azeite, não deixa ficar mal o executante. Há quem ponha louro.

Nem água estava na mesa, somente pratos brancos menos mal, guardanapos de papel menos bem, um garfo, uma faca com serrilha barata, uma colher de sobremesa e um copo multi-funções.

Mesmo concentrado em desvendar um defeito ao prato, não podia deixar de ouvir a conversa.

- Matou a mulher só porque lhe recusou um cigarro.
- Para que é que estas pessoas fumam?
- Se não fumassem nada disto tinha acontecido.
- Se ela não fumasse, ele não a tinha morto.
- Mete-se um gajo em cada carga de trabalhos!
- Fds. Para elas….

Comeram a carne de porco. Com o café, um cheirinho de bagaço na chávena para disfarçarem sabe-se lá que desculpa.

Na mesa ao lado destes três, um livreiro almoça almoçando como todos os dias. Não se lhe ouve a conversa, se calhar literária, mas há muita mistificação. É educado no volume do que diz à sua companheira que pela forma como o olha e atenta ao que ele lhe diz, está compulsivamente apaixonada pelo livreiro.

Não se sabe a sua opinião sobre os malefícios do tabaco mas se é um livreiro que lê livros, será condescendente – há e houve grandes fumadores que apesar desse vício escrevem bem.

Afinal parece que não foi bem assim. As notícias da noite noticiam que ela recusou-lhe um cigarro e emitiu uma opinião que ofendeu a sua virilidade. Em defesa da sua honra ele empurrou-a inadvertidamente para uma ribanceira, onde ela bateu, também inadvertidamente, com a cabeça numa pedra que estava posta no caminho.

os comensais tinham razão, fumar mata.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

AMOR PERDIDO







O destino separou-nos na rotunda do Marquês de Pombal.

O teu futuro subiu a Fontes Pereira de Melo,

O meu a Joaquim Augusto de Aguiar.

Nos dez segundos que o semáforo levou a passar do vermelho ao verde,

Vivemos a mais intensa história de amor.

Não guardo rancor pela separação.

A culpa foi dos dois, não podíamos parar os carros e beijar-nos sofregamente no meio de uma rotunda.

Amei-te intensamente, e tu a mim, que percebi nos teus olhos.


Como te chamas?



quarta-feira, 12 de abril de 2017

O MEU MINIMEU









Feliz estou muito, mas igualmente apreensivo.

O meu filho que não posso nomear nome próprio para preservar a sua intimidade, estava ansioso para viver. Uma vez criado, que seja para viver.

Sete meses no tédio da barriga da mãe, cansadíssimo, com ruídos incomodativos a todo o instante, foi mais do que suficiente para considerar-se fisiologicamente capacitado a ter sucesso numa carreira a solo.

Não posso estar em desacordo com a decisão, uma vida é um tempo tão pouco, se estamos prontos porque não avançar?

Foi o que fez. Obrigou-se a ser parido. Esteve três dias a ponderar as condições e tomou conta do seu assunto: mandou o tubo do oxigénio dar uma volta, achou que continuar no escuro era entediante e contra conselho médico, entreabriu os olhos, que eu, pai, ainda não sei a cor, não lhos vi bem.

Os médicos nem sempre têm razão e o meu filho tem uma personalidade forte. Se quer ver que veja, se quer fazer escolhas fracturantes que faça. Sou adepto de uma educação liberal.

Só há uma coisa que o agasta, apesar de ainda não me ter dito, mas não me estranha nada que numa das minhas visitas diárias à neonatologia, ele, do nada, verbalize o tema: os gorros de berloque e as meias de amarelo profundamente confrangedoras para uma criança que tem carácter e que persistem em escolher o guarda-roupa.


Concordo e estou solidário, mas o que posso eu dizer aos familiares solidários que acham que o meu filho anda a pedir à vida para viver, e que só o vai conseguir com a cabecinha e os pezinhos quentes? Para não lhe oferecerem coisas ridículas que o deixam mal no ambiente dele?

Só espero que se contenha e não me embarace, mas aqui para nós, um rapaz que tem ambições, não se pode apresentar com meias amarelas!"

Amo o Minimeu mesmo como filho oficial e concebido pelo Joaquim do café "as três palmeiras" (um dia vou perguntar porque tem este nome), ainda bem que veio, é mais um a ajudar a levar isto para a frente, que está perro.

Este sítio estava a ficar xaroposo faltava alternância. 


terça-feira, 11 de abril de 2017

DO AMOR

Amante com um grande potencial por realizar e 
não se percebe porque ainda não teve sucesso.



O amor é o tema mais empolgante dos ritmos do coração, os outros são obrigações de músculo.

O amor é uma ponte suspensa – um cabo de aço tenso – entre a suposição e a realidade.

Permite dois caminhos bi-unívocos.

Não há bons nem maus funambulistas, ou os candidatos se equilibram e não mergulham de cabeça no grande vazio, ou o mergulho é o desfecho esperado, sem que se saiba, para não desmoralizar os equilibristas quando dão o primeiro passo.

É no pingue-pongue dialético do amor-desamor que nos atrapalhamos a todos os momentos. É o mais complexo dos desafios e não é controlado pela cabeça - dito a frio para que fique dito.

Continuando: é nos ângulos das ruas que se chamam esquinas de amor-desamor (que pode ser júbilo-abandono) que tiramos as medidas à vida, fazemos bainhas, às vezes ficam curtas.

Pode-se optar por ver televisão.

Nas influências do amor pairamos nas nuvens ou sentimo-nos miseráveis,

Indiferença é uma palavra que não encaixa: um truque dos débeis para se acariciarem a si mesmos.

É sobre este tema enciclopédico que estamos continuamente a ir a exame, uns com nervos outros desleixados.

Disciplina que se estuda a vida toda.
Não há outro assunto mais sério, nem piada mais bem conseguida. Exige mais conhecimentos do que o futebol.

Amor, dóis tanto!

Amor, gosto tanto!


Amor, urticárias-me tanto!



GALERIA DAS CURIOSIDADES - capítulo 2



Hoje deitam-se as vistas sobre a pintura e o desenhos, pendurados nas paredes, encostados a algo, em cima de algum objecto que pode ser uma prateleira, um móvel, uma qualquer coisa que sirva a função.

Neste proto-museu, o curador é o criador, é dos poucos armazéns de arte onde não há luta de classes.

Apaixonado quase por igual por todos os seus feitos, as obras, os seus meninos, não escolhe uns e outros não: expõe todos.

O visitante que escolha por si e sem guião, que o criador não tem explicação para o que criou nem história para contar.

É um pantomineiro, de belas pantominas.





o sítio





Pontas soltas




Um tio afastado de perfil, uma certa exposição em Setúbal há muitos anos, um lutador de Sumo.




O tal tio muito afastado.




Rostos





Amigos do estrangeiro.





Riscos que podem se fios soltos de um tear,não se sabe.





Assinatura





Caras de conhecidos e amigos.





Pensos nos orgulhos feridos






haverá mais conversa....


segunda-feira, 10 de abril de 2017

SOBRE ESFERAS




Os carrinhos de esferas, isso sim é uma memória épica.

Tínhamos um entrave logístico que deu muito concílio e não foi fácil de resolver: o plano inclinado. Sem um não havia corrida.

Analisámos, da forma que as crianças analisam as coisas, que é a de não haver complicação nenhuma e avançámos, porque o importante é a brincadeira e para isso todo o tempo era pouco.

Os que tinham dúvidas sobre o pano inclinado e ficaram ainda a pensar, eram os panhonhas, e ainda hoje são, se bem alguns tenham conseguido sucessos, diga-se financeiros, não se percebe bem porquê. Os desenrascados queriam brincar, sem mais planos nem reflexões esdrúxulas. Alguns destes, eram tão desenrascados que depois de feitos, vida feita e tudo, tiveram que emigrar para pagar as contas dos anti-histamínicos – pela hora da morte – dos filhos. Voltaram para África, desta vez com Vistos de permanência reduzida.  

Só podia ser na rua dos Altos Estudos Militares, que tem uma inclinação apropriada - nem muita nem pouca - o alcatrão era de primeira qualidade e o tráfego automóvel é escasso e a maioria dos carros que circulam são de conhecidos. Também não havia mais alternativas já que as outras ruas eram de paralelipípedos de granito e naquela fase do nosso desenvolvimento cognitivo desconhecíamos a existência das suspensões.

Para se ter uma ideia melhor, esta rua, que não se chama assim, é murada à esquerda de quem desce por uma parede a todo o comprimento, uns trezentos metros.

Como antigamente o terrorismo estava todo concentrado em África, vá-se a saber porquê, toda a agente andava perfeitamente à vontade nas ruas dos outros sítios. Por cá só não se podia falar em voz ciciada nas esquinas das ruas. Sendo crianças desconhecíamos esses impedimentos. O simples facto da presença de um polícia, mesmo que barrigudo e com nódoas no dolmem cinzento-rato, era suficiente para dar por finda qualquer tentativa nem sequer começada de rebelião. De cacete em riste e a cara, de bigode farto, na cor de pimentão doce de soprar no apito da ordem, um só polícia fazia a harmonia do mundo, o mundo tão ingénuo das crianças.

O muro era suficientemente baixo para poder ser galgado e observarem-se panoramicamente os belos aviões-caça e os tanques militares que juntamente com árvores e outras verduras, constituíam o jardim com estátuas da escola dos brigadeiros e dos generais, sempre em grande número, estes e não as estátuas. De vez em quando, muito de vez em quando aparecia um soldado sentinela, que tinha vindo de uma aldeia de se demorar um dia a chegar. E tal tinha sido a sua fortuna – uma lotaria - de vir cumprir ali, com jardins, e boa cama e comida de primeira, que o melhor era fingir que não nos via. Eramos gaiatos, inofensivos, e podia ser que algum dos salteadores do muro fosse filho de general, para quê arranjar complicações?

Se de um lado da rua era assim, do direito era uma fila de pequenas e belas vivendas brancas, sem pecado, muito compenetradas de serem assim tão singelas, num bairro típico dos tempos em que na nossa cidade havia bairros por profissões.

Só nos lembrávamos dos carrinhos de esferas de vez em quando, era um cardápio inesgotável de jogos e invenções de novos jogos, que ocupavam todo o tempo livre até ao anúncio da adolescência. Depois, entrou-se noutro ciclo das nossas histórias, não menos glorioso.

O maior prazer estava na antecipação, na fase da preparação. As rodas, feitas de rolamentos eram a peça mais importante e a partir daí imaginava-se a estrutura do carrinho de madeira. Um problema técnico complicado de resolver era o da ligação do semi-eixo dianteiro com a estrutura central do carro: uma prancha simples de madeira tipo tábua de engomar. Um prego, dos de jogar na areia era a solução mais prática. A direcção resolvia-se com uma corda presa no semi-eixo dianteiro. Para quê complicar se era um desafio efémero que acabava quando os carros se desmoronavam ao fim de meia dúzia de descidas.

Alguns, mais avançados na experiência de construir carrinhos de rodas, colocavam um assento na prancha, que era geralmente um bocado de espuma, mas isso era um luxo.

Não se pode dizer que não havia acidentes, mas naqueles tempos um miúdo decente tinha os joelhos e os cotovelos com mazelas. Eram os sinais orgulhosos de que só se é criança uma vez.


Tenho a sensação vaga ou estarei a sonhar, mas acho que uma vez despistei-me quando estava bem posicionado para ganhar uma corrida. Foi a Filipa do primeiro direito, que ou me piscou o olho ou o estava a coçar. Convenci-me que era para mim e andei pintado de mercurocromo durante uma semana.




sexta-feira, 7 de abril de 2017

SEXTA-FEIRA DIA DE POESIA







Hoje é sexta-feira
Dia de poesia.
Ė o único motivo e é plausível.
Não fosse sexta-feira,
Um dia que fecha os olhos a rimas e métricas,
E apetecia dizer MERDA.
Os dias não estão para simpatias.
Merda não rima com nada pelo cheiro.
A não ser hoje ser sexta-feira, e estarmos convencidos que só a chuva quando queremos sol, pode estragar os nossos panos de felicidade, 
Deixamos a merda para depois.
O mundo só se desconjunta nos dias de semana.
Nisso é formal..

GALERIA DAS CURIOSIDADES - capítulo 1



Esmiudamos o Gabinete das curiosidades, para os lados da Atalaia, ao Bairro Alto, onde o artista recriou um proto-museu romântico.

É um lugar simples de estar, um estabelecimento que será de comeres onde entretanto um "ocupa" faz pintura no ritmo lento do bairro, meio-adormecido nos dias praticamente em suspenso, na expectativa, sempre a mesma, de noites movimentadas.


Aparecem fugazmente alguns amigos e desconhecidos, ficam a usufruir e desenrolar palavras que tricotam conversas, algumas interessantes, se não forem só monólogos, e silêncios, que os há no intervalo da música companheira inseparável sempre a fazer-se ouvir.


Passa também por lá uma fotógrafa, enfunada de sensibilidade e bom-gosto, e capta momentos.


São esses momentos que apresentamos nesta galeria improvisada.


Espera-se que as fotografias-quadros estejam bem penduradas - inclinadas não estão - com a ordem que não é nenhuma, é a de serem todas boas.


O Pintor é o Paulo Robalo, a fotógrafa a Cláudia Teixeira:




uma espécie de declaração de princípios



Ele, a fingir-se num escritório sério



uma colecção de inutilidades úteis



A sala de receber




O processo criativo é um arremedo de loucura




Pintar, é intervir






camadas, sobre camadas, contextos e textos em mil-folhas, vistos à lupa



Pormenor




Uma cabeça decapitada, ou talvez desanuviada





Ambientes








amanhã continuamos....












quinta-feira, 6 de abril de 2017

O GABINETE DAS CURIOSIDADES













Semana 1

Bricabraque, armazém das coisas inúteis, cemitério das recordações, colecção incoerente, casa das estranhezas, exposição do esquecimento, salão das curiosidades, ajuntamento de extravagâncias.
Há uma mistura de odores velhos, difícil de identificar. Perfumes bons e rascas, tabacos de latitudes várias, muitos mofos.
Faz um nevoeiro permanente na sala de grandes paredes altas, com uma cor indefinida. Absorveram-se os odores com os pigmentos da cor original que as cobria, não se recorda quando, desde há muito, sempre foi assim, transformando-a numa cor única, irrepetível.
Presos ao tabuado corrido muito gasto de muito pisado, agradecido depositário de camadas de cera cuidadosamente puxada a brilhos anos a fio por mãos experientes, estacionam sofás de veludos fortes, igualmente esbatidos e que merecem o respeito do tempo.
Almofadas com motivos de tartans das ilhas de sua majestade, ajudam os corpos a ajeitarem-se e encontrar posição. Alguns parecem estar ali sentados desde sempre, é do ambiente que se alimentam.
Cortinas drapeadas de cor damasco controlam a luminosidade que passa pelas janelas, pintando um ambiente claro-escuro, cheio de sombras, imagens equivocadas, que se enganam entre si porque não são reflectidas por luz suficiente.
Homens e mulheres, habituais, fumam, dão golos espaçados em copos de vidro trabalhado, conversam a tempos pausados.
Uma languidez quase sensual cobre por inteiro este cenário e os seus actores.
Ninguém admira os objectos expostos, estão impregnados deles desde tempos imemoriais, sabem-nos de cor, são o acervo artístico das suas vidas, o que reuniram e agora disfrutam nos intervalos do nada, resumindo-se a estarem presentes, no gabinete das curiosidades, antecessor snob do museu das massas, de acesso escolhido e ambiente com reserva do direito de admissão.
Os presentes e os que agora faltam, definitiva ou temporariamente, falam sobre arte, esta não é democrática.
Um intelectual com auto-estima é um ser insuportável e enfadonho, arrastam-se alguns neste salão, ponto de encontro, abrigo. Há, no entanto, indivíduos normais que o frequentam e também pintores excêntricos, poetas loucos, músicos que habitam nas esferas e só descem à terra para conviverem mudos neste lugar.
Procuram a terapêutica do belo e encontram esse descanso que pinga ritmadamente pelas paredes e nos sons quentes que emite a grafonola, instrumento moderníssimo: uma orquestra completa dentro de casa.
Não se disse ainda que o salão está repleto – todos os espaços têm um residente – de obras de arte, e uma mistura eclética de objectos insólitos.
O convívio de almas gémeas arrasta-se noite dentro, faz-se luz acesa nas trevas, e eles vão ficando, e bebendo, e fumando e conversando espaçadamente, no seu gabinete das curiosidades.
No dia seguinte voltam, nunca saindo do mesmo sítio.









Semana 2

O corpo e a linguagem que desenham o seu contorno físico e o seu movimento, são esvoaçantes. Ao mesmo tempo dão a ideia convincente que têm raízes fundas, emaranhadas no húmus, como se fosse possível haver um ser assim: acólito do ar e discípulo da terra, dois rivais endiabrados.
Com imaginação diríamos ser uma árvore, o ser mais próximo e que melhor convive com esses estados da natureza. E tanto podia ser uma árvore que os seus cabelos fartos e insubmissos crescem fazendo parecer ramos, e o corpo não sendo forte, é rijo, aguenta ventos e anti-ciclones, mas também tem a plasticidade da dança.
Tudo nele é essa mistura de dois impossíveis: o delicado e o agreste.
Mas não é nada disso. É uma divagação do observador a deixar-se ir nas meadas do pensamento.
É só um homem que pinta. Um homem quotidianamente banal, até que veste as roupas do artista nas horas em que pinta. Aí é outra coisa, sem nome ainda não correctamente inventado que corresponda na perfeição do entendimento dos outros a esse estado intermédio, ou misturado, de um homem quando pinta.
Este homem-árvore-artista é do nosso tempo, uma actualidade. O espaço que ele neste momento ocupa já foi cosmopolita, num bairro de divertimentos.
A sua presença aqui neste espaço e neste bairro será efémera, como é o caminho das coisas todas em direcção ao futuro.
No entanto, quando o observador sentado num banco pouco confortável, vê os movimentos desse homem e escrutina o espaço e as paredes - mais ainda sabendo por aviso antecedente que ele iria estar ali por tempo efémero, num retiro só a si dizendo respeito - tem a sensação forte do passado, da época em que os amantes da arte e os seus executantes, colecionavam objectos aleatórios, construindo um bricabraque inusitado nos seus ateliers, ou salões de tertúlia.
Este homem está ali no Bairro Alto, num espaço que um dia voltará de novo a ser qualquer coisa, e está a resgatar memórias e a criar memórias futuras, dois trabalhos que pedem um grande sacrifício e honradez.
Forra as paredes sujas com essas memórias, reconstrói um roteiro interior, a sua história contada na sua pintura através da sua pintura.
É neste ambiente purificado que os amigos e os transeuntes chegam com intuitos de cavaquearem, pincelarem o olhar no exposto, ou simplesmente para se silenciarem.
Juntam-se e vão ficando por ali. Entretanto, ele continua imperturbavelmente a catalogar o seu acervo pessoal, preenchendo as paredes.










Semana 3

Como em tudo, há bons e maus catálogos de escolha de nomes de ruas, e acumula-se (as que se aceita porque o ritmo das mortes não acompanha o ritmo de crescimento das vias públicas) uma quantidade inesgotável de indivíduos famosos e outras toponímias que aguardam a sua oportunidade de virem a ser escolhidos para darem nome às mesmas. Umas têm inauguração e pompa, outras de forma mais discreta sem foguetório.
Uma vez benditas as ruas estas vão há vida, e como seres sencientes, vivem mais ou menos tempo, por decisões que não se alcançam e não interessa saber.
Todas escrevem uma história com créditos dos moradores, dos transeuntes atentos ou distraídos, das fachadas dos prédios, dos negócios e outras coisas que não se enumeram por desconhecimento da sua existência.
Algumas ruas tornam-se importantes, reconhecidas, dadas a vénia. Outras ficam-se pelo caminho, ganham apelido mas são desinteressantes.
Ruas disto ou daquilo.
A rua de que se fala situa-se no Bairro Alto, “da Atalaia” e dela nos dá conta em letra sensual, o olissipógrafo Norberto de Araújo nas "Peregrinações em Lisboa" volume VI página 46:
«A Rua da Atalaia, onde anda o pitoresco do sítio, no semblante dos edifícios, nos prédiozinhos côr-de-rosa, de ressalto e empena de bico, nos velhos palácios adormecidos sem fidalgos, com a sua nota de poesia e côr nos canteiros floridos das sacadas, com o seu tumulto, os seus pregões, e as suas travessas e botequins.
Aqui temos na esquina a Travessa de Água de Flor, lado direito, descendo, um dos mais antigos estabelecimentos do bairro: «a casa das Iscas», no número 165. Na esquina da Travessa que vai aos Inglesinhos fica o antigo Palácio Relvas, onde habitaram os Condes de Atalaia; o primeiro andar é desde há muitos anos sede de sociedades de recreio. Na esquina fronteira, com face lateral para a Travessa da Queimada, esteve o jornal [O Diário] fundado por redactores do [Século] em 1903.
Estamos no cruzamento da Travessa do Poço da Cidade.
Poço da Cidade - porquê? Porque aqui haveria um poço público. Existia mesmo mais de um, e em algumas casas desta Travessa existiam ainda poços particulares».
Descrições belas como esta, em maneirismos agradáveis de ler, saídas dos tempos em que se usavam aparos de tinta azul, românticos, elegantes no escrever, e palavras com mel que flutuam, flutuando na nossa cabeça, muito depois de ser lidas ou ditas.
Hoje já não há iscas, nem fidalgotes com pergaminhos, mas sociedades de recreio sim senhor, continuam firmes no local.
Até há pouco tempo, a Atalaia foi sede de um lupanar das papilas gustativas – lupanar sim - de gastronomia se fala, uma galáxia de estrelas. Lisboa ainda estava em desmoda, e o sítio do “Papa Açorda” foi durante anos uma das mais fiéis peregrinações aristocráticas da cidade.
Mudou-se de endereço, não faz mal, outras delicadezas nascerão nesta rua que é dada a partos de bem comer.
A Atalaia mantem-se uma rua do Bairro Alto, fanática durante as noites meio-adormecida no passar do dia, onde um certo armazém de esquecimentos, assiste a uma colagem nas suas paredes, de pinturas e desenhos presos por um fio invisível de Ariadne.
Não se assustem que esta crónica não tem monstros, nem grutas labirínticas. O fio de que se fala, é um fio simbólico que liga o artista com a sua arte. Dir-se-ia talvez melhor dizendo que é uma teia, que une as obras, uma narrativa com uma coerência própria.
O que este gabinete está a colecionar- para que outros olhos os vejam - são relatos da matéria humana, feitos à mão, desenhados, pintados, umas vezes linhas ténues, outras tempestades e tormentas de cor e texturas. Presos à terra, no entanto a tentarem uma escapadela para o ar.
Cada parede desta loja apresenta um ciclo, mas não é bem assim: nesta arena joga-se um jogo do sim e do não, da cara e da coroa. Tudo tem o seu verso e reverso. Representa-se a lógica do caos, afinal a lei mais universal de todas as universais.
O artista vai laboriosamente colando e ligando, para pleno desfrute do seu grupo, cada vez mais numeroso à medida que passam na rua, olham as montras, espreitam para dentro, e nesta curiosidade humana entram para admirar.
Constrói-se um proto-museu, na rua da atenção.











Semana 4

Num relance, distanciado, transmite a sensação de uma figuração abstracta, se isso existe com esse nome.
Todos os rótulos são redundantes apesar de alguns darem bons nomes.
Não se olha uma só vez. Repete-se para confirmar a impressão, forte. Fica-se a pensar nisso insistindo olhar.
É uma pintura de dimensões, pede espaço para se mostrar. Não é só uma pintura, é um ambiente.
O que no primeiro relance oferece uma amálgama de cores e texturas - uma representação do caos - logo se enriquece de contornos com a atenção. Vivem personagens dentro dela. já os podemos vemos agora, focando ganha-se nitidez, percebe-se. Uns penetram-se de outros; uns têm vários rostos dependendo da posição; uns são seres imaginários, meio-homem meio-bicho: coisas com vida.
Há também objectos espalhados aleatoriamente ou se calhar nos sítios certos. Objectos símbolos. Desenrolam-se à frente do observador cenas ritualistas, episódios de mitos humanos, ou somente a apresentação crua com movimentos plásticos querendo invadir o espaço exterior das telas, a tomar posse do real, de corpos de homens e mulheres, em esgares de qualquer coisa que não se entende muito bem. Talvez cumprindo esses rituais, num universo pessoalíssimo e fechado.
O corpo, a condição que o enforma: uma pessoa.
Estão igualmente representadas as geografias do mundo, e por isso também podia ser um livro de esboços de viagem, em tamanho de grande escala. Sempre aberto, as folhas do moleskin estão expostas nas paredes de uma casa-museu de objectos do efémero.
Aqui e ali, salpicando esquinas e rebordos da habitação, caras em molduras. Nenhuma olha directamente para nós.
Lançando o contraditório e aguçando a curiosidade, uma lupa na ponta de um braço telescópico, sustida à terra num tripé da altura de um homem adulto, convida o espectador. Esse objecto encontra-se ali por brincadeira, ou tem algo para revelar?
É irresistível.
Aproximando um olho muito aberto e o outro fechado, como ditam as regras de se ver à lupa, descobre-se um novo mundo, entra-se no cosmos da pequena escala, onde se desfia toda uma outra história, de pormenor.
" Nada do que parece é, neste gabinete de curiosidades numa rua sentinela do Bairro Alto"







Semana 5

O gabinete das curiosidades podia ser uma biblioteca dos livros improváveis.
A arte tem uma grande simpatia pela palavra improvável, uma “ocupa” espaços em branco. Quando se nomeia, aparece de imediato, acenando obscenidades nas costas dos protagonistas. É por isso desdentada e inconveniente para alguns. No entanto faz-se anunciar resguardada por uma mantilha sevilhana, adensando mistérios, o que põe as pessoas com a pulga atrás da orelha.
O epifenómeno que está a acontecer nesta esquina da rua da Atalaia que de momento nos interessa, não é então uma biblioteca, é a antecâmara de um museu pessoal.
A colecção do artista: do que fez e do que juntou como objectos do agrado, ou portadores de um algo com significado pessoal, ou somente lembrança, num momento específico na história dos dois. As pessoas têm todos os gostos: umas juntam tralhas, outras recordações, outras criam utopias, outras lavam a memória com creolina para recomeçarem tudo de novo. Estes acervos são as suas colecções privadas, espelhos dos rostos dos seus depositários.
Os livros e as pinturas têm – entre outras afinidades- duas coisas em comum: São manifestações únicas e originais, vindas de um âmago humano. De um ponto, tão dentro, que não se identifica, nem se sabe onde nasce. Não há nenhum outro ser com esse talento: de construir um objecto – mesmo imaterial, como a música – a partir de uma abstração que ganhou forma e sentido num pensamento.
Os homens podiam viver sem a arte, ela não afecta o andamento do mundo. Mas tornavam-se surrealmente irrelevantes. Parecidos com outros mamíferos - as aves por exemplo, bonitos sem dúvida - mas sem instrumentarem a subtileza do ser, no talento inexplicável de criarem o Belo a partir do nada. Sim, a arte mesmo criando o feio, é um imperativo do Belo.
Nesta espécie de arquivo de memórias a céu aberto, não há portanto livros. É o reino da imagem, que vale tantas palavras quantas estas se valem a si próprias em dias difíceis, desconsideradas do seu valor.
Neste muito particular gabinete de curiosidades (tudo isto pode ser um sonho) paira no ar uma revolta, contra a tirania. À socapa do dono, as pinturas conferenciaram com as palavras, convidaram as fotografias e tomaram a decisão por unanimidade da sua própria autonomia, vão a partir de agora, seguir caminhos seus.
O guardião e criador ainda não foi notificado, vamos ver no que isto vai dar. Uma coisa é segura, antecipam-se despiques acessos e picardias. Cenas de ciúme, egos feridos, vitimizações, cobrança de créditos.
Pais e filhos só mais tarde se entendem nas questões das dívidas de gratidão. É o caso destes.
Cada um com os seus argumentos, querendo mostrar mais que o outro, e melhor.
Faça-se o refinamento da Palavra: isto não é uma revolta, é uma sublevação, a vontade legítima de independência que toda a arte anseia após ser criada: dar os seus passos sem tropeçar no andar do criador, cada um aos seus afazeres.
Este artista em particular, é agarrado às coisas suas pelas quais nutre um amor são, mas é homem de aceitação fácil. Acabará a reconhecer o desejo das suas obras. Não é por isso de estranhar que um dia não marcado, chegue ao atelier-gabinete, e o encontre vazio. Os objectos desanuviaram-se, todos contentes rumo ao futuro.
Ele encaixa bem e não é de fazer comentário, muito menos amargo. Seguirá adiante, na sua vida. Voltar a pegar num pincel, e começar mais um início, pintando uma tela com uma ideia que acabou de relampejar na cabeça.
Até lá, visite-se o Gabinete, troquem-se impressões com os residentes, desfrute-se da música, e se por uma casualidade daquelas mesmo casuais, se tropeçar com um livro, não se estranhe: alguns, mais cosmopolitas gostam de um boa peça de arte, pelo que deambulam por estes meios, a absorver ambientes, como se fossem gente séria.







Semana penúltima do fim. Rua da Atalaia 31

Não há melhor forma para terminar do que abolir as portas. Assim mesmo, dessa forma teatral e exuberante.
Na curiosidade já impossível de aguentar, dos transeuntes e os do bairro que por ali passam e se detêm a admirar as montras ou a espreitar descaradamente, imaginando coisas, congeminando sabe-se lá que falsidades, chega o momento que não se aguenta mais: ou o gabinete fica para todo o sempre um espaço esotérico, fechado, grupal, ou abre braços aos desconhecidos.
Todos os dias a passarem, são merecedores de usufruírem de um convívio próximo com a exposição desordenada numa ordem que só o dono sabe, conhecerem e confraternizarem com a estranha e excêntrica fauna humana que ali co-habita, na parte cinzenta do dia que é o seu ocaso, em tertúlias estimulantes, por vezes intelectuais, outras completamente banais, balanceadas com conversa, música e os efeitos deletérios de um copo.
Resume-se tudo a dois ou mais dedos de conversa entre amigos, rodeados de um ambiente familiar.
No gabinete vivem em boa harmonia e sem conflitos sociais, uma motorizada que está embaraçada – como os espanhóis dizem da gravidez -, cabeças de madeira que são moldes de chapéus, pés de madeira que são moldes de sapatos, coisas aberrantes e meio malucas.
No meio de isto tudo, o pintor - ser teatral - espalha pelo ambiente a meia-luz, os seus odores de demiurgo de inutilidades: uma designação honesta para se falar da arte.
Para ilustrar, um escriva escreve as crónicas deste reino irreal que existe para os lados do Bairro Alto. E para que não se diga que tudo é mentira, uma fotógrafa de mão cheíssima de talentos, fabrica a reportagem do que se vê na Atalaia, criando outra obra de arte, e cortando fôlegos no que capta.
Anda tudo assim: à volta do mesmo, que é dizer: preencher com inutilidades belas os vazios quee deixam no caminhar as marcas dos nossos sapatos.
Esperem um pouco, só mesmo um pouco mais, que estão quase a serem actores desta historia.