quarta-feira, 31 de maio de 2017

POESIA SEM PALAVRAS





Em dias como hoje,
Não há nada para dizer.
É a poesia sem palavras.
E há quem diga da poesia,
Que em dias como hoje
Está a mais com palavras.
Com um dia assim concordo,
São redundantes, ambas.
Só de sentir o calor na pele, pleno-me.
E todo o meu reservatório de prazer,
O intelectual e o do corpo
Basta-se com o calor, sem poesia nem palavras,

A súmula das duas.



terça-feira, 30 de maio de 2017

GÉMEOS





Dois seres iguais, diferentes em pequenos acabamentos. Observadas com método científico, as diferenças, milhares, conseguem-se estabelecer. Faz-se um levantamento topográfico do que os desiguala. São tantas que se poderia dizer de tantas quantas as de outros dois seres que em nada se possa dizer que são iguais.

No entanto, num primeiro olhar ou num olhar assíduo  num convívio amiudado, são sempre difíceis de distinguir, apesar de se poder dizer que alguma coisa de diferente têm, de tão parecidos que são. Qual o nome correcto a aplicar a cada um, sem engano, sem vacilar? 
Neste ponto afloram equívocos, embaraçando quem pronuncia e quem recebe o nome trocado.

Seria legitimo dizer que eles, de tão habituados ao engano, a afectação da troca do nome não afectaria nada. Mas não, é doloroso ser constantemente chamado pelo que não se é.  Um nome é uma identidade, errar na invocação é não reconhecer a impressão única de todos os que encheram de nomes próprios os assentos de nascimento.

Com tudo isto, não há ninguém tão singularmente igual a um semelhante que podia – de semelhante que é – ser o próprio, multiplicado em dois. Pensa um, pensa o outro; um sente, ou outro sente; têm premonições, intuições à distância, telepatias se existem, em círculo fechado de dois.

São assim os gémeos. É poético, alimenta sonhos e histórias. Para os mais positivos é um encher de peito, verem-se assim repetidos. Para os de género fleumático, quando em dias chuventos, lhes dá para olharem para baixo, é o contrário: olha-se para si que é o outro com a vontade de não o querer ver. Mas não pode, porque um dos dois ou os dois, está sempre presente em si.





sexta-feira, 26 de maio de 2017

DIPLOMACIA





A diplomacia é a disciplina prática da acção humana politicamente correcta, que mais danos colaterais causou em todas as recensões históricas da humanidade.




quarta-feira, 24 de maio de 2017

A HIPPIE, DE NOVO





No jardim que frequento desapareceram – não as vejo há mais de dois dias – as mulheres que leem livros, absortas.

Deixaram de estar sentadas, pelo menos nos últimos dois dias a lerem livros alheadas das pessoas, como eu, que estão no jardim só para comentarem factos inabituais, como este.

Elas podiam distrair-se mais saudavelmente só em olhando, por exemplo, para os melros,os pardais, outros de nome não conhecido,ou até os cães domésticos a cumprirem os seus curtos passeios higiénicos.

Mas insistem em ler!

A dizer isto, e uma das duas que leem, acaba de chegar.

Em espírito de missão, faço uma inquirição discreta. Pago, levanto-me sorrateiramente da mesa da esplanada inflacionada e má - mas é uma esplanada concessionada num jardim, não podia ser boa.

Finjo que vou inspecionar um insecto que só eu vi no "National Geographic" - que existe, inventando-o eu - no relvado por trás dela. Aproximo-me pelas costas e ela sem dar conta, todo o corpo concentrado na leitura do livro, absorta.  Eu tão perto de conseguir ler o título, quando muda de página. Está forrado com uma capa de tecido protector  de gosto pessoal que ela, ou alguém próximo, costurou.

Volto atrás, derrotado, continuando a considerar que há ali uma anormalidade. Ela, desarmoniza o equilíbrio deste jardim lendo e alguém tem que tomar uma posição por todos. Gosto, que me atribuam, atribuindo eu este tipo de papéis importantes - a minha utilidade para a sociedade está nestas coisas.


Amanhã utilizo uma estratégia diferente: sento-me no preciso e geodésico ponto onde ela o faz todos os dias, menos os últimos dois que não. A ver no que dá! Se desiste e restabelece a harmonia deste jardim, ou resiste e então temos problema.

Ela há de vir cá parar! onde já se viu, na arrogância de ler , provocando a pacatez das pessoas!!



segunda-feira, 22 de maio de 2017

ASCENSORES





São três a disputarem a pulcritude das ascensões às alturas, que para baixo todos e mais os santos ajudam. A subida é pouca, somo merenscórios (melancólicos, para dar oportunidade a palavras que ventaneiam pouco) e pequenos, obedientes à escala humana, inclusive nos altos e nos baixos. Seja como for, uns cem ou duzentos metros no altímetro, acerca ainda assim as pessoas do céu ridente e de um azul que os locais dizem ser só seu – se é isso o patriotismo, seja esse azul o mais belo de todos - a pintar esse espaço infindo, nesta cidade de Lisboa nos meridianos dos fins das Europas.

Andam os três em disputa desde os finais do século dezanove, quase clubes de futebol, que depois de ter sido escrito duvida-se da escolha do exemplo que não é dos mais apropriados!  

A sua missão nos tempos arcaicos – quando o  interior das carruagens se iluminava tenuamente com luz de velas, e o sistema de subida-descida se fazia por contrapesos em depósitos de água nas próprias carruagens - era aproximar as pessoas locais dos seus lares antes e depois da lide dos dias.

Ligações rápidas da rua de São Paulo abraçada ao rio e ao Mercado da Ribeira; da Baixa, dos grandes escritórios, dos serviços, do comércio. A Baixa e o Chiado eram o centro da cidade, o espaço cosmopolita. Os bairros eram aldeias onde as pessoas dormiam e repousavam dos seus aporrinhamentos. Lisboa era uma colagem de “Portugal dos Pequeninos”, implantado nos vales e nas colinas suaves, mas vaidosas das vistas que oferecem.

Bica, Lavra, Glória. O último pelo nome eleva igualmente a outras alturas. Que se cuidem as palavras, os encómios. A haver crítica, seja polida e dissimulada, não estão tempos de anátemas religiosos. Com os nomes dos outros pode-se bem, são populares, aguentam tudo, não estão preocupados com excomungos, e não são fundamentalistas a não ser, considerarem-se cada um mais bonito que o outro.

Hoje em dia, transportam residentes de curtíssima residência – nem sabem eles que os nossos bairros são aldeias – que procuram vistas finas nos miradouros da cidade. Tantos são, às vezes mais do que um para cada colina, a oferecerem ângulos diferentes. Lisboa é um caleidoscópico inesgotável.

Nesta disputa que é coisa pessoal de quererem transportar mais turistas hipnotizados pelo pitoresco dos trajectos, é o da Glória o mais entediante, oferecendo na maior parte do percurso uma visão trivial de muros decadentes. No entanto é o que mais gente transporta. Três milhões de almas por ano.

O da Bica é sempre a subir e tudo a direito. Começa dentro de um prédio, é o seu rés-do-chão, só que se move. Na sua subida é cruzado por pequenotas ruas e ruelas e povo do verdadeiro que durante o dia se atravessa nos buliços do quotidiano. À noite não descansa, com bares de alto a baixo e vice-versa nos dois lados, gente jovem de um lado para o outro, entrando e saindo dos locais de beber e seduzir. No Bairro da Bica já se percebe que se descansa pouco.

O do Lavra é o que oferece mais curvas e contracurvas rococós, querendo isto significar, que é o mais janota de vistas. É íngreme, bonito, misterioso, citadino, bucólico. Dos três é o único que dispõe de uma porta de saída- entrada, que limita o vazio. Ou seja, quem entra, continua do outro lado, no mesmo céu aberto de antes.

Adiantou-se tanto a conversa, a mais de meio caminho do discurso e não se apresentaram os protagonistas. É como as cerejas, já se sabe!

O tema são os Ascensores de Lisboa (o de Santa Justa não entra neste despique, está noutra classificação). Na opinião do escrevente, “funicular” é um nome que soa melhor, mas enfim, não se usa.

Já foram completamente amarelos, da mesma cor dos eléctricos – agora poucos os eléctricos, conquistados pelos transeuntes de estadia apressada, que querem ter essa experiência, única, irrepetível, de ver o que eles pensam ser uma Lisboa condensada no trajecto de eléctrico, o “28”. Alguns saem mais leves de “carteira” no final dessa aventura marcante nas suas vidas.

 Agora são escassamente amarelos e muito muito graffiti. Não importa se estão mais bonitos ou com um ar desleixado e pobre. É arte urbana, está de moda, é intocável, a alguns autarcas calha-lhes bem armarem-se de modernices e facilitismos que eles nem sabem justificar, mas pronto.   
               
Avilanados ou não, os turistas tiram-lhes fotografias na mesma. Os turistas tiram fotografias a tudo, principalmente a si mesmos, enquadrados com uma lata de conserva de choco, um poster gigante de um pastel de nata colossal, um nepalês merceeiro com a camisola da selecção da nação, todos os três nas suas costas, a fazerem um enquadramento, para mais tarde ou jamais recordarem.

Os nossos funiculares foram projectados e construídos pelo senhor Raoul Mesnier du Ponsard, que apesar do nome era português.

Uma curiosidade: as portas dos ascensores são em cancela pantográfica, que sendo o que sendo, de um nome assim não se livram, mesmo a pedir reparo.

E pronto, fica tudo ou quase nada dito. Se tiverem oportunidade, num dia de chuva intensa, que caia granizo, ou pelo contrário a temperatura passe dos quarenta o que já nada é raro de acontecer nos climas, aproveitem para dar uma voltinha num deles ou mesmo em todos. Só em dias adversos é que é ainda possível arranjar lugar, todos os outros estão preenchidos com as hordas de gente que tão bem contribui para o PIB, que nunca foi tão jeitoso e abastado.


Obrigado a eles, aos ascensores, os nossos foguetes para o paraíso.


domingo, 21 de maio de 2017

ENSAIOS DE VERÃO





Quando alguém, não se sabe quem, abre as persianas dos telhados do planeta Terra e os raios de sol chegam com menos filtros, acalorando a sua superfície e todos os móveis e imóveis existentes; quando esses raios piscam e repiscam brilhos intensos e reflexões de luz, as pessoas mais sensitivas põem-se felizes e simplificam-se, saudando como podem e sabem e usufruindo, as energias promissoras.

Acontece um retorno ao original, a um estado puro, acontece uma interrupção do tempo ou dá ideia disso. É um limbo, uma antecâmara de qualquer coisa boa.

São assim os vislumbres dos dias de primavera que ensaiam ser verão, a porem as pessoas à prova, para ver se já estão preparadas para lidar com a canícula. É o anúncio com estilo dos tempos de glória, a rainha das estações do ano em que quase se consegue esquecer a melancolia com os pezinhos em molho de água fresca, massajados pelas águas dos mares calmos, a inaugurarem as primeiras aventuras balneares.

Nos primeiros dias de sol intenso e se a brisa não muge, abre-se a alma da gente, estendem-se no estendal as humidades do baú dos pensamentos, espanam-se recordações emprateleiradas, mofentas.

Com o calor, os homens em geral ficam mais felizes e fazem menos mal, mas isso não é universal, é uma mentira piedosa, já que não se podia concluir um texto tão positivo, lembrando as tristezas de sempre.


De aqui a nada, é Verão.



sexta-feira, 19 de maio de 2017

UMA PELO MENOS ERA HIPPIE E LIA UM LIVRO








Ontem vi duas mulheres lendo, num jardim com esplanadas.

A princípio desconfiei mas dei o benefício de perceber antes de lançar um anátema, que é pior que um perjúrio.

Aparte a parte toda nas cadeiras das esplanadas e os bancos residentes dos jardins, as outras mulheres e os outros homens que preenchiam os lugares, sentados os seus corpos neles, não liam e nem sequer falavam.

Faziam o que normalmente fazem todas as pessoas de bem: organizavam a sua vida, os contactos e o lazer,  com  auxiliados pelos seus telefones portáteis.

Enquanto isto acontecia - o que não era nada de anormal porque só eu notei essa actividade subversiva de duas mulheres a lerem um livro em plena luz do dia - dos passantes e por sexo, os homens iam mais apressados do que as mulheres com os semblantes densos, talvez a dizeren  preocupação ou responsabilidade. 

Podiam ser médicos ou padres, ou somente financeiros. Passavam também homens musculados com roupa justa a quererem parecer ainda mais musculados e esses não pareciam nem médicos nem padres, mas continuam a poder ser financeiros.

Já não há padres.

As insuspeitas, uma com estilo de hippie a outra indefinida, liam dois livros e isso garante-se, que só por muita casualidade é que seriam os mesmos. Á distância é impossível apurar quem lê boa literatura.

Fosse eu  mulher - das que leem – e nesta sua coisa de incompreensível para os homens de se esgadanharem em privado e protegerem o género em público, tranquilizaria sabendo que as duas estão a ler coisa merecedora de ser lida num jardim, ainda mais com tempo agradável.

Demonstrarem esse gosto, num espaço público é coragem, vale-lhes a pena esse acto temerário, que poucos outros cometem por falsos pudores, e reputações a defender.

Mesmo não sendo mulher, o observador que sou eu fico de bem com a consciência, com a sensação talvez incongruente de que o mundo afinal teria salvação (romantismo meu), mas é muito provável que este palpite já tenha sido emitido por outros em gerações passadas, sentados em bancos de jardim pingando o tempo em demasia de se gastar, todos os dias a inventarem maneiras de o fazer.


Morreram todos e mesmo depois desse acontecimento terrível para as suas famílias, continuam a existir jardins com enfadonhos como eu, e pessoas poucas que leem procurando sol, ou encontrando sombras. A maioria dos que estão e passam  estão longe de dar conta deste tema, são seres completamente normais e saudáveis que não têm questões a colocar sobre quem lê ou não.

O pior mesmo é a bateria do telemóvel, já viciou, está sempre a ir abaixo, é por causa dos dados móveis.

Amanhã vou ver se elas persistem em ler no jardim! e nem vou comentar a sua atitude . Só eu reparo nessas coisas, é normal, sou estranho de pequeno.

terça-feira, 16 de maio de 2017

ANJO







Barricado na minha janela, fechada, observo o mundo. O mundo é a rua que se apresenta diante mim, que a consigo ver desde o seu início, à esquerda, até o seu fim, à direita, porque é nesse sentido - vá-se a saber - que fluem as pessoas e os carros que passam na rua que me consome o tempo dos dias.

A minha rua é o mundo, é pequeno e previsível o meu mundo.

Nela não acontece nada de especial, sempre as mesmas caras, praticamente; os carros identifico os que estacionam e não me interessam particularmente. Há crianças na minha rua que jogam futebol, são irritantemente barulhentas, porque estou para velho e tudo me irrita. Corro com elas quando posso e depois fico com remorsos porque já fui criança e gostava de jogar futebol na rua.

Em frente da minha janela, mesmo do outro lado, há uma paragem de autocarro suburbano, que por ser suburbano passa muito espaçadamente, sem hora marcada, vazio de poucas pessoas, geralmente de cor, sentadas e inermes. Desistidas.

Estas imagens, que tiro desde a minha janela para a seguir não guardar nenhuma, desfazem-se  mal acabo de as ver. As vezes penso que vivo num mundo irreal, inexistente, impalpável, um sonho ininterrupto da minha cabeça. Aquela janela não existe, naquele sítio feio, que não imaginei ser o brilho , neste caso opaco, do meu futuro presente.

Mas hoje foi um dia diferente, e como não estava preparado , habituado e cómodo com a rotina, fragilizei-me e acreditei na possibilidade de fenómenos sem explicação fácil, coisas de mundos paranormais.

Neste olhar monótono diário, cruzei-me com um anjo, que esperava transporte na paragem de autocarro. Sempre acreditei na sua existência mas nunca tinha visto nenhum, sabendo que andam  por todo o lado, principalmente nos locais em que menos se espera.

 As pessoas dizem que não os veem, não os encontram, porque estão tão refolhadas nos seus aturdimentos da vida, que  olham e não veem, nem o óbvio, como estar um anjo à sua frente num balcão de supermercado.

Este anjo que eu vi e era verdadeiro, apresentava-se trivial –  fogem da fama e dos ajuntamentos. Não irradiava luminescências, nem outros fogachos artificiais. Era um ser simples, completamente banal – enfatiza-se - e estava disfarçado em cão.

A sua dona, um ser igualmente lindíssimo, afagava-o na paragem do autocarro. Afagava mas não o via, não podia. Mas esse afago dizia tudo da relação única daqueles dois seres: a mulher lindíssima e o cão que é anjo.

O cão-anjo, cumprindo a rigor os preceitos das entidades angelicais, estava simplesmente presente, cumprindo uma missão, derretendo-se com as carícias da dona. E olhava-a dizendo precisamente isso:

Amor.

Se o animal - ainda por cima querubim - falasse, diria:

-Aqui estou para te guiar e tu também aqui, comigo, para me fazeres festas, a dádiva que eu mais aprecio.

Na verdade, quando baixei a persiana e voltei à minha vida humildosa beliscando-me, é que realizei que vi hoje um anjo a sério, e fiquei especado e parvo a vê-los os dois amando-se perdidamente em plena via pública, sem que ninguém a não ser eu tivesse dado conta desse fenómeno raro, quase milagroso.

Esta imagem vou guardar. Não se pode esfumar um anjo quando ele se apresenta diante de nós, muito menos quando vestia a pele de um cão guiador dos passos de uma pessoa, neste caso um familiar, que aqueles dois seres um da ordem dos humanos, o outro da família dos deuses, pode-se e deve-se dizer que eram os dois uma família.


Ganhei este fim de dia de ensolarado. Se me aventurar mais na rua em vez de ficar à janela, é possível que venha a trocar impressões com desconhecidos e esse cão não me sai da cabeça: tinha um olhar que não é deste mundo!


Este texto ilustra a pintura realizada por Paulo Robalo durante a sua residência "Gabinete das Curiosidades", que inaugura no próximo dia 19 de Maio, na R.da Atalaia nº 31, no sítio do Bairro Alto.

Esta pintura, "o Anjo", será exibida em Portugal  pela primeira vez, nesta exposição.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

GABINETE DAS CURIOSIDADES - CRÓNICA ÚLTIMA





Pintar é estar doente dos olhos.

Fica bem que as histórias tenham um fim e sigam canonicamente as regras ditadas de as bem contar. Não há ninguém que não goste de um bom ou mau desfecho, tem é que haver um, para se seguir em frente e não ficar preso ao passado. Estar colado a ontem é desencorajador e se não se despega, aumentam-se atrasos irrecuperáveis, o tempo a passar, que voa, e não se regressar ao presente, que só assim se pode desejar o futuro.

o Gabinete das curiosidades foi um tentativa volátil mas intencional de museu privado de objectos de vida. Não foi uma tentativa, foi um acontecimento e não termina porque os objectos se tenham desentendido - vivem há muito juntos -, têm naturalmente os seus enguiços, picos de irrazoabilidade, mas são uma família, por vezes italiana: muita gritaria mas amam-se todos.

O Gabinete termina porque tudo tem um fim e este espaço vai ser um novo templo de finos manjares, sabores dos céus, na terra, borbulhantes, que mais tarde se anunciará.

Eles, os objectos, gostaram concerteza desta estadia a que chamaram férias. O dono deu-lhe outro nome: residência artística. Para todos os pertences constituintes desta colecção privada, habituados a viverem em local mais recatado, foi agradável arejarem, ainda mais neste bairro de boémias e divertimentos fartos. O pintor, areja o suficiente, é um homem do mundo, um contemporâneo mas com um coração de antigamente.

Pendurados nas paredes ou espalhados por todo o sítio, desfrutaram das amplas janelas de vidro a deixarem ver o movimento das ruas, buliçosas, ferventes, dia e noite, neste bairro alto em Lisboa.

Eles a olharem pasmados para fora, os transeunte curiosos, a verem o que se apresenta dentro.

Nestas semanas conheceram-se vizinhos, e gostaram-se. Linguajou-se em muitos idiomas e invenções de novos, quando a comunicação se punha engasgada e era necessário seguir em frente para fazer-se entendido. Houve saudações calorosas, umas mais físicas do que outras, com abraços pelo meio, e beijos, ou tão simplesmente olhares mais abertos (esbugalhados seria feio), a dizerem desconcerto agradável.

O Gabinete seguiu todas as regras dos armazéns-sala das colecções com identidade: apresentou-se sem pretensões como o acervo do artista, um polígamo que ama a expressão plástica, o desenho, a pintura, mas também é visto pelas caladas das altas horas de noites sombrosas, de braço dado com as cenografias. Afinal são todas primas umas das outras, o que aumenta o seu pecadilho.

Falar com palavras deste acervo torna-se enfadonho , só vendo, indo, a apreciar ou não. Não se deve tirar conclusões precipitadas, ou juízos, é aparecer e depois dizer.

Uma coisa está certa, é um local muito bem frequentado, e para estimular uma visita, apresentam-se agora convenientemente os "ocupas" do local:

Temos os quadros, finalizados ou em esboço; as molduras vazias desalinhadas, espalhadas onde calhou estacionarem; postais com dizeres ocultos à vista, se calhar recados de amores esquecidos; catálogos de anteriores exposições, todas foram esperançosas; pernas de manequins de montras de loja, com candeeiros pendurados nelas, a fazer estilo; as formas de sapatos em madeira, molduras dos pés; igualmente, as dos chapéus, gaiolas da cabeça; os objectos em cera, ou parafina, que podem ser velas mas são partes de corpos humanos, objectos pagadores de promessas; as fotografias de parentes distantes e desconhecidos, de macacos até, fotografados em tons de sépia, sem se saber porque estão ali; cadernos, tantos, cheios de desenhos e ideias e perspectivas várias, e ânsias de projectos a realizar que nunca aconteceram; as gavetas dos caracteres de tipografia, já acabou,que serão preenchidos com cera de abelha pigmentada com as cores da paleta das cores; uma Vespa prenha que se diz "embaraçada" e por isso mesmo anda pouco e devagar, mas anda; mapas de regiões que já têm outros nomes e mapas de herbolários, que se penduravam nas escolas primárias, de antanho, ao lado da cruz e da fotografia de um senhor com ares sérios, que nos deixou medos a arrepiar a memória; alguns livros muitos especiais, e por fim, minudências em geral ( vamos ver se estas agora não vão amuar, ficar ofendidas por se sentirem diminuídas pelo desprezo da sua apresentação!).

Até tem uma última Ceia, em relevos metálicos, com moldura dourada a sobressair a importância desse repasto muito especial na história de alguns homens. O Gabinete é portanto e também um museu do simbólico, tolerante a todas ideias.

De todas estas coisas se faz este quase a chegar a ser um pequeno museu privado. Agora, em apoteose final, uma festança das rijas, a pôr epílogo, recebendo num formalismo inicial que logo se descomporá, quando as horas forem passando, todos mais soltos, os amigos e os que ainda não mas que serão de seguida, numa última visita a este espaço, já a pingar saudades, que os da casa são assim: de pendor nostálgico permanente.

Este Gabinete foi uma experiência e tanto! Se eram assim alguns salões intelectuais e artísticos do passado, entranhou o gosto que deu, quem sabe não se fará nova recriação, talvez até perene, para que não se carimbe data final a receber os amigos, e sempre que se passar se pare e se exercitem - na maior das normalidades democráticas - as artes da dialéctica, e alguma retórica, tudo isto no meio de valentes risadas, que é o que se leva da espuma dos dias




sábado, 13 de maio de 2017

VAMOS BRINCAR AS PALAVRAS






Não é boa a primeira impressão de uma parede ampla preenchida com livros, desde o chão de madeira corrida encerada até ao tecto de estuque com perfis brancos trabalhados. Da aparente inutilidade de um objecto ao conforto da sua companhia, por vezes corre uma vida, por vezes uma é pouco.

Já conhecia os livros e iniciara uma modesta mas voluntariosa biblioteca com dois ou três fascículos de banda desenhada a preto no branco, do personagem Major Alvega, aviador português ao serviço de sua majestade na velha aliada Albion. É possível ter sido o meu primeiro herói, ele e Toto o cão caçador do meu avô, animal fidelíssimo com uma paciência búdica que encarnava a contragosto o papel de touro em lides improvisadas que eu fazia no quintal da nossa casa anterior a esta, onde nasci mas não cresci.

A sala do Pedro tinha um oceano de livros e era de pôr a escassear o fôlego a um pechincho. Alguns livros cortam-nos a respiração, deixam-nos ofegantes, mas é prazer.

Com sete ou oito anos mal sabidos de ler, parentes chegados nem mesmo com sessenta o tinham ainda conseguido, e aqueles livros, tantos, a prometerem mistérios inumeráveis. Alguns títulos anunciavam-se em luzes piscantes, sedutores, a pedirem para serem resgatados das prateleiras.

Sabemos quanto a curiosidade é corrosiva e inferniza a consciência, constantemente a sussurar,fazendo correntes de ar nas esquinas da nossa cabeça, propondo imprudências, a pedir para entrar na intimidade de uma qualquer coisa, um objecto, um espaço por explorar. É uma aragem que não desiste.

A curiosidade e uma criança, quando dão as mãos, fazem uma parceria perfeita, e normalmente estragos visíveis.

Quando ia lá a casa (que é uma maneira de dizer, para quem passava fatias generosas do tempo dos dias lá em casa), e por algum motivo estacionava momentaneamente sozinho na sala, esperando o meu amigo para entrarmos ao serviço nos horários da brincadeira – uma das profissões mais difíceis e sérias do mundo – o chamamento daqueles livros, uma espécie de coisa magnética, era um fenómeno real, mas também podia ser um desarranjo temporário da minha cabeça.

Silêncio, livros e belos quadros pendurados nas paredes livres. Eu gostava daquela união de facto, a ligação perfeita. Sem explicação credível nem científica (e divina põem-se dúvidas), o tempo entrava em modo de pausa.

Num fogacho, a eternidade deixava de se passear – flausina - à frente dos meus olhos. Era isso a ausência de tempo.
Como tive muitos episódios de solidão temporária enquanto esperava o meu amigo, a curiosidade acabou por assumir o comando da mente e ordenou às mãos – que são as suas cúmplices tontas – o caminho da biblioteca. Resisti o que pude, como pude, mas às crianças tudo se perdoa, e eu não resisti mais.

E houve o primeiro livro.

Tirei, penso agora que aleatoriamente, uma grande e pesada enciclopédia a cores, com muitas fotografias e desenhos. O assunto eram os jogos olímpicos da antiguidade grega e as modalidades desportivas que os compunham. Sei hoje que estava escrito em francês, porque me ficaram gravadas na memória palavras que mais tarde decifrei, quando o aprendi de raspão no liceu.

Esse foi só o primeiro livro, mas voltei a ele muitas vezes. Fascinou-me, fabricou-me sonhos, cumpriu o papel de livro.
A partir daí, explorei os que pude. Seria contornar a veracidade deste testemunho, dizer que os folheei todos. Eram demasiados e alguns tinham acontecimentos impossíveis para uma criança (nem em adolescente cheguei perto de entender muitos deles).

Mas oficialmente dizendo, a aventura da exploração dos livros só começou, quando distraídamente entrei para dentro de um, e o Pedro me apanhou dentro dele quando entrou na sua sala de estar, e eu, um pirata de olho de vidro fingido e uma perna verdadeira a fazer de pau, navegava num barco alheio, acabado de capturar, completamente absorvido numa história que já nem me lembro, mas era das boas.
Pedro fez-me uma entrevista, acerca dos livros, colocou perguntas complicadas, respondi pouco porque entendia pouco de livros, só sabia que gostava deles.

Mas dei-lhe confiança.

A partir desse dia e a termo incerto, ganhei autorização para ajudante de bibliotecário e o Pedro sem que eu o soubesse, nem me dissesse, decidiu-se a ensinar-me as palavras e as suas conjugações, já que sem elas e a sua compreensão, não me servia de nada gostar simplesmente de livros, que são jeitosos para se andar com eles debaixo do braço, mas ficam ridículos se não forem devidamente lidos.

Ganhei um livre-trânsito para tirar a obra que me interessasse, colocar no seu lugar na prateleira um marcador a sinalizar a falta e o usuário, e devolver sem prazo estabelecido, nas mesmas condições com que tinha sido retirada. Só não podia sublinhar nem escrever, a lápis que fosse, nas páginas do livro. Se o quisesse não seria fácil, porque muitas margens das páginas dos livros do Pedro, estavam já ocupadas, com comentários e notas suas. Havia mesmo alguns que já eram dois livros num: a versão original e a revista e melhorada, por ele.

Foi assim que iniciei o que julgo ter sido uma brilhante a admirável carreira de explorador dos livros, uma actividade arejada, sem postos fronteiriços, que ainda hoje pratico sem nenhuma moderação nem decoro.

Li tudo o que pude dessa biblioteca, a minha primeira biblioteca. Pedagogia, psicologia, antropologia, sociologia, filosofia, política, outros temas menos respeitáveis como poesia, teatro, literatura.

E fui crescendo com um professor que nunca o tendo sido em representação do óbvio, foi encaminhando subtilmente o seu aluno para o portal da compreensão das coisas, para a ginástica do pensar, para a alegria que dá saber fazer uma boa pergunta, a exigir que se desvende o mistério de uma boa resposta.

Ele adorava brincar com as palavras, e ensinou-me esse jogo, um mastermind, que praticámos vezes sem conta, anos sem conta, no pingue-pongue duma dialéctica em privado, ele o mestre, eu o discípulo, sempre a perder aos pontos, mas que importância isso tinha, compensava o prazer que dava!

Nos serões de família, em que eu animado contava e recontava a história do jacto súbito e inesperado de petróleo no quintal do meu avô, para os lados de Xabregas, quando eles almoçavam pezinhos de coentrada, e o Pedro, a meter pelo meio da história uma esparrela, sobre o Theilhard de Chardin - que me tinha emprestado - a aferir da minha atenção ao assunto, dificílimo: à esparrela e ao tema da reconciliação da ciência com Deus, o panteísmo cósmico, a liberdade do homem, a ver se já entendia, se já estava maduro a entender, e se assim fosse, estaria convenientemente preparado para questionar o mundo.

Foi uma relação filial, a minha, com ele, e devo dizer que fiquei muito bem servido com o oferecimento da sua paternidade.


Sobre os livros não posso dizer mais nada: não consigo encontrar um, abandonado, que não o adopte. Tenho assim centenas de filhos - ou talvez - centenas de pais, e algures, num recanto onde se aviste uma bela paisagem de mar e praia, lá estará o Pedro, a dar ordens de marcha aos livros, para que eu – eternamente incauto - tropece neles e os leve para casa.


Ao meu pai-amigo PedroOnofre, 
Foi bonita a festa pá, fiquei contente!

sexta-feira, 12 de maio de 2017

ENCONTROS






Temos dos climas mais afáveis da vizinhança, mas ficamos em casa. Nem para abraçar os nossos correligionários nos damos ao trabalho – que seria prazer – de sair e visitá-los.

Ficamos, e entricheirados.

Semi corremos a cortina da janela e olhamos de soslaio para a rua. Observamos os corajosos que se aventuraram a passear num dia perfeitamente inofensivo, apesar de chover, que faz falta.

Estamos a vê-los mas eles não sabem da nossa existência, vêem estores brancos.

Não saímos à rua, mas o facto de termos montado guarda na janela como observatório do que se passa lá fora, é como se tivéssemos saído.

Quando cai a noite vamos contar aos nossos, à volta da mesa, que somos corajosos e sabemos tudo o que se passou na rua, porque estivemos lá, no local próprio, fora. Ou seja, na fronteira marcada pelo vidro da janela,  vasculhando com o olhar mortiço o movimento, fora.

Somos heróis dos sonhos, ou da preguiça, ou de nada para além de uma vontade imensamente frouxa, uma força magnética inultrapassável, que nos prende ao soalho em parquet da nossa casa.

Como queremos saber do mundo se não o calcorreamos?
Como queremos ter opinião se não ouvimos os outros, nem lhes falamos, de frente e ao vivo, como é próprio e conveniente nas conversas que têm sentido?

Aos que se obrigam a sair e se encontram, é bom. Manufacturam conversas  e chalaças e no regresso a suas casas voltam satisfeitos.

Chovia, mas afinal foi como se tivesse feito um caloroso sol e o céu estivesse estado todo o santo dia azul e despegado, como deve ser um céu que se faça gostar.


Até ao próximo passeio, que nos vejamos é o desejo.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

UMA ACÇÃO COM SENTIDO






É uma coisa minha, uma conversa a sós, íntima, que não quero anunciar aos ventos e às brisas.

Não interessa anunciar. Sou só eu e ela, e faz-se a síntese do meu universo espiritual.

E essa coisa privada, que se pode chamar fé, é um convívio pessoalíssimo.

Nestas coisas, cada um com o seu interior.

É desnecessário trocar impressões com os outros, a experiência é individual e intrínseca,
forra-nos por dentro.

No restolho das arenas do mundo, o que se diz que se vê, o que se monta, é um fogo-de-artifício,

Nem sequer é cumplicidade com os outros, é alienação e uma velinha.


Tropeço em Jesus todos os dias, temos queda um para o outro.

A pedir nas ruas, a arrumar carros, na pediatria oncológica e outros médicos e enfermeiras,
a esbracejar porque o barco afundou mesmo à porta do paraíso.

Nunca o vi de fato e gravata de seda a fumar charuto, mas diz-se que as aparições são à medida de quem as vê.

Alguém com certeza verá Jesus a fumar um belo cubano.


Não preciso de me justificar para vir a ser canonizado, não quero ser.

Basta-me chegar ao fim tranquilo, e cumprir a minha 
essência.

Se o consegui sou um homem, logo deus.

Em não sabendo rezar, troco por uma acção com sentido.





quarta-feira, 10 de maio de 2017

ENCICLOPEDISTA






Gosto de manhãs de chuva,
o som que ela faz,
gosto que se prolongue tarde dentro.
pacifica-me e molha.
Limpa.

É em dias de chuva
que se vê a fibra dos homens.
Os que se deprimem e queixam,
os que molham as solas dos sapatos
e palmilham.

Para além de tudo isto
a chuva purifica.

Quando deixa de cair,
põe os pássaros a cantar,
as folhas das árvores abanam as suas asas,
que são folhas,
e reanimam a fotossíntese com mais vigor.

Que esteja descrito em anuários ninguém sabe mais disto do que Manoel de Barros.

Escreveu em poesia uma enciclopédia da natureza.

Conseguiu o feito de viver noventa e sete anos e morrer sem presunção.

Hoje chove,
Muitissimamente.

Enquanto seco as solas dos sapatos,
releio a sua ciência poética,
com os pés secos em cima da mesa da sala.
Atitude inapropriada mas cómoda.
Faço-o sem culpa e nem sequer vou disfarçar
se alguém entrar.

Faço-o com todo o prazer na companhia do Manoel
e estando distraídos trocando impressões sobre poesia,
mesmo que alguém entre,
nem me vou lembrar que tenho uma batata na zona onde se vislumbra o dedo grande do pé.


O que interessa uma meia rota quando já se andou tanto à chuva?