sábado, 24 de junho de 2017

ONTEM- FOLHETIM 4







Troveja a esplendidez da tarde, segundo acto do dia.

A Dona Elvira é boa pessoa, tem uma filha obesa e um gato. Dada a sua condição avantajada, Elvirinha a filha que repete o nome da mãe, pouco sai de casa, debruça-se da janela da marquise e a cabeça de fora conta como ter saído de casa. É pouco mais velha mas parece da idade das criadas, velha portanto, mas muito menos interessante sexualmente do que as primeiras, viçosas, roliças, rijas. Tudo indica que a sua vida se encaminha para vir a exercer a profissão de leitora compulsiva, um sacerdócio Infrequente. Este género doentio de leitores, de lerem muito, ou são obesos, ou magríssimos, ou fleumáticos. Também há de todos os outros, pelo que há de tudo.

As relações entre moradores e estudantes não são as melhores. Existe distanciamento, quase omissão. Anda no ar, como se diz. Os dois  grupos delimitam  territórios com pouca mistura. Há  uma solidariedade tácita no grupo dos residentes apesar de fora das horas destas convenções , algumas meninas da Dona Elvira, amigas das meninas residentes, virem brincar sem convenções nenhumas.

Os mais velhos, pouco mais do que púberes, estão a ficar muito interessados nas pupilas da Dona Elvira. As datas dos ritos de passagem a anunciar calendário.

Ontem omitiam-se todos em risinhos nervosos, hoje repararam que existem e ficam curiosos pelas angulações ainda mal delineadas dos corpos das meninas, que começam a marcar levemente os contornos dos seus vestidos.

 Após a motivada observação do terreno, os rapazes chegam à conclusão que as meninas necessitam de mais distração durante os recreios. Um imperativo, a cumprir com profissionalismo.

Salvador é loiro, com olhos azuis-água e pele alva sarapintada por  sardas aos molhos. Num país de quase negros, do morenos que tanto são, ser assim é ganhar de imediato um respeito quase divino. É um orgulho de todos e por isso, por conhecer de pequeno o doce veneno embriagante da fama e da veneração,  pode ter todas as manias que todas se  desculpam. É o  embaixador, aquele de quem se quer estar ao lado, dentro ou fora, nos ambientes menos conhecidos da rua. Um passaporte para o sucesso: os adultos confiam-lhe o cabelo, apertam-lhe a bochecha, os da sua idade admiram a sua beleza diferente.

O Salvador tem uma magnífica mala gira-discos portátil que funciona com pilhas e é um objecto revolucionário, absolutamente novo que poucos têm. É das máquinas mais práticas e úteis que foram inventadas. Este mundo é de espantar, a velocidade com que tudo está a acontecer, avanços em tudo, todos os dias aparece uma coisa nova. Não se imagina que se possa inventar nos anos próximos nenhum objecto mais bem inventado do que este gira-discos portátil.

Deve-se fazer uma interrupção e prestar uma homenagem definitiva ao papel das pilhas (ou baterias) na história da humanidade. Estão sempre presentes nos momentos importantes e fundamentais: lanternas, rádios, gira-discos, uma máquina de fazer a barba, uma invenção quase tão boa como o gira-discos portátil.

Esta máquina, ambivalente - usa pilhas e corrente eléctrica - abre-se a tampa, coloca-se um disco de vinil a 33 ou 45 rotações por minuto, tem um braço com uma agulha finíssima, pousado num descanso. o disco começa a girar, pousa-se com cuidado a agulha na superfície do disco e acontece o fenómeno do som da música nesse instante preciso. Um som abafado, crepitante, que se evapora da tampa que tem incorporado um alto-falante.

Último grito da modernidade.

O pai do António trabalha numa  editora discográfica, o do Salvador é intelectual – mas também trabalha. À noite disfruta da companhia dos discos, enquanto lê um livro da sua biblioteca-sala, degustando baforadas lentas um cachimbo desenho Porsche ultra-moderno, com uma fornalha de aço escovado. o filho e o amigo deste já o puseram na boca e viram-se ao espelho. Em grandes fumarãocachimbo.

É muito livro junto . É muito tempo, com a cabeça ao lado a ler os títulos que repousam nas imensas prateleiras dessa sala saudosa. Sempre que o António entra nela, todos os dias, e enquanto espera pelo Salvador, acomete-se de um impulso incontrolável de lhes tocar, escolher um de tantos, folhear, em sobressalto  que alguém apareça inoportunamente  e reprima esse seu namorico não autorizado pelos livros que o atraiem tanto.

Nesta clandestinidade, ficou refém deles para o resto da vida. Aquela biblioteca foi o seu primeiro cárcere, forrado a livros.
a partir daí, foi uma vida passada em prisões.

O Salvador e o Joaquim  juntando os dois possuíam uma coleção invejável de discos com todas as novidades (e outros entediantes,  música clássica e jazz,  aborrecidos por enquanto).

Se as raparigas precisavam de se animar, no último período do dia, ninguém naquele prédio tinha maiores credenciais para as satisfazer do que eles.

Numa assembleia magna a dois, com assistência sem direito a voto dos irmãos mais novos, decidiram instalar uma rádio local com sede na casinhota nº 10, a do António.

Pioneiros das rádio locais!

O estudo da implementação foi aprofundado e sopesado com opiniões e palpites dos outros meninos, a quem não se deu crédito, porque só eles estavam à altura de entender e dominar as novas tecnologias e sabiam do que se estava a falar.

Havia no entanto, pequenos problemas técnicos por resolver tendo-se decidido pedir conselho ao Joaozinho, rapaz que vá-se lá saber porquê tinha criado à sua volta uma aura de sobredotado, isto porque não saia de casa para brincar, e os meninos que não saiam de casa eram vistos como prodígios em potência de qualquer coisa, ou então eram tísicos, doença estranha que também tinha a sua aura.

Ele não saia por ser o filho da porteira, e os pais usando a prerrogativa da discriminação de classe, neste caso por baixo, não deixava que o miúdo se misturasse na brincadeira de pátio com os outros: fidalgos e plebeus.

O rapaz chegou a doutor médico – como o do fotógrafo -  e alguns “aristocratas”, continuaram no eterno desemprego de não terem nada de produtivo para fazerem, desde o dia em que se olharam pela primeira vez ao espelho.

Foi bem pensado pedir-se um parecer técnico, pois aproveitou-se para encher os bolsos de peças de Lego em falta no stock e mais dois carrinhos da Matchbox, que estavam em defícite no espólio.

Estas incursões eram frequentes pelo que já havia uma táctica afinada com bons resultados: o Joaozinho ansioso por ter companhia para brincar expunha na mesa da cozinha todo o material de construção, que dava para erguer uma cidade inteira em miniatura. Já que vivia naquela reclusão forçada, os pais ou um benfeitor desconhecido compensavam a sua solidão, estando sempre a oferecer conjuntos de Lego. Tinha um espólio imenso.

Enquanto o António o distraia ajudando a erigir um estádio de futebol - obra difícil - o cúmplice hediondo, na retaguarda, depois de assinaladas as faltas de material e ter  a porteira controlada ( quando eles lá iam a casa brincar com o filho, não arredava da cozinha), no momento oportuno, quando os dois estavam emaranhados a pôr de pé uma bancada que apresentava problemas de sustentação e a progenitora a mexer o arroz de tomate para não queimar, ele carregava os contentores laterais das calças  com os Legos e calcava para não dar nas vistas, o que era impossível porque sobressaiam duas protuberâncias.

Nesse dia sairam com a mercadoria sem passarem pela portagem, e levavam também ideias de gabarito para resolver o fenómeno da propagação do som, coisa da física acústica que os preocupava. O espoliado, que iria para médico, percebia igualmente de física

 O Joaozinho nunca na vida se queixou abertamente dessas perdas de material de construção, o que sossegou a consciência dos infractores, pensavam que lhe  faziam um bem, o da companhia, ele estava tristemente desterrado numa recôndita cave escura.

A montagem do estúdio fez-se portanto em bom ritmo.
O pai do António cedeu um altifalante mais potente que encaixava no buraco negro da casinhota, com uma ligação sofisticada dos fios à mala do cantante. Conseguiu-se ainda um microfone para emissão intervalada dos noticiários que os iria haver, com apresentação de outros temas de interesse local.

Ensaiou-se o sistema num fim de semana em que os irmãos e outros subalternos em idade, foram coagidos a fingirem de meninas em hora de recreio no pátio.  Alinhou-se nesses ensaios - não é para gabarolice - a primeira playlist de qualidade da história da rádio regional.

Georges Moustaki, Chico Buarque, um cheirinho de Fanhais, Mário Branco (não podia ser muito), Cat Stevens, e um ou outro hit dos festivais da canção, coisa importantíssima naquele tempo. Música para todos os gostos.

O organograma da Estação é como se explica:
A Direcção Geral e a Presidência do Conselho de Administração nas mãos do Salvador, por ser o dono da aparelhagem . O António era Administrador Delegado com assento no Conselho.

Como empregados:
O Salvador que punha a música e não deixava ninguém mexer na aparelhagem, e o Delegado como locutor de serviço.
A inauguração oficial aconteceu numa segunda feira. Numa Primavera das boas, das que o cheiro do ar deixa memórias, o calor vai para quente a anunciar um verão glorioso.

Atenção, no intervalo da tarde, agora mesmo, dá-se início à primeira emissão oficial, não censurada, da radio das casotas amarelas. Radio de temas generalistas e música de grande qualidade, música do mundo.

Não estarão presentes altas individualidades nem dignitários, porque esta história acontece num pátio de um prédio onde existem criianças sem pretensões.





quinta-feira, 22 de junho de 2017

A VIDA NO SEU GERAL






Hoje não choveu, ou pouco; não ardeu, ou menos; não calorou - ou muito ou pouco - de ter feito calor com uma palavra inexistente e aceite. 

Foi um dia banal, no sentido de acontecimentos dignos de nota noticiável.

Hoje não se resolveram as dúvidas que se tinham de ontem, ainda menos se esclareceram as de hoje, e fica-se a distância longínqua de se ter uma vaga ideia sobre as precauções que se devem tomar relativamente a amanhã, dia perigosíssimo, porque é desconhecido.


Sendo todas, estas, as condições que se apresentam, é de uma grande probabilidade, que as pessoas, incomodadas por tanta dúvida insegura, sejam levadas a dizer mal da vida em geral, e dos acessórios da vida que constroem o seu geral.


quarta-feira, 21 de junho de 2017

FICÇÃO









Podemos inventar sem ir?
Escrever sem ver?
Podemos, anunciando com trompetas
A entrada em cena da ficção.
Feito assim, nesse preceito,

Aceita-se a fraude.


segunda-feira, 19 de junho de 2017

ONTEM - FOLHETIM 3






O maior mistério de todos os tesouros é não se saber onde estão, pairarem escondidos do olhar, com inimagináveis riquezas que não se sabe se sim ou não. Por isso mesmo porque não se veem é que soltam as imaginações, desabridas, em cavalgadas sem rédeas. Se há coisa que vem em qualquer momento a jeito de todas as mentes menos as diminuídas, é a invenção de uma bela e robusta história. Entretém, preenche, justifica, dulcifica.

Os miúdos têm uma curiosidade insaturável.

Há casinhotas completamente desinteressantes e outras que despertam sururus, mistérios insondáveis. Estão em fila e têm as portas de madeira pintadas de amarelo, canário. Estão numeradas ou não, talvez. De todas, a que se destaca é a número três, número que deus fez e neste caso o que calhou ao fotógrafo, que a habita (uma forma de dizer) e vive com a família no rés-do-chão esquerdo. Não é um homem de simpatias fáceis.

Um fotógrafo tira fotografias, mas o senhor Casimiro nunca foi capatdo na via pública, com uma máquina fotográfica a tiracolo. Quanto a colocar o óculo na mira de um dos seus olhos astigmáticos ensaiando um instantâneo, ainda menos. Exercendo esta profissão e não ser visto com uma câmara na mão, pode vir em desabono da sua pessoa, mas não era esta a sua especialização.

Com um nome como o que lhe deram pode levar-se a pensar que se trata de um ser mirrado, corcovado. Um lingrínhas ? Não. Era um alentejano convincente. Os nomes nem sempre correspondem à verdade dos factos.

 Não tirava fotografias na rua não fazia reportagem, nem casamentos, era um profissional de estúdio, o que quer dizer que nas traseiras do balcão de atendimento, na porta ao lado do prédio ao lado, dispunha de um moderno atelier fotográfico. As paredes eram brancas e despidas. Como mobiliário um banco e uma máquina preta com um olho grande, montada num tripé de madeira. Numa das paredes, havia um sistema montado no tecto com vários tubos e roldanas. Daí fazia descer, conforme o pedido ou enquadramento artístico que ele próprio decidia, qual o cenário apropriado ao cliente. Tinha-os bucólicos, campestres, até navais com fundo de mar. Todos os cenários eram coloridos mas o produto final saia a preto e branco. Ela podia pintar lábios e dar a aproximação da cor dos olhos. Uma ou outra flor no cenário do jardim, também as pintava. Não mais do que isso.

Ao lado do estúdio havia uma sala-laboratório de revelação totalmente obscura. Vendo a coisa à distância, era uma cena esotérica, uma espécie de alquimia o que se passava nessa sala e ninguém sabia, ou melhor, via, para poder contar aos outros, que se roíam em comentários e conjecturas.

O Pedro é o filho do Casimiro, vai ser médico cirurgião, mas já de pequeno que é obeso e parecendo que não, influi e muito na imagem que se faz de um médico. Está a terminar o liceu com notas sofríveis mas não há ainda necessidade de ter vinte valores e ser um alienígena, comummente designado por “marrão”, para entrar no curso de medicina. Já não brinca no pátio, pertence ao turno anterior que deu mais médicos e inclusive um general a sério, dos que decoram o peito com filas sobrepostas de medalhas de grande valor.

Anda entretido com outros afazeres, não se conta com a sua presença física no pátio, daí não se lhe poder pedir para abrir a arrecadação e saciar a curiosidade mórbida que achaca a rapaziada, mais os do símbolo da seta, que as do símbolo do mais, essas com outras indiscrições.

Do pouco que se pode ver no equilíbrio instável das cavalitas, o interior da número três está forrado de prateleiras cheias de frascos de vidro com criaturas (diz-se que são criaturas, porque têm esse feitio, de criaturas que um dia já foram vivas) mortas, conservadas em formol (sabe-se agora). É um museu das estranhezas, ou o centro de investigação avançado do Pedro, uma incógnita a juntar a tantas, a dar um novelo de proporções inesperadas nestas cabecinhas, tenrinhas.

Como é muito escuro e as lanternas disponíveis desgraçam o mesmo combustível que alimenta as telefonias que se usam à noite na cama para ouvir os programas radiofónicos de sucesso, tem que se fazer uma gestão do consumo. Entre escolher alumiar uma colecção de possíveis fetos que não se sabe serem verdadeiros e ouvir música na cama, a última opção é uma escolha prioritária.

Os olhos focam mas veem difusamente, é difícil perceber de que animais se trata, se é de pequeno porte ou há mamíferos e se forem humanos, é a apoteose. Isso sim elevaria a categoria do pátio para níveis superiores. Espalhava-se a notícia e é ver o bairro inteiro a querer frequentá-lo. Pode-se mesmo via a cobrar bilhetes.

Tanto se desejou que aconteceu. Quem julga que o poder da mente a fazer um pedido para que algo aconteça, com muito empenho e fé, é um embuste, está redondamente enganado. As crianças estão constantemente a fazer estes exercícios tântricos do controlo da mente e conseguem. Os adultos só falham porque desejam e pedem parvoíces, e nisso não há concentrações de energia espiritual que os valha.

Um dia a porta do museu dos mistérios estava aberta. Dada a proximidade do quartel-general, pede-se uma acção de penetração bem sucedida com uma planificação rigorosa dos passos a dar no sentido de ser eficaz e sem intercessão por parte do inimigo, salvo seja. Nesse sentido as crianças sentaram-se e ficaram longamente sentadas a discutirem o que fazer.

O Rui ficou de ouvido colado à porta da cozinha da mulher do Casimiro que era local onde ele não punha os pés, porque era fotógrafo e não cozinheiro. Se forem detectados ruídos persistentes no interior – de panelas ou assim - uma sinalética gestual previamente combinada, aborta a acção dos penetras. Foi difícil a negociação, queria ser ele a entrar na casota do alibaba. Ficou acordado que na próxima missão ele seria o herói.

Cai o silêncio habitual do momento anterior ao momento da acção. O Nuno e o Paulo avançam ziguezagueando porque ouviram dizer que era assim, e entraram na caverna dos segredos. Uma eternidade, eles lá dentro e o resto da trupe escondida nos recantos, nos corredores, nas escadas de serviço que ligam os andares do prédio com o terraço.
É banal dizer-se que nestas coisas o tempo não se mede, se muito ou pouco, a fatia dele que entremeia o episódio é uma eternidade.

Saíram de lá barrigudos, mas não, é o espólio, escondido debaixo das camisolas. Reunem no vão de escadas que liga o segundo com o terceiro andar. São dois frascos de vidro com uma tampa vedada por uma anilha de borracha. Estão cheios de um líquido transparente. Não é água. Num boiam cavalos marinhos, três, evidentemente mortos e conservados no líquido que não se sabe o que é. No outro frasco, um pequeníssimo ser, parece um girino, maior, com dois pontos pretos redondos, são os olhos. E um risco, talvez um esboço de boca. Que ser foi este? Um homenzinho? Um humuncúlo? Um golem da cabala judaica? Tudo isto são palpites, desvios de muita leitura acumulada e que depois deriva para ligações mentais inconsequentes.

Os miúdos para além de curiosos têm uma imaginação inesgotável. Inventam a  mil, milhares de coisas interessantes  ou estapafúrdias. Originou-se logo um enunciado de possibilidades e pistas e explicações acerca do objecto em causa. Todos a falarem ao mesmo tempo.

Era um feto. Mas de quê? Cão. Não podia ser, o que se afigura ser a cabeça é demasiado arredondada para o que se presumia ser um feto de cão. Macaco. Pode ser, a não ser que seja mesmo o que estamos a pensar. Um feto humano!
Ele tinha um feto humano morto e embalsamado na arrecadação do prédio? E onde o arranjou? Seria da família? Um aborto clandestino? Devassou-se uma campa de cemitério? Todos queriam ver mas ninguém queria tocar no frasco. Asco, repugnância.

Passam poucos minutos do meio-dia e vive-se um alvoroço de grandes proporções e excitação. O dia do treino dos homens dos bombos a cavalo já de si, é um momento especial e depois disso uma descoberta destas! Uns assustaram-se e querem ir para casa, há quem conte às empregadas, que crédulas que são, contam às patroas e estas, acreditadas também, contarão aos maridos, cheguem eles a casa, ao fim do dia com paciência de as ouvir, ou fingindo que as ouvem.

Esgotada a novidade o problema agora é o destino a dar ao frasco, ninguém está com coragem de voltar ao casinhoto e ainda para mais com um defunto na mão.

Alguém atira o frasco para o terreno baldio onde treina a GNR. Fora dos trilhos marcados pelos cavalos, as ervas daninhas crescem abundantemente, ninguém vai descobrir um cadáver tão minúsculo.

Assim se faz e se esquece. Os rapazes jogam agora à bola, todos contra todos com o Zé à baliza. As meninas brincam a saltar a corda. Em grupos de duas e três aumentam a dificuldade dos saltos, é quase uma dança bem coreografada. Grita-se tanto.

Tempo do almoço. Mais descontraído do que o jantar. A estas horas unem-se as mulheres e as crianças. As relações simplificam-se, são mais carinhosas. É bom.

A sesta é um contratempo que não se pode evitar: mesmo fingindo que se está a dormir, acaba-se por adormecer à força de descerrar a persiana dos olhos. O tempo de cada uma depende do metabolismo das casas, normalmente é uma hora.  O melhor da sesta é que quando se acorda com a recompensa de um copo de leite e bolachas maria, com ou sem manteiga, prefere-se com.

Nos longos e intermináveis dias de verão, quando as férias são eternas, passadas em ambientes de quietude, no campo, fazem-se sestas colectivas, pequenos e grandes numa chalaça pegada. Não se dorme e os adultos condescendem, amaciados por não terem preocupações nem urgências a acudir.

O verão é a época dos dias simpáticos que não acabam.


No período da tarde, uma radio local vai fazer a emissão inaugural, numa actuação muito especial para as meninas da Dona Elvira, que ainda não sabem que vão ter uma surpresa.


domingo, 18 de junho de 2017






Desânimo, tristeza, choro, impotência.
Este país, bonito, não é para ninguém.
É muita loucura.
Num dia campeões de tudo,
no segundo seguinte o caos da negritude absoluta.
Nada, somos o nada.
Os palhaços ao serviço passeiam-se nas televisões,
Belos discursos gongóricos.
Putrefactos discursos.
Ninguém faz nada e todos os demais que são ninguém,
Não querem saber de nada.
Hoje e amanhã os rostos ficam carregados e choram.
Depois, continuarão a palitar os dentes, indiferentes, amorfos,

Completamente estúpidos.




sábado, 17 de junho de 2017

ESPECIARIAS



É a loja mais fotografada da Rua dos Bacalhoeiros, em Lisboa.
Os turistas acham que são especiarias, como as que se encontram espalhadas pelas medinas do Norte de África.
Só é estranho o facto de por cá usarmos especiarias de moagem grossa













terça-feira, 13 de junho de 2017

TAMBÉM HÁ SANTOS NAS PERIFERIAS






São labaredas e enormes, têm mau aspecto, feias. Toros grossos de madeira ardem descuidadamente, chispam faíscas. Fumo branco. Como todo o fumo, escapa-se na lógica de subir às alturas e dissipar-se. Os bombeiros, atarefadíssimos, andam de um lado para o outro, concentrados nos trabalhos sérios dos bombeiros, cada um na sua missão. Trabalham bem em equipa.




Falam-se poucas palavras. Nestas condições para se ser preciso, não se fala mesmo.

Há tensão no ar, também nervosa. O ambiente está carregado, mas a organização é exemplar, a resposta imediata, irrepreensível.



Quando parecia que tudo estava perdido, afinal as primeiras sardinhas do ano estão excelentes. Comem-se no quartel de bombeiros de Queluz, urbe densa, que não tem só um palácio azul e quartel de tropas artilheiras e gente de multiculturas que a vivem, como igualmente uma comemoração dos santos populares -no que respeita ao aprumo do serviço, a diversidade da carta e a qualidade do produto – ao nível do que melhor se pratica nos bairros típicos de Lisboa.

É assim, canta-se a santo António, ao João e ao Pedro. E baila-se. Acha-se bem que o façam, os aficionados do bailarico e das cantilenas com rimas populares simples, singelas, algumas com um travo um tudo-nada  picante, para apimentar um pouco estas vidas dos cansaços próprios das vidas.

Este mês é o nosso carnaval, e para nós que ninguém nos lê, o nosso é muito mais bonito que o deles, os do outro lado do mar! (com exclamação e tudo).

Nós preferimos comer a bater o pé e enquanto nos apascentamos em mesas corridas na garagem do quartel dos bombeiros, deliciamos os olhos nos anúncios patrocinadores destas festas, escarrapachados nos painéis que forram as grandes portas por onde saem os tinónis nas emergências.

Agora descansam estacionados em fila na rua em frente. Em tempos de festas, os deuses são benevolentes e autorizam poucos acidentes dando aos soldados da Paz,  a que eles necessitam para assar a sardinha convenientemente, apesar de ser só fumaraça.

E como se dizia, enquanto se pratica o desbaste do filete e o pingar do azeite  enaltece a fatia de pão que se vai comer no final, passam-se os olhos pela publicidade: “Suzy Bell” a cabeleireira que se imagina, pelo nome, ser uma vedeta do circo e do funambulismo; “O retiro de Queluz”, que se julga um lugar de repouso geriátrico mas que é a melhor venda de caracóis, caracoletas e afins da zona; e a “Chuva de tentações”, que não é uma loja de artigos eróticos, como podia julgar-se, mas uma pastelaria fina.

Está a sardinha encorpada e o pimento, tenrinho e avinagrado.

“Santo António já se acabou,
O São Pedro está-se a acabar,
São João, São João, dá cá um balão,
Para eu brincar…”






domingo, 11 de junho de 2017

A INTERROGAÇÃO





Ando a escrever um livro, não a minha obra prima. Essa depois de escrita tomou por decisão, que respeito e não contrario, a procura de refúgio monástico. Fechou-se numa gaveta que por lá tenho, e emudeceu. Respeito as suas convicções e não a vou visitar.

Ando a escrever um livro que fala de amor. Não é por ser esse tema, podia ser outro, mas não consigo terminar. Acho que me tomei eu mesmo de amor por ele, impossibilitando-me de libertar o objecto amado. O amargo da perda ou da perca – que nunca sei – abate-me. Encontro sempre e por isso, uma boa desculpa para acrescentar algo mais, aplainar palavras mais rudes, rever pontuações.

Como se soubesse fazer isso, aplainar ou rever. São assuntos de entendidos e eu não sou entendido, em nada. Mas são as desculpas, para termos um convívio diário, e enquanto se mantém uma relação assim, mesmo que já não seja honesta, atiça-se a esperança de mantermos uma dependência.

Ela, a história, estará desejosa de ganhar a sua, neste caso independência, eu, inseguro e necessitado de companhia, finjo que não entendo e continuo todos os dias a fazer revisões começando sempre na primeira linha. É certo que as primeiras cinquenta páginas já foram revistas umas vinte vezes, mas ainda não estão bem. Faltam as restantes, que são cinquenta. Quando chegar a elas, com afinco e o pormenor que me exige este livro, levarei o tempo correspondente que gastei nas primeiras. Depois terei que fazer ainda uma leitura final, pausada e sem pressões, com tempo.

Acho que nunca vou acabar, mas temo que seja isso que quero: escrever um livro só para mim.

E também que interesse tem um livro do amor incondicional? Isso existe?


(terei abusado da pontuação interrogativa?)





sexta-feira, 9 de junho de 2017

ONTEM - FOLHETIM 2







O chão é de pedra de calçada, sem desenhos, é todo branco, irregular, português. O espaço que delimita o pátio nas traseiras do edifício em “L” parece gigantesco, mas tem pouco mais de cem metros quadrados, um rectângulo quase perfeito com dois lados de paredes meias com as janelas (os quartos e as cozinhas estão viradas para esse lado), no lado oposto uma linha de casinhotas de arrumações, numeradas, uma por inquilino. Os rapazes quando jogam a bola, sempre, passam o tempo a subir ao tecto das casinhas e a saltar para o pátio do prédio ao lado para a apanharem. É um prédio com poucas crianças e as que saem juntam-se às do lado de cá. A porteira deles é rija, bigodenta, quando apanha um profanador de pátio alheio leva-o, vitoriosa, uma orelinha vermelha prensada pelas pinças dos seus dedos enrugados, ao tribunal dos progenitores ou substitutos ao serviço. Saltar para o prédio do lado é uma picardia escaldante, onde se fazem muitos heróis.
No outro extremo do rectângulo, um murete à altura dos bicos dos pés, faz barreira com um descampado, exuberante de ervas daninhas e outras que não. No verão pequenos incêndios são frequentes, com actuação dos bombeiros voluntários e mais um espectáculo neste caso escaldante para assistir.
Quase todos os dias há joelhos arranhados, cotovelos arranhados, lenhos em sítios vários, mais nos sobrolhos. Aguenta-se a dor ou chora-se, a infância é o início das personalidades futuras. Heróis, cobardes e todos os que ficam pelo meio.
É um pátio que tem hierarquias e um calendário de utilização. Uns vinte catraios, a população residente de um mundo em miniatura: moradores, os convidados e as meninas da escola da Dona Elvira, ensino primário privado ministrado em casa, sem convenções nem subsídios.
A Dona Elvira é uma excelente pessoa.
Um mistério que fica por resolver é porque naquela rua há três escolas caseiras, diga-se dessa forma, e uma pública gratuita, a não mais de 400 metros, que está caiada de branco, tem as fotos penduradas nas salas que é de lei ter, e é frequentada por meninos de famílias viáveis e burguesas?
As meninas da Dona Elvira, assim se chama a professora e proprietária do estabelecimento que funciona numa sala única, que correspondente nos outros andares à sala de estar, só têm autorização de usufruto do pátio durante o horário de serviço escolar. As que depois de desembrulhadas do papel de estudantes, são amigas dos residentes são bem-vindas fora das horas do expediente.
É uma escola sem campainha nem sino. A professora vem à janela da marquise, bate palmas, tem as mãos grandes, são sonoras e elas lá vão, ordeiras, num rebanho de meninas, atravessando a cozinha até à sala de aulas que está virada para o lado que dá para a avenida, das Descobertas. Todo o bairro dedicou a sua toponímia a temas dos Descobrimentos. Navegantes, humanistas, nomes de lugares. Tão depressa se está no cabo da boa esperança como logo passada a esquina  se entra na rua de Goa e ao lado fica o Brasil , é uma confusão engraçada. Dentro da normalidade de um bairro burguês dá o toque excêntrico ao lugar.
Durante a semana e da parte da manhã o recreio é delas, os meninos que vivem no prédio estam nas escolas públicas ou nas finas, obedecendo as escolhas dos pais, que as crianças e a menos que afectadas de nascença, nivelam-se todas pelo mesmo prumo, sem divisões de classe. As classificações são dadas numa democracia de grupo, aos que se destacam nos jogos e nas aventuras diárias. Nisso sobressaem os heróis ou os mariquinhas, as duas únicas categorias sociais em apreço na infância: os fortes e os chonés.
Há sempre um ou outro morador que frequenta o pátio nos dias da semana de manhã e quanto mais são e se misturam com as cândidas e castas meninas, dá-se uma ignição espontânea, uma revolução descontrolada, na gritaria, demasiado aguda. Ao início da tarde a seguir ao almoço, é hora de trafego intenso. Chegam os de fora, almoçados, fartos dos professores e ávidos de liberdade e as meninas fazem o último recreio do dia.
Não há memória de se verem adultos nesse território das crianças. Só um, que mais tarde será chamado a depor em sua defesa.
Os rapazes a fazerem gracinhas, a arremessarem piadas duvidosas, querem fazer-se notados com macaquices, infernizando o bem-estar das meninas, o que eles querem é mesmo a atenção delas e elas estão indecisas, umas desejam corresponder, outras acham-nos parvos. Terão as suas razões.
Os mais despachados atiram-lhes bolas distraídas, é o melhor que conseguem. Esperam obviamente uma reacção que pode ser a devolução do esférico com um esboço de olhar interessado. Umas recatam-se em sorrisinhos e ciciam entre si, ruborizadas, outras por atavismos que existem mas ainda por despontar na sua plenitude, reduzem-nos a pó, naquela forma definitiva de olhar que só as mulheres conseguem quando querem dar um assunto por terminado. Algumas já o fazem bem, usando correctamente essa arma, uma das mais letais que o mundo conhece. É um olhar que só existe nelas.
O pátio é o laboratório ao ar livre, uma pipeta de ensaio dos futuros, onde se fazem as primeiras experiências, aleatórias umas, randomizadas outras. Umas vezes dá em sucesso, ou não, avança-se de qualquer maneira.
Dado o espectro de idades e dos casais férteis e crentes, quando ainda se tem muitos filhos por razões que agora não interessa, há sempre crianças de várias idades e tamanhos a brincar no pátio, na jornada dos dias.
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É duas vezes por semana, talvez terça-feira e quinta. Talvez, não se tem a certeza, é um esforço de memória.
Os primeiros sinais de que eles estão a caminho dão-se por volta das nove horas da manhã. Batedores motorizados da Guarda, dois, com botas de cano pretas brilhantes e luvas brancas de cabedal até aos cotovelos, rasgadas precisamente aí, para eles poderem cumprir a função de dobrarem os braços. As luvas são lindas! E os capacetes! As motos piscam de azul as luzes, duas. Estes guardas são a linha avançada da cavalaria. Vêm à frente a abrir caminho para a charanga a cavalo da Guarda Republicana.
É um orgulho nacional, talvez não tanto para os operários e as camponesas de um sul próximo. Neste país tudo é próximo, uma só casa com uma divisão onde dormem todos juntos.
 Estão sempre a ganhar prémios no estrangeiro, em festivais do género, há gostos para tudo. É o que dizem nos jornais, dá-se por certa a notícia. Os jornais não mentem, só passam as verdades, há quem cuide que seja assim. Há muitos jornais, estrangeiros poucos, as pessoas não leem em estrangeiro. As crianças também não,  não leem jornais. Os adultos vão para os cafés lê-los, fumando  com uma bica pousada no tampo de mármore ou madeira escura da mesa. Ainda há empregados de libré nos cafés, e nos melhores põem-se toalhas sobre as mesas. À sua volta juntam-se amigos ou simples conhecidos e conversa-se, com alguns cuidados. Há homens que leem jornais e estão sozinhos, talvez a escutarem as conversas. Há temas interditos, as crianças não compreendem nada disto, o que é bom.
A fanfarra está a chegar, ressoa como anúncio de trovoada, ao longe, próximos, quase abafado, o galope sincronizado das montadas. No terreiro grande, de terra batida, o alcatrão da estrada delimita uma rotunda. É o  terminal dos autocarros, verdes, a imitar os do Reino Unido, o ponto de saída e chegada,  de um dormitório  que despeja gente na cidade.
 Atenção. O grande acontecimento da semana,  antestreia para duas dúzias de  de catraios. O muro é pequeno para a audiência, espalmam-se caras, esterlicam-se corpos, é uma plateia sem bancos.
Fazem uma entrada triunfal no terreiro, vaidosos os ginetes, levantando um manto de pó e nessa névoa artificial e momentânea, parecem ser muitos, centenas. Detêm-se o tempo, perfilam os cavaleiros em honras ao comandante, o pó volta à terra, desanuvia-se uma tensão esboçada na cena. Ouve-se o chilrear dos passarinhos, por instantes.
 Militares, cavaleiros e músicos, três profissões ao mesmo tempo, de responsabilidade. A rotunda é o local dos ensaios, das cadências, dos sincronismos. Da música solene com muitas cornetas e tambores, marcial; do binómio homem-besta, a afinação mais difícil.
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Apurando a intenção como se olha para as coisas, ao fundo numa linha de recorte por trás do cenário, avista-se o rio na transição de ser mar. Realiza-se por fim,  fez o caminho, dilui-se agora na eternidade dos rios: o espaço do mar infindo. Há  um farol, isolado da terra, numa ilha-farol, é um mistério, pede imaginações. Nas noites em que o calor desperta sonos, com as janelas abertas a pedirem uma pequena corrente de ar, a luz, verde rotativa do farol, entra nas casas e não se explicando, gosta-se. Os faróis são pirilampos do bem.
Há golfinhos no rio – estão a acabar -  só brincam, como as crianças do pátio.  O rio anda ultimamente a sentir-se poluído, enjoado, fraco, não há estações de tratamento de esgotos. Toda a cidade, imagine-se, tantos, a cagarem para o rio! Grandes ferruginosos taciturnos metálicos estaleiros da margem sul operária, remendam colando metálicos taciturnos ferruginosos remendos nos petroleiros  que incontinentes, derramam detritos e petróleos maus que matam a água. As pessoas não gostam dos cheiros pútridos nem de uma cor que não é a da água saudável. Ainda não chegou o tempo da consciência ecológica, só lá fora, cá  é sempre depois de muito.
O som dos cascos dos cavalos na terra dura acorda-nos das derivações dos pensamentos. Em bicos de pés os miúdos ajeitam os queixos no bordo do muro do pátio, estáticos, apatetados, assistindo aos bailados das altas montarias brancas.
Não se sabe se os cavaleiros-fanfarristas se dão conta que têm uma audiência fiel. Separa-os alguma distância, eles estão concentrados no seu trabalho e as cabecitas mal despontam do muro branco. Não serão vistos. O silêncio da audiência desmancha-se em risada franca, quando um ginete menos experiente, ou por casualidade, cai da montada. Por vezes é projectado,  as bestas têm o seu limite. Na aparatosa queda leva com ele para o chão, rebolando, trambolhando, tambores do tamanho de uma roda de camião, que as vezes rolam numa trajectória sem obstáculos, outras embatem noutro cavalo, e este, histérico, assustadiço por defeito da natureza, desembesta desarranjando a hamonia solene daquela banda marcial, hirta e ganhadora de tantos prémios.
 Seria desonesto não dizer que os miúdos ficam extasiados, que é mesmo o que mais desejam e esperam, seria chamar-lhes nomes e dir-se-ia que eram entrópicos, mas são miúdos, não é preciso ofender e é um nome que não lembra a ninguém.
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É uma catrefada deles de idades muitas, alturas e feitios ainda mais.
Miúdos felizes.
Os treinos da equina sinfónica prolongam-se pela manhã. Dados por satisfeitos, os comandantes que estiveram todo o tempo parados no centro da rotunda, montados nos seus cavalos melhores do que os outros, com assinatura, a dar ordens e a fumar trocando impressões que a esta distância não se ouvem, mandam recolher ao quartel.
É o tempo de se servir o rancho, uma espécie de comida que os militares comem que basicamente aceita todos os ingredientes e os que se inventem para encher o bandulho, designação elegante para estômago.
 A fanfarra, estafada do sopro, da paulitada a arrancar um som coerente aos batuques, com as bestas suadas e fartas de se sentirem usadas, segue agora a trote de volta ao quartel, no Alto da Ajuda. Aproxima-se o meiodia, ainda há tanto dia no pátio do prédio amarelo.
Sai a cavalaria de cena.
Habitam pequenos burgueses, burgueses maiorzinhos e os serventes, nas modalidades de internos e externos.
As mercearias de bairro – não foram inventadas as grandes superfícies neoliberais – empregam marçanos vindos da parvalheira, a mesma nacionalidade das sopeiras. Executam as piores tarefas de uma mercearia, tendo lugar de destaque o ser bodes expiatórios de um dia de negócio mau ou o merceeiro ter descoberto que a mulher não tem hipótese de vir a ser canonizada por alguns pecadilhos menos edificantes, e necessitar, o galego, de descarregar em alguém, neste caso o precioso rapaz, que está ali à mão para isso mesmo.
 Os marçanos têm igualmente a tarefa de levarem a casa dos fregueses o rol de produtos pedidos. Enquanto as cestas trocam de mãos catrapiscam as. De preferência manualmente, apalpando-as efusivamente já que a oportunidade pode ser única. Se os meninos os apanham em flagrante, negoceiam depois com elas, habitualmente com concessões garantidas a troco de silêncio.
No nível da classe dos serventes mas um escalão acima dos marçanos encontram-se os leiteiros, os padeiros, as aguadeiras. Todos vêm das mesmas proveniências, mas dentro da quase miséria, a sua vida é mais estável, subiram socialmente. Pouco a pouco…alguns chegam a nada.
Os amoladores são seres estranhos e solitários e muito poéticos e fala-se deles entre outras razões porque são seres que não se consegue catalogar, nem colocar em nenhuma classe.
Parecem os faunos dos bosques, hipnotizados a si mesmos pelos sons repetitivos e mágicos das suas gaitas. Em dias certos da semana, geralmente domingos, percorrem lentissimamente as ruas nas bicicletas velhas e quem está na cama, ao ouvi-los, sonha com esses seres imaginários que se calhar existem, correndo pelos campos de terras com floras desconhecidas, por nomear, encantando os seres que as habitam.

Não foi assim há tanto tempo.




quinta-feira, 8 de junho de 2017

PARABÉNS







Cumpro anos mas não sei quantos. Os da cronologia estão contados, não está aí o problema. É o não saber se aparento mais ou menos, sendo dias que mais, outros muito menos. Não estaria mal que o corpo acompanhasse, mas não, e é esse o constrangimento e não é de pequena importância. Desarmoniza o gosto de viver, que o tenho, com tantas variações comezinhas de uns dias melhor e outros que podiam ser.

Em todo o caso gosto mais de antecipar a perspectiva panorâmica de uma agradável paisagem de futuro do que andar a afastar das costas as brumas do que já foi.

Amanhã começa um novo ciclo até à próxima comemoração, e parece ser óbvio que se apresenta todo um cardápio de possibilidades de que acabe por voltar,daqui a um ano, a sentir rigorosamente o mesmo  com a agravante de  o corpo ainda estar mais distante de uma relação a dois que tende a piorar irrevogavelmente.



quarta-feira, 7 de junho de 2017

O RESGATE





As balas traçavam uma ponte aérea sobre os telhados das casas, numa margem para a outra da rua vazia pelas razões de haver tiros com ricochete para o sentido contrário e perigosos.

Mantinha-se operacional – operacional? – um posto militar, no início da rua, do lado nascente. Não se sabe porque não havia outro no lado poente, não fazia sentido. Provável escassez de meios humanos, tinha morrido muita gente, falta de recursos.

A colónia foi entregue com hastear oficial da bandeira na capital, trocaram-na por uma nova, a nossa é muito mais bonita. Encenou-se uma passagem pomposa de testemunho, com apertos de mão e discursos. Agora a guerra ficou toda para eles, caseira.

No posto militar daquela rua duma cidade em África que tinha o nome de uma cidade de Portugal, esperava-se pela evacuação, os militares não saiam de dentro do abrigo, era muito azar acabar a guerra e ser-se atingido depois disso. Como se contaria aos vizinhos, caso se sobrevivesse? Soava a anedota, não ficava bem.

Já que se tinha chegado até ali, era de aguentar e esperar um pouco mais, sem se armarem em heróis de nada.

Primeiro evacuavam-se os civis, os militares ficavam no cumprimento das suas obrigações até ao último minuto. Tudo isso seria assim se tivesse havido método e planeamento, não houve. A evacuação transformou-se numa fuga do salve-se quem a mais pode, aumentando os dramas que se viveram em momentos que só quem os viveu os imagina. Desencontros, as perdas, os equívocos do tamanho das crateras das bombas.

É essa precisamente a palavra que melhor define a guerra: “equívoco”. Um engano, neste caso propositado. Ou desengano.

Para passarem o tempo sem mais traumas, os militares do posto que aguardavam pelo regresso a casa, assistiam ao conflito que agora era dos outros. Assistiam a um estilo de pingue-pongue balístico, delimitados os dois lados pela rua a fazer de rede invisível. Tentavam sair o menos possível do posto, e que os beligerantes não se lembrassem deles. Há malucos para tudo e há azares que chegam tarde, mesmo quando se pensa que se está livre de um acontecimento aziago.

Chego ao posto depois de dois dias na companhia da solidão de uma viagem difícil, carregada de recordações que não pedi para as ter naqueles momentos. Tempo para remoer fotografias mentais do passado, uma infância feliz, uma adolescência alegre, outras vidas. As pontas do tempo tocam-se: quando se chega a velho olha-se com inveja para os lados fugidos da infância. Não procuro consolo, ou respostas, tenho simplesmente medo de morrer, não queria, mas finjo que sou forte. Por isso procuro a infância: à custa de tanto a querer pode operar-se um milagre, e que volte para ela, de onde nunca deveria ter saído.

Foi nesse tipo de coisas circulares que pensei.

Estaciono o carro e espero que a chuva de tiros passe a regime de aguaceiros. Pode parecer artificial dizer assim, mas vai chegar a isso, ao espaçamento das rajadas das metralhadoras, que sendo armas e letais mesmo assim não estão sempre a matar, também intervalam.

Passados largos minutos em que fumo cigarros encadeados sem necessidade de me proteger, por alheamento, descubro um par de olhos vivos na frincha do posto de controlo.
 Deixam-se passar mais minutos até que os olhos se fazem ver acompanhados de um corpo inteiro. Dirige-se a mim.

-Bom dia.
-Bom dia.
-Estamos numa zona de guerra, é perigoso estar aqui.
-Venho buscar os meus pais, vivem naquela casa amarela.
-Não pode passar.
-Porquê?
-Porque não o podemos deixar ir sozinho e já não nos podemos envolver no conflito. Isto agora é um país soberano.
-Vou na mesma.
-O senhor está armado?
-Estou.
-Sendo assim, pode ir, está por sua conta, mas pode morrer.
-Obrigado.
 -Continuação de um bom dia.
-Para si e para os seus.

O soldado provavelmente deprimido que me abordou desapareceu engolido pela gruta onde se protegia como podia.

Percorro sem noção de medo a distância curta. Chego à porta de casa sem ter tempo de absorver a ideia dos riscos que corri.

Bato. Insisto. Silêncio.

Um homem que desconheço, ou já não lembro, entreabre a porta familiar. Por ele ser preto e os meus pais brancos, conclui ser um criado, ou alguém que usurpou sem pedir autorização, o local onde me fiz homem. Não foi um pensamento racista, foi uma evidência.

O homem olhou-me humildemente assustado, os terroristas não olham assustados para ninguém.

- Bom dia.
- Bom dia, senhor.
-O senhor Paulo está? Pode chamá-lo, por favor?
-O senhor agora não pode comparecer, está a ver se foge.
-Eu sou o filho do senhor Paulo.
-Só um momento, que vou ver.

Há três anos que não sabia deles. Primeiro tinham voltado para a metrópole, e eu naquela altura estava nos confins de um deserto, sem vista de gente nem seres de espécie nenhuma, a ganhar a vida na extração dos diamantes. Estranha forma essa, dizer que se ganha a vida, quando na realidade sempre a perdemos.

Vim a saber pelo meu irmão que eles, contra os conselhos da família, padeceram dos males da saudade e tinha voltado para a sua casa de sempre. Não os podemos culpar. Que sentido tem fugir do local da nossa maior cumplicidade, o sítio que nos conhece o nome e nós os seus segredos íntimos?
Que sentido faz fugir para um lugar desconhecido, onde não se conhece ninguém, em que ninguém nos conhece. Para começar uma nova vida? Eles não queriam uma vida nova, só queriam a sua.

Ali, de frente para uma porta, por onde podia ter entrado de rompante, mas não o fiz, não sei porquê, emocionei-me. Emocionei-me mas contive as lágrimas porque sou um homem feito que nunca chorou.

Ele apareceu, mais velho, frágil, era o meu pai e apesar de estar muito mais abatido e velho, senti uma proteção antiga que já tinha esquecido. Soube tão bem.

- Acabo de abortar os meus planos de fuga. Dá cá um abraço meu filho.


Entrámos os dois, uma vez mais, na nossa casa de família. A porta fechou-se com convicção. Só se pode viver assim.