sexta-feira, 9 de junho de 2017

ONTEM - FOLHETIM 2







O chão é de pedra de calçada, sem desenhos, é todo branco, irregular, português. O espaço que delimita o pátio nas traseiras do edifício em “L” parece gigantesco, mas tem pouco mais de cem metros quadrados, um rectângulo quase perfeito com dois lados de paredes meias com as janelas (os quartos e as cozinhas estão viradas para esse lado), no lado oposto uma linha de casinhotas de arrumações, numeradas, uma por inquilino. Os rapazes quando jogam a bola, sempre, passam o tempo a subir ao tecto das casinhas e a saltar para o pátio do prédio ao lado para a apanharem. É um prédio com poucas crianças e as que saem juntam-se às do lado de cá. A porteira deles é rija, bigodenta, quando apanha um profanador de pátio alheio leva-o, vitoriosa, uma orelinha vermelha prensada pelas pinças dos seus dedos enrugados, ao tribunal dos progenitores ou substitutos ao serviço. Saltar para o prédio do lado é uma picardia escaldante, onde se fazem muitos heróis.
No outro extremo do rectângulo, um murete à altura dos bicos dos pés, faz barreira com um descampado, exuberante de ervas daninhas e outras que não. No verão pequenos incêndios são frequentes, com actuação dos bombeiros voluntários e mais um espectáculo neste caso escaldante para assistir.
Quase todos os dias há joelhos arranhados, cotovelos arranhados, lenhos em sítios vários, mais nos sobrolhos. Aguenta-se a dor ou chora-se, a infância é o início das personalidades futuras. Heróis, cobardes e todos os que ficam pelo meio.
É um pátio que tem hierarquias e um calendário de utilização. Uns vinte catraios, a população residente de um mundo em miniatura: moradores, os convidados e as meninas da escola da Dona Elvira, ensino primário privado ministrado em casa, sem convenções nem subsídios.
A Dona Elvira é uma excelente pessoa.
Um mistério que fica por resolver é porque naquela rua há três escolas caseiras, diga-se dessa forma, e uma pública gratuita, a não mais de 400 metros, que está caiada de branco, tem as fotos penduradas nas salas que é de lei ter, e é frequentada por meninos de famílias viáveis e burguesas?
As meninas da Dona Elvira, assim se chama a professora e proprietária do estabelecimento que funciona numa sala única, que correspondente nos outros andares à sala de estar, só têm autorização de usufruto do pátio durante o horário de serviço escolar. As que depois de desembrulhadas do papel de estudantes, são amigas dos residentes são bem-vindas fora das horas do expediente.
É uma escola sem campainha nem sino. A professora vem à janela da marquise, bate palmas, tem as mãos grandes, são sonoras e elas lá vão, ordeiras, num rebanho de meninas, atravessando a cozinha até à sala de aulas que está virada para o lado que dá para a avenida, das Descobertas. Todo o bairro dedicou a sua toponímia a temas dos Descobrimentos. Navegantes, humanistas, nomes de lugares. Tão depressa se está no cabo da boa esperança como logo passada a esquina  se entra na rua de Goa e ao lado fica o Brasil , é uma confusão engraçada. Dentro da normalidade de um bairro burguês dá o toque excêntrico ao lugar.
Durante a semana e da parte da manhã o recreio é delas, os meninos que vivem no prédio estam nas escolas públicas ou nas finas, obedecendo as escolhas dos pais, que as crianças e a menos que afectadas de nascença, nivelam-se todas pelo mesmo prumo, sem divisões de classe. As classificações são dadas numa democracia de grupo, aos que se destacam nos jogos e nas aventuras diárias. Nisso sobressaem os heróis ou os mariquinhas, as duas únicas categorias sociais em apreço na infância: os fortes e os chonés.
Há sempre um ou outro morador que frequenta o pátio nos dias da semana de manhã e quanto mais são e se misturam com as cândidas e castas meninas, dá-se uma ignição espontânea, uma revolução descontrolada, na gritaria, demasiado aguda. Ao início da tarde a seguir ao almoço, é hora de trafego intenso. Chegam os de fora, almoçados, fartos dos professores e ávidos de liberdade e as meninas fazem o último recreio do dia.
Não há memória de se verem adultos nesse território das crianças. Só um, que mais tarde será chamado a depor em sua defesa.
Os rapazes a fazerem gracinhas, a arremessarem piadas duvidosas, querem fazer-se notados com macaquices, infernizando o bem-estar das meninas, o que eles querem é mesmo a atenção delas e elas estão indecisas, umas desejam corresponder, outras acham-nos parvos. Terão as suas razões.
Os mais despachados atiram-lhes bolas distraídas, é o melhor que conseguem. Esperam obviamente uma reacção que pode ser a devolução do esférico com um esboço de olhar interessado. Umas recatam-se em sorrisinhos e ciciam entre si, ruborizadas, outras por atavismos que existem mas ainda por despontar na sua plenitude, reduzem-nos a pó, naquela forma definitiva de olhar que só as mulheres conseguem quando querem dar um assunto por terminado. Algumas já o fazem bem, usando correctamente essa arma, uma das mais letais que o mundo conhece. É um olhar que só existe nelas.
O pátio é o laboratório ao ar livre, uma pipeta de ensaio dos futuros, onde se fazem as primeiras experiências, aleatórias umas, randomizadas outras. Umas vezes dá em sucesso, ou não, avança-se de qualquer maneira.
Dado o espectro de idades e dos casais férteis e crentes, quando ainda se tem muitos filhos por razões que agora não interessa, há sempre crianças de várias idades e tamanhos a brincar no pátio, na jornada dos dias.
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É duas vezes por semana, talvez terça-feira e quinta. Talvez, não se tem a certeza, é um esforço de memória.
Os primeiros sinais de que eles estão a caminho dão-se por volta das nove horas da manhã. Batedores motorizados da Guarda, dois, com botas de cano pretas brilhantes e luvas brancas de cabedal até aos cotovelos, rasgadas precisamente aí, para eles poderem cumprir a função de dobrarem os braços. As luvas são lindas! E os capacetes! As motos piscam de azul as luzes, duas. Estes guardas são a linha avançada da cavalaria. Vêm à frente a abrir caminho para a charanga a cavalo da Guarda Republicana.
É um orgulho nacional, talvez não tanto para os operários e as camponesas de um sul próximo. Neste país tudo é próximo, uma só casa com uma divisão onde dormem todos juntos.
 Estão sempre a ganhar prémios no estrangeiro, em festivais do género, há gostos para tudo. É o que dizem nos jornais, dá-se por certa a notícia. Os jornais não mentem, só passam as verdades, há quem cuide que seja assim. Há muitos jornais, estrangeiros poucos, as pessoas não leem em estrangeiro. As crianças também não,  não leem jornais. Os adultos vão para os cafés lê-los, fumando  com uma bica pousada no tampo de mármore ou madeira escura da mesa. Ainda há empregados de libré nos cafés, e nos melhores põem-se toalhas sobre as mesas. À sua volta juntam-se amigos ou simples conhecidos e conversa-se, com alguns cuidados. Há homens que leem jornais e estão sozinhos, talvez a escutarem as conversas. Há temas interditos, as crianças não compreendem nada disto, o que é bom.
A fanfarra está a chegar, ressoa como anúncio de trovoada, ao longe, próximos, quase abafado, o galope sincronizado das montadas. No terreiro grande, de terra batida, o alcatrão da estrada delimita uma rotunda. É o  terminal dos autocarros, verdes, a imitar os do Reino Unido, o ponto de saída e chegada,  de um dormitório  que despeja gente na cidade.
 Atenção. O grande acontecimento da semana,  antestreia para duas dúzias de  de catraios. O muro é pequeno para a audiência, espalmam-se caras, esterlicam-se corpos, é uma plateia sem bancos.
Fazem uma entrada triunfal no terreiro, vaidosos os ginetes, levantando um manto de pó e nessa névoa artificial e momentânea, parecem ser muitos, centenas. Detêm-se o tempo, perfilam os cavaleiros em honras ao comandante, o pó volta à terra, desanuvia-se uma tensão esboçada na cena. Ouve-se o chilrear dos passarinhos, por instantes.
 Militares, cavaleiros e músicos, três profissões ao mesmo tempo, de responsabilidade. A rotunda é o local dos ensaios, das cadências, dos sincronismos. Da música solene com muitas cornetas e tambores, marcial; do binómio homem-besta, a afinação mais difícil.
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Apurando a intenção como se olha para as coisas, ao fundo numa linha de recorte por trás do cenário, avista-se o rio na transição de ser mar. Realiza-se por fim,  fez o caminho, dilui-se agora na eternidade dos rios: o espaço do mar infindo. Há  um farol, isolado da terra, numa ilha-farol, é um mistério, pede imaginações. Nas noites em que o calor desperta sonos, com as janelas abertas a pedirem uma pequena corrente de ar, a luz, verde rotativa do farol, entra nas casas e não se explicando, gosta-se. Os faróis são pirilampos do bem.
Há golfinhos no rio – estão a acabar -  só brincam, como as crianças do pátio.  O rio anda ultimamente a sentir-se poluído, enjoado, fraco, não há estações de tratamento de esgotos. Toda a cidade, imagine-se, tantos, a cagarem para o rio! Grandes ferruginosos taciturnos metálicos estaleiros da margem sul operária, remendam colando metálicos taciturnos ferruginosos remendos nos petroleiros  que incontinentes, derramam detritos e petróleos maus que matam a água. As pessoas não gostam dos cheiros pútridos nem de uma cor que não é a da água saudável. Ainda não chegou o tempo da consciência ecológica, só lá fora, cá  é sempre depois de muito.
O som dos cascos dos cavalos na terra dura acorda-nos das derivações dos pensamentos. Em bicos de pés os miúdos ajeitam os queixos no bordo do muro do pátio, estáticos, apatetados, assistindo aos bailados das altas montarias brancas.
Não se sabe se os cavaleiros-fanfarristas se dão conta que têm uma audiência fiel. Separa-os alguma distância, eles estão concentrados no seu trabalho e as cabecitas mal despontam do muro branco. Não serão vistos. O silêncio da audiência desmancha-se em risada franca, quando um ginete menos experiente, ou por casualidade, cai da montada. Por vezes é projectado,  as bestas têm o seu limite. Na aparatosa queda leva com ele para o chão, rebolando, trambolhando, tambores do tamanho de uma roda de camião, que as vezes rolam numa trajectória sem obstáculos, outras embatem noutro cavalo, e este, histérico, assustadiço por defeito da natureza, desembesta desarranjando a hamonia solene daquela banda marcial, hirta e ganhadora de tantos prémios.
 Seria desonesto não dizer que os miúdos ficam extasiados, que é mesmo o que mais desejam e esperam, seria chamar-lhes nomes e dir-se-ia que eram entrópicos, mas são miúdos, não é preciso ofender e é um nome que não lembra a ninguém.
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É uma catrefada deles de idades muitas, alturas e feitios ainda mais.
Miúdos felizes.
Os treinos da equina sinfónica prolongam-se pela manhã. Dados por satisfeitos, os comandantes que estiveram todo o tempo parados no centro da rotunda, montados nos seus cavalos melhores do que os outros, com assinatura, a dar ordens e a fumar trocando impressões que a esta distância não se ouvem, mandam recolher ao quartel.
É o tempo de se servir o rancho, uma espécie de comida que os militares comem que basicamente aceita todos os ingredientes e os que se inventem para encher o bandulho, designação elegante para estômago.
 A fanfarra, estafada do sopro, da paulitada a arrancar um som coerente aos batuques, com as bestas suadas e fartas de se sentirem usadas, segue agora a trote de volta ao quartel, no Alto da Ajuda. Aproxima-se o meiodia, ainda há tanto dia no pátio do prédio amarelo.
Sai a cavalaria de cena.
Habitam pequenos burgueses, burgueses maiorzinhos e os serventes, nas modalidades de internos e externos.
As mercearias de bairro – não foram inventadas as grandes superfícies neoliberais – empregam marçanos vindos da parvalheira, a mesma nacionalidade das sopeiras. Executam as piores tarefas de uma mercearia, tendo lugar de destaque o ser bodes expiatórios de um dia de negócio mau ou o merceeiro ter descoberto que a mulher não tem hipótese de vir a ser canonizada por alguns pecadilhos menos edificantes, e necessitar, o galego, de descarregar em alguém, neste caso o precioso rapaz, que está ali à mão para isso mesmo.
 Os marçanos têm igualmente a tarefa de levarem a casa dos fregueses o rol de produtos pedidos. Enquanto as cestas trocam de mãos catrapiscam as. De preferência manualmente, apalpando-as efusivamente já que a oportunidade pode ser única. Se os meninos os apanham em flagrante, negoceiam depois com elas, habitualmente com concessões garantidas a troco de silêncio.
No nível da classe dos serventes mas um escalão acima dos marçanos encontram-se os leiteiros, os padeiros, as aguadeiras. Todos vêm das mesmas proveniências, mas dentro da quase miséria, a sua vida é mais estável, subiram socialmente. Pouco a pouco…alguns chegam a nada.
Os amoladores são seres estranhos e solitários e muito poéticos e fala-se deles entre outras razões porque são seres que não se consegue catalogar, nem colocar em nenhuma classe.
Parecem os faunos dos bosques, hipnotizados a si mesmos pelos sons repetitivos e mágicos das suas gaitas. Em dias certos da semana, geralmente domingos, percorrem lentissimamente as ruas nas bicicletas velhas e quem está na cama, ao ouvi-los, sonha com esses seres imaginários que se calhar existem, correndo pelos campos de terras com floras desconhecidas, por nomear, encantando os seres que as habitam.

Não foi assim há tanto tempo.




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