segunda-feira, 19 de junho de 2017

ONTEM - FOLHETIM 3






O maior mistério de todos os tesouros é não se saber onde estão, pairarem escondidos do olhar, com inimagináveis riquezas que não se sabe se sim ou não. Por isso mesmo porque não se veem é que soltam as imaginações, desabridas, em cavalgadas sem rédeas. Se há coisa que vem em qualquer momento a jeito de todas as mentes menos as diminuídas, é a invenção de uma bela e robusta história. Entretém, preenche, justifica, dulcifica.

Os miúdos têm uma curiosidade insaturável.

Há casinhotas completamente desinteressantes e outras que despertam sururus, mistérios insondáveis. Estão em fila e têm as portas de madeira pintadas de amarelo, canário. Estão numeradas ou não, talvez. De todas, a que se destaca é a número três, número que deus fez e neste caso o que calhou ao fotógrafo, que a habita (uma forma de dizer) e vive com a família no rés-do-chão esquerdo. Não é um homem de simpatias fáceis.

Um fotógrafo tira fotografias, mas o senhor Casimiro nunca foi capatdo na via pública, com uma máquina fotográfica a tiracolo. Quanto a colocar o óculo na mira de um dos seus olhos astigmáticos ensaiando um instantâneo, ainda menos. Exercendo esta profissão e não ser visto com uma câmara na mão, pode vir em desabono da sua pessoa, mas não era esta a sua especialização.

Com um nome como o que lhe deram pode levar-se a pensar que se trata de um ser mirrado, corcovado. Um lingrínhas ? Não. Era um alentejano convincente. Os nomes nem sempre correspondem à verdade dos factos.

 Não tirava fotografias na rua não fazia reportagem, nem casamentos, era um profissional de estúdio, o que quer dizer que nas traseiras do balcão de atendimento, na porta ao lado do prédio ao lado, dispunha de um moderno atelier fotográfico. As paredes eram brancas e despidas. Como mobiliário um banco e uma máquina preta com um olho grande, montada num tripé de madeira. Numa das paredes, havia um sistema montado no tecto com vários tubos e roldanas. Daí fazia descer, conforme o pedido ou enquadramento artístico que ele próprio decidia, qual o cenário apropriado ao cliente. Tinha-os bucólicos, campestres, até navais com fundo de mar. Todos os cenários eram coloridos mas o produto final saia a preto e branco. Ela podia pintar lábios e dar a aproximação da cor dos olhos. Uma ou outra flor no cenário do jardim, também as pintava. Não mais do que isso.

Ao lado do estúdio havia uma sala-laboratório de revelação totalmente obscura. Vendo a coisa à distância, era uma cena esotérica, uma espécie de alquimia o que se passava nessa sala e ninguém sabia, ou melhor, via, para poder contar aos outros, que se roíam em comentários e conjecturas.

O Pedro é o filho do Casimiro, vai ser médico cirurgião, mas já de pequeno que é obeso e parecendo que não, influi e muito na imagem que se faz de um médico. Está a terminar o liceu com notas sofríveis mas não há ainda necessidade de ter vinte valores e ser um alienígena, comummente designado por “marrão”, para entrar no curso de medicina. Já não brinca no pátio, pertence ao turno anterior que deu mais médicos e inclusive um general a sério, dos que decoram o peito com filas sobrepostas de medalhas de grande valor.

Anda entretido com outros afazeres, não se conta com a sua presença física no pátio, daí não se lhe poder pedir para abrir a arrecadação e saciar a curiosidade mórbida que achaca a rapaziada, mais os do símbolo da seta, que as do símbolo do mais, essas com outras indiscrições.

Do pouco que se pode ver no equilíbrio instável das cavalitas, o interior da número três está forrado de prateleiras cheias de frascos de vidro com criaturas (diz-se que são criaturas, porque têm esse feitio, de criaturas que um dia já foram vivas) mortas, conservadas em formol (sabe-se agora). É um museu das estranhezas, ou o centro de investigação avançado do Pedro, uma incógnita a juntar a tantas, a dar um novelo de proporções inesperadas nestas cabecinhas, tenrinhas.

Como é muito escuro e as lanternas disponíveis desgraçam o mesmo combustível que alimenta as telefonias que se usam à noite na cama para ouvir os programas radiofónicos de sucesso, tem que se fazer uma gestão do consumo. Entre escolher alumiar uma colecção de possíveis fetos que não se sabe serem verdadeiros e ouvir música na cama, a última opção é uma escolha prioritária.

Os olhos focam mas veem difusamente, é difícil perceber de que animais se trata, se é de pequeno porte ou há mamíferos e se forem humanos, é a apoteose. Isso sim elevaria a categoria do pátio para níveis superiores. Espalhava-se a notícia e é ver o bairro inteiro a querer frequentá-lo. Pode-se mesmo via a cobrar bilhetes.

Tanto se desejou que aconteceu. Quem julga que o poder da mente a fazer um pedido para que algo aconteça, com muito empenho e fé, é um embuste, está redondamente enganado. As crianças estão constantemente a fazer estes exercícios tântricos do controlo da mente e conseguem. Os adultos só falham porque desejam e pedem parvoíces, e nisso não há concentrações de energia espiritual que os valha.

Um dia a porta do museu dos mistérios estava aberta. Dada a proximidade do quartel-general, pede-se uma acção de penetração bem sucedida com uma planificação rigorosa dos passos a dar no sentido de ser eficaz e sem intercessão por parte do inimigo, salvo seja. Nesse sentido as crianças sentaram-se e ficaram longamente sentadas a discutirem o que fazer.

O Rui ficou de ouvido colado à porta da cozinha da mulher do Casimiro que era local onde ele não punha os pés, porque era fotógrafo e não cozinheiro. Se forem detectados ruídos persistentes no interior – de panelas ou assim - uma sinalética gestual previamente combinada, aborta a acção dos penetras. Foi difícil a negociação, queria ser ele a entrar na casota do alibaba. Ficou acordado que na próxima missão ele seria o herói.

Cai o silêncio habitual do momento anterior ao momento da acção. O Nuno e o Paulo avançam ziguezagueando porque ouviram dizer que era assim, e entraram na caverna dos segredos. Uma eternidade, eles lá dentro e o resto da trupe escondida nos recantos, nos corredores, nas escadas de serviço que ligam os andares do prédio com o terraço.
É banal dizer-se que nestas coisas o tempo não se mede, se muito ou pouco, a fatia dele que entremeia o episódio é uma eternidade.

Saíram de lá barrigudos, mas não, é o espólio, escondido debaixo das camisolas. Reunem no vão de escadas que liga o segundo com o terceiro andar. São dois frascos de vidro com uma tampa vedada por uma anilha de borracha. Estão cheios de um líquido transparente. Não é água. Num boiam cavalos marinhos, três, evidentemente mortos e conservados no líquido que não se sabe o que é. No outro frasco, um pequeníssimo ser, parece um girino, maior, com dois pontos pretos redondos, são os olhos. E um risco, talvez um esboço de boca. Que ser foi este? Um homenzinho? Um humuncúlo? Um golem da cabala judaica? Tudo isto são palpites, desvios de muita leitura acumulada e que depois deriva para ligações mentais inconsequentes.

Os miúdos para além de curiosos têm uma imaginação inesgotável. Inventam a  mil, milhares de coisas interessantes  ou estapafúrdias. Originou-se logo um enunciado de possibilidades e pistas e explicações acerca do objecto em causa. Todos a falarem ao mesmo tempo.

Era um feto. Mas de quê? Cão. Não podia ser, o que se afigura ser a cabeça é demasiado arredondada para o que se presumia ser um feto de cão. Macaco. Pode ser, a não ser que seja mesmo o que estamos a pensar. Um feto humano!
Ele tinha um feto humano morto e embalsamado na arrecadação do prédio? E onde o arranjou? Seria da família? Um aborto clandestino? Devassou-se uma campa de cemitério? Todos queriam ver mas ninguém queria tocar no frasco. Asco, repugnância.

Passam poucos minutos do meio-dia e vive-se um alvoroço de grandes proporções e excitação. O dia do treino dos homens dos bombos a cavalo já de si, é um momento especial e depois disso uma descoberta destas! Uns assustaram-se e querem ir para casa, há quem conte às empregadas, que crédulas que são, contam às patroas e estas, acreditadas também, contarão aos maridos, cheguem eles a casa, ao fim do dia com paciência de as ouvir, ou fingindo que as ouvem.

Esgotada a novidade o problema agora é o destino a dar ao frasco, ninguém está com coragem de voltar ao casinhoto e ainda para mais com um defunto na mão.

Alguém atira o frasco para o terreno baldio onde treina a GNR. Fora dos trilhos marcados pelos cavalos, as ervas daninhas crescem abundantemente, ninguém vai descobrir um cadáver tão minúsculo.

Assim se faz e se esquece. Os rapazes jogam agora à bola, todos contra todos com o Zé à baliza. As meninas brincam a saltar a corda. Em grupos de duas e três aumentam a dificuldade dos saltos, é quase uma dança bem coreografada. Grita-se tanto.

Tempo do almoço. Mais descontraído do que o jantar. A estas horas unem-se as mulheres e as crianças. As relações simplificam-se, são mais carinhosas. É bom.

A sesta é um contratempo que não se pode evitar: mesmo fingindo que se está a dormir, acaba-se por adormecer à força de descerrar a persiana dos olhos. O tempo de cada uma depende do metabolismo das casas, normalmente é uma hora.  O melhor da sesta é que quando se acorda com a recompensa de um copo de leite e bolachas maria, com ou sem manteiga, prefere-se com.

Nos longos e intermináveis dias de verão, quando as férias são eternas, passadas em ambientes de quietude, no campo, fazem-se sestas colectivas, pequenos e grandes numa chalaça pegada. Não se dorme e os adultos condescendem, amaciados por não terem preocupações nem urgências a acudir.

O verão é a época dos dias simpáticos que não acabam.


No período da tarde, uma radio local vai fazer a emissão inaugural, numa actuação muito especial para as meninas da Dona Elvira, que ainda não sabem que vão ter uma surpresa.


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