terça-feira, 13 de junho de 2017

TAMBÉM HÁ SANTOS NAS PERIFERIAS






São labaredas e enormes, têm mau aspecto, feias. Toros grossos de madeira ardem descuidadamente, chispam faíscas. Fumo branco. Como todo o fumo, escapa-se na lógica de subir às alturas e dissipar-se. Os bombeiros, atarefadíssimos, andam de um lado para o outro, concentrados nos trabalhos sérios dos bombeiros, cada um na sua missão. Trabalham bem em equipa.




Falam-se poucas palavras. Nestas condições para se ser preciso, não se fala mesmo.

Há tensão no ar, também nervosa. O ambiente está carregado, mas a organização é exemplar, a resposta imediata, irrepreensível.



Quando parecia que tudo estava perdido, afinal as primeiras sardinhas do ano estão excelentes. Comem-se no quartel de bombeiros de Queluz, urbe densa, que não tem só um palácio azul e quartel de tropas artilheiras e gente de multiculturas que a vivem, como igualmente uma comemoração dos santos populares -no que respeita ao aprumo do serviço, a diversidade da carta e a qualidade do produto – ao nível do que melhor se pratica nos bairros típicos de Lisboa.

É assim, canta-se a santo António, ao João e ao Pedro. E baila-se. Acha-se bem que o façam, os aficionados do bailarico e das cantilenas com rimas populares simples, singelas, algumas com um travo um tudo-nada  picante, para apimentar um pouco estas vidas dos cansaços próprios das vidas.

Este mês é o nosso carnaval, e para nós que ninguém nos lê, o nosso é muito mais bonito que o deles, os do outro lado do mar! (com exclamação e tudo).

Nós preferimos comer a bater o pé e enquanto nos apascentamos em mesas corridas na garagem do quartel dos bombeiros, deliciamos os olhos nos anúncios patrocinadores destas festas, escarrapachados nos painéis que forram as grandes portas por onde saem os tinónis nas emergências.

Agora descansam estacionados em fila na rua em frente. Em tempos de festas, os deuses são benevolentes e autorizam poucos acidentes dando aos soldados da Paz,  a que eles necessitam para assar a sardinha convenientemente, apesar de ser só fumaraça.

E como se dizia, enquanto se pratica o desbaste do filete e o pingar do azeite  enaltece a fatia de pão que se vai comer no final, passam-se os olhos pela publicidade: “Suzy Bell” a cabeleireira que se imagina, pelo nome, ser uma vedeta do circo e do funambulismo; “O retiro de Queluz”, que se julga um lugar de repouso geriátrico mas que é a melhor venda de caracóis, caracoletas e afins da zona; e a “Chuva de tentações”, que não é uma loja de artigos eróticos, como podia julgar-se, mas uma pastelaria fina.

Está a sardinha encorpada e o pimento, tenrinho e avinagrado.

“Santo António já se acabou,
O São Pedro está-se a acabar,
São João, São João, dá cá um balão,
Para eu brincar…”






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