segunda-feira, 24 de julho de 2017

O MEU PEQUENO MUNDO





No miradouro do castelo de são Jorge,
não vislumbro todo o mundo,
avisto o meu mundo todo.

Há dias que me emociono de o ver,
estendido, assim, perante mim.

Outros em que o repudio,
com essa ideia que agora tem
de se deixar levar
por uma certa lassidão.

Arranja-se demasiado para os outros,
desarranja-se-me.
Gostava de o ver simples,
sem a cara esborratada de batons exuberantes,
como era.

Não preciso de grandes mundos,
para ser do mundo.
Prefiro-o pequeno e maneiro.

Na dimensão de o poder agarrar,
ou assim julgo,
quando encostado ao beiral do miradouro,
estico os meus braços e toda a sua extensão
até à ponta dos dedos.

E,
fechando os olhos depois de o ter absorvido,
o mundo,
imagino-me num prolongado abraço,
a apanhar com a posse toda de ser meu,

o perímetro inteiro da cidade, a que eu chamo mundo.









domingo, 23 de julho de 2017

FRASES DE AMOR






Não saem frases de amor,
Com ambição de virem a ser poesias de amor.
As tentativas, bambas, são rebuscadas.
Por decência e respeito, não se insiste.
Limitar-se a ler belas frases de amor, em doses homeopáticas,
Escritas por pessoas competentes.
Sendo tantos a fazê-lo,
Poucos os que se conseguem ler.
Leva-se uma vida e às vezes não chega,
para construir uma frase de amor decente,
Que valha ser dita.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

ONTEM - FOLHETIM 7




Eram duas perinhas em maturação, a seguirem canonicamente o ciclo de crescimento para a perfeição. Não, dois montes. Exemplares. Não era inevitável olhar, era cola, não despegavam daquele regozinho, no vale acentuado, que quasi escondia mostrava esses dois montezinhos tão sensuais, uma escalada suave ao paraíso e ainda não se sabia o peso dessa palavra – sensual – na afinação das mecânicas do mundo. Mais tarde.

“Minha só minha”, todos repetiam, reclamando para si o que nessa idade ou outra, jamais se pode vir a reclamar como seu: um usufruto que pratica o funambulismo no fio da navalha, às vezes com muito custo, a preço de incontáveis concessões. Mas apetecia dizer, saía, sem se saber porquê, uma coisa atávica, um despertar das células, muitas em uníssono, uma pulsão forte fora da possibilidade de qualquer controlo da razão, nem mesmo para os que iam cursar gestão.
Dizia-se cursar naquela altura.

Mais do que um brinquedo - todos os brinquedos - dão-se todos sem remorso, para estar ali, ser o escolhido, no momento crucial, e tocar. Depois de acontecer, e a ser possível, depois desse primeiro toque ambicioso mas trementemente inseguro, acontece uma revolução na cabeça: com a descoberta do prazer da sexualidade, algo que não se descreve, nem uma aproximação disso,  despirolitam,  alguns todo o seu resto de vida, que nunca voltará aos eixos da temperança, de construir uma carreira, família e deixar património e essas coisas e outras tantas da gente séria.
Esse míssil de adrenalina a circular no sistema linfático à velocidade da luz, era uma coisa diferente, nova, com a qual não se sabia lidar - uma coisa intensa de dois (só assim) - e nem mesmo mais tarde, décadas.

Nos recreios da escola ela (Teresa, que nome mais delicioso) desinquietava e nem sequer era a mais bonita, mas era a mais vistosa: uma loura de olhos verde-esmeralda cristalino, desinteressadamente em todos os poros da sua pele,  anémica, até nos sentimentos e emoções. Muita frieza para um futuro organizado, mas pueril. Era essa a mais bonita, mas morreu na praia como se costuma dizer, ou seja enfadonha, gastou todo o futuro na cansativa tarefa de ser fútil. Perdeu a graça.

Teresa sobressaia porque era ousada, solta, sem os filtros nem os códigos submissamente aceites de dois géneros distintos em tudo,  habituados a viverem juntos mas separados em tudo o resto à excepção do hábito de terem que se ver juntos e cumprirem os ditames de Deus, da Pátria e da Autoridade.

Espantava pela sua liberdade, indomável. Parecia retornada, mas não era.

Vivia no prédio ao lado, o da porteira polícia com buço pronunciado e pelos nas pernas que se viam, e grandes.  Nessa condição, de privilégio, fora das horas de escola, no livre trânsito do tempo livre vinha juntar-se aos miúdos do prédio (hora feliz), e vinha despojada e leve do seu soutienzinho, encantador por certo, mas que impediria – a trazê-lo posto - a recordação de reconstruir esta memória cinquenta anos depois. Bendita libertação a sua, tão cedo e bem, numa altura turva, indecisa, em que os blocos de gelo começavam a derreter (imagem linda).

Andava ela nisto e era um impasse. Não para ela que andava normalmente, mas para a rapaziada, em conluios do que fazer a seguir, que passos dar, ou seja tocar, de preferência aprofundadamente, e se houvesse rejeição o que fazer, logo se veria.

O ideal mesmo era cada um por si, pelo que os conluios era mais para saber se havia alguém avançado em método e coragem, que estivesse mais bem posicionado para arrebatar a sua atenção, para esses inícios de brincadeira que à falta de melhor se designa como picardias de desequilíbrio hormonal. Ela estava mais do que matura, em todos os sentidos, e sabia muito bem ao que ia, a fazer de propósito, a revirar a cabeça dos rapazes, que até na bola já não marcavam golos.

Dois estavam bem colocados no seu possível interesse, um terceiro seria segunda escolha, nunca fiando, este é um assunto em que não há amigos, o livro de histórias do mundo está pejado de adultérios dos amigos aos próprios cônjuges de cada um. Como se valesse a pena, mas há quem o pratique.

A mãe era uma vedeta da moda, comentavam lá em casa. Excêntrica, tinha cabelos com cores fora de comum, pintava a cara exageradamente, tinha roupas vistosas e com muitos folhos, fumava cigarros na ponta de uma longa boquilha preta. Fazia-o com pose. Fumar, uma inspiração-expiração aparentemente simples era toda uma peça de teatro. Dava gosto assistir.

 O irmão mais velho, interno algures durante a semana, era o melhor génio da rua inteira. Cientista mesmo. Todos o consideravam por isso, mas ninguém sabia de que ciência era ele cientista. Uma incógnita, o que aumentava a aura que o rodeava. Alimentava conversas, suposições, apostas. Aparecia raras vezes ao parapeito da janela, nunca foi visto a brincar.

Mais tarde confirmou-se que entrou em engenharia astrofísica, curso novo num país que ainda estava nas fraldas da idade mediana.

Deve ter sido nessa universidade que a conheceu, apaixonou-se pela primeira e única vez, ela nem olhou para ele, deu-lhe alguma esperança (ou foi a sua imaginação fértil a trabalhar mal) , engravidou de um sedutor encartado de tez bronzeada que passava a vida no café do bairro. Eram de África os dois,  ou era do calor que eles ganhavam liberdade cedo, ou era do que fosse, sabiam a cartilha toda. Nós no pastel de bacalhau e eles já na chamuça. Muito à frente.

Ele enlouqueceu dela, o nosso físico celestial, e derramou o futuro nisso.  A rua, o bairro, perdeu o seu único cientista ainda não famoso mas que podia muito bem ter sido. Criou-se um vazio: perdida a esperança, não se via mais nenhum com perfil para vir a ser famoso, o que na realidade não aconteceu. Esbateram-se todos.

A irmã era linda e de louca, só nos punha a nós. De quantos sonhos interrompidos, convulsivos, intensamente físicos, foi a responsável. Naquele curto tempo de transição entre idades, pôs o pátio num alvoroço.

O António era um dos dois que estava em vantagem: com uma boa prática de afagar seios (as sopeiras eram sempre bem escolhidas, ou podia ser só coincidência serem todas fartas e hirtas) e tinha igualmente um livro proibido - banda desenhada - que contava pormenorizadamente a história de um herói que aparecia de prancha em prancha em posições engraçadas e sempre na companhia de uma recheada rechonchuda mulher.

O António encontrou o livro debaixo da cama, no quarto dos pais. Como é que terá ido estacionar aí? Mistério, mas ficou com ele. Até ver.

Sendo o sorteado, na lotaria da Teresa o escolher a ele, já tinha planeado tudo na cabeça, plano “B” e tudo. Convidá-la a verem juntos o livro, sentados no chão do corredor de um dos andares, ninguém os via. Tinha vantagem sobre os outros: foram os primeiros a darem um beijo na boca, um ao outro, pelo menos ele, e já não era a primeira vez que se encostavam não propriamente até esborracharem em insuficiência anaeróbica, mas com tensão suficiente para sentirem alterações fisionómicas súbitas de orgãos antes adormecidos. Nessas situações ela ficava ofegante e ruborescida. Ele nem se sabe como ficava. Pateta.

Deu-se a oportunidade num dia de chuva mas de calor intenso, suado. Os calores relaxam a e desabotoam os botões das camisas. Ela veio brincar com a irmã do António e não há dúvida que vinha cheia de calor. Os seus Olimpo – tinha dois  – simétricos, perfeitos, cheios, pareciam que queriam rebentar. Era porque tinha subido as escadas a correr, três andares, estava ofegante e despenteada, a rebentar.

O António, nervosíssimo, castamente excitado, a ver se tinha uma oportunidade para lhe chegar à fala. Ela inclinou-se propositadamente para o beijar na cara fazendo antever o que seria uma escalada gloriosa aqueles montes divinos, para pagar uma qualquer promessa, uma purificação.



A ver no que vai dar.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

A METAFÍSICA










Temos a importância do peixe,
Da medusa, a lindíssima mas perigosa medusa.
São o que são, incontornáveis.
A coruja com os seus olhos desconcertantes,
Um pássaro atestado de personalidade.
As flores, com todos os argumentos para serem adoradas.
As pedras que são preciosas e faíscam muitos brilhos.
E os homens.
As mulheres e os homens, dúbios mas únicos.

Temos ocasos arrebatadores, a revolver o nosso interior de sentimentos.
E as doces albas, o renascer da eterna esperança.
A noite, o dia, a lua, o sol,
E o encadeamento sincronizado do claro e do escuro,
Que estas nos oferecem.

Temos isto tudo e mais o que não foi nomeado.

Nesta diversidade de arregalar a vista,
Mergulhados numa inesgotável admiração,
A metafísica é tempo perdido.

Tendo à mão a simplicidade das coisas como elas são,

Não é sensato complicar-nos a vida.


quarta-feira, 19 de julho de 2017

VIOLENTAMENTE






Desejo que me beijes violentamente
Porque eu não sei como chegar a ti
E beijar-te violentamente.
O que queria,
Mas não arrisco.
Não ia resistir a num movimento brusco de rejeição,
E perder numa oportunidade,
As poupanças de esperança acumuladas no meu depósito
Do futuro.
Quem vou amar depois de ti?
Que nunca oficializámos, nem o faremos,
Já que este desvario de paixão antecipada,
Nunca passou dos limites da minha cabeça,
Hoje ao almoço,
Quando entre o panado de frango,
Olhava para ti na mesa em frente
E imaginava que te iria beijar violentamente,
E tu perdida.






terça-feira, 18 de julho de 2017

CLARO - ESCURO





Do movimento constante das coisas, o sol ganha proeminência sobre a lua, com uma pontualidade irrepreensível.
Consequentemente e sendo um desafio dos dois, ela não concorda, e para que não se fique por aí, faz o mesmo proeminentemente. 
Andam há eternidades nisto, numa dialéctica pessoal.
Dia e noite e dia....
O que é bom: haver quem continue a cumprir diligentemente a função que lhe cumpre.
São um exemplo animador.





SINOS







Os sinos da minha aldeia,
Uma ideia que tenho da minha aldeia,
Badalam as horas certas
E anunciam acontecimentos e factos.
Não tendo religiões
O que seria eu sem os sinos da minha aldeia.
É um conforto serem sonantes,
Justificam- me.
Conto com eles,
cumprindo-se como sinos que dão horas,

acredito na existência de uma aldeia minha.
Mas não.



sexta-feira, 7 de julho de 2017

ONTEM - FOLHETIM 6






O Avô gostava muito da sua prima e tanto a apreciava, que a tinha acolhido no seio da  família, oferecendo-lhe um tecto-casa seguro para se proteger das intempéries de uma vida madrasta que a levou a ser mãe solteira de um filho, o Augustinho, rapaz franzino, pouco animado.

Ele era visita frequente do pátio. Vinha com a avó, não a dele que não tinha, a do António, mulher de um coração tão generoso que conseguia convencer-se a si mesma que o mundo era de uma tonalidade perto do cor-de-rosa inofensivo. Enquanto isto - estas visitas aos netos, dois -  o avô e a prima estariam não se sabe onde, cada um por si ou juntos, entretidos com alguma coisa ou não.
Gostavam-se muito, ele era um filantropo, ela uma agradecida.

O Augustinho como era de alguma forma fraco, dava-se ao aproveitamento e as crianças do prédio utilizavam-no impiedosamente. Instrumentalizavam-no se é correcto dizer-se – que ele se sentia isso muitas vezes é correctíssimo.

Era o tempo, aquele, em que as estações do ano, como de tudo o mais, da natureza ou do homem, cumpria com a palavra dada. O Inverno era chuvoso e macambúzio, a Primavera esperançosa e florescente, o Verão caloroso e quedo, o Outono nostálgico e acobreado. Estava tudo no seu lugar, o que podendo ser monótono, não deixava de ser tranquilizador, como por exemplo ir-se de férias sem ter que transportar um guarda-chuva, no Verão claro.

Como se sabe dos relatos anteriores, e minuciosamente descrito, à frente do pátio existe um grande descampado de ervas daninhas e outras. Dizer outras é dar a possibilidade de poderem co-existir no meio da ruindade das ervas, umas tantas, de bom carácter, que estavam misturadas. As daninhas, crescem com uma grande rapidez e polinizam muito.  Sendo ervas está na sua essência secarem rapidamente e desta forma basta um motivo menor para virem a arder, não se poupam a um bom pretexto.

Todos os verões deflagravam pequenos incêndios nesse matagal e lá iam os bombeiros apagar. Como as comunicações não eram o que são hoje e entre o telefonar, a menina do PBX colocar a cavilha da linha na entrada certa, e haver resposta do outro lado, acrescentando a isso a profissão de bombeiro ser voluntária, a sirene tocar a chamá-los aos empregos, eles chegarem, vestirem-se e porem-se a caminho, tudo isto, só de o dizer cansa, imagine-se o  atraso que ganha, a chegar ao local da ocorrência.

Quando chegavam já havia um grande fogo, ou então porque eram ervas sem outros pergaminhos, ele já estava na fase de quase rescaldo. Neste caso era chegar e andar, mas prejudicava o espectáculo da criançada. No primeiro caso era uma grande sorte – salvo seja -  ou seja: eles demoravam mais tempo, vinham mais bombeiros, e as crianças fruíam de uma excitante aventura prolongada em tempo.

Tudo isto, estes volteios todos, para trazer à conversa a razão por que o Augustinho, entre outras, era tíbio.

Os rapazes residentes (as raparigas são mais sensatas e brincam com coisas mais sensatas) consideraram que dados os atrasos constantes dos bombeiros chegarem ao local, seria bom haver um posto avançado no próprio.

Os homens adultos trabalham durante o dia, ausentes, as mulheres adultas não ligam a estas coisas, não resta mais ninguém: o corpo de intervenção rápida tem que ser constituído por crianças, os que estão disponíveis.

Um bombeiro não se faz de um dia para outro, é necessária formação, treino, e acima de tudo amor, que é o ingrediente de uma vida bem temperada (elementar lugar comum, que envergonha escrever, mas um folhetim para ser popular tem que conter aqui e ali um salpico de frases assim a roçarem o primário).

Decidiu-se na Ágora a criação de um corpo de voluntários e para começar bem perdeu-se logo uma semana para eleger os corpos directivos, a velha história que já vem de outros episódios. Todos querem mandar e ninguém gosta de ser raso.

Como o António e o Salvador saíram fragilizados da história da radio, não se chegaram à frente. O comandante nomeado foi o Quincas, diminutivo-alcunha do irmão mais novo do Pedro, um estouvado para não afirmar com propriedade que era totalmente despirolitado da cabeça.

Nessa época o Xico da mercearia onde todos se aviavam vendia o vinagre em garrafas de plástico mole com um gargalo que se cortava com tesoura. Ao apertar a garrafa, esta espichava, o que não era muito prático para os desatentos ou que não mediam a força preênsil das suas mãos pessoais.

Como todos eram clientes do Xico e tinham dessas garrafas em casa, logo se concluiu que dispunham de um acervo de extintores suficiente para as primeiras necessidades. E foi por aí que começou a formação especializada: dias e dias a borrifarem-se de água, uns atrás dos outros, uns a fugir dos outros, as meninas a serem massacradas, os gritos das empregadas, sempre das janelas. Camisolas molhadas, saias molhadas, calções molhados, meias e sapatilhas molhados. Se tudo se molhava para quê repeti-lo tantas vezes? O estilo.

O único problema para o qual não se encontrou uma solução prática era os depósitos das garrafas não ultrapassarem o litro de capacidade de líquido, o que quer dizer que uma borrifadela mais enérgica esgotava imediatamente a capacidade de ataque à linha de fogo. E para se fazer uma recarga, a retaguarda devia dispor de um recipiente – podia ser alguidar – suficientemente grande para se poderem mergulhar vários extintores ao mesmo tempo. Foi o que se fez.

Completa esta formação em incêndios, a profissão mesmo que voluntária, de bombeiro, tem outras valências. Por exemplo transporte de feridos. Fácil: dois paus fortes, uma lona e está feito. O treino não é necessário, basta sincronizar o passo do bombeiro de trás com o da frente, e levantarem os dois o ferido ao mesmo tempo, para este não vir a resvalar numa situação de saúde ainda pior.

Outra era o resgate em altura, coisa séria. E explica-se: não ter vertigens, ter cordas, ser possuidor de um conjunto de técnicas delicadas para içar e desiçar.

A corda é um material com muitas categorias e importâncias. Vai desde o fio de coser o botão – e ainda há mais humildes – até ao cordame que mantém um navio de grandes dimensões sossegado quando aporta a bom porto.

O Xico, grande Xico, o da mercearia, vendia de tudo e até cordas. Não para navios que se estava terra adentro, mas das categorias intermédias tinha o seu aprovisionamento.
E foi ele o fornecedor. Durante semanas, as poupanças financeiras de cada um foram investidas na compra de corda.

A solução era simples e bem pensada e foi tirada da observação atenta do cabelo das meninas. Mais propriamente das tranças. Se se usar a mesma técnica e entrançar várias cordas, obtêm-se uma capazmente forte para aguentar o corpo de um bombeiro, dos pequenos que eles eram. Assim se vez. Conseguiram-se uns vinte metros.

Testar a corda pedia uma oportunidade, uma conjugação de factores. Um voluntário para ser içado, um número suficiente de içadores, e uma hora morta, ou seja, em que nas casas os ocupantes andem distraídos e tenham esquecido momentaneamente as suas crianças que brincam no pátio.

Era o Augustinho, não havia outro.

Ele não queria aceitar, mas ou dizia que sim, ou perderia uma oportunidade se calhar única de ser reconhecido e aceite definitivamente no grupo do pátio, coisa que nunca seria mas dizia-se-lhe que sim e ele tinha esperança.

Também não era nada de outro mundo, era uma experimentação simples. O prédio como já foi contado era em “L” e a unir interiormente as duas partes tinha corredores de ligação entre cada andar e uma escada a meio dos corredores, debaixo a cima.

A equipa dos que iam içar o escanzelado que não tinha culpa nenhuma de ser o filho da mãe, posicionavam-se no corredor do primeiro andar, sentados e encostados numa parede do corredor com os pés a fazerem de âncora na outra parede do corredor. O Augustinho estava preso pela cintura, com nós bem dados e suficientes. Um deles ficava encostado ao muro do corredor que dava para o pátio, a orientar os que puxavam e para dar uma mão ao mártir, quando este chegasse ao fim. Se tudo corresse bem, passariam do primeiro para o segundo andar e assim sucessivamente, que era só mais um.

O  Augustinho estava nervoso, mas isso também não queria dizer nada, o sacana do lombrigas, passava a vida nervoso. estava sempre em recaída.

Aguentaram o que puderam. Está documentado na memória. As forças foram levadas ao limite, as mãos a cederem, a corda a querer escapar-lhes, a levar a pele, as dores. Puxavam, puxaram e nunca mais lhe viam o cocuruto da cabeça de passarinho que era a sua. Mas ouviam-no gemer, e depois guinchar e por fim relinchar, que não sendo equídeo, eram gritos que pareciam de um desses.

O Augustinho ficou com a cabeça presa no tabuleiro do corredor e rodopiava, e mais uma vez, e eles porque estavam a ser mal orientados pelo catrapisqueiro de Jonas  que em vez de ser os olhos deles e dar as coordenadas, se distraía com a Filipa, aluna da Dona Elvira,  que ao contrário da maioria quase absoluta das suas colegas, e sem que se soubesse porquê,  tinha já com aquela idade tão precoce, um portentoso par de peitinhos vivazes a quererem anunciar um futuro glorioso.

Esteve meses sem aparecer, o ingrato.

Ainda a tarde vai a meio tanta coisa está para acontecer e não se sabe do paradeiro do avô e da prima. Diz-se que fugiram, mas à boca fechada, o que é dizer que se pode dizer, mas não se ouve. Daí a tirar conclusões, são conjecturas e é uma história que não ata nem desata para a felicidade da criançada que de novo em algazarra, esquece a dura profissão de bombeiro e vai iniciar um campeonato por eliminatórias de toca e foge.


Antes disso tem que se falar da Teresa e a fantástica descoberta dos efeitos mirabolantes das hormonas que destapam os prazeres da sensualidade.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

MISTÉRIO






Um olhar atento apanha a intenção,
Nenhuma,
Senão um esperguiçado, lânguido, longo,
Olhar de vedeta de cinema.
Mudo.
Não o olhar.
A pose enfática, ou suavizada,
É igual.
Pode não haver intenção,
Uma declaração não declarada de intenção.
De não ser nenhuma.
E todavia, denuncia uma vontade qualquer,
De vedeta de cinema,
A olhar para o lado,
De um olhar atento que a olha.






quarta-feira, 5 de julho de 2017





Arfar, ofegante arfar do peito.
Em instantes dá-se a suspensão da respiração.
A acontecer na fina superfície da pele epiderme,
Que reveste o corpo,
Com todas as histórias individuais que traz consigo.
Anelando uma mão desconhecida, que quer conhecer,
Dedos finos, compridos, sensíveis.
Que a toquem,
Com a maior das ternuras do desejo.
Deseja dedos competentes e sinceros,
Só aflorando, leve, levemente,
A pele que agora já os espera com ardor.
Na ideia de usufruir toda a qualidade de carícias:
Decentes, indecentes e obscenas.
Tudo isto se imagina,

Num peito a arfar.


terça-feira, 4 de julho de 2017

O MAR E UM HOMEM





A tranquilidade de o mar tranquilo que 
também faz esses momentos de descanso de si mesmo, de não ser sempre revoltoso, em cascatas de ondas feias.

Assim tranquiliza o homem que o olha.

Espelham-se um no outro, e embora não se 

sabendo, o mar pensa precisamente nisso: na 

acalmia que lhe transmite o homem tranquilo 

quando olha sem exigências para si.