quarta-feira, 30 de agosto de 2017

PATAGÓNIA






É o vento.
Sibila a sensação incómoda,
da deslocação ruidosa do ar ululante
quando se ouve o grito.
Sem descanso, um grito até ao fim dos dias.
Escapa-se a duzentos à hora,
pelos interstícios das araucácias,
árvores daí.
Os romerillos têm flores brancas como as nossas margaridas,
tiram a palavra,
só se quer olhar para eles.
Rareiam animais,
Também os homens,
gaúchos concentrados em assuntos de dentro.
Rematam as conversas com facas, ou é o romantismo a colorir o cenário.
Os guanacos têm por antipatia o mesmo carácter,
metidos com o avesso, temas pessoais.
As orquídeas de magalhães,
São esguias e fugidias.
Quando se encontram irradiam um branco pristino e raias verdes verdejantes.
são altivas porque são orquídeas.

Nunca estive no começo do fim do mundo,
nunca irei à Patagónia,
instantâneos que recolho em albúms,
do que a sonho todos os dias.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

SABOR DO AMOR




Tão jovem,
para deixar escapar o sabor do amor.

No espaço agora vazio

negoceia a utopia,

o aluguer permanente de um quarto no piso da alma.

Inventa-se a partir daí uma mentira piedosa:

a história do inatingível.

Na erosão do tempo,
organiza-se a vida, esquecem-se rostos.

E num instante fica tarde, tão perto
de ser irremediavelmente tarde,
para salvar as memórias.

Memórias cada vez mais esbatidas
como as cores das letras dos livros,
quando expostos às brisas inoportunas.

O amor escapou  por não ter avisado que era único.

Ela, que não sabia, deixou-o partir.
arrependem-se ambos,
mas já passou uma vida.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

COMO TE CHAMAS?








Eu sou Luis, e tu?
Eu Catarina, Homo, com muito orgulho e digo-o.
Eu Luis. Olá!
António. Desportivo da Benfazeja. Pelo clube a vida.
Luis. Como estás?
Lara. Toureiros? Testosterona? Feminista de coração.odeio soutiens.
O meu nome é fácil: Luis.
Doutor Manuel. Pode tratar-me por Doutor Manuel.
Luis, estou contente com o meu nome. Diz-se bem, é descomplicado.
Deus Nosso Senhor é a minha razão. Acabava com os evangélicos. Cátia.
Olá, Luis, como posso tratá-lo?
Doutor claro. Mas se preferir pode ser Presidente, Adjunto, Assessor vá! Hei de chegar! Não interessa o nome. Presidente. Desde miúdo na Juventude, tudo pela nação.
Bom dia sou o Luis.
Bom dia. Sou o dia, 
vamos passá-lo juntos?
Outra proposta simples, não seria mais adequada.
Queres fazer o favor?
Nem pensar!
Entremos juntos no dia…

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

DESCUIDADOS DE DEUS - 1*





Quando mais perto de ser homem, maior é o abismo da minha desilusão.
Um salto para uma queda livre no impossível.
A verdade que nego e engano, é que nunca poderei ser homem, e o pior dos castigos é o facto de me entender quase-homem. Vejo-me assim, um ser inacabado, a faltar um nada para ser. Não entanto não.
Alguns procuramos o disfarce, a trapaça – a ver se passa – mas a imitação é sempre defeituosa, e mesmo que não pareça, por dentro de nós ficou a parte incompleta.
Mesmo que seja executado por um profissional – o figurino que nos disfarça de homens - , alguém atento, descobre facilmente as imperfeições. E somos apontados por todos, alvos de riso, do desprezo.
A pior coisa que se pode fazer a um homem é querer ser como ele. Desconfia de imediato, a seguir fica inseguro e defende o território, que diz ser seu, que considera ser toda a extensão de terra que um dia cartografou.
Eu queria tanto ser homem.
Apesar dos seus momentos –  são muitos – de tristeza serem pungentes, às vezes uma dor aguda insuportável de viver, quando se realizam em grandes obras ou grandes pensamentos, efemeramente alegres, gozam do prazer da felicidade, um inexplicável que é um orgasmo do conseguimento.
Esse clímax só é dos homens. Nenhum outro ser seja animal, ou vegetal, ainda menos uma pedra, poderá jamais provar essa iguaria. E é isso o que nos falta, aos que estamos tão perto de sermos homens, e que falhamos por vontade de deus.
Ele é o culpado da nossa miséria, da sua miséria. Entediou-se com o acto da criação e deixou-a com um final suspenso. Dizem que se cansou, dizem que foi propositado, dizem que nos quis dar a oportunidade de nos completarmos, sublimando-nos.
Descansou ao sétimo dia e deprimiu. Desapareceu para parte incerta.
E só deu essa oportunidade aos homens.

Nós somos ”Os descuidados de Deus”.

*Título do projecto criativo do Pintor Paulo Robalo (em execução)

domingo, 20 de agosto de 2017

A BAILARINA







A mulher mais bela,
de uma beleza que remete o resto da criação ao tédio,
dança sevilhanas em El Rocio.

Há trinta anos.

Na sua altivez andaluza, executa rituais ancestrais,
num dançar que faz tremer os alicerces do mundo.
Os tacões deixam vincos na terra.

Rosto lindíssimo e tão sério,
ângulos num corpo que se não fosse o corpo mais sensual,
seria de uma grande violência.

Depois de uma visão assim, inapropriada,
consome-se a ingenuidade, no tempo do tempo da dança.

A partir daí, o vazio.

Esfuma-se a andaluza no nada, fica a utopia de uma andaluza,
e o quotidiano toma conta das ocorrências da vida,
Leva a procissão inteira ao colo até ao dia do seu óbito
mas ela queria ir por seu próprio pé.

Memórias de uma fotografia que se encontra por acaso,
na trasladação de memórias do passado.


domingo, 13 de agosto de 2017

MARIONETAS NO VERÃO





Fios, presos por finos fios. Marionetas. Numa aldeia perto de si.
Não fosse haver um manipulador de marionetas, eram inoperantes, disfuncionais, tíbios, a pedirem para nem se lembrarem das suas actuações, que só actuam por obrigação.
O mestre, sim, um exímio manipulador de fantoches, ventríloquo e tudo.
Mas não era isso que o povo pedia nos terreiros forrados a cinzas. O povo queria ver um espectáculo vivo, bom. Depois de uma vida a assistir a teatros de marionetas, o povo pedia actores de carne e osso.
O povo sonhava – imprudência não desculpável - que um dia o teatro seria real.
Não aconteceu, ainda não foram as festas deste ano. Não há verba suficiente para o povo ter um espectáculo verdadeiro, só para pagar a actuação dos artistas pimba, os que estão sempre disponíveis.
Este junho nunca mais acaba e eles já nem vão às festas, estão na praia, com os olhos cheios de água*, os mestres das marionetas.
Quem são os fantoches afinal?


*obrigado Mónica!


LER




Não preenchendo os vazios,

porque não sabendo como dizê- lo, 


lemos,


Para distrair a tristeza.






sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A LUZ DO VERÅO






Luz parda,
Densa,
Partículas flutuam no ar.
Desfocam - não totalmente - 
Os contornos precisos,sérios
De objectos e seres.

Parece um sonho,
Uma meta-realidade.
O que são os sonhos.

Os dias que se assumem assim,
Que provocam arrebatamentos de bem-estar
São os melhores dias do verão.

Opacos, amarelados, quentes, fora do tempo,

De nós,

Somos nós.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

MAR PÚRPURA






Também é azul.

Todos sabem que o mar é bonito,
excepto a quem o mar rouba uma vida,
que também o sabe bonito mas já não o diz mais.

Nas condições exíguas que me vejo na relação com as cores,
sem ter nada a justificar, digo que é púrpura.

Não há notícia de que alguma vez o tenha sido.

Como é das cores, uma das que tenho em maior estima,
dizendo que o vejo púrpura,
exponho os meus sentimentos mais genuínos,
elogiando-o com o que melhor tenho:
a cor púrpura.

Aceitem-me que o mar seja púrpura.

A minha pequena filha pequena,
não percebendo nada de cores na perspectiva de indivíduos
embirrentos que não saem da sua
- ela ainda não é isso, só é pequena -
como tem um bom gosto indiscutível,
acha convictamente que é cor-de-rosa.

Pode bem ser.

Já dei por mim a considerar o mar como sendo abusivamente rosa.
Acima de tudo porque a amo perdidamente,
e não a quero contrariar.
Depois porque rosa é uma cor que combina bem com o mar.

Agora que penso aturadamente,
foram feitos gémeos,

eu é que nunca tinha pensado nisso.


domingo, 6 de agosto de 2017

AGARRAR O FUTURO





Ainda hesitante.
Por aqui, por ali, todos os lados, nenhum.
As vezes, um arrepio,
Medo.
Dura pouco.
Nenhum, todos.

Na insegurança das escolhas,
Não o confessando,
Está um desafio irrecusável:
O desconhecido.

Assim se faz,
Na decisão indecisa,
Disfarçando ter tudo controlado.

Avançando, sem olhar para o rasto.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A JUSTA MEDIDA





Na medida exacta, da medida justa, que só paira nas mentes ingénuas, a ajuda solidária de alguns portugueses (portugueses ingénuos) às vitimas dos incêndios de Pedrogão, chegará ao destino um destes dias.
Um dia destes.
Um dia.
Chegará.
Nenhum dia.
Podia ter chegado, quase lá.
Não chegou.
Já me esqueci desse evento.
A ajuda honestamente desembolsada, nossa, chegará após trinta requerimentos, simples de preencher, a atestar que o joaquim ficou sem galinhas, a Maria sem couves, o José sem alfaias, a Joaquina sem marido, o José sem mulher, os nossos filhos sem os nossos filhos.
Os serviços, desconfiam do correcto preenchimentos dos formulários: as pessoas estão a aproveitar-se da situação (como alguns do rendimento de inserção de não se sabe o quê).
Os políticos altamente qualificados que ocupam temporariamente os gabinetes com melhor vista das secretarias e sub-secretarias, das direcções e sub-direcções, informam os seus dirigentes para aguentarem a situação.
Não é tempo ainda para ajudar. É tempo para apurar, esmiuçar, apurar mais ainda, e depois, quando já tiver passado todo o tempo, já não é tempo para nada.
Ufa, ainda bem!
Livrámo-nos desta.
Vamos lá todos outra vez brincar ás eleições.