sábado, 2 de setembro de 2017

ONTEM - FOLHETIM 8







…Ela inclinou-se propositadamente para o beijar na cara fazendo antever o que seria uma escalada gloriosa das suas mãos àqueles montes divinos, para pagar uma qualquer promessa, uma purificação.
A ver no que vai dar.

Deu em nada, a Teresa beijou-o de raspão e foi brincar com a sua irmã e as amigas, fechadas no quarto em sussurinhos irritantes de jovenzinhas. Algumas quase tinham bigode como as criadas, só a Teresa era bonita. Era esse agora o seu pensamento, a sua vingança mental contra todas as raparigas, conhecidas e desconhecidas e até estrangeiras: apor-lhes pilosidades intensas no buço. Uma desculpa a si mesmo pelo facto de a Teresa não lhe ter proporcionado a realização dos sonhos em folhetins diários, dos últimos dias, em que se imaginava a afagar as linhas onduladas de um corpo jovem belo, grego, tendo  arrepios internos e externos de intensidade nunca sentida, a primeira vez, parece que o universo inteiro vai explodir em fogo-de-artifício.
 Apesar da frustração, de nada do esperado ter acontecido, o ídolo no seu pedestal, a sua Teresa, continuaria intocável, tanto na perspectiva de uma abordagem literal como na metafórica.
O que prenunciava uma grande desilusão não foi bem assim. O não acontecimento do não realizado, fertilizou ainda mais a efabulação. Não tendo sido, foi melhor do que isso. Fez da cabeça dos miúdos um giroscópio imparável, espevitou dias de sonhos atribulados, mexidos, contemplações no vazio, estados transitórios mas frequentes de alteração anatómica de órgãos externos. Conversas e mais conversas. Olhares de esguelha no pátio. O rastilho da imaginação, uma vez acesso, queima o pavio à velocidade da luz, ou mais.
E a Teresa a dar a entender que percebia a excitação mal contida dos rapazes, ou eles a acharem, mal, que ela entendia o que se estava a passar, nada.
Aquela rapariga é fogo! Vai ser uma pirómana do amor, se entender por amor, os arrebatamentos físicos, que os vai causar até que lhe advenha a velhice e os bicos de papagaio (será a última geração a tê-los com esse nome) e as gorduras em locais impróprios. (esse nome mantém-se). Até lá ateará muitos incêndios com altas temperaturas.
Mas nestas idades tudo o que vem depressa, depressa se esquece.
Os pensamentos sopra-os a brisa de ventos leves para longe. Perdem-se de vista, e logo esquecem, são voláteis, e retorna novamente soprado na direcção de cá, isto para se voltar ao assunto do bigode nas mulheres.
Pode-se jurar a pés juntos e sem castigos suplementares no inferno, pelo pecado da mentira, que naquele tempo de crianças havia muitas senhoras com pilosidade desenvolvida no lábio superior. E agora não há. Porquê? Por causa da terapêutica hormonal de substituição, mas isso não se sabia. Quando eram as jovens que já de novas vinham com esse cenário montado, não sendo da menopausa claro está, seria de outra coisa qualquer que não se sabe, não importa agora saber, era assim e hoje em dia não.
A tarde deste diário vai avançada, o pátio começa a receber as primeiras manchas de sombra. A escola terminou, as meninas foram para suas casas fazerem os deveres das suas casas, a Elvirinha debruça-se mais uma vez à janela, suspirando para dentro e pensando volatilmente. Podia ter sido bonita mas descuidou-se. Abandonou o corpo à sua sorte. Terá havido um motivo, nunca se saberá, ninguém se descuida se se cuidar para alguém.
Hoje vai ser uma grande noite, a noite mais esperada, um sonho tantas vezes sonhado, planeado, discutido ao mais ínfimo dos pormenores, e vai acontecer: os rapazes vão acampar no pátio. Mas isso já se verá, por agora é ainda tempo de o dia se ir esgotando aos poucos de cada vez.
Porque não o toca e foge? Para ser diferente? Sempre as mesmas brincadeiras! Andem lá, hoje é o toca e foge. As crianças correm e fogem. Vem o “Mata” atrás delas, raio do mata, sempre a fugir dele e mesmo a brincar há um mata metido na história.
Tocou, fica criança-estátua, imóvel. O “Salva” para a libertar tem que passar por baixo das pernas do “morto”. Volta a gritaria, aguda, a subir pelas paredes do prédio, a fazer vibrar as janelas, ninguém os manda agora calar, as mulheres dentro de casa entram numa fase de concentração, aproxima-se o fim do dia, os maridos vão chegar cansados, famintos. Elas vão ser medalhadas por mais um dia, merecem em silêncio, ditam os costumes, a aprovação e o reconhecimento. Boas esposas, boas mães. Poupadas.
Depois do jantar os homens vão ao café, as raparigas que estão a servir levantam as mesas, as senhoras, silenciosas, sentam-se de perna cruzada, púdica, nos maples nem por isso confortáveis da sala de estar, e veem televisão, sem cor, um serão em anemia – a sua vida é isto. Hoje é Teatro.
No café que ainda se chama pastelaria Além-mar, alguns – afortunados ou a fingirem – acompanham a bica com whisky. Falam de banalidades para ocupar o tempo e ajudar a digestão. De política entredentes. Não se sabe quem está na mesa do lado, nem sequer à sua frente. Um conhecido desse ambiente, mesmo um vizinho, pode ser um delatores, muitos são, quase todo um país, e não se chamam delatores, são bufos: expelem das suas bocas ares contaminados, putrefactos.
Os homens em geral fumam sem peso na consciência. Ainda sem imagens de horror impressas nos maços de cigarros das marcas que são todas portuguesas: Definitivos, Porto, Ritz, Negritos, SG, Português Suave.
Quando voltam a casa algumas esposas já dormem, algumas vão ser acordadas.
Ficaram as crianças no toque e foge – avançou-se demasiado - e fartas disso, dispersam-se. Uns na bola, outros na bicicleta (havia duas para uma data deles. Era à vez.), umas no elástico, aos saltinhos, uma, depois duas, e três e mais, sincronizadas, que jogo lindo, cantavam e batiam palmas. Os rapazes a estragarem a brincadeira, a meterem-se, são insensíveis os rapazes. Não são insensíveis, é outra versão biológica de reagir ao mundo.
Ficarão bons amigos, alguns até ao final dos caminhos, juntos, a cuidarem-se de se verem.
Mas este dia de hoje que está quase a terminar, é um grande dia. Vão acampar no pátio. Só os rapazes, e os mais velhos.
Vai ser a sua primeira noite fora de casa, com tudo o que isso representa: uma espécie de maioridade, uma independência. Pela primeira vez, em estreia absoluta, vão ter a sensação de senhores do destino.
Depois do jantar, três foram superiormente autorizados a dormirem no pátio.

Que aventura!


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