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Mensagens

SUSPIROS

Este país tem mais leis do que as necessárias, que são propositadamente entendidas e usadas como arbitrariedades pelos amigos dos amigos que têm os poderes na mão. É um país cuja riqueza da língua – normalizada ridiculamente nalguns casos – aceita toda e mais alguma interpretação dessas leis, como convêm, não como devia convir ao colectivo. O labirinto é tão denso, sombroso, que qualquer cidadão incauto porque desconhece a lei a que é obrigado conhecer, e sem imunidade sonante a apoiar-lhe o traseiro, asfixia em poucos minutos nos códigos e regimentos e processos e adendas e o que seja. São os artigos que revogam outros, não interessa; os decretos que subsituem outros que entretanto se mantêm transitoriamente valendo ambos, e vão ficando ambos, até o sempre; são as alíneas que corrigem os pontos, que acrescentam e  subtraem os pontos e vírgulas…. Tudo é possível, acontece, é justificado com a maior das seriedades em conferências de imprensa, nos almoços e jantare

JUNHO ENQUANTO HOUVER

Entra junho, das cerejas, das festas dos santos e dos pagãos, das celebrações populares. Entra o tempo das desinquietações, a puxar à rua, a espanar o pó das cabeças, na vontade de festejar o descanso das noites prolongadas e encarvoadas que se arrastaram pelos meses invernosos que agora acabam. Entra a festa ca sa dentro, portas fora. Antes saltavam-se fogueiras, agora baila-se com rapazes e raparigas de outras latitudes, é tudo igual. Alimentam-se sonhos nos namoricos dos bailaricos de rua, arriscam-se malandrices – que vale o atrevimento - elas estão mais verdejantes, eles mais espigados, ambos entusiasmados. A natureza inteira renova votos, escolhe um vestido de noiva vistoso, eternamente sem mácula, escolhe o branco. Os noivos, uns a custo, outros animadíssimos com a oportunidade de dizerem sim num altar de talhas douradas com padres com rigor, paramentados. Segue-se um percurso de glória e fama efémeras em carros antigos de colecionador, pelas ruas antigas

A MÁQUINA DE TECLAR PENSAMENTOS

O colectivo vai a banhos, de fresquinho, a representar o Portugal nas terras dos comerciantes, a longínqua Holanda.

ONTEM - FOLHETIM 1

As crianças passam os dias na rua esticando o limite em que o chamamento saloio das criadas para o jantar, se desenvencilha do bruá dos putos no pátio e é ouvido, com desalento e ombros descaídos por se encerrar a jornada das brincadeiras. A rua é uma enorme casa sem telhado nem paredes, é um lar porque é íntimo e seguro, os miúdos conhecem-lhe os cantos e as esquinas, sentem-se bem. A casa propriamente dita aprisiona, com pais e avós e tias solteironas, encalhadas, todos entram, saem, andam o dia de cenhos franzidos, atarefados de quê? As criadas vieram da terra - os miúdos não entendem o que é isso de vir da terra - são os únicos adultos, ou quase, divertidos que não andam franzidos, sorriem tão genuinamente como as crianças e algumas passam o dia a cantar modas suas, umas alegres outras menos. Elas são também divertidas porque se deixam-se afagar, fingem que repelem com um não a dizer sim, que aceitam. Passa-se a palavra, disputa-se a criada de cada um, os primeiros pass

POESIA SEM PALAVRAS

Em dias como hoje, Não há nada para dizer. É a poesia sem palavras. E há quem diga da poesia, Que em dias como hoje Está a mais com palavras. Com um dia assim concordo, São redundantes, ambas. Só de sentir o calor na pele, pleno-me. E todo o meu reservatório de prazer, O intelectual e o do corpo Basta-se com o calor, sem poesia nem palavras, A súmula das duas.

GÉMEOS

Dois seres iguais, diferentes em pequenos acabamentos. Observadas com método científico, as diferenças, milhares, conseguem-se estabelecer. Faz-se um levantamento topográfico do que os desiguala. São tantas que se poderia dizer de tantas quantas as de outros dois seres que em nada se possa dizer que são iguais. No entanto, num primeiro olhar ou num olhar assíduo  num convívio amiudado, são sempre difíceis de distinguir, apesar de se poder dizer que alguma coisa de diferente têm, de tão parecidos que são. Qual o nome correcto a aplicar a cada um, sem engano, sem vacilar?  Neste ponto afloram equívocos, embaraçando quem pronuncia e quem recebe o nome trocado. Seria legitimo dizer que eles, de tão habituados ao engano, a afectação da troca do nome não afectaria nada. Mas não, é doloroso ser constantemente chamado pelo que não se é.  Um nome é uma identidade, errar na invocação é não reconhecer a impressão única de todos os que encheram de nomes próprios os assentos de n

DIPLOMACIA

A diplomacia é a disciplina prática da acção humana politicamente correcta, que mais danos colaterais causou em todas as recensões históricas da humanidade.